Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 9
Os officios mais necessarios entre elles são os de ferreiro, tanoeiro, carpinteiro, marcineiro, cordoeiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, oleiro, ladrilhador, e agricultor.
Para todos estes officios são aptos e inclinados pela natureza.
Para o de ferreiro ou de ferrador ja referimos um exemplo.
Quanto ao officio de tecelão seria a sua especialidade se aprendessem; tecem seos leitos muito bem, trabalham em lã tão perfeitamente como os francezes, embora não empreguem a lançadeira, e nem a agulha de ferro, e sim pequenos pausinhos.
Contarei ainda uma bonita historia.
Fui um dia visitar o grande _Thion_, principal dos Pedras-verdes, _Tabajares_; quando cheguei a sua casa, e porque lhe pedisse, uma de suas mulheres me levou para debaixo de uma bella arvore no fim da sua cabana, que a abrigava dos ardores do sol, onde estava armado um teiar de faser redes de algodão, em que elle trabalhava.
Gostei muito de vêr este grande Capitão, velho Coronel de sua nação, enobrecido por tantas cicatrises, entregando-se com praser á este officio, e não podendo conter-me, perguntei-lhe a razão d’isto, esperando aprender alguma coisa de novo n’este facto tão particular, que estava vendo.
Pelo meu interprete lhe perguntei a razão, porque se dava a esse mister.
Respondeo-me, «porque os rapases observam minhas acções e praticam o que eu faço; se eu ficasse deitado na rede e a fumar, elles não quereriam fazer outra coisa: quando me vêm ir para o campo com o machado no hombro e a fouce na mão, ou tecer rede, elles se se envergonham de nada fazer.»
Eu e os que comigo então se achavam, sentiram muito prazer ouvindo estas palavras, e desejaria vel-as praticadas por todos os christãos, porque então a ociosidade, mãe de todos os vicios, não estaria em França, como actualmente se vê.
O officio de carpinteiro não lhes é muito difficil, porque os vi fazendo suas casas, e as dos Francezes, assentando seo machado, e repetindo o golpe no mesmo lugar, quatro ou cinco vezes, com tanta firmeza, como faria qualquer carpinteiro bem habil.
A arte de marcineria lhes é facil, porque com suas fouces aplainam um pedaço de pau, tão liso e tão igual, como se tivesse passado o raspador por cima d’elle.
Com o auxilio de suas facas somente, fazem macaquinhos e outras figuras de madeira.
Não precisam de serra, e nem de outro qualquer instrumento para fazer seos arcos, remos e espada de guerra, pois basta-lhes uma simples machadinha.
Cavam, arranjam suas canôas, e dão-lhes a forma, que lhes apraz.
Brevemente tractarei de outros officios, nos quaes os vi trabalhar com tal industria a ponto de parecer-me que, com pouco tempo de ensino, chegaram á perfeição.
Alem d’isto fazem muito bem vestidos, cubertas de cama, sobre-céos, sanéfas e cortinados de cama, pennas de diversas cores, que por sua perfeição se pensa terem vindo de fóra.
Não fallarei da propensão natural, que elles tem para pintar, fazer diversas folhagens, e figuras, servindo-se apenas de uma pequena lasca de pau, ou ponteiro, ao passo que os nossos pintores necessitam de tantos pinceis, compassos, regoas, e lapis.
CAPITULO XIX
Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e virtudes.
Quando regressei das Indias para a França, pelas frequentes e constantes perguntas, feitas pelas pessoas, que me vinham visitar, reconheci quanto é difficil acreditarem os Francezes, que os selvagens sejam aptos para aprenderem sciencia e virtude, e não sei se alguns chegam a ponto de julgar estes povos antes do genero dos macacos, do que dos homens.
Em quanto a mim elles são homens, e provarei, e por tanto capazes de obterem sciencia e virtude.
Seneca na sua epistola 110 disse «_Omnibus natura dedit fundamenta semenque virtutum_.» A natura deo a todas as creaturas, sem excepção de uma só, as raizes e as sementes das virtudes, palavras mui notaveis: assim como as raizes e as sementes são lançadas na terra e por conseguinte enterradas em suas entranhas, assim tambem Deos lançou naturalmente no espirito do homem as raizes e as sementes da virtude: com taes alicerces pode o homem, ajudado por Deos, edificar um predio, e extrahir da semente uma bella arvore carregada de flores e de fructos, doutrina esta muito bem provada por S. João Chrisostomo, na Homilia 55, ao povo de Antiochia, e na Homilia 15 á respeito da Epistola 1ª á Thimotheo moralisando esta passagem do Genesis:—_Germinet terra, herbam virentem, e omne lignum pomiferum_, «produsa a terra herva verdejante ou arvore fructifera:» acrescentou ainda—_Dic ut producat ipse terra fructum proprium et exibit quicquid facere velis_, «dize e ordena á tua propria terra, que produza seo fructo natural, e verás ella produzir logo o que pedires.»
São Bernardo, no _Tractado da vida solitaria_, disse—_virtus vis est quædam ex natura_, «a virtude é uma certa força, que sahe da natureza.»
Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, começando pelas sciencias, para cujo ensino concorrem as tres faculdades da alma—vontade, intelligencia, e memoria: a vontade dá ao homem o desejo de aprender, e por ella vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a intelligencia dá vivacidade para comprehender, e a memoria guarda e conserva o que conheceo e aprendeo.
São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para satisfazer tal desejo, os caminhos e a distancia das terras, por maiores, que sejam, lhes parecem curtos, não sentem a fome, porque passam, e os trabalhos como que são descanço para elles: prestam-vos toda a sua attenção, escutam o que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado e em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, e se tiverdes paciencia, elles vos farão milhares de perguntas.
Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente por intermedio do meo interprete, eu lhes disse que apenas chegassem de França os Padres, elles mandariam edificar casas de pedra ou de madeira, onde seriam recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo o que sabem os _Caraibas_.
Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por aprenderem tão bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós e os nossos antepassados por não haverem Principaes n’esse tempo.
É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte facto.
Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam pouco mais ou menos a vinda das chuvas e as outras estações do anno.
Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, um Tapuyo de um Tupinambá, e assim por diante.
Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma coisa antes de emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, porem não se precipitam em fallar.
Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham tal juiso fazendo o que fazem?
Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar gris, ou qualquer outra coisa, que apreciamos, como sejam: ouro, prata e pedras preciosas.
Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria n’este ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em apreciar mais as coisas, que não servem para o sustento da vida do que aquellas, que nos proporcionam o viver commodamente.
Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca mais necessaria á vida do homem, do que um diamante de cem mil escudos, comparando um objecto com outro, e pondo de parte, a estima que se lhe dá?
Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima que fazem os Francezes das coisas existentes em sua terra, basta dizer, que elles sabem altear muito o preço das coisas, que julgam ser apreciadas pelos francezes.
Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita falta de madeira em França, e que experimentassemos muito frio para mandarmos navios de tão longe, a mercê de tantos perigos, carregarem de paus.[36]
Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir de cores.
Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em nosso paiz a troco de vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? Eu os satisfiz dizendo ser necessario misturar outras cores com as do seo paiz para tingir panos.
Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente brutaes, como as de comer seos inimigos, e praticar tudo que os offenda, como seja expol-os em lugares onde ha piolhos, vermes, espinhos, etc., eu vos responderei não provir isto de falta de juiso, porem sim de um erro hereditario, sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel o erro dos nossos francezes de se matarem em duello, e comtudo vemos os mais bellos espiritos, e os primeiros da nobreza concordarem com este erro, despresando a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação.
Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque lembram-se sempre do que viram e ouviram com todas as circumstancias do lugar, do tempo, das pessoas, quando o caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia ou descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do que estão contando.
O que mais me admirou foi vel-os narrar tudo quanto se ha passado desde tempos immemoriaes, somente por tradicção, porque tem por costume os velhos contar diante dos moços quem foram seos avós e antepassados, e o que se passou no tempo d’elles: fazem isto na _casa grande_, algumas vezes nas suas residencias particulares, acordando muito cedo, e convidando gente para ouvil-os, e o mesmo fazem quando se vesitam, porque abraçando-se com amisade, e chorando, contam um ao outro, palavra por palavra quem foram seos avós e ante-passados, e o que se passou no tempo em que viveram.
CAPITULO XX
Continuação do objecto antecedente.
Concordo que sejam estes povos inclinados pela naturesa á muitos vicios, porem é necessario lembrar-nos, que elles são captivos por infidelidade d’estes espiritos rebeldes a Lei de Deos, e instigadores da sua transgressão.
São João na sua Epistola 1.ª chama _iniquidade_ ou _desigualdade_ o desvio ou a digressão do direito, como muito bem explica o texto Grego[BC] ——————————, assim traduzido _Peccatum est exorbitatio á lege_.
Esta Lei é divina ou humana: aquella dada por escripto á Moysés, e depois por Jesus Christo aos christãos, e esta acha-se gravada no intimo d’alma.
Transgredindo-se estas duas Leis commettem-se dois peccados, um contra os mandamentos de Deos, e outro contra a lei natural: por elles serão accusados e condemnados os incredulos, cada um de per si, alem do peccado commum da infidelidade.
Entre todos os vicios a que estão sugeitos estes barbaros, sobresahe a vingança, que nunca perdoam, e a praticam logo que podem, embora as boas apparencias com que tratam seos inimigos reconciliados.
Não ha a menor duvida que retirando-se os francezes do Maranhão, todas as nações, antes inimigas, que ahi residem promiscuamente, por terem a nossa alliança, devorar-se-hão umas ás outras, embora, o que é para admirar, vivam agora muito bem sob o dominio dos francezes, e até contrahindo-se casamentos entre ellas.
Gostam tanto de vinho a ponto de ser considerada a embriaguez por elles, e até mesmo pelas mulheres, como uma grande honra.
São impudicos extraordinariamente, mais as raparigas do que qualquer outros inventores de noticias falsas, mentirosos, levianos e inconstantes, vicios mui communs a todos os incredulos, e por ultimo são extremamente preguiçosos a ponto de não quererem trabalhar, embora vivam na miseria, antes do que na opulencia por meio do trabalho.
Se elles quizessem, não era necessario muito cansaço para terem em poucas horas muita carne e peixe.
O que acabo de dizer, refere-se especialmente aos _Tupinambás_, porque as outras nações, como sejam os _Tabajares_, _Cabellos-compridos_, _Tremembés_, _Canibaes_, _Pacajares_, _Camarapins_, e _Pinarienses_, e outros trabalham muito para viver, ajuntar generos, ter boa casa, e todas as commodidades.
Vou dar-vos um exemplo bem notavel da preguiça dos nossos _Tupinambás_.
Obtendo alguns Francezes do Forte licença para irem passear ás aldeias, foram á do chefe _Vsaap_.
Na entrada da primeira choupana encontraram um grande fumeiro cheio de caça, e ao lado d’elle um indio, dono da casa, deitado n’uma rede de algodão, que gemia muito como se estivesse bastante doente.
Os nossos Francezes alegres e promptos á festejarem esta mesa tão bem preparada, lhe perguntaram com brandura e carinho _Dê omano Chetuasap_, «está doente meo compadre?» Sim, respondeo elle. Que tendes, replicaram os Francezes, quem vos fez mal? Minha mulher, disse elle. Foi para roça desde pela manhã, e eu ainda não comi. A farinha e a carne está tão perto de vós, porque não vos levantaes, para comer, disseram os francezes? Sou preguiçoso, não sei levantar-me. Quereis, tornaram os francezes, que vos levemos a farinha e a carne, e comeremos comvosco? Quero, respondeo elle logo.
Começaram todos a aliviar o fumeiro, pozeram tudo diante d’elle, e assentando-se em roda, como é de costume, excitaram-lhe o apetite pela boa vontade que mostravam, e o trabalho, que elles tiveram de tirar a comida de cima do fumeiro, em distancia de tres pés, foi o unico pagamento de tal companhia na mesa.
Apesar de suas perversas inclinações, elles tem outras muito boas, louvaveis e virtuosas.
Vivem pacificamente com os outros, dividem com elles o resultado de sua pescaria, caçada e lavoura, e não comem ás escondidas.
Um dia na aldeia de Januaran só tinham farinha para comer. Appareceu um rapaz trazendo uma perdiz morta ha pouco; sua mãe depennou-a ao fogo, cozinhou-a, deitou-a n’um pilão, reduzio-a á pó, e juntando-lhe folhas de mandioca, cujo gosto é similhante ao da chicoria selvagem, fez ferver tudo, e depois de bem picado ou cortado em pedacinhos, d’esta mistura fez pequenos bolos, do tamanho de uma balla, e mandou distribuil-os pela aldeia, um para cada choupana.
Vi ainda uma coisa mais admiravel, embora comesinha, e sem consequencia.
Appareceram em minha casa muitos selvagens esfaimados, vindos da pescaria, onde somente apanharam um carangueijo, que assaram sobre carvões, e pedindo-me farinha, o comeram todos, fazendo roda, cada um o seo pedacinho: eram doze ou treze.
Bem podeis imaginar o que tocaria a cada um, sendo o carangueijo do tamanho de um ovo de galinha.
É muito grande a liberalidade entre elles, e desconhecida a avaresa.
Si algum delles tiver desejos de possuir uma coisa, que pertença a outro, elle o diz francamente, e é preciso que o objecto seja muito estimado para não ser dado logo, embora o que a pedio fique na obrigação de dar ao outro tambem o que elle desejar.
Tornam-se mais liberaes para com os estrangeiros do que para com seos patricios.
Ficam reduzidos á pobresa comtanto que bem hospedem os estrangeiros, que vão visital-os, julgando-se bem recompensados com a fama de liberaes, espalhada pelos que não são de sua terra, e julgam chegar ella até aos paizes estrangeiros, onde serão tidos por grandes e ricos.
Com taes ideias muitas vezes vão fazer visitas a cem, duzentas e tresentas legoas afim de serem apreciados por suas liberalidades.
Nunca roubam uns aos outros; o que possuem está á vista, pendurado nas vigas e barrotes de suas casas.
É bem verdade, que dentro da Ilha actualmente, em Tapuytapera, e Cumã, elles tem cofres, que lhes deram os Francezes, onde guardam o que tem de melhor, e, ou excitados por isto, ou pelo exemplo dos Francezes, muitos d’elles ja aprenderam a arte de furtar.
Elles chamam furtar—_Mondá_, ao ladrão _Mondaron_, e este nome é entre elles grande injuria a ponto de mudarem de côr quando o pronunciam: chamar uma mulher ladra, é duas vezes prostituta, com o nome de _Menondere_ para differençar de prostituta simples—_Patakuere_, é aquelle primeiro epitheto o mais afrontoso, que se lhe pode dizer.
Tomareis uma boa vingança chamando-os ladrões, quando elles vos atirarem ao rosto um bem claro, e expressivo _Giriragoy_, que quer dizer _mentiste_, sem exceptuar pessoa alguma, e por isto bem podeis avaliar quanto este vicio é detestado por elles, pois não podem tolerar a injuria.
Guardam reciproca equidade, não se enganam nem se illudem: si um offende a outro, segue-se logo a pena de _Talião_: são mui tolerantes, respeitam-se reciprocamente, especialmente os velhos.
São muito soffredores em suas miserias e fome chegando até a comer terra,[37] ao que acostumam seos filhos, o que vi muitas vezes.
Vi muitos meninos tendo nas mãos uma bolla de terra, que ha em sua aldeia como _terra siggilada_, a qual apreciam e comem como fazem as crianças, em França com as maçans, as pêras, e outros fructos que se lhes dá.
Não se esmeram no preparo da comida, como nós, por que ou a cozinham ao fogo, ou a fazem ferver n’uma panella sem sal, ou assam-n’a no fumeiro.
CAPITULO XXI
Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada inviolavelmente pela mocidade.
O que mais me impressionou e admirou durante os dois annos, que estive entre os selvagens, foi a ordem e respeito observado inviolavelmente pelos moços para com os seos parentes mais velhos, ou entre elles, fazendo cada um o que permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no mais alto ou no menor grau.
Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa somente ter n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar o respeito, que os meninos devem a seos maiores, e fazer conter a estes no que é exigido pela diversidade das idades.
Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter mais força para fazer observar estas coisas, do que a Lei e a graça de Jesus-Christo sobre os Christãos, entre os quaes raras vezes se contem a mocidade nos seos deveres, apesar de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos, apparecendo sempre confusão e grande presumpção.
Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio.
Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, e cada grau tem no frontespicio de sua entrada, seu nome proprio, que ensina ao que pretende entrar em seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e isto por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos Egypcios.
O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino e legitimos e dão-lhe em sua lingua o nome de _Peitan_, isto é, «menino sahindo do ventre de sua mãe.»
Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente cheio de ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos os outros graus.
A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino sahindo do ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras sementes do natural commum d’estes selvagens, porque não é afagado, pensado, aquecido, bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma vasilha com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, com todos os seos membros em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por unico alimento o leite de sua mãe, e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em sua boquinha como costumam a fazer os passaros com a sua prole, isto é, passando de bocca para bocca.
É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, por conhecimento e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, nos braços de sua mãe, pensando estar mastigando sua comida, levando seo bracinho á bocca d’ella, recebendo no concavo de sua mãosinha este repasto natural, que leva á bocca e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a entender que não quer mais.
Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e nem lhe dando occasião de chorar.
Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de sua mãe.
Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a natureza lhes dá, porque não são gritadores, comtanto que vejam suas mães, e ficam no lugar onde os deixam.
Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas na areia ou na terra, onde ficam caladinhas, ainda que o ardor do sol lhes dê no rosto ou no corpo.
Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira idade tantos encommodos?
Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos a pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão cegos pelo amor que nos tem; o mesmo devem esperar nas outras idades, sendo mais reconhecidos os nossos deveres para com elles, custe o que custar-nos.
Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a andar sosinho, e apezar de haver alguma confusão da-se-lhe o mesmo nome.
Observei differença na maneira de criar os meninos, que não sabem andar, e os que se esforçam para o fazer, o que nos leva a formar outra classe, e dar-lhe nome proprio: chama-se _Kunumy-miry_, «rapazinho»[38] e abrange até 7 a 8 annos.
Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem acompanham seos Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar até que por si mesmo aborreçam o peito, habituando-se pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes e adultos.
Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas forças, reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas cabaças, nas quaes fazem alvo para o tiro das suas flechas adextrando assim bem cêdo seos braços.
Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem a seos paes e respeitam os mais velhos.
È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis descobrir a differença existente entre nós pela naturesa e pela graça: sem fazer comparação, acho-os mimosos, doceis e affaveis como os meninos francezes, não esquecendo antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo concedida pelo baptismo aos filhos dos Christãos.
Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os paes pesar profundo, e sempre se recordam d’elles, especialmente nas cerimonias de lagrimas e lamentações, recordações que fazem uns aos outros, lastimando esta perda e a morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de _Ykunumirmee-seon_ «o menino morto na infancia.»
Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas matas sosinhas, em pé ou agachadas, chorando amargamente, e quando lhes perguntava para que faziam isto, respondiam-me «Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos, _Ché Kunumirmee-seon_, ainda na infancia» e depois continuavam a chorar e muito.
È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte d’estes meninos, que ja haviam custado tantos trabalhos á seos paes, e que estavam na edade de dar-lhes alguma alegria.
Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia e puericia, e as da adolescencia e virilidade, entre os 8 a 15 annos, a que chamamos mocidade: appellidam-nos os selvagens simplesmente por _Kunumy_ sendo a infancia chamada _Kunumy-miry_, e a adolescencia _Kunumy-uaçu_.
Estes _Kunumys_, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, não ficam mais em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim acompanham seos paes, tomam parte no trabalho d’elles imitando o que vêem fazer: empregam-se em buscar comida para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes tres a tres peixes juntos, ou agarram em linha feita de _tucu_ ou em _pussars_, especie de rêde de pescar, que enchem de ostras e outros mariscos, e levam para casa. Não se lhes manda fazer isto, porem elles o fazem por instincto proprio, como dever de sua idade, e já feito tambem por seos antepassados.
Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, e proporcional a sua idade, os isenta de muitos vicios, aos quaes a naturesa corrompida costuma a prestar attenção, e a ter predilecção por elles.
Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios liberaes e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da má inclinação de cada um, reforçada pelo ocio mormente n’aquella idade.
A quarta classe é para os que os selvagens chamam _Kunumy-uaçú_, «mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, por nós chamada «adolescencia.»
Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço ao trabalho, acostumam se a remar, e por isso são escolhidos para tripularem as canôas quando vão á guerra.