Viagens na Minha Terra (Completo)

Chapter 5

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Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so alimentar-se a vida do coração?

--Póde sim.

--Não póde, não.

--Estão divididos os suffragios: peço votação.

--Nominal?

--Não, não.

--Porquê?

--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e nomeadamente no mundo...

Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias extraordinarias. Não é assim?

Pois o mesmo farei eu.

E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:

Reconheço o queimar da chamma antiga, Agnosco veteris vestigia flammae;

pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha historia é ésta.

Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava. Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas; toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da _Madonna della Sedia_.

Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.

Tornemos á velhinha.

Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.

Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de Setubal.

O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous, tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.

Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira tornava a andar.

Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das saphyras, parecia desbotado e sem lume.

O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da casa:

--'Joanninha?'

Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro:

--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'

--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando podéres. É a meada que se me imbaraçou.'

A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.

CAPITULO XII.

De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz.

--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o tornou a intregar.

A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'

Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado, ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:

--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta! E Elle te abençoe tambem, filha!'

--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de merendar'.

--'Pois merendemos'.

Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho, chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.

As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma alteração.

Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza, o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.

Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada ou quasi nada.

Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo.

E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.

Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.

E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o vento... Alli dormiam as paixões.

Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para increspar a superficie espelhada do mar.

Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos d'aquella face tranquilla.

O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.

Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte fazer ás suas creaturas femeas.

Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.

Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes, a _toilete_--este é um defeito; bem sei.

Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar, até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita e completa abdicação de toda a vontade propria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: canudo inflexivel, mulher inflexivel.

Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas monstruosidades.

Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos á minha Joanninha.

Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita e do mais perfeito modêlo.

As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura da face.

Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.

São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.

Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera e lealmente pretos.

Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade eram absorvidas.

Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da perna admiravel.

Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as mãos o novêllo da sua meada:

--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'

--'Conversemos, avó.'

--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'

Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.

A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu beija-la, depois disse:

--'Bem vi, Joanninha!'

--'O quê, minha avó? que viu?'

--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'

--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó n'esse estado, eu n'esta edade, e...'

--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu sinto passos na estrada vê o que é.'

--'Não vejo ninguem.'

--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'

Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.

Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de Santarem.

CAPITULO XIII.

Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o barão, sua classificação e descripção linneana.--Historia do castello do Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões a gritar contos de reis.--Como se contam e como se pagam os taes contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.

Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os quero para nada, moral e socialmente fallando.

No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea--cortavam a monotonia do ridiculo e davam physionomia á população.

Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros, que sem ellas o painel não é ja o mesmo.

Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores, sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.

O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram.

É muito mais poetico o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.

O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.

Menos na graça...

Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação.

Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de Orleans e outros.

O barão (_onagros-baronius_ de Linn., _l'ânne-baron_ de Buf.) é uma variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e sordidamente revolucionaria de seu character.

O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente usurario.

Por isso é _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo.

Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres é especie differente, de que aqui se não tracta.

Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles..

Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós depois.

Com que havemos nós agora de matar o barão?

Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato, que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.

Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer.

São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia nem o servia.

Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito mais damninho bicho e mais roedor.

Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos frades--não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.

E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves.

E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é.

Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia, no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar, mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da sociedade--porque não ha de outra ca.

E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que n'outra parte se faz ou diz?

Onde estão as academias?

Que palavra poderosa retine nos pulpitos?

Onde está a fôrça da tribuna?

Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?

Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.

Dez contos de réis por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Três mil contos para a conversão de um amphigouri!

Cinco mil contos para as estradas dos areonautas!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!

Não tardam o contar por centenas de milhares.

Contar a elles não lhes custa nada.

A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel--a terra e a indústria.................................................................. ........................................................................... ...........................................................................

Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco de Santarem.

Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto, drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.

O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio;

A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz quatro;

A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade--cinco;

'Gil-Vicente' tem outro--isto é, verdadeiramente não tem senão meio frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio;

O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de Malta--seis frades e um quarto;

Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os seus tres, quatro, meia duzia de frades--são já dôze e quarto:

Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em que ha bem dous frades e um leigo:

E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto.

Com este Frei Diniz é um convento inteiro.