Viagens na Minha Terra (Completo)

Chapter 12

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Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaçova foi passando por successivos reparos e transformações, até que chegou a ésta miseria.

Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde o meio do seculo passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal modo o fio de todas as tradições da architectura nacional, que na Europa, no mundo todo talvez se não ache um paiz onde, a par de tam bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam ridiculas e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha um seculo se fazem em Portugal.

Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos é que este pessimo stylo, ésta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e escandaliza.

Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo renascença da Conceição-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geço com que estão mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa sé.

Não se póde cahir mais baixo em architectura do que nós cahimos quando, depois que o marquez de Pombal nos _traduziu_, em vulgar e arrastada prosa, os _rococós_ de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram florídos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando presumpções de classico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do passeio-público!

Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaçova tambem; entremos nos palacios de D. Affonso Henriques.

Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hãode ser. Por onde se entra?

Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos annos, no que parece muro de um quintal ou de um páteo.

É comeffeito aqui; apeemo'-nos.

Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.

Notavel combinação do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e adhesão ás fórmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais insignes d'aquella era de prodigios!

Entrámos na pequena horta em fórma de claustro que une a antiga casa dos reis com a sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: a parede oriental da egreja é o muro do quintal de um lado, mas as communicações foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou assim perpetuamente do templo.

Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras, aquella pequena cêrca, apezar dos muitos canteiros e alegretes de alvenaria com que está moirescamente intulhada, é amena e graciosa á vista.

Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa.

O palacio de Affonso Henriques está como a sua capella: nem o mais leve, nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli pela bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais nada...

E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as demolições, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!

Vamos a jantar.

Comêmos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura, fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo'-nos deitar.

Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei da cama, fui á janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.

No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, está o socegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto ás margens, d'onde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem. D'alêm do rio, com os pés no pinque nateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e as memorias romanescas do seu alfageme.

Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a imaginação tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes. Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se succedem umas ás outras.

Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!..

Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis versos da introducção do Fausto:

Resurgis outra vez, vagas figuras, Vacillantes imagens que á turbada Vista accudieis d'antes. E heide agora Retter-vos firme? Sinto eu ainda O coração propenso a illusões d'essas? E appertais tanto!... Pois embora! seja: Dominae, ja que em nevoa e vapor leve Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio Juvenilmente trépido agitar-se Co'a maga exhalação que vos circunda. Trazeis-me a imagem de ditosos dias, E d'ahi se ergue muita sombra amada: Como um velho cantar meio-esquecido, Véem os primeiros simplices amores E a amizade com elles. Reverdece A mágoa, lamentando o errado curso Dos labyrintos da perdida vida; E me está nomeando os que trahidos Em horas bellas por fallaz ventura Antes de mim na estrada se sumiram. .................................. ..................................

Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha infeliz traducção: fiel é ella, mas não tem outro merito. Quem póde traduzir taes versos, quem de uma lingua tam vasta e livre hade passá-los para os nossos appertados e severos dialectos romanos?[1]

CAPITULO XXIX.

Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?

Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio.

Infeliz do que chegou a esse estado!

Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.

Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver activamente, cansa-a e consomme-a.

Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista do Tejo e das suas margens deante dos olhos.

Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que d'outro modo não sei escrever.

Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..

Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade, ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.

So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão; porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.

Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal. Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não extendesse para apagar as memorias da creatura.

Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.

Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em Santarem.

As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem, ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.

Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.

Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de romanos e celtas.

Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances populares. Ha um de Sancta Iria.

Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria das legendas monasticas?

A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.[2]

Stando eu á janella co'a minha almofada, Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;

Passa um cavalleiro, pedia pousada; Meu pae lh'a negou: quanto me custava!

--'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada... Senhor pae, não digam tal da nossa casa,

Que a um cavalleiro que pede pousada Se fecha ésta porta á noite cerrada.'

Roguei e pedi--muito lhe pezava! Mas eu tanto fiz que porfim deixava.

Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava; Ao lar o levei, logo se assentava.

Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava; Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.

Poucas as pallavras, que mal me fallava, Mas eu bem sentia que elle me mirava.

Fui a erguer os olhos, mal os levantava, Os seus lindos olhos na terra os pregava.

Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava; A cama lhe fiz, n'ella se deitava.

Dei-lhe as boas noites, não me replicava: Tam má cortezia nunca a vi usada!

Lá por meia noite que me eu suffocava, Sinto que me levam co'a bôcca tapada...

Levam-me a cavallo, levam-me abraçada, Correndo, correndo sempre á desfilada.

Sem abrir os olhos, vi quem me roubava; Callei-me e chorei--elle não fallava.

D'alli muito longe que me perguntava Eu na minha terra como me chamava.

--'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga; Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]

Andando, andando, toda a noite andava; Lá por madrugada que me attentava...

Horas esquecidas commigo luctava; Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.

Tirou do alfange... alli me matava, Abriu uma cova onde me interrava.

No fim de sette annos passa o cavalleiro, Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.

--'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro, Se me perdoares, serei teu romeiro.'

--'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro, Que me degollaste que nem um cordeiro.'

Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.

Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações ecclesiasticas.

O caso é grave, fique para novo capitulo.

CAPITULO XXX.

Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular.

A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem, donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.

É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.

Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do namorado Britaldo.

Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia acabado.

Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella Iria.

Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer todos os signaes da mais apparente maternidade.

Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.

Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.

Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta resiste a tudo, forte na sua virtude.

Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.

Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.

Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio, que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua; e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.

Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á maravilha pelas mãos dos anjos.

Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta, mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram todos para a sua terra.

As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto sepulchro.

Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo; quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.

O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima d'ellas.

Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.

Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o anno até começarem as cheias.

Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.

A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples, conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é, dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.

E acabou a historia.

Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma desprezar.

É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente se mostram e se deixam conhecer.

A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até agora.

A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito syllabas sôbre si.

Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes, em toda a parte.

CAPITULO XXXI.

Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.

Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.

A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.

Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia. Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, não morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica escrupulo.

Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_ d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.

E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta designação de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?