Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 4

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[M] Descançam seos restos mortaes no Brazil, pois foi o unico de seos companheiros, que não voltou á Europa. O padre Ambrosio de Amiens, pelos seos estudos, tinha-se distinguido na Sorbona, e quando ia requerer licença para seguir a carreira da magistratura, ou dedicar-se simplesmente á advocacia, resolveo em 1575 entrar na Ordem dos Capuchinhos: foi um dos primeiros irmãos, que tomou o habito no Convento da rua de Santo Honorato, onde por diversas vezes exerceo o cargo de Guardião.

Deve-se collocar entre os annos de 1584 e 1586 a epocha das corajosas dedicações, em que elle afrontou os horrores do contagio para soccorrer a população parisiense, que então lhe deo o sobrenome pelo qual era conhecido. A sua idade, ja avançada, devia isental-o d’esta viagem, porem não foi possivel resistir-se ás suas instancias, e nem a todos os meios, que empregou para fazer parte d’essa missão, que foi de grande utilidade.

Vêde o _Manuscripto_ da Bibliotheca Imperial intitulado «_Eloges historiques de tous les grands hommes, et de tous les illustres religieux de la Province de Pariz_.»

[N] O Padre Honorato de Champigny morreo com cheiro de Santidade em 1621.

[O] Sabemos d’esta obra por Guibert apenas, pois nenhuma outra bibliographia especial a menciona. Bourdemare publicou suas observações sob o titulo _Relatio de populis brasiliensibus_. Madrid. 1617 in 4.º Leon Pinelli falla de Frei J. Francisco de Burdemar (assim escreveo elle) como falla de Ivo d’Evreux por ouvir dizer. Affirma o _Livro dos elogios_ ter emprehendido duas viagens á America, e afinal que morrera como _forasteiro_ n’um dos Conventos da sua Ordem em Hespanha, um anno antes da publicação do seo livro. Parece-nos, que a expressão pelo biographo usada da palavra espanhola—_forasteiro_, quer dizer pura e simplesmente—_estrangeiro_.

[P] O Padre Arsenio de Pariz tambem não tardou em deixar o Brasil, porem o triste resultado dos negocios do Maranhão não arrefeceu o seo zelo pelas missões. Foi para o Canadá onde prégou aos Hurons depois de haver convertido os Tupinambás.

Foi Superior das missões da America do Norte por cinco annos e depois morreo no grande Convento de Pariz, em 20 de Junho de 1645 contando 46 annos de habito. É muito provavel, que tivesse por successor na America o Padre Angelo de Luynes, Guardião de Noyon, pois foi Commissario e Superior das missões do Canadá em 1646.

[Q] O Convento dos Capuchinhos da Cidade d’Evreux foi edificado em 1612 «na extremidade de um suburbio da cidade do lado do meio dia, devido em parte aos cuidados e á liberalidade de João le Jau, então grande penitenciario e vigario geral da diocese.» Vide _Histoire civile et ecclesiastique du comté d’Evreux_, pag. 365. O abbade Lebeurier, cujas luzes e zelo archiologico são conhecidos, prestou-se a fazer a este respeito todas as pesquizas possiveis, porem, infelizmente, debalde.

[R] O manuscripto que temos á vista, e que dá conta summaria da viagem de Arcanjo de Pemuroke, não nos diz claramente o nome da localidade onde saltaram os Missionarios, e por isso nos limitamos a transcrever a narração do seo desembarque: «foram alguns soldados á terra, e acharam diversos obstaculos, que nos pareceram máos prognosticos, como fossem alguns portuguezes e um sacerdote secular, que assolavão os gentios contra os francezes, e do _Forte_ souberam nossos soldados, que os portuguezes projectavam tomar a costa do Maranhão, e d’ella expellir os francezes, o que fez suspeitar aos Padres que poucos fructos aqui colheriam:» _Ms. da herdade dos Capuchinhos da rua de Santo Honorato_.

[S] Circumscripto a um pequeno quadro, apenas podemos dar mui summariamente a descripção dos acontecimentos, que deram em resultado o abandono do Maranhão pelos francezes.

Acabou-se tudo em 21 de novembro de 1614, depois da batalha onde falleceu o infeliz Pézieux.

Alem da grande _Memoria_ publicada pela Academia Real das Sciencias de Lisboa á respeito d’esta expedicção, encontram-se mais amplas informações sobre este periodo da historia do Maranhão e suas missões pelos Jesuitas na vasta e preciosa publicação do Dr. A. J. de Mello Moraes, intitulada «_Corographia historica, chronologica, genealogica, nobiliaria e politica do Imperio do Brasil_.» (Vide o Tomo 3º, publicado em 1860).

[T] Sua morte está marcada nos _Obituarios_ da Ordem no dia 29 d’Agosto de 1632, isto é, no anno em que foi celebrado o tractado de Castelnaudary.

Contava n’esse tempo 47 annos de Religião, e n’ella sempre foi conhecido pelo _Religioso escossez_, embora pertencesse realmente a uma familia gaulesa.

[U] Ordinariamente calam os historiadores esta ultima circumstancia, e não se encontra nem se quer referida summariamente e sem commentarios senão na collecção diplomatica (Quadro elementar) do Visconde de Santarem. A Carta authographa, que prova o captiveiro de Ravardiere existe na _Bibliotheca da rua Richelieu_, onde a vimos. Ella contraria, repita-se, o que se passou um anno antes no campo de Jeronymo d’Albuquerque. Está escripta com muita moderação, e foi derigida a M. de Puysieux (Vid _fonds franç._—Nº 228—15 p. 197.)

[V] Informações inexactas sem duvida fizeram com que Mr. Ferdinand Diniz mencionasse aqui este facto, nunca acontecido.—Do traductor.

[W] Lembro-me com prazer duma delicada expressão do sabio Augusto de Saint Hilaire.

Lery, como se sabe, viajou pelo Rio de Janeiro no tempo de Villegagnon, isto é em 1556. A primeira edicção da sua interessante narrativa somente appareceu em 1571. Nosso Ivo d’Evreux, cujo estylo tem tantos pontos de contacto com o d’este escriptor, leria seo livro? N’elle nada encontramos, que nos leve a responder pela afirmativa. Multiplicaram-se porem as edicções de Lery e a tal ponto, que a quinquagesima e ultima foi em 1611.

[X] Este projecto de dupla aliança entre as duas corôas ja era de 1612, porem foi annunciado officialmente em 25 de Março do mesmo anno, mas só foi executado d’ahi ha tres annos.

Partiram os Missionarios a 19 de Março. Os esponsaes do rei de França com a infanta ainda não preocupavam os espiritos como depois aconteceo, por exemplo, em 1615.

Todos os factos relativos aos dois reinados são minuciosamente descriptos no livro intitulado «_Inventaire generale de l’histoire de France par Jean de Serre, commençant á Pharamond et finissant á Louis XIII_. Paris, Mathurin Henault, in 18. (Vid o T. VIII).

[Y] Podia ainda ver-se, ha alguns mezes atraz, na casa de um vendedor de curiosidades, da rua do Petit Leon, um desenho attribuido a Luiz XIII, quando menino, representando muito bem a figura d’um Tupinambá enfeitado com pinturas exquisitas.

[Z] Devo ainda a Mr. Ferdinand Diniz a seguinte communicação, feita em carta, por mim sempre muito presada, de 16 de setembro de 1873.

«O segundo exemplar conhecido da obra do Padre Ivo d’Evreux pertence ao Sr. Dr. Court, habil e zeloso bibliographo e possuidor, por sua fortuna, de grandes raridades.

«Tive em minhas mãos este precioso exemplar, que custou 800 francos.

«Tem mais duas ou tres folhas do que o da Bibliotheca Imperial.

«O feliz possuidor do exemplar conhecido mora em Pariz, _rue du Centre n. 4_; actualmente anda viajando em beneficio da saude alterada de um seo irmão, porem quando elle voltar, irei de novo visitar seo thesouro.»—Do traductor.

[AA] É geral a obscuridade, que reina sobre a biographia d’estes antigos viajantes, tão importantes debaixo do ponto de vista da historia. O veneravel Eyriés, que citamos as vezes, é bem pouco baseiado em suas ideias, por exemplo, quando affirma que Claudio d’Abbeville viveo até 1632, quando os Manuscriptos da casa de Santo Honorato o dão por fallecido em Ruão no anno de 1616 com 23 annos de religião.

Tambem não é exacto o attribuir-se-lhe a _Vida da bemaventurada Coletta_, virgem da Ordem de Santa Clara, pois appareceo este livro em 1616, em 12, e em 1628 em 8º: as iniciaes, que traz no frontespicio bem poderiam evitar este engano, na verdade pequeno.

O opusculo, de que estamos tractando, acha-se na _Bibliotheca do Arsenal_, onde o examinamos.

[AB] Essa compilação, verdadeiramente curiosa, começou em 18 de novembro de 1709, e se compunha outr’ora de 3 vol. em 4.º. O T. 1º, infelizmente perdido, continha os _Annaes da Provincia_, e provavelmente ficamos privados de algumas preciosas particularidades sobre a missão do Padre Ivo: tinha o titulo de—_Capuchinhos da rua de Santo Honorato_, 4.º (Ter.)

[AC] O Padre Pascoal d’Abbeville foi eleito 19º Provincial do Convento da rua de Santo Honorato: a divisão havida em 1629 foi provavelmente por causa do numero sempre crescente de Religiosos nos tres Conventos de Pariz.

[AD] Em geral não são conhecidos estes versos de Ronsard, derigidos ao fundador da França antarctica, a essa personagem voluvel, ora huguenote, ora fervoroso catholico; cujas severidades excentricas Lery evitou fugindo para as mais longinquas florestas:

Douto Villegaignon, como te enganas! Tu pretendes em vão tornar ameno D’America o viver estranho e rude... Acaso não vês tu que a nova gente Tão nua é no trajar como no peito É nua de malicia?—que não sabe Ao vicio e á virtude o nome ao menos? —Que não sonha com Reis nem com Senados, E, isenta do temor, das leis ao jugo, Á mercè das paixões a vida passa? Ignoras, por ventura, que ahi mostra-se Cada homem de si livre senhor; e Leis, Senádos, Reis, em si resume? Não é a terra e o ar commum a todos? Vê-se, áquella, cobrir ferro importuno O seio virginal de longos sulcos?... Commum é tudo ahi, como dos rios São as aguas perennes que trasbordam Sem processo intentar de plena posse. Oh, não queiras, por isso, dessa gente O repouso turbar dos velhos usos! Si ha remorso em tua alma, em paz os deixa; Não procures, p’ra os campos estenderem. Ensinar-lhes á terra pôr limites! Choverão os processos, e a fraude Á amisáde terá então de unir-se! Logo após, d’ambição o duro espinho (Como a nòs acontece, desgraçados!) Tormento lhes será—negro, incessante. —Seu repouso não quebres: são felizes; Elles gosam na terra a edade d’oiro.

(Traducção do Sr. J. T. de Souza.)

[AE] Vide a «Correspondencia e a Collecção Peiresc.»

[AF] Este estimavel escriptor deo d’isto uma prova no seo poema da primeira semana, somente impresso em 1610 embora fallecesse seo auctor em 1599.

Ja o ardente Cocuyo á Nova Espanha Vai nas azas dois fachos conduzindo, Outros dois flamejando ergue na fronte. Á luz d’este esplendor de regios leitos Nos cortinados arabescos pintam-se, Á luz d’este esplendor em noite negra O habil artesão o marfim pule, Conta o avaro, no cofre, seu thesouro, Veloz o escriptor a penna guia.

Traducção do Sr. J. T. de Souza.

[AG] _Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, etc. escripta em duas cartas ao Padre Provincial em Portugal_. Lisboa. 1847 em 8.º

[AH] _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_, etc. Rio de Janeiro, 1851 em 8.º Foram estas duas obras exhumadas pelo Sr. F. A. de Varnhagem, historiador tão conhecido do Brasil. Esta ultima obra, de que existe um Manuscripto na _bibliotheca imperial_ de Pariz foi tambem reproduzida por seo habil edictor na _Revista_ trimensal. Morreo Gabriel Soares em 1591 n’uma praia deserta, após deploravel naufragio: como se vê foi quasi contemporaneo de Ivo d’Evreux.

[AI] Affirma Berredo ser este indio um amigo dedicado dos franceses, porem melhor informado o _Jornal de Timon_ nos deo o nome deste selvagem, educado nas missões do Sul. Ja se vê, que não podia ter muita affeição aos francezes.

Para urdir este horrivel estratagema, basta somente o odio, que nutriam certos indios contra os dominadores do seo paiz, não sendo necessario ser filho de Ruão ou de Rochelles.

[AJ] Vide _Berredo, Annaes historicos do Maranhão_, e tambem o _Jornal de Timon_ de J. Lisboa, ns. 11 e 12, 1858, Lisboa. Diz este escriptor ter fallecido Jeronimo d’Albuquerque em 1618 succedendo-lhe no governo seo filho Antonio d’Albuquerque.

[AK] Partiram para Goiana em 1635 os Missionarios da Ordem dos Capuchinhos, cujos trabalhos podem ser vistos nos manuscriptos legados pelo grande Convento de Pariz.

[AL] Vide a respeito d’estes povos a rapida visita, que lhes fez Castelnau em 1851: _Expedicção scientifica nas partes centraes d’America do Sul_. T. 2º pag. 316.

[AM] Vide _Trabalhos da Commissão scientifica de exploração_. Rio de Janeiro. Typ. de Laemmert—1862 in 4.º

[AN] Na _Corographia historica_ do Dr. Mello Moraes encontram-se noticias minuciosas sobre as missões dos jesuitas e administração dos indios no Maranhão. Desde o principio do seo T. 3º teve este escriptor o cuidado de confessar o immenso auxilio, que lhe prestaram as obras doadas ao Instituto Historico do Rio de Janeiro pelo conselheiro Antonio de Vasconcellos de Drumond e Menezes. Em suas longas viagens, o diplomata, a quem se deve tão preciosas informações sobre a Africa, não se limitou a estas investigações, pois ainda colheu muitos manuscriptos á respeito do Brazil, que hoje servem de base ao historiador.

Cego ha muitos annos, faz ainda muita honra á sua patria.

[AO] Tres annos antes da partida dos Capuchinhos para Maranhão, o padre du Jarric dedicava ao Rei menino o seguinte livro: «_Segunda parte da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas tanto nas indias orientaes como nos outros paizes descubertos pelos portuguezes, no estabelecimento e progresso da fé christan e catholica, e principalmente do que fizeram e soffreram os religiosos da companhia de Jesus para este fim ate o anno de 1600_» pelo Padre Pedro du Jarric, da mesma companhia em Bordeaux, Simon Mellange. 1610 em 4.º Tudo quanto diz respeito ao Brazil acha-se n’este vasto resumo desde pag. 248 até 359, porem deve procurar-se os factos curiosos, citados n’esta noticia no livro 5º do que o auctor chamou _Historia das Indias Orientaes_, parte 3ª pag. 490.

[AP] Desta primeira edicção, publicada em 1621, tornou-se, para assim dizer, impossivel ser encontrado um sò exemplar.

A segunda edicção sahio com o titulo _Arte de grammatica da lingua brasilica do padre Luiz Figueira, Theologo da Companhia de Jesus_. Lisboa, Miguel Deslande, anno 1687, pet. em 12.º O sabio bibliographo portuguez o Sr. Innocencio Francisco da Silva não reproduz exactamente este titulo, porem menciona uma edicção da Bahia em 1851 pelo Sr. João Joaquim da Silva Guimarães, cujo titulo é muito extenso.

A grammatica do Padre Anchieta—_Arte da grammatica da lingua mais usada na costa do Brasil_, appareceo em Coimbra no anno de 1595, em 8º, e d’ella em Portugal apenas se conhece um exemplar.

[AQ] Santo Eloy, perto de Gisors, no destricto de Euro, é uma povoação de 381 habitantes, á 25 kil. de Andelys.

Ha tambem Santo Eloy de Fourques, aldeia do Euro, a 25 kil. de Bernay.

Estamos propensos a crer, que foi na primeira, onde residio o nosso Missionario.

[AR] Vide _Bibliographia Normanda_.

Derigimo-nos directamente á douta officiosidade do Sr. Frère afim de obtermos o conhecimento do _Supplemento necessario_, porem apesar de constantes investigações vio-se na impossibilidade de nos dar outras noticias alem das que colhemos em sua excellente obra.

[AS] Quevilly, _Clavilleum_, povoação do Senna inferior, distante de Ruão apenas 6 kil. e faz parte do districto de Grande Couronne.

[AT] Mais tarde foi chamado Maximiliano de Baux para encarregar-se da egreja do culto reformado em Ruão, viveo até a idade de 84 annos, e falleceo em 1674 deixando reputação de homem recto, e de costumes austeros.

Vide os irmãos Haag, a _França protestante_.

[AU] _Cupucinorum Annales_. Lugduni, 1632, em fol. e depois a traducção italianna—_Annali di Fratri minori Cappucini_ etc. Venetia 1643 em 4.º

[AV] _Annales seu sacrarum historiarum ordinis minorum sancti Francisci qui Capucini nuncupantur_ etc. Lugduni. 1676.

[AW] _Annales ordinis minorum_. 2.ª edic., Roma, 1731. Depois os _Scriptores ordinis minorum_. 1650, em fol.

[AX] _Bibliotheca scriptorum ordinis minorum_, Genova, 1680 em 4.º, reimp. em 1691 in fol. Este ultimo depois de algumas linhas, em que fallou do merecimento de _Ivo Ebroycensis, vulgo de Evreux_, dá tambem noticia do seu livro: _scripsit gallicé Relationem sui itineris et navigationis sociorum que Capucinorum ad regnum Marangani: cui etiam adjunxit historiam de moribus illarum nationum_. Rothomagi. 1654. Vid T. 1º em 4.º

[AY] _Historia da Normandia_. T. VI pag. 414. Masseville prova com toda a evidencia ter se contentado com traduzir o Padre Diniz de Gênes, pois disse ter o nosso Missionario, «dado uma Relação geographica das regiões, por onde se embrenhou, e particularmente do paiz do _Marangan_». _Regni Marangani_, escreveo seo predecessor.

[AZ] Vede este precioso manuscripto na Bibliotheca de Caen. Uma bibliotheca americana organisada pelo coronel Antonio de Alcedo. Madrid. 1791, 2 vol. em 8º, não menciona o Padre Ivo, causando-nos tal omissão pouco desgosto, á vista de se dizer ahi haver o Padre Claudio d’Abbeville, seu companheiro, convertido com infatigavel zelo os selvagens do Canadá!

[BA] A primeira edicção do _Epitome_, hoje rarissima por ter sido suprimida por ordem da Inquisição, só traz no seu titulo aberto a gravura o anno da impressão 1629 e o nome de _Antonio de Léon_, e não o de Pinelo. Não falla de Ivo d’Evreux, isto é, deste livro, que pertence a Bibliotheca de Santa Genoveva. Na edicção em 3 vol. pequenos em fol., por Barcia, assim menciona invertendo o seu titulo: _Fr. Ivon d’Evreux, capuchino. Relacion de su viage al Reino de Marangano, com sus companeros: historia de los costumbres de aquellas naciones_. Imp. em 1654 em 4º francez.

[BB] Isaac de Razilly, cavalleiro da ordem de São João de Jerusalem, primeiro capitão do almirantado de França, chefe d’esquadra da armada real na provincia da Bretanha, foi nomeiado almirante da frota real, em expedicção nas costas da Barbaria no anno de 1630, e adjunto de Ravardière: em 3 de septembro d’esse mesmo anno estava elle em Safy resgatando captivos.

CONTINUAÇÃO

DA HISTORIA

DAS COISAS MAIS MEMORAVEIS

HAVIDAS EM

MARANHÃO[1]

NOS ANNOS DE 1613 A 1614

SEGUNDO TRATADO

PARIZ. IMPRENSA DE FRANCISCO HUBY RUA DE SÃO THIAGO, NA BIBLIA DE OIRO, E NA SUA OFFICINA NO PALACIO DA GALERIA DOS PRESIONEIROS MDCXV COM PRIVILEGIO DO REI

AO REI

SENHOR.

O que eu pude por meios subtis saber á respeito do livro do Rvd. Padre Ivo d’Evreux, supprimido por fraude e impiedade mediante certa quantia dada ao impressor Francisco Huby,[2] ponho agora na presença de V. Magestade, dois annos e meio depois do seu apparecimento, tão injustamente supprimida apenas veio a luz, afim de que V. M. e a Rainha sua Mãe, então regente, não visse a verdade tão clara, como ahi estava, e fosse mais facilmente illudida sua boa fé, por meio de falsas informações para que, contra suas santas e boas intenções, deixasse morrer a empresa, mais cheia de piedade e honra, que então se podia executar no novo Mundo, como se conhecerá tanto pela obra do Padre Claudio d’Abbeville, como por esta, embora incompleta por faltar a maior parte do Prefacio e alguns capitulos no fim.

Praticaram estes actos com intenção de perder V. M. o titulo de Rei Christianissimo forçando-o a abandonar os sacrificios, e as obrigações contrahidas para com os novos christãos, a reputação de suas armas e bandeiras, a utilidade vossa e de vossos subditos, proveniente de um paiz tão rico e fertil, um porto tão importante como proprio á navegação de longo curso, hoje deteriorado, e tudo o mais adquerido com muitas despezas e cuidados.

Para chegar-se a este ponto necessario foi recorrer á duas imposturas, muito bem conhecidas por pessoas de bom senso: uma foi de dizer-se que este paiz nada produzia, e nem tinha riqueza alguma, contra a verdade geralmente sabida: a outra foi de serem os indios incapazes de receberem a luz do Christianismo em opposição á palavra de Deos e á doutrina universal da Igreja.

Eis como, Senhor, acabou-se esta excellente empresa tão bem começada, sendo tão triste resultado devido a fraude e a malicia d’aquelles, que, desejando occultar seos defeitos, os atiravam sobre o paiz, que por negligencia dos maus francezes, cuidadosos só do seo proveito e interesse particular, se esqueceram do de V. M., embaraçando perda tão notavel, ludibrio hoje de todas as nações estrangeiras, menoscabo de vossa auctoridade real em toda a Europa, e de dôr a todos os vossos bons subditos. Quando V. M. quizer sahir d’estas illusões, aconselhado por pessoas honradas, e reconhecidas pelo seu zelo ao augmento da gloria de Deos, e do vosso reinado, eu vos offereço ainda a minha vida e a de meus irmãos, fazendo conhecer, com a nossa pouca pratica e experiencia, por todos os cantos do novo Mundo, que em toda a christandade não ha um Monarcha tão grande e poderoso, como um Rei de França, quando elle quizer empregar não seo poder, e sim apenas sua authoridade.

Eis, Senhor, tudo o que pode um dos vossos mais humildes subditos, que, embora tenha soffrido, durante vossa minoridade, maos tractos, perda de bens e de fortuna, ainda tem coragem bastante para vos servir com dedicação.

Estou certo de acolherdes meos serviços, e o voto solemne, que faço de ser até o fim de minha vida,

Vosso humillissimo e obedientissimo servo e subdito

_Francisco de Rasilly_.

AO REI

SENHOR.

A principal razão, que moveo os antigos a collocar entre os Deoses a maior parte dos seos Imperadores, foi o espirito religioso d’elles manifestado durante a vida.

Coisa notavel na historia: ainda que alguns imperadores levantados da infima classe até ao cume do poder, se tenham mostrado crueis e sanguinarios para com seos subditos, comtudo alcançaram, após sua morte, o nome de Deoses, tiveram Templos e altares, sacrificios e sacerdotes, creados e nomeados pelo senado em virtude da piedade e da religião, que conservaram inalteraveis no meio dos seos muitos defeitos.

Estes monarchas, grandes em dominio e pequenos no conhecimento do verdadeiro Deos, tinham innato em seo coração o amor pela Magestade divina, de que são viva imagem todos os monarchas, e por isso lhes pertence estender o reino de Deos como seos Loco-tenentes.

Com esta intenção espalhavam arcos e tropheos, columnas e imagens para o ensino da religião, e á posteridade legavam chapas e laminas de metaes indistructiveis, como sejam o bronze, o ouro, e a prata, onde se viam gravadas as suas imagens, e com ellas alguns vestigios da sua piedade, cuja memoria o tempo não póde destruir.

Antonino, o pio, assim deixou buriladas em bronze e prata, sua caridade e religião representadas na imagem de uma mulher, vestida como Deosa, tendo em frente um altar onde se achava um pouco de fogo ardendo constantemente, e no qual ella derramava á todo o instante, como em sacrificio, oleos odoriferos, mostrando com isto a Piedade e Religião, que consagrava aos Deoses.

Si a inclinação natural, sem o auxilio da graça e da luz sobrenatural, podesse tanto no coração d’estes monarchas, o que podemos dizer e pensar quando Deos inspira o coração dos reis illustrados e ricos da verdadeira religião?

Luiz 4.º, imperador, principe virtuoso e geralmente estimado á todas as suas occupações preferia a Religião, e para animar todos os seos subditos á imital-o, mandou cunhar o dinheiro com a figura de um templo atravessado por uma cruz, e ao redor lia-se a inscripção—_Christiana Religio_.

O que excedeo, Senhor, a todos os Monarchas do Mundo, em piedade, e religião, foi São Luiz, a honra dos francezes, e de quem herdastes sangue e sceptro, nome e imitação de suas virtudes, porque não só empregou seos thesouros e sua nobresa, mas tambem sua pessoa, atravessando mares, (mares, que, como a morte, não fazem distincção quando querem involver alguem nas suas ondas) afim de erguer a piedade e a religião, abatidas pela crueldade dos infieis, e n’esta tarefa morreu.