Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 34

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«Eu vos asseguro, meo padre, que quando estiver um pouco estabelecido, será um verdadeiro paraiso terrestre.»

A esperança do bom Religioso não era das que se podem realisar completamente: não caminham assim as coisas neste mundo, porem não sendo o paraiso, é o Maranhão uma das provincias de um vasto Imperio, que vae progredindo.

No meio de prosperidades reaes, e apezar dos esforços de espiritos felizmente bem intencionados, o progresso intelletual do paiz está muito longe do que devia ser.

As recordações do passado, que tanto desenvolvem as populações, ahi não existem.

Não ha archivos, bibliothecas publicas, e nem instituições litterarias, e tanto é verdade isto, que o Imperador, o Sr. D. Pedro 2º, ha dez annos incumbio um dos homens mais activos e eminentes d’este paiz para examinar na Cidade de Sam Luiz o estado real dos depositos litterarios da Capital do Maranhão.

Não reproduziremos aqui as queixas judiciosas e bem fundadas do Sr. Gonçalves Dias sobre o lamentavel estado dos estabelecimentos, objecto de suas investigações.

Pode lêr-se o seo _Relatorio_ escripto em bom estylo na _Revista Trimensal_ publicada com tanto zelo pelo Instituto Historico do Rio de Janeiro.

Citaremos apenas, que ha dez annos, Gonçalves Dias achou 2:000 volumes na Bibliotheca Publica e no Almanach de 1860, edictado pelo Sr. B. de Mattos, apparecem 1:030 em deploravel estado!

Possa a reimpressão da obra do padre Ivo d’Evreux marcar uma nova era na patria de Odorico Mendes, de Gonçalves Dias, e de João Lisboa.

FIM.

NOTAS

[BG] Consulte-se a respeito de todos estes assumptos o meo _Diccionario historico e geographico do Maranhão_. Iria longe se eu quizesse acompanhar _parí passu_ esta publicação, onde não poucas vezes foi illudida a bôa fé de Mr. Ferdinand Diniz.—Do traductor.

[BH] Outro engano. Aqui não se conhece esta dóca.—Do traductor.

[BI] 40 leguas? Não, e sim 4 leguas. Vide art. _Alcantara_ no meo _Diccionario_.—Do traductor.

[BJ] É engano. O major Fidié não foi vencido, e sim capitulou honrosamente em 1.º de Agosto de 1823. (Vide _Historia da Independencia do Maranhão_ (1822 a 1823) pelo Dr. Luiz Antonio Vieira da Silva, hoje Senador do Imperio, pag. 109 a 127.)—Do traductor.

[BK] Mr. Ferdinand Diniz foi illudido por escriptos politicos, embora habilmente manejados porem sempre com paixão.

Não foi o Conselheiro Furtado a quem se deve esse estado de paz, e sim a outro cidadão como ja disse no meo _Diccionario_ neste trecho que para aqui transcrevo.

—Durou este triste e lamentavel estado de ferocidade ou dezespero até o tempo, em que o fallescido Dr. Eduardo Olympio Machado perante os escolhidos da Provincia em 1851 recitou estas palavras:

«A febre homicida, que ía lavrando pelo municipio de Caxias, tem feito, vae para tres mezes, prolongada remissão. E qual o reagente que conseguio acalmar seos lugubres accessos? A energia e actividade do actual delegado de policia o Dr. João de Carvalho Fernandes Vieira, o qual, formando culpa aos delinquentes, perseguindo-os com incansavel zelo, devassando as casas de certos individuos, que até então contavam, senão com acquiescencia, com o silencio da auctoridade publica, tem conseguido restituir á tranquilidade o districto de sua jurisdicção.»

Foram estes valiosos e importantes serviços apreciados pelo Governo Central, pois mandou por mais de um Aviso louvar o Dr. João de Carvalho.

D’ahi a poucos annos houve quem intentasse arrancar esses louros da fronte do energico e activo ex-juiz municipal e delegado de policia de Caxias para offerecer a outro, que nada fez, não cuidando da historia que tudo registra e a todos faz justiça!

Esta acção, por demais injusta, nos faz lembrar estes versos do poeta de Mantua:

Hos ego versiculos feci: tulit alter honores Sic vas non vobis, nidificates, aves etc etc.

Do traductor.

[BL] É injustiça confundir-se nesta censura o Convento do Carmo, graças ao zelo do seo benemerito Provincial o Revd. Frei Caetano de Santa Rita Serejo.—Do traductor.

INDICE.

Ao leitor

Introducção 1

Ao Rei 1

Ao Rei 3

Prefacio 7

Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão 9

Do estado do poder temporal em sua primitiva 11

Da construcção do Forte de S. Luiz, e do interesse dos selvagens em carregar terra 14

Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas 19

Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens 23

Do que aconteceo na Ilha durante esta viagem, e principalmente das astucias de um selvagem chamado Capitão 27

Da chegada de uma barca portugueza a Maranhão 31

Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary 36

Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam seos inimigos 40

Leis do captiveiro 44

Outras leis para os escravos 48

Quanto são misericordiosos os selvagens para com os criminosos por acaso e sem malicia 52

Quanto é facil civilisar os selvagens á maneira dos francezes e ensinar-lhes os officios que temos em França 58

Quanto são aptos os selvagens para aprenderem sciencias e virtudes 63

Continuação do objecto antecedente 67

Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada inviolavelmente pela mocidade 71

A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as mulheres 79

Da consaguinidade entre os selvagens 84

Dos caracteres incompativeis entre os selvagens 90

Da economia dos selvagens 94

Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens 95

De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham sujeitos, e quaes os nomes que dão aos membros do corpo 101

De algumas molestias particulares á estes paizes de indios e de seos remedios 106

Da morte e dos funeraes dos indios 111

Do regresso á ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns Principaes, que o seguiram 116

Viagem do capitão Maillar pela terra firme á casa de um grande feiticeiro. Descripção desta terra e das zombarias d’elle 120

Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações e procedimento 125

Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuytapéra e da viagem ao Uarpy 129

Dos astros e do sol 132

Ventos, chuvas, trovões e relampagos em Maranhão e suas circumvisinhanças 135

Mar, agoas e fontes do Maranhão 139

Singularidades de algumas arvores do Maranhão 141

Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’estes paizes 146

Da pesca do Pery 148

Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas 153

Das aranhas, cigarras e mosquitos 165

Dos grilos, dos camaleões e das moscas 160

Das onças e dos macacos do Brazil 173

Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle paiz 178

Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á respeito das Indias Occidentaes 184

Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias 189

Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, e como convem proceder para com elles 193

Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de muitos meninos 201

Do baptismo de muitos enfermos e velhos, que falleceram depois de christãos 210

Do baptismo de muitos adultos, especialmente d’um chamado Martinho 217

Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão dos seos similhantes 225

De um Indio condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de morrer 230

Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens quando nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei 234

Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de cór, antes de serem baptisados 241

Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos espiritos e da alma 246

Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens 252

Como falla o diabo aos feiticeiros do Brasil, suas falsas profecias, idolos e sacrificios 259

De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos feiticeiros do Brasil 271

Claros signaes do reino do diabo em Maranhão 275

Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer e começarão a restabelecer o reinado de Jesus Christo 283

Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã 289

Segunda conferencia que tive com Pacamão 296

Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra 304

Conferencia com Jacupen 311

Conferencia com o principal de Orubutin 317

Conferencia com o Onda, um dos principaes de Commã 321

Congratulação á França etc. etc. 329

Fidelissima narração etc. etc. 334

Narração d’um marinheiro 344

Notas criticas e historicas por Mr. Ferdinand Diniz 347