Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 7
Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os francezes.
Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a sua missão, de que fallarei quando for occasião.
Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao _Thion_, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção dos Padres.
Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei algumas imagens como mimos, a _Thion_, elles embarcaram para o Mearim em busca de suas casas.
Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e de noite.
Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o _Giropary_[26] do meio d’elles: assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão.
Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas.
Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que lhes offerecia para conquistar a nação proxima de indios inimigos, da aldeia de Thion, e causava pena ouvil-os dizer, que haviam comido a muitos, porque eram mais fortes, tinham maior numero de aldeiamentos e de homens, e o Principal d’elles, chamado _Farinha-grossa_, valente na guerra, alegre, e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos n’outro lugar, dizia com garbo, «si eu quizesse comer os inimigos, não ficaria um só, porem conservei-os para satisfazer minha vontade, uns após outros, entreter meo apetite, e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia quem os comesse? Alem d’isto não tendo minha gente com quem bater-se, se desuniriam, e separar-se-iam como aconteceo á _Thion_.» Assim disse, porque antes estas duas nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos e distantes dos inimigos, contra os quaes podiam exercitar-se na guerra, e apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.
Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem deseja conservar o interior em paz, deve empregar os sediciosos fóra d’ahi, especialmente contra os inimigos da fé, e fallando em sentido moral—quem quer salvár o coração de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões exteriores.
Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco de todas as injurias, mortes e banquetes com os corpos dos inimigos: que devia revestir-se de paciencia quem mais perdesse: que não devia havêr exprobrações de parte á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam separados uns dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.
Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, nas quaes vieram para a Ilha.
Foram bem recebidos, o seo chefe _Thion_ saudado com cinco tiros de peça, e duas descargas de mosquetaria, passando por meio de soldados francezes, dispostos conforme as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o Sr. Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para descançar.
Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.
CAPITULO XIII
Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.
Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas de suas particularidades, e tambem outras, pertencentes tanto á elles como á todos os _Tupinambás_, ainda não escriptas por pessoa alguma, ou ao menos mencionadas sufficientemente, e como são bellas e raras tractarei d’ellas mais detidamente.
Estes povos, antes de reunidos, eram chamados _Tabajares_ pelos Tupinambás.[27]
Este nome é appelativo e commum para designar toda a sorte de inimigos, e tanto assim é, que esta mesma nação de _Tabajares_ chamava os _Tupinambás_ da ilha _Tabajares_, _Topinambas_, embora pacificados e amigos. Os _Topinambas_ os chamavam _Mearinenses_, quer dizer vindos do _Miary_,[28] ou habitantes do _Miary_, assim como os Dinamarquezes, que vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da Corôa de França, foram chamados Normandos, e sendo ella conservada em homenagem pelos Reis de França, perdeo seo antigo nome, e conservou o de Normandia.
Os francezes os chamam _Pedras-verdes_[29] por causa de uma montanha, não muito longe de sua antiga habitação, onde se acham mui bellas e preciosas _pedras verdes_, dotadas de muitas propriedades, especialmente contra doenças do baço, e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi esmeraldas muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas pedras verdes tanto para collocal-as em seos labios, como para negocio com as nações visinhas.
Os _Tupinambás_ e os _Tapuias_ dão muito apreço a estas pedras:[30] vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais de vinte escudos de mercadorias um _Tupinambá_ á um _Miarinense_, em nossa casa de São Francisco, no Maranhão.
Um certo _Cabelo comprido_ veio ter comnosco, ornado com seos enfeites mais lindos, que consistiam em dois chifres de bodes, e quatro dentes de corça, muito cumpridos, em vez de brincos, de que muito se orgulhava por havel-os alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, muito toscos, e da grossura de dois dedos: calculae o buraco, que fazem nas orelhas: a maior porem de suas ostentações era uma destas pedras verdes, de comprimento, pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou tanto á ponto de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe o que queria que lhe désse por esta pedra: respondeo-me, «dê-me um Navio de França, carregado de machados, de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»
Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas em seo labio inferior: era oval e tão larga como o concavo da mão, e como a tivesse trasido por muito tempo ahi, sem nunca tiral-a, estava como que encaixilhada no seo queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos da pedra e tomado a sua propria forma.
Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras verdes.
Estes _Miarinenses_ são ordinariamente de boa estatura, bem conformados, e valentes na guerra: sendo bem guiados não recuam e nem fogem como os outros Tupinambás, explicando-se isto pelo facto de serem criados entre os combates, sempre travados contra os portuguezes, aos quaes atacaram outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas bandeiras e nunca mais abandonaram sua primeira habitação, como nos contou _Thion_, seo Principal, quando veio do Forte de São Luiz, se a falta de canhões não obrigasse os francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á superioridade do numero dos portuguezes.
Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as espadas, que lhes dão os francezes, sempre a seo lado, sem nunca tiral-as senão quando se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na reparação dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes trasiam n’uma das mãos as armas e na outra os instrumentos do trabalho.
Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem muito commum na zona tórrida.
Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á maneira dos suissos quando esgrimam.
Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos _Tupinambás_.
Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente, alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas, deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia, quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se conservam até ao anoitecer.
Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam de roças maiores, preparam um _Cauin_ geral, e como todos partilham d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que entoam ao redor da casa ao som do _Maracá_, pronunciando estas ou outras similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual; oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom vinho, n’elle não acharemos preguiça.»
Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam.
Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar, deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões: são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres, que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos.
Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do _Miary_ que muitos _Tupinambás_ tanto da _Ilha_ do Maranhão, como de Tapuitapera, foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os Tupinambás.
Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos _Cauins_, ou quando vão a guerra.
As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como praticam as dos _Tupinambás_, e sim antes querem esposar um velho, especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel, o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o contrario praticam as raparigas dos _Tupinambás_, as quaes passam a sua mocidade livremente, e depois acceitam um marido.
O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira das almas captivadas pelo espirito immundo, que não se descuida de perdel-as por meio de suas traças.
CAPITULO XIV
Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam seos inimigos.
Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os Indios do Brazil, tem por costume cortar o corpo, e recortal-o tão lindamente, que os costureiros e alfaiates, embora habeis em sua profissão, buscam imital-os no córte dos seos vestidos.
Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem das mulheres, com a differença unica de que os homens se cortam por todo o corpo, e as mulheres apenas desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio de um dente de _Cutia_, muito agudo, e uma especie de gomma queimada, reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e nunca se apagam os córtes.
Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas para descubrir a origem deste antigo costume, que me parece ser fundado pela naturesa, visto ser praticado, já ha muitos annos, por nações civilisadas, cujo conhecimento por falta de communicação não podia ter esta Nação barbara, e assim inventou-o e d’elle usou.
Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a cortar assim seos corpos, uma significa o pesar e o sentimento, que tem pela morte de seos paes, assassinados pelos seos inimigos, e outra representa o protesto de vingança, que contra estes promettem elles, como valentes e fortes, parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que não pouparam nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, e na verdade quanto mais estigmatisados mais valentes e corajosos são reputados, no que tambem são imitados pelas mulheres de iguaes qualidades.
Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito remontar-me ás historias profanas, no que seria prolixo, e sim contentar-me-hei fazendo vêr em diversos trechos das escripturas sanctas quanto Deos reprova este uso barbaro e selvagem. No Levitico 19. _Super mortuo non incidetis carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas facietis vobis._ Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras ou signaes. No cap. 21. _Necque in carnibus suis facient incisuras_: e não farão incisões na sua carne. No Deut. 14. _Non vos incidetis, necfacietis calvitiem super mortuo._ No morto não fareis incisões e nem cortareis os cabellos.
Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como fazem os gentios e os idolatras, e de maneira notavel este trecho—_não fareis incisões e nem cortareis os cabellos_, por que se vêem juntas estas duas coisas, que os indios sempre separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o que ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae sabendo, que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro ou morte na guerra dos seos Paes ou maridos, cortam os cabellos, gritam e lamentam-se horrivelmente, excitando seos similhantes á vingança, á tomar as armas e a perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a _Historia dos Tremembeses_.
Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem á bem da minha subsistencia soube da maneira como faziam prisioneiros e escravos.
N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte e valente, que me fora dado por um _Tupinambá_, e elle para minha advertencia me deo a seguinte resposta, embora branda (bem sei o que é necessario observar para com esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e feridas, e aos castigos preferem a morte,[31] e por esta forma desejam antes morrer com honra, segundo dizem, no meio das assembleias, como ja muito bem descreveo o Padre Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não me pozeste a mão sobre a espadua,[32] como fez aquelle que me deo a ti para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade de saber por intermedio do meu interprete o que elle queria dizer, e então fiquei sciente de ser uma ceremonia de guerra entre estas nações, quando um é prisioneiro do outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e dizer-lhe—faço-te meo escravo—e desde então este infeliz captivo, por maior que seja entre os seos, se reconhece escravo e vencido, acompanha o vencedor, serve-o fielmente sem que seo senhor ande vigiando-o, tendo liberdade para andar por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua vontade, e de ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o que não se pratica mais em _Maranhão_, _Tapuitapera_ e em _Cumã_, e só raras vezes em _Caieté_.
Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora nos livros sagrados e na Historia dos Romanos, quando procediam ao captiveiro dos prisioneiros, e para bem entender-se bom é notar-se, que foram as ceremonias externas inventadas para representarem com sinceridade as affeições do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão, descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, são outros tantos testemunhos de apreço interno em que o temos: outr’ora as espadas tinham hierogliphos representando o mysterio occulto das acções internas e externas dos homens.
Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me em referir os dois seguintes casos:—o sceptro apoiado sobre a espadua significa o poder regio: a alabarda sobre a espadua declara o poder dos chefes de guerra: as maças de ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os machados com ramos de parreira enroscadas—o poder dos consulados e dos governadores das provincias. Observe-se o que foi escripto por Isaias cap. 9. _Factus est Principatus super humerum ejus_, seo dominio foi posto sobre sua espadua, e no cap. 22. _Dabo clavem domus Davis super humerum ejus_, e porei a chave da casa de David sobre sua espadua, quer dizer o—sceptro de David.
Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos quando no trabalho, ou então passar debaixo de uma lança, atravessada sobre duas outras fixadas perpendicularmente, ou receber sobre a espadua nua uma vergastada era o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou Isaias, cap. 9. _Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum exactoris ejus superasti_: venceste o jugo do teu fardo e a vara de sua espada, o sceptro do seu exactor, fallando do captiveiro da Gentilidade, libertada pelo Salvador: assim tambem estes selvagens batendo sobre o hombro de seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando esta desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens de Chanaan, por juizo impenetravel da sabedoria divina, e participação da antiga maldição de Channan, seo Pae: é em Isaias, cap. 47—_Tolle molam, et mole farinam: denuda turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela crura, transit flumina_, toma a mó, e móe a farinha, descobre tua torpesa e tua espadua, mostra tuas coxas e passa o rio.
Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta alguma para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de machados de pedra para cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar paus, cultivar a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas por um rallador, feito de pedrinhas agudas, engastadas n’uma taboa da largura de meio pé.
Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao fogo, como amplamente está escripto na Historia do R. Padre Claudio d’Abbeville.
É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, embora honestas, sentem repugnancia de se vestirem. Trazem o hombro descuberto, sujeito á este grande captiveiro, commum a todas as nações. Mostram suas coxas, e a falta de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos o adulterio.
Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.
CAPITULO XV
Leis do Captiveiro.
Já que estamos fallando dos escravos bom é tratar das leis do captiveiro, isto é, das que devem guardar os escravos.
Primeiramente não devem tocar na mulher do seo senhor, sob pena de serem flexados logo, e a mulher morta ou pelo menos bem açoitada, e entregue a seos Paes, resultando-lhe muita vergonha de ser companheira de um dos seos servos.
Notae, que as raparigas não são despresadas por se entregarem a quem muito bem lhes parece em quanto solteiras, logo porem que recebem um marido, si se entregam a outro, alem da injuria de serem chamadas _Patakeres_, quer dizer, prostitutas, tem seos maridos o poder de matal-as, açoital-as e repudial-as.
É bem verdade terem os francezes abrandado esta lei tão rude, não dando permissão aos maridos de matar tanto o escravo como a mulher adultera, ordenando que fossem conduzidos ao Forte de São Luiz para vêr punil-as, ou elle mesmo infringir-lhes o castigo, como vi acontecer, entre outros factos, no adulterio commettido entre a mulher do Principal _Uyrapyran_, e um escravo, bonito rapaz.
Tinha o referido escravo muito amor a esta mulher, e depois de ter cogitado todos os meios de gosal-a, vio-a ir um dia á fonte, muito longe da aldeia, foi logo atraz expôr-lhe sua vontade, e depois agarrando-a com violencia entranhou-se com ella n’um bosque, onde saciou seos desejos, e como ella era de boa familia não quiz gritar para não ser diffamada, e ainda em cima pedio segredo ao escravo.
Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e desconfiando de alguma cousa por ser bonita e agradavel, foi á fonte, onde encontrou junto a borda o pote de sua mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, como costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher de um lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou o escravo pelo colleirinho, e confiou-o à guarda dos seos amigos, e levou sua mulher para casa de seos paes, que se comprometteram a entregal-a quando pedisse.
Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este escravo á minha casa, expondo-me o facto como acima referi, acrescentando que si não fosse o respeito ás recommendações dos Padres e dos Francezes, elle teria matado o escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido forçada, a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção de repudial-a.
Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um homem bem feito, de bonito rosto, e bom corpo, fallando bem e em bons termos, mostrando tanto nas maneiras como no corpo, generosidade e nobresa de coragem.
Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente de Sua Magestade na ausencia do Sr. de la Ravardiere, que tendo ouvido a queixa, mandou carregar de ferros os pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a justiça, que elle quizesse.
Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como era costume: respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha ordenado em sua lei, que deviam morrer tanto o homem como a mulher adultera.
Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.
«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode ser forçada por um só homem, ou pelo menos deve gritar, e não pedir segredo ao selvagem, o que é tacito consentimento:» dizia tudo isto para salvar o escravo da morte, por que muito bem sabia não concordar o Principal na morte de sua mulher visto os muitos parentes que ella tinha.
Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, que não matasse o escravo, mas sim que o prendesse na golilha, e que lhe fosse permittido açoital-o á vontade.
«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro açoites com cordas em tua mulher, diante de todas as mulheres, que se acharem no Forte, e ao som da corneta.»
Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida e confrontada com o escravo, reconheceo-se que o facto deo-se como ja referi, foram ambos conduzidos á praça publica do Forte, onde se fincou o esteio e a golilha: ahi o marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou em sua mão direita, e com ellas açoitou sua mulher por quatro vezes, deixando-lhes vergões bem grossos e cumpridos, impressos sobre seos rins, ventre e costas, não sem derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem gemia, com a vista baixa, envergonhada de assim se vêr rodeiada por tantas mulheres, que, como ella, tambem choravam tanto por compaixão, como apprehensivas de que para o futuro não lhes acontecesse o mesmo.
Os homens ao contrario mostravam-se alegres diante de tão boa justiça, e gracejando diziam á suas mulheres—_ah! se te pilho!_
Durante todo o dia estiveram tristes as mulheres dos Tabajares.