Viagens na Minha Terra (Completo)

Chapter 15

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N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção, que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle se via obrigado a mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita.

E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da conquista e navegação etc.

Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!

A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: é um verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha em toda a peninsula.

A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.

Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.'

Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos francezes.

Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse--ou profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, começou a reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do Rocio.

Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govêrno que tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.

Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu povo, mas fazendo-o rir.

Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem, mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo.

Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a pé sem mais embarcação, vela nem remo.

A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios, outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas.

No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas ribeiras de Santarem.

Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.

Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo.

Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova, para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu inclyto alfageme.

CAPITULO XXXVIII.

Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo melhor quando visto de longe.--O baile público.--Soirée de piano obrigado.--Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel das traducções. Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.--De como a logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias.

Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos os cavalheiros da terra.--Não quero dizer as notabilidades, por ser palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por apparecerem estremes de _sautés e salmis_ extrangeirados. Brilharam sôbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.

Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma descémos á Ribeira; era quasi sol pôsto quando la chegámos.

É o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella. Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram á sombra dos castellos feudaes e que, libertas, depois, da oppressora protecção, cresceram e ingrossaram em substancia e fôrça: o castello, esse está vazio e em ruinas.

Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios e independencia do character primitivo: é a unica parte viva de Santarem.

Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum vestigio, confrontar algum sítio onde podessemos collocar, pela mais atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o joven Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do rio--como diz a chronica--namorado d'aquella perfeição de trabalho, e dando a 'correger' a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem e salvador da sua patria.

Nada podémos descubrir com que a imaginação se illudisse siquer, que nos désse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para reconstruirmos a gothica morada do célebre cutileiro-propheta que a historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez reclama da historia.

Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e replastagens successivas teem anachronizado tudo. É uma feliz expressão do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo.

Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.

Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e cal: gósto immenso da sua gente.

Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha.

Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.

Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se não perder detodo a côr local talvez.

Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam esperar do futuro.

Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam má terra como isso.

Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe!

O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que, para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se não sabe d'onde vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a suspirar por elle.

A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias, tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.

Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor, ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!

A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de Scribe.

E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mão pela testa, tira do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio pae que lhe appareça--o centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e não ha remedio senão applaudir...

E applaude-se sempre.

E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...

Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se percebe.

Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem o _gallimathias_, porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oração _pro gallo Mathiae_ deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que sim foi procreada em francez, mas hoje precisâmos ca muito mais d'ella que em parte nenhuma.

Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica.

Grande coisa é a distancia!

E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade.

Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do seu funccionar...

Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro demais que temos passado a vida a mentir...

Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoherencias.

Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.

CAPITULO XXXIX.

Processo de scepticismo em que está o auctor.--Moralistas de _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a logica.--Differença do poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O collegio de Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos reis.--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?

O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas de _requiem_ de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar, nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.

Feita ésta declaração solemne, procedamos.

E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti, se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não despertes do bello-ideal da tua logica.

É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da poesia.

É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que est'outros não são.

Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que é melhor.

Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre Eolo aquelle vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes. Suspira no ar uma viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven natureza, sob a remoçada espessura das árvores, sôbre a alcatifa sempre renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo pulsar lento e compassado o coração livre e sôlto de todo impenho, o verdadeiro coração de Horacio,

Solutus omni foenore!

Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar á porta, a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio d'este quadro suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade bucolica, por mais que faça.

Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e lá concluiremos, como é de razão, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que é tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de Santarem.

Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, vasto, magnífico, propria habitação da companhia--rei que o mandou construir para educar os infantes seus filhos.

Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para isto tinham os Jesuitas em Portugal.

Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia formidavel e quasi régia que aquelles levantaram com a espada, tinham estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, influencia, uns e outros as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam do mesmo modo.

Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se converteram em associações secretas para conspirarem; ambas tomaram diversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais seguramente.

Ambas em vão!

O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla todas essas conspirações. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... É a alliada natural dos reis a democracia.

O edificio do Collegio é todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais bellos specimens d'esse stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia, não deixa comtudo de ser grandioso.

Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras da cathedra administrativa. É a séde do govêrno civil chamado: corrumper a moral do povo, sophismar o systema representativo é o thema das licções.

Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e não sei em que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve supprir a antiga e antiquada de--'ficou no tinteiro'--por muitas razões, até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso commum, tudo o mais de lá sai, tudo. E muitas graças a Deus quando não passa ás ballas do impressor para dar a volta do mundo.

Santarem é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um grande estabelecimento de instrucção e de educação pública. Porque não hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande eschola, seja qual for? Porque hade ser ésta centralização d'insino em Lisboa? Em que se funda um privilegio dado á capital em prejuizo e á custa das provincias?

Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar. Não sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabára de servir, não imaginam de quê... de palheiro!

A derradeira camada de palha que apodrecêra, adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal podémos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo da egreja como dizem, é de um miseravel e moderno anachronismo.

Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse resistir, quiz approveitá-lo em examinar a principal e mais interessante reliquia da profanada egreja--a capella e jazigo do grande bruxo e grande santo, San'Frei-Gil.

Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e é comeffeito. Não lhe falta senão o seu Goethe.

Vixere fortes ante Agamemnona multi.

Houve fortes homens antes de Agamemnão, e fortes bruxos antes e depois do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega á reputação e fama que alcansaram aquelles senhores. Nós precisâmos de quem nos cante as admiraveis luctas--ora comicas, ora tremendas--do nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' é pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece alli senão episodicamente; e é necessario que appareça como protagonista de uma grande acção, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a luz do quadro.

Então o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos, os reconditos mysterios da natureza que descobriu até penetrar no mundo invisivel--a sêde de oiro, de prazer e de podêr que o perseguia e o fez cahir nas garras do espirito maligno--o fastio e saciedade que o desincantaram depois--o seu arrependimento emfim, e a regeneração de sua alma pela penitencia, pela oração e pelo desprêzo da van sciencia humana--então essas variadas phases de uma existencia tam extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda não foram vistas, porque ainda não olhou para ellas ninguem com os olhos de grande moralista e de grande poeta que são precisos para as observar e intender.

Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor ás vezes, apezar do incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que tanto me interessavam.

Com todas éstas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis versos do Fausto a acudir-me á memoria, e com uma infinidade de associações que essas ideas me traziam, caminhei direito á capella do sancto, cheio de alvorôço, e como tocado, para assim dizer, de sua magica vara de condão.

A capella--oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil é um mesquinho rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira--velha sem ser antiga--um verdadeiro non-descriptum de mau gôsto e semsaboria. Quem tal dissera?

O tumulo do sancto está elevado do altar n'uma especie de mau throno. Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto.

É de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra; não tem lavor algum.--E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!..

Quem me roubou o meu sancto?

Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..

CAPITULO XL.

As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo aos liberaes?--O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O corpo de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões.

Èra de noite, reinava a confusão, a desordem, o susto e a anciedade nos muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo mosteiro das Claras, davam á portaria um signal surdo e mysterioso; respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e com as mais escrupulosas precauções se abria quietamente a porta da clausura.

Os tres homens entraram, a porta fechou-se sôbre elles do mesmo modo precatado.

Que será?

Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam.

Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos são para tudo.

Era no anno de 1834.

Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e desconsoladas agora que as ameaçam de dissolução como aos frades.

Não será assim: aquellas instituições não mettem medo aos verdadeiros liberaes, e os outros lá teem o espolio dos frades para devorar; estão entretidos: as freiras salvam-se porora.