Viagens na Minha Terra (Completo)
Chapter 14
--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em nome de Deus, filho, perdoa a teu...'
A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a compaixão, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração ás faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação involuntaria lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:
--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha avó, e quem cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?'
--'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim meu Deus! ás mãos d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...'
O frade cahiu de bruços no chão, e com as mãos postas e extendidas para o mancebo, clamava:
--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o pé sobre o pescoço; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua familia e que fez a sua desgraça e a de quantos o amaram. Sim, Carlos, sê tu o executor das íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da íra de Deus que me persegue.'
CAPITULO XXXV.
Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O coração da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça a pobre da avó.
Georgina disse para Carlos:
--'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdão que te pede.'
Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina ajoelhou aopé do frade, tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente o foi accalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se vai accalantando nos braços da mãe: agora so murmurava de vez em quando alguns soluços, a mais e a mais raros.
Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho. E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que é a última e a mais decisiva da seducções femininas--disse:
--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu Carlos_?'
Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, não o ouvíra elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: extendeu os braços para o frade, cahiu de joelhos aopé d'elle, e um so abraço uniu a todos tres.
Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma angústia.
Assim estiveram longamente; e não se ouvía entre elles senão algum gemido sôlto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve com o coração do que com os ouvidos.
O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:
--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa á memoria de tua desgraçada mãe!'
O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em pé, hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so ás minhas mãos deves morrer. E hasde.'
Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aopé, massa terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a descarnada caveira do frade! D'ambas as mãos a levava no ar; e o velho extendeu para elle a cabeça como na ancia de morrer... Georgina fechou involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia consummar-se...
Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro e de terror, d'aquelles que so sahem da bôcca do homem quando suspenso entre a morte e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezeseis annos, estava deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e extenuada figura da sua victima.
--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: 'é teu pae meu filho. Este homem é teu pae, Carlos.'
O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado e baço pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de braços. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pescôço que o excesso da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aopé d'elle. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo e das cabeças, tudo se fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.
Admiravel belleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não, por Deus! o monstro amava-as a ambas: está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de cuidados e de ancia para o salvarem.
De tanto não somos capazes nós.
E por isso admirâmos tanto.
E perdoâmos tanto.
E esquecêmos tanto.
Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade...
Amâmos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ não.
O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra, coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mão á amavel criança, estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:
--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; prometto.'
--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle é tam infeliz!'
--'Juras-me tu de o não deixar, de velar por elle sempre, de o defender de si mesmo que é o peior inimigo que tem?'
--'Se juro!'
--'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que não devia ouvir. Os segredos da tua familia não me pertencem. O coração d'esse homem não é meu, nem o quero. É um nobre e grande coração, Joanninha; mas... Não te deixes dominar por elle se o queres segurar. Adeus!--Santarem está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa. Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Elle não é tam criminoso, estou certa...'
--'Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e é falso. Minha avó ja me disse tudo.'
--'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: 'é falso? Pois não foi elle que matou meu pae?'
--'Não, filho, clamou a velha: 'não, meu filho; teu pae é este infeliz.'
--'E minha mãe?'
--'Tua mãe... e eu somos duas desgraçadas. Que mais queres saber? Tua mãe amou esse homem...'
--'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a avó e para o frade que cravaram os seus no chão, e ficaram como dous réos na presença do seu inflexivel juiz.
--'Mas esse homem que é... que por fôrça querem que seja meu... meu pae... Sancto Deus! elle matou o outro.'
--'Defendi-me, foi defendendo ésta vida miseravel... Oh nunca eu o fizera! E paraquê? Paraque quiz eu viver? Para isto!'
--'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?'
--'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite escura e cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a minha vida á custa da d'elles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lançar no rio, conheci as minhas victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos, ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado. Ninguem mais soube a verdade senão eu--e tua infeliz mãe a quem o disse para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou nos meus braços chorando por elle, e maldizendo-me a mim. Não sería bastante castigo, meu filho?--Não foi, não. Este burel que ha tantos annos me roça no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as vigilias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua íra não me deixa, a sua cholera vai até a sepultura sôbre mim... Se me perseguirá além d'ella!..'
Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu:
--'Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circumstancias d'aquella morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime. Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, até que lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por ésta derradeira expiação. Deus não o quiz. Aqui estou penitente a teus pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu tio... o algoz e a deshonra de tua familia toda.--Faze de mim como fôr tua vontade. Sou teu pae...'
--'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'
--'Misericordia, filho, e perdão para teu pae!'
Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pêso nos braços, foi sentá-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de joelhos, beijou-lhe a mão em silencio. Depois foi abraçar-se com a avó, que o apalpava soffregamente com as mãos trémulas, e murmurava baixo:
--'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'
Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no coração, que ou lhe quebrára o sentimento ou lh'o não deixava expressar. Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em vão... não tornou.
D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava com o exército constitucional.
CAPITULO XXXVI.
Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao coração de Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos--Porta de Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria _afforada_.--Threnos sôbre Santarem.
--Pois ja se acabou a historia de Joanninha?
--Não, de todo ainda não.
--Falta muito?
--Tambem não é muito.
--Seja o que for, acabemos, que está a gente impaciente por saber como se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza, Joanninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos se...
--Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem coração, que fazia a côrte--fazer a côrte ainda não é nada--que amava duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos romanticos: horror e maldicção!
--Horror seja, horror será... e horror é, sem dúvida. E maldicção que deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade é inganar, é mentir, é atraiçoar: e elle não o fez. Desgraça grande ter um coração assim; mas não me digam que é próva de o não ter. Eu digo que elle tinha coração de mais: o que é um defeito e grande, é um estado pathologico e anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente póde matar tambem o sentimento. Bem o creio: mas é molestia commum, e com que vai vivendo muita gente, até que um dia...
--Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, não póde funccionar mais, cessa a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte!
--Fallam physicamente?
--Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito de Carlos...
--Sentir muito?
--Não; ter sentido muito: que o coração, como orgam moral, não se dilata a esse ponto senão pelo demaziado excesso e violencia de sensações que o gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.
--Então qual foi?
--Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que chamam sceptico, que lhe morreu o coração para todo o affecto generoso, e que deu em homem politico ou em agiota.
--Póde ser.
--Mas qual das duas foi, deputado ou barão? queremos saber.
--Saberão.
--Queremos ja.
--E se fossem ambas?
--Oh horror, horror, maldicção, inferno! Ferros em braza, demonios pretos, vermelhos, azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sôbre esse monstro, esse...
--Esse quê? Pois em se acabando o coração á gente...
--Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o coração a ninguem!..
Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior á nossa espera.
Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.
No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, o barão de P.--barão de outro genero, e que não pertence á familia lineana que n'esta obra procurámos classificar para illustração do seculo--cavalheiro generoso, e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em tanto relêvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades improvisadas...
Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.
Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas d'aquella interessantissima terra em que se não póde dar um passo sem que a reflexão ou a imaginação incontre objecto para se entreter. Inclinando um pouco á direita, démos na celebrada porta de Atamarma.
Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio arabe n'esta terra.
Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!
A idea é digna da epocha.
Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda executar-se.
Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até chegar ao que hoje está: e ainda assim como está, é um monumento de respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.
Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e o espirito nacional perde muito em as acceitar.
Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do triumphador!
Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve ser rigorosa e verdadeira...
Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e são balizas da historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?
Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos livros de pedra em que estava.
Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem, tiram primeiro tudo do seu logar.
A camara de Santarem, não podendo demolir o arco, tomou um meio termo que appósto que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns annos, não sei paraquê nem porquê; o caso é que esteve.
O anno passado porêm (1842) começou a manifestar-se ésta reacção religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o seu tempo, inda bem! Veio, digo, ésta reacção nas ideas das gentes; e a capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, não sei tambem como nem porquê, foi _desafforada_, e restituida ao culto popular.
Subimos a ver a capella por dentro: é um rifacimento ridiculo e miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna alguma.
Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me quero reconciliar com Santarem: e ja começa a ser difficil.
Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, coitada?
Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no cadaver.
Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada de tôrres e de mosteiros, de palacios e de templos!
Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e verás como eras bella e grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.
Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te restam.
Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu sepulchro deshonrado.
Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos; que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados e grandes homens.
Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que não mandem os soldados jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as cannellas dos teus sanctos.
Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios... tudo, menos o intulho e a caliça, as immundices e os monturos que deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças.
Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é inimiga da religião do ceo nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e em seus proprios desvarios se suicida.
A religião do Christo é a mãe da Liberdade, a religião do Patriotismo a sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, intrega-a á irrisão e ao odio do povo...................................... ...........................................................................
Vamos ao Sancto-milagre.
CAPITULO XXXVII.
A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre, convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos folgasões; os melhores governos possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.
Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço.
Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não pertence aos barões assignalados
Que, sem passar além da Taprobana, No velho Portugal edificaram Novo reino que tanto sublimaram.
Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do Sancto-milagre.
Junctos descémos á egreja, que é perto.
A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação antiga, e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do cruzeiro.
Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito posteriores.
São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o escrupuloso que as salvou d'este último _melhoramento_ que houve no desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por certo.
Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com mais exacção se devêra dizer mosarabe.
Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarim que está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se conserva o grande paladio santareno.
Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.
Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e observar.
Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços.
Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior compuncção.
Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em conversação com o prior.