Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 6

Chapter 63,854 wordsPublic domain

Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles quando vão atacar seos inimigos e fazel-os escravos. Com quanto sejam por naturesa timidos e medrosos, nos combates ganham calor, não abandonam o campo, e quando perdem as armas pelejam com unhas e dentes.

Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e astucias; ao romper do dia assaltam seos inimigos dentro de suas aldeias: salvam-se de ordinario os que tem boas pernas, sendo aprisionados os velhos, as mulheres, e os meninos, e condusidos como escravos para as terras dos _Tupinambás_. Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas praias, onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes suas mercadorias em _caramemos_ ou _paneiros_, onde arranjam o que tem de melhor, e quando os veem entretidos, lançam-se sobre elles, pobres ingenuos, matam uns, aprisionam e captivam outros: por este motivo todas as nações do Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem querem sua paz.

São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem que estes vão sempre adiante, e se acontece voltar um francez para traz, ninguem corre melhor e mais veloz do que elles. D’isto se conclue quanto valle a opinião que se forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem atraz os bons e virtuosos ou serem queridos e levados os viciosos e corrompidos.

Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra, não me contentando só com as informações.

Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam a _farinha de munição_,[13] e em abundancia, por saberem, naturalmente, que um soldado bem nutrido valle por dois, que a fome é a coisa mais perigosa n’um exercito, por transformar os mais valentes em covardes, e fracos, os quaes em vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.

É differente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida, e misturada com _cariman_ para durar mais tempo, embora menos saborosa, porem mais san e fresca.

Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, ou concertar as que já possuem proprias para este fim, por que é necessario, que sejam compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e comtudo são feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão, e então tiram-lhe a casca, e racham n’a dando-lhe meio pé de largura e profundidade: n’este caso lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de cavacos bem seccos, e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco, raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até que o tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas pollegadas d’espessura, e depois com alavancas dão-lhe fórma e largura: estas canoas conduzem as vezes 200 ou 300 pessoas[14] com as suas competentes munições. São conduzidas por mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por meio de remos de pás de tres pés cada um, que cortam as agoas a pique e não de travessia.

Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a cabeça, braços, e rins, como para as armas. Para a cabeça usam de uma peruca ou cabelleira de pennas de cores vermelhas, amarellas, verde-gaio e violetas, que prendem aos cabellos com uma especie de colla ou grude.

Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros passaros similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira de mitra, que amarram atraz da cabeça.

Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas cores, tecidas com fio de algodão, similhante á mitra de que acabamos de fallar.

Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,[15] presa por dois fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se pelos hombros a maneira de suspensorios, de sorte que ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são emas, que só tem pennas nestas tres partes do corpo.

Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente disse Job no cap. 39. _Penna struthionis similis est pennis Erodii et Accipitris_: a penna de ema é igual a da garça real e do gavião: esta passagem é claramente explicada por diversas licções ou versões dos Gregos e dos Romanos, que tinham por costume apresentarem os coroneis aos capitães e soldados pennas d’ema para collocarem em seos capacetes e morriões afim de animal-os á guerra.

Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam sobre os rins estas pennas de ema: responderam-me, que seos paes lhes deixaram este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois quando ella se sente mais forte ataca atrevidamente o seo perseguidor, e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo e arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: assim devemos fazer, accrescentavam elles. Reconheci este costume da ema, vendo uma pequena, creada na aldeia de _Vsaap_, que era perseguida diariamente por todos os rapasinhos do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os accommettia, e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem quando era maior o numero preferia fugir.

Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de dizer, mas tambem como é possivel buscarem estes selvagens, meios de governarem-se entre as praticas animaes: si se lembrarem porem que o conhecimento das hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha, pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de fazer a guerra e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas grous; que a bondade do estado monarchico foi a principio observado entre as abelhas; que os architectos com as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a aguia e o pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente si acreditarem, que estes selvagens imitam com a maior perfeição possivel os passaros e animaes do seo paiz, o que elles exaltam nos cantos que recitam em suas festas.

Por que nos passaros de sua terra predominam as cores verde-gaio, vermelho e amarello elles gostam de pannos e vestidos destas tres cores.

Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes do mundo, elles arrancam os seos dentes e os trazem nos labios e orelhas afim de parecerem mais terriveis.

As pennas das armas são postas nas extremidades dos arcos e das flexas.

Assim preparados bebem publicamente o vinho de _muay_, e dizem adeos aos que ficam.

CAPITULO VIII

Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens.

Antes que entre na materia, convem narrar o que me disseram os selvagens relativamente á verdade da existencia das Amazonas, porque é questão de todos os dias se n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás descriptas pelos historiadores?

É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, e que habitam n’uma ilha muito grande, cercada pelo grande rio do _Maranhão_, ou das _Amazonas_, que desembocca no mar por um espaço de 50 legoas de largura: que essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos _Tupinambás_, que se retiraram da companhia e do dominio d’elles—seduzidas e guiadas por uma d’ellas: que internando-se pelo paiz ao longo d’esta costa, descobriram á final uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas estações do anno acceitam por companheiros os homens das habitações mais proximas.

Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida logo depois de desmamado: si porem é uma menina fica com a mãe em casa. Eis a voz geral e commum.

N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, fui visitado por um grande Principal, que morava muito acima n’este rio. Depois dos seos cumprimentos, que descreverei mais adiante, me disse morar nas ultimas terras dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio _Maranhão_ á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me do trabalho que tomou vindo de tão longe. Replicou-me «fui ao Pará vêr meos parentes, quando foram os francezes guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar de vós e dos outros Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias certas aos meos companheiros.»

Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua residencia era muito longe da das _Amazonas_, e elle respondeo-me «uma lua,» isto é, um mez para ir.

Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha visto, e respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», pois nas canoas de guerra, onde andou, se desviou da ilha onde ellas residiam.

Esta palavra _Amasonas_ lhes foi imposta pelos portuguezes e francezes[16] pela similhança, que ellas tinham com as antigas _Amazonas_ por causa de sua separação dos homens; porem não cortam a mama direita, e nem imitam a coragem d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as outras mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e nuas se defendem dos seos inimigos, como podem.

No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do Maranhão, partio o Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros de artilharia e mosquetaria, com que o saudou o Forte de S. Luiz segundo é costume entre os militares.

Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, e por cautella tambem 20 dos principaes selvagens, tanto da Ilha do Maranhão e de Tapuytapera, como de Cumã.

Seguio para Cumã[17] onde o esperavam muitas canoas de indios, e provendo-se de farinha seguio para _Caieté_ onde haviam 20 aldeias de _Tupinambás_, e ahi se demorando mais de um mez, reforçou a tripolação de sua embarcação com mais 60 escravos que lhe deram.

No dia 17 de agosto partio de _Caieté_ com muitos habitantes d’essa localidade, e dirigio-se para a aldeia _Meron_, onde em grandes canoas embarcou selvagens e francezes, e seguio para a embocadura do rio _Pará_: em viagem morreo afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso da mesma.

O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito povoado de Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada á 60 legoas da sua emboccadura, todos os principaes d’esses lugares lhe pediram com instancia, que fosse guerrear os _Camarapins_,[18] os quaes são muito ferozes, não querem paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando os captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham matado tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás d’aquellas regiões, e guardaram os ossos d’elles para mostrar aos paes afim de causar-lhes mais dó.

Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero de 1200, sahio do _Pará_, entrou no rio de _Pacajares_, d’ahi dirigio-se ao de _Parisop_,[19] onde encontraram _Vuacété_ ou _Vuac-Uaçú_, que simpathisando com este movimento offereceo para reforçal-o 1200 dos seos companheiros.

Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que elle mesmo acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde residiam os inimigos, o qual era nas _Iuras_,[20] que são casas feitas á imitação das «_Ponte aux changes_,» de S. Miguel de Paris, collocadas no cume de grossas arvores plantadas n’agoa.

Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram com 1000 ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: defenderam-se porem elles valorosamente de sorte que sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou saraiva, ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando um só.

Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão, incendiaram-se-lhes tres _Iuras_ morrendo n’essa occasião 60 indios d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes o desespero pois antes queriam morrer do que cahir nas mãos dos Tupinambás.

Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de ver, si n’outra occasião, tratados com doçura podiam ser domesticados.

Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os selvagens d’uma traça singular pendurando os seos mortos no parapeito de suas _Iuras_, e por meio de uma corda de algodão amarrada aos pés faziam com que elles se mexessem.

Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e julgando-os vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes a ponto de ficarem despedaçados, o que provocava os gritos e zombarias d’estes canalhas, e somente terminou-se esta triste scena quando uma mulher acenando com um pano branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o fogo, e então ella gritou «_Vuac, Vuac._» Porque trouxeste estas boccas de fogo, (fallava dos francezes por causa da luz, que sahia das caçoletas de suas armas) para arruinar-nos, e destruir a terra?

«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os ossos dos teos amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, e ainda espero comer a tua e a dos teos.»

Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de salvar o resto, que havia.

Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos _Tupinambás_, elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes, que morreram victimas d’essas boccas de fogo de gente, que nunca vimos: si fôr necessario morreremos todos, voluntariamente, como fizeram nossos grandes guerreiros. Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa morte.

Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á frente do nosso exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe de flexas, e na outra o arco, disse: «Vinde, vinde ao combate, nada tememos, somos valentes, e eu só por mim atravessarei a muitos.»

Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um d’elles acertou-lhe com uma balla na testa, que o atirou n’agoa ja morto.

Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as ao ar vinham cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, e nas canoas dos indios, ferindo muitos.

Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente pela naturesa.

O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos pela disciplina militar?

CAPITULO IX

Do que aconteceu na Ilha durante esta viagem, e principalmente das astucias de um selvagem chamado Capitão.

Em quanto uma parte dos nossos francezes, e muitos dos principaes selvagens estavam no Pará e em suas circumvisinhanças passaram-se na Ilha muitas coisas notaveis, que contarei nos seguintes capitulos.

Tratarei em primeiro lugar de um indio agradavel e astucioso intitulado Capitão,[21] irmão da mãe de um principal, muito amigo dos francezes, chamado _Ianuaravaête_, que quer dizer _cão grande_ ou _cão furioso_.

Este Capitão astuciosamente aproximou-se de nós, dizendo por intermedio do interprete, que desejava ser christão, aprender a ler, e a escrever, fallar francez e fazer cortesias, gestos e ceremonias dos francezes.

Acreditaram nas suas palavras, e alguns até cercaram-lhe de muitas attenções.

Passou alguns mezes em nossa visinhança, e mostrando-se com desejos de ter vestidos como os nossos paramentos sagrados, com os quaes diziamos missa; por sua mulher nos mandou pedir, o que negamos.

Não nos deixou por esta recusa, porem algum tempo depois, disfarçando muito bem seo descontentamento, ia á sua aldeia e voltava, até que poude espalhar pela _Ilha_ o boato de que os francezes pretendiam escravisar os Tupinambás, e por tanto que era necessario fugir e abandonal-os.

Alguns acreditaram, e por isso deixaram suas aldeias e foram para outras, onde podessem fugir com mais prestesa si assim fosse necessario.

Julgou chegada a occasião de se fazer valer entre os seos: pois tinha extremo desejo de ser grande, e não podia chegar a sel-o, porque fogem as honras d’aquelles que as procuram com methodo, o que vemos em todas as condicções, e foi este o seo fim e intenção quando de nós se aproximou, servindo-se de nosso concurso para realisar seo desideratum, visto o ambicioso nada poupar, nem mesmo as coisas sagradas, para obter o que deseja.

Principiou visitando as aldeias da Ilha, onde desconfiava ter descontentes, e ahi nas cabanas e na _casa-grande_, costumava batendo nas coxas grandes palmadas, harengar assim—_Ché, Ché, Ché, auaête. Ché, Ché, Ché. Pagy Uaçú, Ché, Ché, Ché, Aiuka pais &_: quer isto dizer, eu, eu, eu, sou furioso e valente. Eu, eu, eu, sou um grande feiticeiro. Fui eu, fui eu, fui eu que matei os Padres, etc. Fiz morrer o Padre, que está enterrado em _Yuiret_, onde mora o _Pay Uaçú_, o grande Padre a quem reenviei todos os males, que tem causado,[22] e a quem matarei como o outro.

Atormentarei os Francezes com molestias, e lhe darei tantos bixos nas pernas e nos pés, que elles se verão na necessidade de regressar a sua patria. Farei morrer suas plantações e assim morrerão de fome: já com elles morei, comi com elles muitas vezes, e vi o que praticavam quando serviam a _Tupan_, e reconheci que nada sabiam á vista de nós outros _Pagés_, feiticeiros.

Á vista disto não devemos temel-os, saiamos, quero caminhar na frente, porque sou forte e valente.

Perto de dois mezes gastou elle percorrendo assim a Ilha sem que de nada soubessemos, porque quando os negocios são secretos e de interesse publico, não são descobertos como acontece quando se trata de utilidade particular.

_Japy-açú_ o reprehendeo e mui acremente por estes discursos, bem como _Piraiuua_; porem seo irmão o _Cão-grande_ o denunciou, e alem d’isso pedio licença para ir em pessoa agarral-o e prendel-o.

Chegaram promptamente estas noticias aos ouvidos de _Capitão_, que começou a tremer como si tivesse febre, e não dizia mais _Ché auo-êtê_, nem _Ché Pagi uaçú_, ou _Ché Aiuca Pay_, porem ao contrario diante dos seos, tremendo de medo, dizia: «_Ché assequegai seta, ypocku Tupinambo, ypocku decatugué: giriragoy Topinamho giriragoy seta atupaué: ypocku ianuara vaeté, ypocku decatugné giriragoy ianuara vaeté giriragoy seta atupaué_.»

Ah! que medo tenho, oh! quanto são malvados os Tupinambás, perfeitos malvados:[23] mentiram os _Tupinambás_, mentiram muito e muito: o _Cão grande_, é um malvado, malvado completo: mentio o _Cão-grande_, mentio tambem muito e muito, etc. Nada disto eu disse, não causei a morte do Padre, não disse que queria fazer morrer o Padre-grande, e nem que lhe dei molestias.

Tambem não disse, que quero atormentar os Francezes, e fazer seccar suas plantas, porque não sou e nem fui feiticeiro, e assim quero ser filho dos Padres, quero voltar e trabalhar para elles, e si os deixei foi para colher meo milho: quero ir ja onde está o Padre-Grande, levar-lhe o meo milho, o meo peixe, e a minha caça, e dar-lhe um dos meos escravos para apaziguar o chefe dos francezes afim delle não crer no _Cão grande_, que sempre me quer mal embora eu seja seo irmão: muitas vezes me quiz matar, e si o _Muruuichaue_, quer dizer o «Principal dos Francezes» lhe der uma vez ordem de prender-me, elle me matará sem duvida alguma.

Por estas palavras conhecereis a indole d’estes selvagens, que não dizem a verdade quando necessitam defender-se.

Este miseravel _Capitão_, fugio e escondeo-se nos mattos, e depois foi para uma aldeia chamada _Giroparieta_, quer dizer _aldeia de todos os diabos_, ao pé da praia, e d’ahi enviou-me um dos seos parentes pedir-me paz, e que obtivesse do Maioral o seu perdão.

Mandou-me um seu escravo forte e robusto, bom pescador, e caçador: elle, sua mulher e mais pessoas da familia, me vieram ver, trazendo-me milho, peixe, e caça, e tanto elle como sua mulher muito fallaram para me persuadir de que eu não devia crer o que se dissesse d’elle, chamando os _Tupinambás_ e o _Cão-grande_,—mentirosos e outros nomes feios, asseverando que era bom amigo, que desejava ser christão, e que si o Maioral, e eu tambem nos esquecessemos de tudo, elle e sua mulher regressariam contentes.

CAPITULO X

Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.

Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios e sem francezes, por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, e estes pela segunda vez ao _Miary_, de que brevemente trataremos, por espaço de um mez fomos incommodados com mil noticias, ora de selvagens residentes perto do mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam ter ouvido tiros de peça para o lado da costa da pequena _Ilha de Santa Anna_, e da de _Tabucuru_,[24] e ter visto tres navios velejando ao redor da Ilha, eis que se apresentou uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado Martin Soares.

Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, tomado posse d’ella para o Rei Catholico, plantado uma grande Cruz, e levantado um marco com uma inscripção, de que logo fallaremos.

Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua tripulação sempre que lhe approuve para vêr e escolher lugares proprios á plantação de canas e ao fabrico do assucar, especialmente no lugar chamado _Ianuarapin_, onde foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella habitação de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de assucar.

Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das entradas da Ilha, onde depois da sua vinda, se edificaram dois bellos fortes afim de impedir o desembarque.

Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens da Ilha: nenhum lá foi, menos o Principal de _Itaparis_, suspeito por traidor: perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se o que respondeo: deram-lhe machados e fouces, e depois veio para a Ilha.

Os portuguezes traziam comsigo os indios _Canibaes_,[25] moradores em _Mocuru_, e parentes de outros do mesmo nome refugiados em Maranhão, os quaes elles mandaram á terra para tomar conhecimento, e informações, si na Ilha haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham canhões.

Felizmente dirigiram-se aos _Tupinambás_, que lhes disseram não haver na Ilha um só francez, um só forte, um só navio, barca, nem canhão, e com tal segurança principiaram a comer, e os Tupinambás mandaram immediatamente ao forte de S. Luiz contar tudo isto.

Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim de prender os portuguezes; porem aconteceo, que um traidor _Canibal_, inimigo rancoroso dos francezes, e a quem já se tinha muitas vezes perdoado castigos, em que havia incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi procural-os furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis aqui, fugi depressa para o mar, regressae ao vosso navio, porque os francezes tem na Ilha um bello forte, canôas, navios, e canhões.»

Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram aos seos hospedes _Tupinambás_, que os divertiam—Ah! maus, enganaes vossos camaradas—e assim dizendo á passos apressados foram com o traidor para a sua canôa, e em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada um pouco adiante.

Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes estavam na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, e apenas tinham levantado ancoras, descobriram a barca dos francezes, e estes a d’elles, apressaram-se a tomar a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina, muito bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco pensando em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a do que lhes resultaria muita commodidade, visto conhecer-se a intenção dos portuguezes, descoberta pela bôa vontade dos...

* * * * *

... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios lugares da França, d’onde veio o proverbio—_chorar de alegria_.

Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter com o Maioral, aos quaes assim fallaram:

«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os _Tupinambás_, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos _Peros_, e ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis, vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram, de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por ti indicado.»