Viagens na Minha Terra (Completo)

Chapter 6

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Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou particular, em que frade não entrasse.

Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no capitulo V[3] d'esta obra.

Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.

CAPITULO XIV.

Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a historia vai ter.

Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia adeante.

Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:

--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'

Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle accrescentou:

--'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'

--'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia levantada da cadeira.

--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:

--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá? Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no Senhor?'

--'Ja os não tenho senão para elle, padre.'

--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa! Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'

--'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos por mim.'

--'Pois por quem?'

--'Oh padre!'

--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a derisão, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--são a nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e á profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra, para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o cilicio e mortificação.'

A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de sympathia e de aversão.

Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava o typo e o symbolo das vascillações do seculo.

--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e mulher.'

--'Pois aos fracos não é que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_. Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'

--'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições posso dispor, mas...'

--'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia, na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem. Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange. Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'

--'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está elle?'

--'Joanna, retire-se.'

Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para dentro de casa.

--'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira pergunta que com tanta ancia fizera--'e ésta, tambem d'ella me heide separar, tambem heide renunciar a ella?'

--'Esta é uma innocente, e emquanto o for'...

--'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'

--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O outro...'

--'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'

--'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...'

--'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...'

--'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'

--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha misericordia no ceo nem na terra!'

--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua relaxação.'

--'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os nossos inimigos?'

--'Os nossos sim, os d'Elle não.'

--'Tende compaixão de mim, Senhor!'

--'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode vencer.'

--'Quaes homens?'

--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'

--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos... todos?'

--'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua religião? Oh sancto Deus!'

--'Faz-me tremer, padre!'

--'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os corações. _Duvidar_ é o unico princípio, _inriquecer_ o unico objecto de toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'

--'E hãode vencer elles?'

--'Decerto.'

--'Ninguem mais diz isso.'

--'Digo-o eu.'

--'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'

--'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio eterno e universal. _Fe, esperança e charidade_. Sem crer, sem esperar...'

--'E sem amar!'

--'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...'

--'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'

--'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca, desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'

--'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...'

--'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou, e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto, e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'

--'Misericordia, meu Deus!'

Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.

--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, coração derrancado e perverso!'

--'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, sem amor!..'

A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e... suspendeu-se-lhe a vida.

Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:

--'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'

D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.

CAPITULO XV.

Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.

Quem era Frei Diniz?

Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que por isso mesmo o affrontára.

D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem é uma grande e sublime creatura por mais que digam philosophos.

Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocinio que se lhe punha de deante.

Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.

Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.

Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em Deus--que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos primitivos principios christãos.

Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o quê, não eram reis.

Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado--absurdo insustentavel e impossivel.

E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.

Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.

O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.

Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham senso-commum, eram abstracções d'eschola.

Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.

O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais certa.'

Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem. Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o Evangelho no coração.'

As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, condicção essencial de existencia para a sociedade civil--para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoista--última phase da civilização exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.

Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a edade de cinquenta annos.

Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do seu convento--cargo que acceitára por obediencia--e quasi que limitava as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia senão aquella velha e aquella criança?

Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?

No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este homem--homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?

E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema predilecto dos raros sermões que prégava: _Non in solo pane vivit homo_, Nem so de pão vive o homem.

Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, do mesmo modo...

Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava _castrar_ ainda por amor do ceo.

É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a viver.

Saibamos alguma coisa d'essa vida.

CAPITULO XVI.

Saibâmos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia aziago.

Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.

Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.

Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.

Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..

Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja não severo, e apenas deixou de o ser... ridículo--e ellas appareciam em taes logares, a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada na geral decadencia das ordens.

Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado e apupado do seculo dezenove.

Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das nobres perseguições do sangue e do fogo.

Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos morrendo...

Agora é soffrer so.

O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés vencido, convertido e penitente...

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja não sabe que tem martyres.

'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'

Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foi metter frade franciscano.

De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.

A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.

A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan de pae e de mãe.

O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, filha querida e predilecta da velha.

Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e tractavam-se como gente mean, mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.

Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião do seu convento.

Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.

E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:

--'Deus seja n'esta casa!'

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e conversaram nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e chorou toda a noite.