Viagens na Minha Terra (Completo)
Chapter 10
--'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'
--'Deus lhe perdoe!'
--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'
--'Não, mas...'
--'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.'
--'Tenho razão!'
--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande peccado.'
--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'
--'Sei, sei tudo.'
--'Tu!'
--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para sempre... Minha ricca avó!--E porquê, meus Deus, porquê!'
--'Porquê?'
--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'
--'Bem triste!'
--'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em dizer que matam.'
--'Matam, matam!'
--'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos, sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.'
Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita ignorancia dos fataes segredos da familia.
--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo, Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?'
--'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.'
--'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?'
--'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.'
--'Não te vejo então ámanhan aqui?'
--'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe, Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias que se não levanta da cama.'
--'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar, Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?--A minha vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por todos os modos a perdia, e talvez...'
--'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens... elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma pessoa excellente, bom, bom devéras.'
--'É môço o teu commandante?'
--'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi isso, Carlos?'
--'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.'
--'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te pareces todo... é que nunca vi tal parecença...'
--'Com quem?'
--'Com Fr. Diniz.'
--'Eu com elle!'
--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma. Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos dizem que nos parecemos tanto.'
--'Querida innocente!'
E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.
CAPITULO XXV.
O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o coração da mulher que ama, sempre adivinha certo.
Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.
Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos.
Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram assim longos discursos.
Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo:
--'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz: quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa nada...'
--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó, nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei eu não tornar a ver. E se minha avó...'
--'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e quando hasde tu ir ve-la?'
--'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E sem isso--tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam--sem isso não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'
--'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?'
--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'
--'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...'
--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.'
--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?'
--'Ámanhan é sexta-feira...'
--'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'
--'Sim, querido anjo, sim.'
--'Promettes?'
--'Juro-t'o.'
--'Succeda o que succeder?'
--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é possivel.'
--'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça de?..'
Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a verdade e não ousou...
Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe.
Pois era discrição a d'elle?
Não... em verdade, era outra coisa.
Era um pensamento reservado?
Não.
Era tenção má, ingano premeditado, era?..
Não, tambem não.
O que era pois?
Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e obrigada, a necessaria falsidade do homem social.
Carlos mentiu e disse:
--'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'
Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e Carlos tinha mentido...
Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se pallida... d'ahi corou tambem.
--'Carlos, tu não es capaz de mentir...'
--'Joanninha!'
--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'
--'Sou... oh! sou. E amo-te...'
--'Como d'antes?'
--'Mais.'
--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem senão a ti.'
--'Joanna!'
--'Carlos!'
Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro, aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra _amo-te_, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse--e era decerto--como se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e habitual de sua vida.
O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes, Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento depois--oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua felicidade.
--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço... sabes tu se deves?..'
--'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e ella...'
--'E ella?..'
--'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me, beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de alegria que ha muitos annos tinha tido.'
Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições--os raios d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles; tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de suas estátuas.
--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.
--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.
--'Até depois de ámanhan, Joanna.'
--'Pois sim.'
--'Depois de ámanhan te direi...'
--'Não digas.'
--'Porquê?'
--'Porque é excusado: ja sei tudo.'
--'Sabes!'
--'Sei.'
--'O quê?'
--'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração adivinhou. Tu não me amas, Carlos.'
--'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...'
--'Não. Tu amas outra mulher.'
--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'
--'Sei tudo.'
--'Não sabes.'
--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes, que tu não deves abandonar, e que eu...'
--'Tu?'
--'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos, porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar por menos.'
--'Joanna, Joanninha!'
--'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me digas nada. Ámanhan...'
--'Ámanhan é sexta-feira.'
--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de tornar a ver-te. Adeus Carlos!'
--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'
--'Não; estou certa que não.'
--'Até ámanhan... até depois de ámanhan.'
--'Adeus!'
Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.
Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio, a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram outros... outros, tam outros e differentes do que foram!
Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem nenhum accidente, ao seu destino.
NOTAS
NOTAS
AO LIVRO PRIMEIRO.
*Nota A.*
Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes
pag. 1.
É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre, _Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo.
*Nota B.*
Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)
pag. 2.
É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos meses.
*Nota C.*
N'uma _regata_ de vapores
pag. 3.
_Regata_ chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em Inglaterra, onde é moda e popularissima.
*Nota D.*
Eu coroarei de trevo a minha espada
pag. 24.
Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas _Flores sem fructo_, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento.
*Nota E.*
Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o número de almas
pag. 25.
Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica, sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.
*Nota F.*
There are more things etc.
pag. 26.
A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é:
Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra Do que sonha a tua van philosophia.
*Nota G.*
Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_
pag. 28.
Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug. Sue, _Os Mysterios de París_.
*Nota H.*
Fossem lá á rainha Anna
pag. 34.
Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do célebre gabinete chamado de _All-wits_.
*Nota J.*
Quando chegou alli pelos Prazeres
pag. 56.
Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o presente destino. É notavel a coincidencia do nome.
*Nota K.*
O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e não queria saber de partidos
pag. 64.
É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo drama que tem o seu nome.
*Nota L.*
Do _Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas
pag. 89.
O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas nobres, e recolhimento de senhoras tambem.
*Nota M.*
Graciosa sculptura de Antonio Ferreira
pag. 106.
Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este, modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de Saxonia antiga.
*Nota N.*
Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego
pag. 115.
A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_, palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma passarolla com que os outros nunca sonharam.
INDICE.
Prologo dos editores. pag. v
Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os da calça larga levam a melhor. 1
Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha. Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13
Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho para o pinhal da Azambuja. 23
Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte. 31
Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito. 39
Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este mundo e ao Cartaxo. 47
Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59
Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte de Asseca. 71
Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79
Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91
Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joanninha, sua neta. 99
Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109