Viagens na Minha Terra (Completo)

Chapter 17

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--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'

--'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na presença de Deus.'

--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a susceptibilidade do frade.

--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em mim...

E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!

--'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? quem é que tanto sabe de mim e dos meus?.. Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.'

--'So! Não está aqui, que eu vejo?..'

--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui está á espera que dê a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'

--'Venho de Santarem...'

--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui não, vive senão o meu peccado, que Deus não perdoou ainda, nem espero...'

--'A nossa religião fez uma virtude da esperança.'

--'Fez.'

--'E n'isso se distingue das outras todas.'

--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'

--'Ha mais do que não houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba melhor.'

--'Póde ser: os juizos de Deus são incomprehensiveis.'

--'E infinita a sua misericordia.'

--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça tremenda.'

--'A misericordia é maior.'

--'Quem lhe insinou tudo isso?'

--'O evangelho, o coração, e minha mãe que m'os explicou ambos.'

--'Sente-se aqui... aopé de mim.'

Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me os olhos com uma expressão que nenhuma lingua póde dizer, nem nenhum pincel pintar.

Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha á garganta; percebi distinctamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei que todo se serenou depois.

Disse-me então com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:

--'Sabe a historia do valle?'

--'Sei tudo até á partida de Carlos para Evora.'

--'Aqui tem a carta que elle escreveu.'

Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.

--'Leia.'

Li.

Ésta era a carta de Carlos.

CAPITULO XLIV.

Carta de Carlos a Joanninha.

Evora-monte... de maio de 1834.

É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.

Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso fallar.

Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me ésta cabeça nos desvarios do coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que estou perdido.

Perdido para todos, e para ti tambem. Não me digas que não; tens generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade para o pensar, mas não pódes evitar de o sentir.

Eu estou perdido.

E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza é incorrigivel. Tenho energia de mais, tenho podêres de mais no coração. Estes excessos d'elle me mataram... e me matam!

Tu não comprehendes isto, Joanninha, não me intendes decerto; e é difficil.

Es mulher, e as mulheres não intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje sei-o perfeitamente. A mulher não póde nem deve comprehender o homem. Triste da que chega a sabê-lo!..

E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre, do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.

Tu es joven e inexperiente, a tua alma está cheia de illusões doces; vou dissipar-t'as em quanto se não condensam, que te offusquem a razão e te deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o coração.

Quero contar-te a minha historia: verás n'ella o que vale um homem.

Sabe que os não ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que será o resto!

Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.

Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle é... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!

Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...

Deus póde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe?

Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia é um martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo.

Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar--não posso perdoar eu.

E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.

Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem.

Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel historia--incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do homem.

Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade, ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor.

Eu não tinha amado.

Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, e a mulher que se ama.

A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma e do corpo geram a admiração.

Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.

O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes, é mais do que isto, não é nada d'isto.

Não sei o que é; mas sei que se póde admirar uma mulher sem a desejar, que se póde desejar sem a amar.

O amor não está definido, nem o póde ser nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas não são isso.

Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que póde dar distincção n'este mundo.

Extranhei aquelles habitos de alta civilização, que me agradavam comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha natureza de planta extrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo d'alma e de character eu não era aquillo por que me tomavam. Menti: o homem não faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.

Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a verdade da tua bôcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?

Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graças é uma vulgaridade cansada, e tam bannal que não dá idea de coisa alguma. Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes, por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia, os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte, fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus cabellos--os de uma eram loiros, os de outra castanhos, não ha nome para a indefinida côr dos da terceira--quando esses longos anneis descahiam de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo--e que a essa luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adoração e recolhimento devoto d'alma--sinceramente exclamava: 'São tres anjos celestes que é forçoso adorar!..'

E assim é que os adorava os tres anjos, todos tres, e não podia adorar um sem os outros.

Que me queriam ellas, é certo; que insensivelmente se habituaram á minha companhia e ja não podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um monstro para o não confessar com lagrymas de gratidão e de remorso.

Os mais difficeis e delicados apices da perfeição de sua tam caprichosa e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a desmaterializar--isso tudo, e um indefinivel sentimento do _gentil_, que so com natural tacto se adquire, é verdade, mas que se não alcansa com elle so--isso tudo o apprendi alli das suaves licções que insensivelmente recebia a cada instante.

Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma consideração no mundo, toda lh'a devo.

Ves que confesso a dívida, verás como a paguei.

O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que não ha nem póde haver n'outras linguas emquanto a civilização as não aparar. _To flirt_ é um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e não significa _namorar_--palavra grossa e absurda que eu detesto--não significa 'fazer a côrte'; é mais do que estar amavel, é menos do que galantear, não obriga a nada, não tem consequencias, começa-se, acaba-se, interrompe-se, addia-se, continúa-se ou descontinúa-se á vontade e sem compromettimento.

Eu _flartava_, nós _flartavamos_ ellas _flartavam_...

E não ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o _flartar_ com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas é prazer angelico, e com tres é divino.

Para quem nasceu n'aquillo, não é perigoso; para mim degenerou, breve, aquella placida sensação em mais profundo sentimento.

Veio a admiração primeiro.

E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!

E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me incantar.

Fizeram nascer os desejos!

Julguei-me perdido, e quiz fugir.

Não me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol, da vehemencia das minhas sensações...

Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas--queria muito ás outras duas; mas amar, amar devéras, d'alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a segunda--Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha nas mãos ao formá-la.

CAPITULO XLV.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado, grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado, vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:--cabeça pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos hombros.

A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, via-se que o era assim por natureza e sem a menor contrafeição d'arte. O pé não tinha as exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da Venus de Medicis.

Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam fascinante.

Fascinante é a palavra para ella.

O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beiços eram vermelhos como a rosa de côr mais viva.

A expressão de toda ésta figura é que se não descreve. A bôcca breve e fina surria pouco; mas quando surria, oh!..

Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, cingida com um cinto de vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais sublime que uma simples mulher.

Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabía amar. Era pouco, sei-o agora; entao parecia-me infinito.

Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos sós, e depois de andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu n'ella, ella não sei em quê.

Sería em mim?

Sería mas não m'o confessou.

E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e humida nas minhas que escaldavam.

Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite.

Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi.

No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.

O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes, pedia-me que fosse almoçar com ella... não fallava nas irmans.

Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação.

Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu exclusivo uso.

Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagères_ com livros e musicas, uma harpa e um cavallete.

Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...

A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a mais nada.

É preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como nós lhe chamavamos--nós, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia de querer mais...

Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordações de fraternal intimidade!

Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na figura, na expressão e no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva pessoa.

Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e _ancle_ mais delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero' como não ha outro.

Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que eu creio que tenha existido.

Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros exoticos que no curto verão inglez se expoem ao ar livre, facilmente se tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa visão de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'

Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis á roda da cabeça e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida contínua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de beijar, os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mão piquena estreita, e de cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de innocencia angelica.

E era um anjo... oh se era!

Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez em quando, mas não fallava. Emfim almoçámos, levaram o trem.

Ella disse á sua aia:

--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para ninguem.'

--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.

E ficámos sos completamente.

CAPITULO XLVI.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e disse-me:

--'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que me console. Falle-me.'

--'Que heide eu dizer?..'

--'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me d'este terror em que estou.'

--'Pois duvída, Julia?..'

--'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio: como havemos de duvidar?'

--'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e prometto...'

--'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o póde cumprir.'

--'Juro por... por ella.'

--'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria--não sei o que faria eu... Mas não se tratta de mim'--proseguiu com volubilidade febril--'não se tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'

--'Para a India!'

--'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da companhia, e parte em casando.'

Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por que passei.

Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um padecer como eu experimentei n'aquella hora?

Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca?

Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro infinito de um coração feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá não ficava senão uma tristeza profunda, desanimada e mortal...

Não sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito--ou sería pelo coração?--n'aquelle momento...

Se Julia?..

Mas não póde ser.

--'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide vê-la uma vez ao menos. Não me negue este último favor. Sei que devo, que preciso, que é forçoso fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'

--'O quê?..'

--'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...'

--'Ai Carlos!'

--'Que para sempre, sempre...'

Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sôbre mim um olhar de ineffavel compaixão, sahiu rapidamente do quarto.

Achei-me so, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da cabeça, exhausto do coração--n'uma depressão d'espirito que tocava na estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, não levantava o braço para a arredar... Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito.

N'este estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi que se abria a porta, não tive fôrça para levantar os olhos. Até que senti uma doce e querida mão na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto Deus! que estavam aopé de mim ambas.

Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada ao hombro da irman, deixava cahir sôbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixão tam celeste que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me trazer todo o perdão, toda a misericordia do ceo á minha alma.

Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me amas, a ti que eu amo--porque te amo, e Deus me castigue que deve! porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel coração que Elle me deu--como te heide eu dizer a ti, e para quê, as palavras que alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se deram, as promessas que alli foram trocadas?

Julia foi para a janella--indulgente chaperão que nos não via e fingia não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.

Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da amizade.

Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achámos á porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado á portinhola. Montámos, as tres irmans e eu.

Eram duas milhas d'alli á estalagem onde tocava a malla-posta e onde Laura devia incontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos quatro.

A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio britannico.

A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas do parque, os ramos descahidos das árvores por que roçavamos levemente ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver--os phaesães que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus cavallos, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicavel tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.

Não me sentia fôrça para blasphemar, para maldizer de Deus, senão tinha-o feito.

Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle como n'esta.

Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir á minha alma antes que se perdesse, sería por certo--pois n'esse mesmo instante distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que podia chamá-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha piquena, innocente, aquelle anginho de criança, tam viva, tam alegre, tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle me foram alcançar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como esmeraldas, atravessaram o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca mandavam-me ao longe as exhalações de seu perfume agreste, e matavam o suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam. As folhas crespas, sêccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetação do norte, promettendo-me paz ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja em que m'o dilaceravam as paixões.

E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham de m'a cortar e destruir para sempre...

Oh! de quê e como é feito o homem, para quê e porque vive elle? Que vim eu, que vimos nós todos fazer a este mundo?

Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu confundia n'uma adoração mysteriosa e mystica--cego, louco d'amores por uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o pensamento fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!--Revendo-me nos olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e civilização que me cercava,--era o nosso valle rustico e selvagem o que eu tinha no coração...

Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral devéras, ou não sei o que sou.

Se todos os homens serão assim?

Talvez, e que o não digam.