Viagens na Minha Terra (Completo)
Chapter 2
Fujamos depressa d'este monturo.--É monótona, arida e sem frescura de árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos, ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.
Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.
Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo portuguez.
Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo cumulla as tres distinctas funcções, de _hotel, de restaurant e de café_ da terra.
Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me a penna da mão.
CAPITULO III.
Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto, e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.
Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois primeiros capitulos d'esta interessante viagem.
Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das descripções a traços largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e entram com sangue no coração?
No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo, com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os _Mysterios de Paris_ nas mãos de todo o mundo?
Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu _mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo, aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha.
Eu coroarei de trevo a minha espada, De cenoiras, luzerna e betarrava, Para cantar Harmódios e Aristógilons, Que do tyranno jugo vos livraram Da sciencia velha, inutil carunchosa, Que elevava da terra, erguia, alçava O que no homem ha de Ser divino, E para os grandes feitos e virtudes Lhe despegava o espirito da carne...
Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.
Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario é a _mamona_ da injustiça e da reprovação. Logo...
There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy.
A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola.
E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios.
........................................................................... ........................................................................... ...........................................................................
Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow...
Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!
Pois é assim; e explica-se.--É a litteratura que é uma hypocrita: tem religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de jornal--como os que dão esmolas para pôr no _Diario_, que amparam orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.
E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.
Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.--Seja romantica.--Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um _Chourineur_ a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, coitadinha!--e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico, immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!
É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é que nada d'isso lá havia.
E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:
Rien n'est beau que le vrai.
Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma pancada, olhavam-lhe para os pés...--Cruzes maldicto! Os pés não podia elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum como quem é, e sempre foi o pae da mentira.
Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa casa?
Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.
Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz. Limonada? Não ha limões nem assucar.--Mandou-se um proprio á tenda no fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam, quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.
O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões, bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar.
Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.
CAPITULO IV.
De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte.
Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas qualidades.--Ainda sôbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella, a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria.
Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.
Aid ôs te kalle ka aretês polis, Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê.
Da belleza e virtude é a cidadella A innocencia primeiro--e depois ella.
Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que não largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison, apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense.
O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um _Spectator_, que é livro sem que se não póde estar, e veja _passim_.
Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer; lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:--'Ah, ah! vinha a ver se pegava!'--Não senhor, não é o meu genero esse.
Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:--'Addison foi secretario d'Estado, e então...'--Então o quê? Não concebem um secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante, cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos, aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleições, o outro era figura importante no _Freemasson's-hall_!
Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal.
A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do que no mundo se chama _falta de uso_--póde ser n'um homem quasi defeito inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas, disfarce de fealdade ás que o não são.
Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De alguma belleza sei eu cujos olhos _côr da noite_ ou de _saphyra_ (_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de _pérolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a allusão é surtida, ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude. Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento, inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica.
Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes, perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a natureza...
Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada risada...
Desvaneceu-se o prestigio.
Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe façam obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e porque preço!...
........................................................................... ...........................................................................
Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da Azambuja.
Ahi parámos, e acordei eu.
Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de... Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...
A minha opinião sincera e _conscienciosa_ é que o leitor deve saltar éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de capitulo.
CAPITULO V.
Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
Este é que é o pinhal da Azambuja?
Não póde ser.
Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta illusão...
Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel, pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os pôr!..
Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas,
Um pae,
Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
Um criado velho,
Um monstro, incarregado de fazer as maldades,
Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.
Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks; fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura original.
E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!
Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.
E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do pinhal da Azambuja...
Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra, levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos salteadores lusitanos?
Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?
Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer...
Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem _bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro, ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38, quanto mais a carta........................................................ ...........................................................................
O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não lembro bem--estatellado no chão.
Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli até Santarem.
Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e excentrico amigo, o marquez do F.
Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel. Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.
Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que tenho conhecido, aquelle fidalgo.
Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar, guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar historias do marquez do F.
Piquemos para o Cartaxo, que são horas.
CAPITULO VI.
Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este mundo e ao Cartaxo.