Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 8
Depois de haver açoitado sua mulher, este bom marido lhe disse «eu não tinha desejos de castigar-te, fiz o que pude perante o Maioral dos Francezes para salvar-te, porem vae, enchuga tuas lagrimas, e tornar-te hei a tomar por mulher, e te levarei para casa quando acabar de castigar este escravo.»
Sabe Deos, se o pesar que elle teve pelos açoites, que deo a mulher, melhorou a sorte do pobre escravo, porque pondo-o na praça ou no largo, fez um circulo do tamanho do seo chicote, separado todos, um por um.
Tinha o escravo ferros nos pés, estava em pé, nu como a palma da mão, e assim soffreu o castigo, sem dizer uma palavra e sem mecher-se: por tres vezes cansado e sem poder respirar descançou, depois de fortalecido recommeçou e de tal maneira, que não poupou uma só parte do corpo.
Começou pelos pés, seguio pelas pernas, coxas, partes naturaes, rins, ventre, espaduas, peito, e acabou pelo rosto e testa.
Esteve muito tempo doente por este castigo, sempre com ferros nos pés, conforme pedio o Principal, porem passado algum tempo consentio que lhos tirassem, á pedido do senhor de Pezieux, que desejava satisfazer os desejos dos seos Principaes para melhor obrigal-os a serem fieis aos Francezes.
Acabado isto, tomou conta da mulher, que já não chorava, e sim principiava a rir-se, e assim voltaram para casa como se nada tivesse acontecido.
CAPITULO XVI
Outras leis para os escravos.
Consistem as outras leis, em não poderem os escravos, de ambos os sexos, casarem-se senão á vontade dos seos senhores, porque tanto uns como outros moram juntos e seos descendentes pertencem ao mesmo domno.
Os selvagens _Tupinambás_ tomam ordinariamente para mulher as raparigas captivas, e dão suas proprias filhas ou irmans aos mancebos escravos afim de cuidarem no arranjo da casa e da cozinha.
Praticam o contrario os francezes, porque compram homens e mulheres escravas para casal-os, ficando a mulher com o dever de cuidar no arranjo da casa, e o marido com o de ir pescar e caçar.
Se acontece um francez comprar alguma rapariga escrava, mostra-a a algum joven _Tupinambá_, que morre de amores pelas que são bellas, depois promette-lhe que será seo genro pois ama sua escrava como si fosse sua propria filha para assim vir o _Tupinambá_ morar com elle, casar com a rapariga, e por esta forma ter por uma escrava dois escravos, a quem trata por filha e genro, e elles o chamam seo _Cheru_, isto é, seo Pae.
As raparigas escravas, que não se casão, dispoem de si como querem, si por ventura seos senhores não lhe prohibem relações com certos e determinados individuos, porque então em caso contrario soffrem muito; mas quando seos senhores lhe impoem completa abstinencia, ellas lhe dizem bem claramente, que então as tomem por mulheres visto não querer, que alguem as ame.
Devem os escravos trazer fielmente o resultado da sua pescaria e caçada, e depôl-o aos pés do seo senhor ou senhora, para elles escolherem e depois lhes darem o resto.
Não podem trabalhar para outrem sem consentimento do seo senhor, e nem dar seo rebanho, que lhes deo o senhor, sem lhe dizerem antes uma palavra, pois de outra forma pode ser tomado como coisa, que não pertence legitimamente aos escravos.
Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de _pindoba_, ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas.
Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos, e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.»
Vou dar-lhes um exemplo:
Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado _Ybuira Pointan_,[33] quer dizer, _Pau brasil_, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».
Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado pelas velhas.
Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os rodados.
Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra, arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças, senão raras vezes e occultamente.
Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir voluntariamente entre os _Tupinambás_, sem desejar fugir, considerando seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem.
Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.
Vem a proposito o contar que um dia perguntei a um dos escravos, que tinha em meu poder, si não estava satisfeito vivendo commigo, não só porque lhe ensinei a temer a Deos, como tambem pela certesa, que tinha, de não ser comido, e que, quando christão, seria livre, morando com os padres como si fosse filho d’elles.
Pelo interprete respondeo-me julgar-se feliz por haver cahido nas mãos dos Padres, tanto por conhecer á Deos como por viver com elles, e si fosse para o poder de outro chefe, não estaria socegado e nem descançado de não ser comido, porque, acrescentava elle, quando se morre, nada mais se sente, quer elles comam ou não, e o mesmo para o morto: amofinar-me-ia de morrer na minha cama, e não á maneira dos grandes no meio das danças e dos _Cauins_, afim de vingar-me antes de morrer, dos que iriam comer-me.
Quando penso, que sou filho de um dos grandes do meo paiz, que meo pae é homem moderado, que todos o cercavam para escutal-o quando elle ia á _casa grande_,[34] vendo-me agora escravo, sem pintura no corpo, sem cocar, sem enfeites nos braços, e nem nos pulsos, como acontece aos filhos dos grandes das nossas terras, antes queria ser morto especialmente quando me lembro, que fui agarrado ainda menino, com minha mãe, lá na minha terra, e trazido para _Comã_, onde vi matar e comer minha mãe, com quem desejei morrer, porque ella me amava muito, e por isso não posso senão lamentar minha vida.
Proferindo estas palavras, chorou muito, a ponto de pungir-me o coração, visto saber por experiencia quanto são amorosos estes selvagens, para com seos paes, e estes para com elles.
Accrescentou, que depois de ter sido sua mãe morta e comida, seo senhor e sua senhora o adoptaram por filho, e elle os tratava por pae e mãe: quando fallava d’elles era com affeição inexplicavel, embora tivessem comido sua propria mãe, e ja fosse resolvido o comel-o tambem pouco tempo antes de chegarmos á Ilha.
Seo senhor e senhora tomavam o trabalho de vir vel-o em nossa casa, embora fosse necessario vencer a distancia de 50 legoas, desde sua aldeia até aqui.
Gozam ainda de muitos outros privilegios, porque lhes é permittido o namorar as raparigas livres, sem risco algum, olhar mesmo para as raparigas de seo senhor e senhora, si quizerem, e n’isto não ha muita recusa, comtudo ellas buscam os mattos e em certas cabanazinhas os esperam em hora marcada, para evitar pequeno remoque que costumam a fazer das moças de boa raça, quando se entregam a escravos, o que serve antes de riso do que de deshonra.
Vão livremente aos _Cauins_, e dansas publicas, enfeitando de mil maneiras o seo corpo quer com pinturas, quer com pennas, quando podem, pois estas são muito caras.
Vivem com os filhos de seos senhores, como si fossem irmãos, e em breve tempo gozam muita liberdade no seo captiveiro.
CAPITULO XVII
Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos por acaso e sem malicia.
Entre as perfeições naturaes que a experiencia me tem mostrado n’estes selvagens, nota-se uma justa misericordia, isto é, desejam a punição dos maus, quando por maldade praticam algum crime, e ao contrario são compadecidos e pedem misericordia para aquelles, que por acaso ou inadvertidamente incorrem n’alguma falta, e isto vou provar á vista do seguinte exemplo.
_Maioba_ é uma grande aldeia, distante tres leguas do Forte de São Luiz: o seo Principal é um bom homem, amado pelos francezes, e veio fazer a nossa casa.
Tinha dois filhos fortes e robustos, ambos casados, e duas filhas, uma casada e outra solteira, bonitas e engraçadas, muito amadas por seo Pae e Mãe, de tal forma que eram perdidos por ellas e o assumpto predilecto de suas conversações, e guardavam a solteira para um francez quando voltassem os navios, diziam elles, e que os francezes se resolvessem a casar com indias.
Fundava seos castellos e sua fortuna sobre um fragil barco, similhante a aquella boa mulher, que tendo em suas mãos o primeiro ovo de sua gallinha, sua imaginação ia levantando-a até um principado, que d’ahi ha pouco cahio no chão e inutilisou-se, e com elle foi-se toda a ventura esperada por ella.
Assim este homem não tendo outra consolação senão em sua filha, poucos dias depois, por uma noite tão triste, _Geropary_ torceo o collo d’esta plantinha, virando-lhe a bocca para as costas: coisa terrivel! estava negra como o diabo, os olhos esbugalhados e revirados, a bocca aberta, a lingua sahida para fóra, os labios superiores e inferiores revirados á deixar vêr os dentes e as gengivas, o que poderia pela tristesa e medo, que causava, matar a seos parentes.
Nunca pude saber qual foi a causa d’isto, e apenas me disseram que era infiel, e talvez vivesse deshonestamente, porem nunca deo escandalo.
Embora seo pae tivesse vendido sua filha mais velha á algum francez para d’ella abusar, depois a tirou da companhia do seo marido.
Dizem os que se acham em peccado mortal, que elles estão sob o dominio e posse do diabo, e o mesmo lhes aconteceria, si Deos quizesse.
Não foi só esta desgraça, porque uma arrasta outra comsigo, e a primeira é embaixadora da segunda.
Pouco tempo depois, este Principal fez uma festa de vinho publicamente, e para isto convidou não só os habitantes de sua aldeia, como tambem os da visinhança.
Quando todos dançavam e cantavam, quando o vinho fervia e muitos já se achavam embriagados, seos dois filhos, de que ja fallei, travaram-se de razões, e o autor da questão querendo agarrar seo irmão, por um acaso ferio-lhe no ventre com um punhado de flechas, que este trasia pelo que cahio logo banhado em sangue. Tiraram-se as flexas com muita dor, como bem se calcula, o soffrimento fez desapparecer o vinho, a festa ficou perturbada, as cantorias se mudaram em gritos e lamentos, o vinho em lagrimas, as dansas em espancamentos proprios e arrancamento de cabellos.
O infeliz pae, expectador de similhante tragedia, assentado n’uma rede d’algodão, teve um desmaio, e cahio para traz.
Voltando a si, disse aos que o rodeiavam, que de uma só vez perdeo seos dois filhos, não fallando na que tinha perdido antes, um ferido por sua culpa, e o outro que os francezes mandariam matar; todos se condoeram d’elle.
Resolveram todos os Principaes da Ilha a virem ao Forte de São Luiz interceder a favor do vivo.
Em quanto se passavam estes factos, o ferido contra sua vontade, aproximava-se da morte, chamou seo irmão, e lhe disse: sou um grande criminoso, pois de uma só vez matei muitas pessoas, isto é, a mim, a meo pae, que morrerá de tristesa e a ti porque os francezes te mandarão matar: elles são justiceiros em punir os maus: mas sabes tu o que ha? toma meo conselho, e faze o que te digo.
Os Padres que vieram com os francezes, são compadecidos, e nos amam e aos nossos filhos, e pelos seos interpretes soube que aqui vieram para salvar-nos.
Já ouvi dizer, n’uma reunião a um dos nossos similhantes, que os antecessores dos Padres baptisaram antigamente em quanto com elles estiveram, e que vio os _Canibaes_ se abrigarem em suas Igrejas, quando faziam alguma maldade, por terem certesa de que ahi ninguem lhes faria mal.
Faze o mesmo, quando anoitecer vae com meo Pae procurar o Padre na sua cabana de _Yviret_, pede para te pôr na casa de Deos, que é defronte da residencia d’elle, e ahi fica, até que meo Pae, conjuntamente com os Principaes, intercedam por ti, e consigam o teo perdão do Maioral dos francezes.
Para mais facilidade, tu sabes que os Francezes necessitam de canoas e de escravos, offereça pois meo Pae ao chefe tua canoa e teos escravos, para que não morras.
Tudo isto foi cumprido pontualmente, porque este velho, Pae dos dois rapazes, foi procurar-me, rogou-me e instou-me para que recebesse seo filho na casa de Deos, e intercedesse para ser perdoado pelo Maioral dos Francezes, buscando convencer-me, entre outras, com estas razões.
«Vós outros Padres fazeis regorgitar de povo as nossas _Casas Grandes_, quando quereis, desejando vêr ahi grandes e pequenos, afim de ouvirem a causa, que vos obrigou a deixar vossas casas e terras, muito melhores do que estas, para nos ensinarem a naturesa de Deos, que é, como dizeis, bom, misericordioso, amante da vida e inimigo da morte, e por isso não quer que ninguem morra assim como elle morreo n’um madeiro para fazer viver os mortos.
«Dizeis ainda, que nossos filhos não são mais nossos, o sim vossos, que Deos vol-os deo, e que d’elles tomaes cuidados até a morte: mostrae-me hoje, que vossa palavra é verdadeira.
«Estou velho, perdi todos os meos filhos, só me resta um, que fez esta casa, que vos estima muito, e a todos os Padres e quer ser christão.
«Matou seo irmão sem querer, ou melhor, foi seo irmão quem se matou a si proprio com as flechas, que trazia. Rogo-te o recebas na casa de Deos, e vem commigo fallar ao chefe, porque elle nada te recusará visto estimar-te muito.
«Quiz trazer commigo o filho, a favor de quem intercedo porem elle teme muito a ira dos Francezes: actualmente anda errante e fugitivo pelos mattos, como si fosse um javaly: quando ouve o ramalhar das arvores suspeita ser os Franceses, que armados andam em busca d’elle para prendel-o e conduzi-lo a _Yviret_, onde será amarrado á bocca de uma peça.»
Respondi pelo meo interprete, asseverando-lhe que empregaria os meos esforços, que tinha esperança de obter o que elle desejava porque o chefe me estimava; mas que era bom, que elle fosse pessoalmente fazer seo pedido, e que eu iria depois delle.
Foi immediatamente ao Forte em companhia de um dos principaes interpretes da Colonia, chamado _Migan_,[35] e expôz suas razões e rogos ao senhor de Pezieux, por esta fôrma.
«Sou um Pae muito infeliz, e acabarei minha velhice como os javalys, vivendo só, comendo raizes amargas e cruas, se de mim não tiveres piedade.
«A misericordia muito convem aos grandes, e maiores não podem ser, quando usam d’ella e de clemencia.
«É teu rei o maior do Mundo, como nos contam os nossos, que estiveram em França.
«Elle para aqui te mandou como um dos Principaes da sua côrte afim de nos livrares do captiveiro dos _Peros_: ora como és grande, e misericordioso, usa de misericordia para com os infelizes, que são desgraçados por acaso e não por malicia.
«Bem conheço, que é preciso ser justo, e indagar o motivo para se fazer a escolha, e proceder-se a vingança sobre os maus, o que mui restrictamente observamos entre nós, desde os nossos paes, mas quando a falta não é originada por maldade nós perdoamos.
«Tenho dois filhos, como sabes, os quaes tem vindo trabalhar no teo Forte, um matou o outro por acaso e sem maldade, ou para melhor dizer, suicidou-se o mais velho nas flechas do mais moço, que está vivo, e te peço que não o persigas e sim o perdôes.
«É elle, que me hade sustentar na velhice: sempre foi amigo dos francezes, e quando algum vae a minha aldeia, chama logo os seos cães, e vae caçar cotias e as pacas para elle comer.
«Fez a cása dos Padres, e assevera-me que elles o protegem.
«Sempre foi muito obediente á sua madrasta, que o ama como si fosse seo proprio filho: seo irmão, que sem querer, elle matou, era mau, não estimava os Francezes, nunca lhes deo coisa alguma, não ia á caça para elles, aborrecia sua madrasta, e muitas vezes a zangava: quando morreo, estava bebado, e veio tomar a mulher do seo irmão, e arrancando o filho, que ella tinha ao collo, atirou o menino para um lado e a mãe para outro, dando-lhe bofetadas, embora estivesse grávida, na minha presença e á vista do seo marido, e tudo soffremos com paciencia; porem vindo agarrar seo irmão para espancal-o, ferio-se no ventre com as flechas, que elle trasia na mão e assim morreo.
«Porque perderei eu meos dois filhos, de uma só vez, e já na minha velhice?
«Si queres mandar matar o unico que tenho, mata-me primeiro, e depois a elle. Elle te dá sua canoa para a pescaria e seos escravos para te servirem.»
Admirou o Sr. de Pezieux este discurso, como depois me disse e por muitas vezes, e o referio á diversas pessoas, admirando-se de ver tão bella Rhetorica na bocca de um selvagem.
Previno-vos, que represento todos estes discursos e supplicas o mais sinceramente que me foi possivel, sem o emprego de artificio algum.
Respondeo o Sr. de Pezieux dizendo ser grande crime um irmão matar outro, mas como elle asseverava ter sido antes por culpa do fallecido do que pela do vivo, perdoava a rogo dos Padres, a quem nada queria recusar, e assegurou-lhe logo que seo filho nada soffreria, que acceitava a canoa e os escravos, porem que tudo isto lhe offerecia para o arrimo de sua velhice visto ser elle amigo dos Padres e dos Francezes.
Alegrou-se muito o bom velho com este acto de misericordia e liberalidade, e não foi ingrato, não só fazendo conhecido por toda a Ilha o facto, como tambem offerecendo ao dito Sr. e a nós tudo quanto elle e seu filho caçavam.
CAPITULO XVIII
Quanto é facil civilizar os selvagens á maneira dos francezes, e ensinar-lhes os officios, que temos em França.
No Liv. 2.º, Cap. 1.º, dos Machabeos, lemos, que o fogo sagrado do altar foi escondido no poço de Nephtar durante o captiveiro do povo e se transformou em limo.
Quando o povo regressou, já livre, os Sacerdotes apanharam este limo, e o deitaram na madeira do altar, levantado para os sacrificios.
Apenas o sol, lá de cima, começou a lançar seos raios sobre o limo, este se transformou em fogo, e devorou os holocaustos.
Desejo servir-me d’esta figura para explicar o que tenho a dizer n’este e nos seguintes Capitulos.
Convem notar, que por este fogo se deve entender o espirito humano imitando a naturesa do fogo por sua actividade, ligeiresa, calôr e claridade, o qual se torna lodo e limo, escondido n’um centro differente do seo proprio, devido isto á sua alma captiva pela infidelidade.
Quero dizer, que sendo o espirito do homem creado para conhecer a Deos, e aprender artes e sciencias, torna-se entorpecido e obscurecido entre as immundicies, quando sua alma está presa nas cadeias da infidelidade, sob a tyrannia de Satanaz, mas quando sua alma desprende-se do captiveiro pela intenção e guia dos Prophetas de Deos, sahe o espirito d’esse poço lamacento, e animado pela luz, e conhecimento de Deos, das artes, e das boas sciencias, torna-se apto e prompto para executar o que percebe e aprende, o que farei vêr, e tocar com o dedo a respeito dos nossos selvagens, e mui principalmente quando de suas perguntas mais comesinhas nasce a esperança d’elles se civilisarem, e viverem reunidos n’uma cidade, negociando, aprendendo officios, estudando, escrevendo e adquirindo sciencia.
Tenho para mim, que são mais faceis de serem civilisados, do que os aldeões de França, por ter a novidade não sei que influencia sobre o espirito afim de excital-o a aprender o que elle vê de novo, e lhe agrada.
Os nossos _Tupinambás_ nunca tiveram ideia alguma de civilisação até hoje; eis a razão porque elles se esforção, por toda a forma, de imitar os nossos francezes, como depois direi.
Ao contrario os aldeões da nossa França estão de tal sorte enraisados em sua rusticidade, que, em qualquer conversação, embora nas cidades entre pessoas distinctas, sempre mostram signaes de camponezes.
Aos _Tupinambás_, depois de dois annos de convivencia com os francezes, estes lhes ensinaram a tirar o chapeu, a saudar a todos, a beijar as mãos, a comprimentar, a dar os bons dias, a dizer adeos, a ir á Igreja, a tomar agua benta, a ajoelhar-se, a pôr as mãos, a fazer o signal da Cruz na testa e no peito, a bater no peito diante de Deos, a ouvir missa e sermão, ainda que nada d’isto comprehendam, a levar o _Agnus Dei_, a ajudar o sacerdote á missa, a assentar-se á mesa, a estender a toalha diante de si, a lavar suas mãos, a pegar na carne com tres dedos, a cortal-a no prato, e a beber em commum, e breve farão todos os actos de civilidade e delicadesa, que se costuma a praticar entre nós, e já se acham tão adiantados a ponto de parecerem ter sempre vivido entre os francezes.
Ninguem pois poderá contestar-me, que não sejam estes factos bastante para convencer-nos do que devemos esperar e acreditar ser esta nação, com o andar dos tempos, civilisada, honesta e muito aproveitada.
Como os exemplos provam mais que outra qualquer especie de argumentação, vou contar-vos o caso de alguns selvagens educados em casa de nobres.
Actualmente ha em Maranhão uma mulher selvagem, de uma das boas raças da Ilha, que foi antigamente, quando bem pequena, tomada pelos portuguezes, e vendida como escrava á D. Catharina de Albuquerque, sobrinha do grande Albuquerque, Vice-Rei das Indias Orientaes, sob o dominio do Rei de Portugal, a qual reside presentemente em Pernambuco, e é Marqueza de Fernando de Noronha, ilha muito bella e fertil, segundo diz o Revd. Padre Claudio d’Abbeville na sua Historia.
Esta rapariga fez-se christã, e se a vestissem á portugueza não se poderia facilmente dizer qual a sua origem, se portugueza ou selvagem, mostrando sempre a vergonha e o pudor, inseparaveis de uma mulher, e occultando com cuidado a imperfeição do seo sexo.
Poderia dizer outro tanto de muitos selvagens, educados entre os portuguezes, e dos quaes alguns foram á França, e conservam ainda hoje o que aprenderam, e o praticam quando se acham entre os francezes.
É novo entre elles o uso da barba e dos bigodes, porem como vêem esse uso entre os Francezes, tambem deixam crescer tanto uma como outra coisa.
Tem incomparavel aptidão para as artes e officios.
Conheço um selvagem do Miary, chamado _Ferrador_, por causa do officio, que aprendeo, vendo somente trabalhar um ferrador francez que nada lhe explicou.
Sabia muito bem malhar com os outros uma barra de ferro encandecida, como se tivesse longa pratica, apesar de ser coisa muito sabida entre os officiaes do mesmo officio, que é necessario muito tempo para aprender-se a musica dos martellos na bigorna do ferrador.
Achando-se este mesmo selvagem nos desertos do Miary com seos semelhantes, sem bigorna e martello, limas e tornos, trabalhava comtudo muito bem fazendo pontas ou lanças para flechas, harpões e anzóes. Por bigorna tinha uma pedra muito dura, por martello outra de menor consistencia, e depois aquecendo ao fogo o ferro, dava-lhe a forma que queria.