Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 5

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Até hoje ainda não houve seculo algum de Rei, tão parecido com o do bom São Luiz, como o vosso, Senhor, e deixando á parte o que não vem a proposito, eu tomarei somente este bello feito, com que imitastes sua piedade e religião, para com esses pobres selvagens, desejosos em extremo de conhecerem a Deos, e de viverem á sombra de vossas luzes, como sejam os habitantes de _Maranhão_, de _Tapuytapera_, de _Cumã_, de _Cayté_, do _Pará_, alem dos _Tabaiares_ e os _Cabellos-compridos_ e muitas outras Nações, que muito ambicionavam aproximarem-se dos Padres, como direi adiante.

Tudo isto, Senhor, só vós podeis, porque os indios naturalmente gostam dos francezes e aborrecem os portuguezes: os nossos religiosos apenas podem arriscar suas vidas para convertel-os, porem pouco duraria isto a não ser a vossa real piedade.

Não é empresa tão difficil como se calcula, e nem tão cheia de cuidados e de gostos, como se suppõe: não serão precisos 500 ou 1:000 escudos, pois basta mediocre liberalidade, porem bem administrada para a sustentação do seminario, onde se devem educar os filhos dos selvagens, unica esperança da firmesa da religião n’aquelle paiz.

Si V. M., Senhor, se resolver a fazer isto, asseguro-vos que o vosso exemplo será imitado por muitos Principes e Princezas, Senhores e Damas, que contribuirão com alguma coisa para o augmento da fé n’aquelles logares.

Para que eu não canse a V. M. com desagradavel prolixidade, acabarei com esta historia evangelica da pobre Chananea, reputada como cadella, a qual pedia, para livrar sua filha do poder do Diabo, apenas as migalhas, que cahiam da meza real do Redemptor.

Descende do mesmo Pae de Chananéa esta nação de selvagens, e seos filhos estão no dominio do diabo, como infieis: ella não pede nem vossos thesouros, e nem grande quantia, e sim apenas as migalhas superfluas, que cahem, aqui e ali, da vossa real grandesa.

Por tudo isto, Senhor, eu humildemente vos supplico, que olheis com bons olhos para esta pobre Nação, e que recebaes com animo bem disposto este pequeno _Tratado das coisas mais notaveis acontecidas durante a minha residencia entre elles por espaço de dois annos_, conforme as ordens da Rainha vossa Mãe, dadas aos nossos Rvds. Padres, que procurei cumprir tanto quanto me foi possivel, como vereis quando lerdes essa minha obra, cujo trabalho, si merecer a vossa approvação, dar-me-hei por muito bem recompensado em quanto viver, e toda a existencia, que por Deos me fôr concedida, eu a empregarei em servir fielmente a V. M., como aquelle que é e sempre será de

V. M. subdito muito humilde e fiel,

Frei _Ivo d’Evreux_, Capuchinho.

ADVERTENCIA AO LEITOR.

AMIGO LEITOR.

Advirto-vos, que não repetirei aqui coisas ja escriptas pelo Padre Claudio d’Abbeville na sua _Historia_, e somente accrescentarei o que mais do que elle soube por experiencia, pois eu estive em Maranhão dois annos completos e elle apenas quatro mezes: verificareis esta verdade, comparando os nossos escriptos, e facilmente descobrireis o que augmentei.

PREFACIO A RESPEITO DOS DOIS SEGUINTES TRATADOS.

A _Sapiencia_ nos _Proverbios_ 29, apresenta um ensino allegorico, muito bonito, n’estas palavras: _pauper et dives obviaverunt sibi, utriusque illuminator est Dominus_: vi o pobre sahindo do Hospital cuberto de chagas e ulceras, carregado, e não vestido, de trapos, caminhar pela praça publica e entrar no Templo do Senhor pela porta do meio-dia: na mesma occasião vi o rico sahir do seu palacio, vestido de seda e carregado de ouro, prata, e pedras preciosas, caminhando pela estrada que vae dar á porta do Tabernaculo pelo lado do Septentrião, tão a proposito, que um e outro, o pobre e o rico, se encontraram frente a frente, bem no centro da grande cortina do _Sancta Sanctorum_, onde a face do Senhor espalha tão bella claridade, que o rosto d’estas duas pessoas brilhavam com o mesmo esplendor divino.

Vejamos o que quer dizer a _Sapiencia_ na obscuridade d’estas palavras.

Deixemos as diversas explicações mysticas e espirituaes, que d’ellas se podem deduzir, e tomemos somente a que nos pode servir em relação ao que escrevemos no frontespicio do nosso livro.

O pobre é o padre São Francisco e os Religiosos da sua Ordem: o rico é o poder real de Vossa Magestade Christianissima, proveniente do ramo sagrado do Rei São Luiz. Quando e onde se encontraram este pobre e este rico? Foi sem a menor duvida na missão evangelica para converter os indios. Entre os dois estava Deos, o grande illuminador dos peccadores nas trevas da morte.

O pobre São Francisco na conversão dos gentios fez nas Indias o que disse São Paulo:—_ego plantavi_, plantei a fé entre os selvagens do Maranhão: São Luiz, protector da França, e avô do nosso Rei, quando nos mettemos n’esta empresa, respondeo—_Rigabo_—eu a regarei, e não consentirei que ella murche á falta de cuidados. De nada serviria a planta, si em sua raiz não se deitasse agua para ella florescer, por que em pouco tempo o rigor do sol a seccaria, e o nosso Deos, que sempre prescruta a inclinação dos seos subditos, affirma que infalivelmente a augmentará—_incrementum dabo_: e por uma luz, sempre crescente de dia para dia, derramada entre os indios á respeito dos mysterios da nossa fé, espancareis as trevas da ignorancia, porque o Senhor é o illuminador de ambos, _utriusque illuminator est Dominus_.

Quem melhor o pode saber que os selvagens aos quaes baptisamos e lhes promettemos fazel-os christãos?

Si invocassemos o seo testemunho, elles responderiam—_credimus_.

Oh! Piedade Real, não perdestes vosso tempo enviando-nos como Mensageiros do Evangelho.

Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.

PRIMEIRO TRATADO.

CAPITULO I

Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão.[3]

O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo acabamento do Tabernaculo, disse—_Afferte Domino fili Dei, afferte Domino filios arietum_.

«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o que Rabbi Jonathas assim explicou—_Tribuite coram Domino laudem cœtus Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem_—«dae louvores ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do _Sancta Sanctorum_.

Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e ahi continuaram os mesmos sacrificios.

Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto para fundar a Colonia; fizemos edificar a _Capella de São Francisco do Maranhão_ em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem.

Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era dedicada.

Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão estranha do Altissimo á terra.

Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do Santissimo Sacramento do altar.

Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa, que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa.

Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este uso.

Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no _Forte_ a _Capella de São Luiz_,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos, com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores chamadas _Acaiukantin_.

Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos.

A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para onde queria.

CAPITULO II

Do estado do poder temporal em sua primitiva.

Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar em primeiro lugar aquelle como mais nobre e depois este; pareceu-nos de muita razão cuidar a principio nas Capellas para n’ellas abastecer o espirito com a palavra de Deos, e do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.

Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento á seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe viesse d’algures, por certo que morreria de fome, assim tambem era sem commodidades o lugar escolhido para a edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de rocha, habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu modo, ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois de tres annos faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, alem de matto agreste, sendo necessario descançar por muitos annos.

Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas tinhamos farinha de mandioca para fazer _mingau_, isto é, uma especie de papa com sal, agua e pimenta, chamada pelos indios _Yonker_, e assim passavamos a vida.

Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a n’agoa, e assim alimentava-se com ella.

Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz apenas achavam legumes bem agradaveis.

Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o contrario.

Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente.

Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou 40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a Ilha: são muito delicados.

Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons francezes, seo Rei e sua Patria.

São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas praias.

Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas, atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra, retalhadas e salgadas.

Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.

Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de 40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de França e de Hespanha.

È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para que ellas lavem o lugar onde elle estava.

Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes pelas aldeias, conforme o costume do paiz, que é ter _Chetuasaps_, isto é, hospedes ou compadres, aos quaes por pagamento se dava generos em vez de dinheiro.

Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, porque estimam seos hospedes, como se fossem seos proprios filhos, vão caçar e pescar para elles e conforme o seo costume entregam-lhes as filhas, que desde então se chamam _Maria_, e tem por sobrenome o do Francez a quem se ligam, de sorte que dizendo-se _Maria de tal_ sabe-se logo de quem é concubina.

Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: mostrei um certo dia a um selvagem um registro da Mãe de Deos, e lhe disse _Koai Tupan Marie_, «eis a Mãe de Deos,» _ché ai Tupan Arobiar Marie_, «creio e conheço, que _Maria_ é a Mãe de Deos,» e _Maria_ chamamos nossas filhas que damos aos _Caraibas_.

Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma falta á este respeito é occultamente, e os proprios selvagens que no principio d’esta prohibição desconfiaram da fidelidade e da amisade dos francezes, apenas souberam, que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento, e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam e prohibiam por ordem do _Maioral_, mostram-se escandalisados quando vêem o contrario, que denunciam logo a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve fazer seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.

CAPITULO III

Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse dos selvagens em carregar terra.

Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da praça designada á defeza dos francezes, fincada a madeira segundo o plano dado para servir de cercadura ao _Forte_, e de sustentar as terras, mandou-se então avisar por todas as aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,[6] que viessem Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, depois cobertas por grandes e grossas _Apparituries_, «mangues» arvores duras como ferro e incorruptiveis; de forma que seria contra ella quasi inutil o tiro do canhão, e mui difficil a escalada: assim se disse e assim se fez: de todas as aldeias pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam demorar-se no trabalho, e sempre debaixo das ordens dos seos Principaes, costume que geralmente observam, trazendo-os sempre na frente da Companhia, fazendo-lhes a natureza conhecer, que o exemplo dos superiores anima infinitamente os inferiores.

Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o contrario na Republica Christã, d’onde provem os erros e a corrupção dos costumes, porque ainda que devamos prestar attenção somente á doutrina e não entregarmo-nos a má vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo nome, que adquirem.

Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho com incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos gestos admiravel coragem, parecendo antes que iam á um festejo de casamento do que para o serviço, rindo e brincando uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços com uma especie de emulação para vêr quem dava mais caminhadas, e conduzia maior numero de cestos de terra.

Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel do que elles, quando de boa vontade trabalham em qualquer coisa; não cuidam em comer e beber com tanto que tenham á sua frente o seu chefe, e quando encontram difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam para se animarem reciprocamente.

Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada farão que preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem seos filhos e nem seos escravos, e antes os governam com doçura.

O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; não soffrem constrangimento, porem não duvidam expôr sua vida, afim de comprirem as doces ordens dos seos Principes: bello argumento para convencer os que governam, que mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força, respeitando assim o natural da Nação francesa.

Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as mulheres e os filhinhos, aos quaes elles davam pequenos cestos, para carregar terra conforme suas forças.

Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, fazer a carga com suas mãosinhas e não ter força para conduzil-a.

Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem os meninos, servindo isto para distrahir os que os vigiavam, especialmente seos paes, que assim não podiam adiantar a tarefa, achando-se elles sempre em perigo, ou por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por alguma pedra, que se desprendesse do monte.

Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer vendo nossos filhos comnosco trabalhando n’este _Forte_, para que um dia digam á seos filhos e estes a seos descendentes «eis a Fortalesa, que nós e nossos paes fizemos para os Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas a Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»

É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos o que entre elles se passa, já que por escriptos não podem fazel-o aos vindouros, e ir assim á posteridade.

Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, e só d’esta maneira se pode explicar como contam muitas coisas passadas nos seculos, em que viveram seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão passando por esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos ádiante.

Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem para gravar no coração de seos descendentes...

* * * * *

... mente e em abundancia, os selvagens lançam fogo nos espinhaes e moutas, onde se recolhem esses reptis.

Ha de tres qualidades:[7] uma de terra, que mora nos mattos; outra de agoa doce, que mora nas margens dos rios e lugares pantanosos: a ultima, é do mar, e a que vem pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde os occultam com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, menos na casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e molle, nem tão grossos e agudos, e sim mais redondos, porem muito saborosos, quer comidos na casca, quer de outra qualquer maneira.

Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, muito melhores do que as que se achavam commummente, como eu e muitos dos meos companheiros verificamos: alem d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante, mostrando a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como duas d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições são excellentes laxantes, e assim conservam o corpo para seo beneficio. Existem bellos prados, largos e compridos á perder de vista, que produzem herva fina e macia. Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, tem a bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra é forte e feraz e produz com mais certesa, que a do _Maranhão_, ou de suas visinhanças, e dizem-me que dá duas colheitas annualmente. As florestas são altas, virgens, e ricas de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, quer á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, a existencia ahi do _pau brazil_. No meio d’estas florestas, ha muitos viados, capivaras, cabras, vaccas bravas[8] e javalis, e em poucas horas matareis tantas quantas precisardes, e para que não me accusem de hyperbolico, invoco o testemunho dos que viajaram pelo _Miary_, e hoje se acham em França: se lerem isto, dirão que são estas as informações, que me deram, e que os selvagens, remadores das suas canoas, lhes traziam tanta caça, que d’ella não sabiam o que fazer.

Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver morto com um só tiro tres javalis,[9] o que não poderia acontecer se estivessem espalhados.

Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, as quaes são mais pequenas e franzinas do que as nossas, porem mais industriosas, pois fabricam mel excellente, liquido, e tão claro como agua potavel pura, guardado em pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo, similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas com alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que se acha encostada ou presa pelos ramos ao tronco, ou nas cavidades das arvores das florestas ou dos prados.

Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para o estomago, similhante na côr e no gosto ao de Canaria. Nossa gente, quando por lá andou, fez algum vinho, e com elle embebedou-se.

Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, assim chamado, porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado por outra especie de abelhas.

Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram os _Tabajares_,[10] e suas habitações: encontraram, não os que procuravam, e sim os _Aiupaues_,[11] e caminhos recentemente abertos.

Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter quanto bastasse para regressar a Maranhão, essa mesma muito pouca, deliberou regressar com os seos selvagens, deixando ahi somente dois escravos _Tabajares_, a quem deram farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar e achassem seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram aproximando-se das suas aldeias e gritando para não serem flexados, visto andar esta Nação em guerra com uma outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos quaes contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os francezes bem fortificados, que entre elles se achavam os Padres, que os foram procurar; mas que se viram obrigados a retirar-se por falta de farinha, sendo elles escolhidos para ir procural-os, e dando-lhes os presentes fortaleciam mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra pelos _Tupinambás_.

Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as noticias dadas pelos _Tabajares_. Ahi descançaram por tres ou quatro mezes para contarem tudo bem a sua vontade, e regressamos com nossa gente para a Ilha.

CAPITULO VII

Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas.

Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com enthusiasmo de uma viagem, em breves dias, ao Amazonas.[12]

Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que poucos acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se a Ilha, sendo nós tão poucos para defendel a contra as aggressões dos portuguezes, que nos ameaçavam ha muito tempo.

Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha no Mundo nação alguma mais inclinada á guerra e á viagens pelo desconhecido como estes selvagens brasileiros.