Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 33

Chapter 333,698 wordsPublic domain

Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado por Mr. Trubener. O Padre João de Jesus _explicação dos mysterios da fé_. O Padre Manoel da Veiga _Cathecismo_. F. Pedro de Santa Rosa _Confessionario_. André Thevèt nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial de Pariz, dá o _Pater_ e o _Credo_ em lingua _tupy_, depois reproduzidos em sua grande _Cosmographia_. São preciosos estes dois documentos especialmente por sua antiguidade, pois datam de 1556.

Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e dos mais curiosos é o do Padre Marcos Antonio, intitulado: _Doutrina e perguntas dos mysterios principaes de nossa santa fé na lingua Brasila_. Foi composto em 1750 e Ludewig menciona-o como fazendo parte das collecções do _British Museum_.

99 (pag. 250).

Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o canto melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros das almas, nos passaros propheticos ainda não se extinguio de todo, pois ainda existe na poderosa nação dos Guayacurus, depois de haver exercido antigamente sua poderosa influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas ideias mythologicas.

O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguez _Acaúan_, e tambem _Macauan_: nutre-se de reptis, e não tem esse aspecto sinistro, que lhe dá o nosso bom Missionario.

Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de cinza, o peito e o ventre vermelhos, azas e cauda negras com pintas brancas. Pensa hoje em dia a maior parte dos indios, que a missão deste passaro é annunciar-lhe a chegada de algum hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli, _Corographia Paraense_, e Gonçalves Dias, _Diccionario da lingua Tupy_. Martius na palavra _Oacaoam_ diz ser o Macagua de Felix de Azara. Falco (herpethocheres).

100 (pag. 257).

No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamados _Barbeiros_, os cirurgiões mais habeis, e alguns annos antes até o illustre Ambrosio Paré era assim conhecido.

Como os _Piayes_, _Pagé_, _Pagy_, _Boyés_ ou _Piaches_ (por todos estes nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias.

O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso aos barbeiros, mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias.

Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, e deve ser com todo o cuidado comparado com o que escreveo Simão de Vasconcellos, (_Chronica da Companhia de Jesus_, in fol.) e com todas as _Memorias_ publicadas pelo Instituto Historico do Rio de Janeiro sobre a religião primitiva dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os attributos de Jeropary.

É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque nos trouxe a perda de preciosos documentos de homens praticos e habeis, que entre si conservavam as tradicções.

101 (pag. 264).

No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados como passaros.

O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é exageração.

Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (_Excursions dans l’Amerique meridionale_, p. 15 e 389.)

Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o genero da ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, que dormem. Matou um vampyro, que tinha 32 pollegadas de extensão de azas abertas. Em geral são muito menores.

102 (pag. 268).

Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux o unico, como notamos, que menciona entre os Tupinambás os rudimentos de estatuaria (imperfeita sem duvida) com applicação á mythologia d’estes povos.

D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e Lery, Vasconcellos, Cardin e Jaboatão.

Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens se entregavam á vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, que d’elles conhecemos, se referem aos seos _Macanas_, ou a sua _Lyvera-péme_, especie de armas pesadas, que elles enfeitavam á capricho.

Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas pennas na prôa de suas canôas de guerra, tão esguias como elegantes, e será bem possivel, que a base d’esse instrumento seja ornado de sculpturas similhantes ás que se observam entre os insulares da Polynesia. É provavel que multiplicando-se suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar que applicam á suas divindades grosseiras.

O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois de Ivo d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta de _Anaanh_, genio do mal, que não é senão o _Anhanga_ do padre Nobrega e de Anchieta, cuja terrivel missão sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que sempre o chamou _Aignan_.

Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes de _Uracan_, de _Hyorocan_, de _Jeropary_, de _Maboya_, de _Amignao_, reconheçam-se os genios secundarios, como seos mensageiros (apenas citarei um, o malicioso _Chinay_, que faz emmagrecer os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) Anhanga teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII.

Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi infelizmente aberto em madeira muito molle, e por isso não poude resistir á acção do tempo, ou á invasão das formigas: duvidamos que se encontre um só _specimen_ de dois seculos atraz.

Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma as palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sorte de feitiçaria, que os singularisa. Fazem uma figura do diabo n’um pedaço de madeira molle e sonora: esta estatua do tamanho de tres a quatro pés é muito feia pela sua immensa cauda, e grandes lanhos.

«Chamam-na _Anaantanha_ que parece dizer—_imagem do diabo_, porque _Tanha_ significa figura, e _Anaan-diabo_. Depois de haverem soprado sobre os enfermos, trazem os _Piayas_ esta figura para fóra da _casa-grande_:

«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como para obrigar o diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» (Vide _Nouvelle Relation de la France équinoxiale, contenant la description des côtes de la Guiane, de l’isle de Cayenne, le commerce de cette colonie, les divers changements arrivés dans ce pays_ etc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.)

N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma boneca que tinha uma especie de mecanismo, que servia para as nigromancias do Piaya.

É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes idolos nas collecções etnographicas, que então começou-se a fazer.

Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio do Amasonas, João Mocquet, o guarda das curiosidades do Rei, percorreo essas praias, e seria de rara felicidade para a archeologia americana si elle encontrasse alguns dos idolos de que falla o padre Ivo.

103 (pag. 271).

É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação das ceremonias, que entre os christãos viram os _Tupinambás_.

Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida confissão auricular de que falla o autor um pouco mais adiante.

Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, que tenha relação com tal costume.

104 (pag. 272).

Parece á primeira vista ter recebido este _piaga_, tão influente, um nome francez: assim porem não aconteceu.

Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamado _Pacquara-behu_ «barriga d’uma paca cheia d’agoa». _Pacamont_ pode significar a «paca agarrada na armadilha», (_Pacamondé_).

O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região das plantas leitosas», e escreve-se _Cumá_.

105 (pag. 280).

Vatable ou Vateblé era um celebre sabio na lingua hebraica, no seculo XVI, restaurador na França dos estudos orientaes.

Morreo em 1547.

Suas notas sobre o antigo testamento acham-se na Biblia de Robert Etienne.

106 (pag. 282).

Prova-nos esta phrase ter o Padre Ivo escripto sua obra na Europa, e saber da missão dirigida pelo Padre Archangelo.

Affirma Marcellino de Piza terem 565 indios recebido o baptismo n’esta segunda expedição religiosa. (Vide _Annales historiarum ordinis minorum_. Lugd. 1676 in fol.)

O Padre Archangelo, acompanhado por 12 confrades, portador de magnificos ornamentos bordados pela Duqueza de Guize devia por certo cercar-se de outra pompa, que não tiveram os quatro Geraes Capuchinhos, que deram principio á missão.

Graças aos documentos, que nos são proporcionados pela marinha, e que devemos ao obsequio do Sr. P. Margry, soubemos por uma carta inedicta do Sr. de Beaulieu a Mr. de Razilly, que o Padre Archangelo, muito conhecedor do valor do dinheiro abstrahindo o seo voto de pobresa, não quiz embarcar-se antes de lhe haverem dado a esperança de conseguir subsidios.

Apesar dos recursos, de que dispunha o seo chefe espiritual, ainda está por fazer a historia d’esta segunda missão: não deixou até vestigios, e ficará para sempre ignorada em quanto não descobrirmos o livro de Francisco de Bourdenare.

Sabemos apenas que muito mais favorecido, que Ivo d’Evreux, por seos superiores, recebeo, graças ás suas cartas de obediencia, o direito de admittir noviços em seo Convento.

Não teve tempo de utilisar-se de tal privilegio, mas quando regressou á Europa, em recompensa do seo zelo foi em 1615 nomeado Guardião do grande Convento da rua de Santo Honorato.

Todos estes factos, omittidos naturalmente pelos historiadores do Maranhão, acham-se referidos nos _Éloges historiques_, manuscripto da Bibliotheca Imperial, e seria injustiça esquecer serem elles tambem narrados pelo Padre Marcellino de Piza.

Depois de haver contado como o Geral dos Capuchinhos Paulo de Caesena deo licença á Honorato de Pariz, então Provincial, para mandar á America uma segunda missão, disse:—«_Ille nihil cunctatus, duodecim fratres ad hanc expeditionem, aptos elegit quorum animosa phalanx navem conscençâ secedens in Indiam, a barbara illa natione jam capucinorum placidis moribus assueta per humaniter fuit excepta_.»

Na entrada dos portuguezes o Padre Archangelo de Pembroke retirou-se com os Capuchinhos francezes ficando em lugar d’elles os Franciscanos, que em numero de vinte se recolheram ao Mosteiro.

Sob a direcção de Frei Christovão Severino teve então o Convento nova regra.

Foram as bases lançadas em 1624 porem só foram cumpridas pontualmente em 4 de Agosto do anno seguinte.

Abstemos-nos porem de offerecer ás vistas do leitor as desgraçadas peripecias, porque passou este Mosteiro durante 225 annos: basta dizer, que no fim de um seculo estava quasi reduzido a ruinas.

Em 1860 o actual Guardião, que tinha sob seo governo somente dois franciscanos, mas que soube felizmente captar as sympathias dos habitantes de São Luiz, recorreo á caridade publica afim de concertar-se como merece este edificio, a que se ligam interessantes recordações do paiz.

A Ordem é actualmente muito pobre, porem offerece grande contraste, segundo é voz geral, quando em seo zelo é comparada com outros Conventos[BL] opulentos da Cidade, que estão se arruinando.

Não foram em vão as supplicas de Frei Vicente de Jesus, pois elle arrecadou grandes quantias, que chegaram para reparar os estragos do tempo.

Conservando a humilde Capella, onde orou o Padre Ivo d’Evreux, fizeram-se novas edificações que tornaram a Igreja de Santo Antonio a mais linda de tão bella Cidade.

107 (pag. 301).

É mui curioso vêr aqui o Padre Ivo d’Evreux fazer uma especie de allusão á antigas crenças d’esses povos, as quaes Thevet, ou talvez o Cavalheiro de Villegagnon tinham guardado desde 1555, e que parece ser ignoradas pelos nossos viajantes do Seculo XVI, pois não tratam d’ellas em suas narrações.

Uma nota, mesmo concisa nos levaria muito longe, e vêr-nos-iamos forçados a chamar a attenção do leitor para um opusculo, no qual reunimos tudo o que podemos encontrar á respeito das ideias mythologicas dos Tamoyos e dos Tupinambás. (Vide sobre os _Maraïta—Une fête bresilienne célébrée à Rouen em 1550 suivie d’un fragment du XVIme siécle roulant sur la Théogonie des anciens peuples du Brésil_. Paris, Techener, 1850 gr. in 8.º)

108 (pag. 301).

A legenda brazileira de geração em geração transmittio a narração das perigrinações de dois prophetas, bem distinctos, igualmente estimados por esses selvagens, que os chamou _Tamandaré_ e _Sumé_.

Como Boudaha, deixou o ultimo impressas as suas pegadas sobre a rocha viva, quando deixou a terra.

O mytho de Tamandaré, que se lê na descripção do diluvio americano, é contado extensamente por Vasconcellos nas suas _Noticias do Brazil_, pag. 47 e 48.

Ahi se lerá como o Noé americano subindo ao cume de uma palmeira, que tocava com o seo vertice o Ceo, e agarrando d’ahi sua Familia poude salval-a, e com ella repovoou a terra.

Na phrase aqui citada, Ivo d’Evreux alludio ao legislador mais moderno, Sumé, este Triptolémio brazileiro, que ensinou a cultura da mandióca aos descendentes de Tamandaré.

Simão de Vasconcellos diz mui positivamente, que «havia entre elles tradicção muito antiga, transmittida de paes a filhos, dizendo haverem apparecido, muitos seculos depois do diluvio, homens brancos n’estas terras, que fallavam aos povos de um só Deos e de outra vida. Um d’elles chamava-se _Sumé_, que parece quer dizer _Thomé_.»

Preferindo a tradicção, que dá a São Bartholameu a honra de haver evangelisado os povos longiquos, provou com isto o Padre Ivo o seo conhecimento das origens.

Com effeito, segundo diz Eusebio, chegou este Apostolo viajante até a extremidade das Indias, São Pantene percorreo o interior da Asia desde o III seculo, e ahi já achou vestigios do christianismo, que bem se podiam attribuir ás prédicas de Sam Bartholameo.

Prevaleceo comtudo no Brasil a legenda em contrario, como a outra na India. (Vide _Jornada do Arcebispo de Goa dom Frei Aleixo de Menezes, quando foi ás serras de Malauare, lugares em que moram os antiguos christãos de S. Thomé_. Coimbra, 1606, in fol.)

No tempo de Vasconcellos bem visiveis eram os signaes dos pés de S. Thomé, ao norte do porto de S. Vicente, perto da Villa.

Estes signaes de dois pes nùs por maravilha impressos na rocha (_tão vivos e expressos, como si em um mesmo tempo juntamente se fizeram_) não eram vistos debaixo d’agoa.

O religioso franciscano Jaboatam achou no Recife, em Pernambuco, pegàdas santas.

N’esta segunda edicção da legenda, somente apparece um pé como o de um menino de 5 annos, que suppõe ser o piedoso narrador o de um jovem companheiro do Apostolo. (Vide _Novo Orbe Serafico_, reimpresso ultimamente pelos esforços do _Instituto Historico e Geoqraphico do Rio de Janeiro_.)

Não se encontram esses afamados signaes somente em diversos pontos do littoral, e sim em outros lugares, o que seria enfadonho enumerar.

Não contentes ainda com isto fizeram com que o santo viajante se embrenhasse corajosamente pelo interior do Brasil, onde em caracteres gigantescos sobre pedras ou rochas escreveo a historia da sua missão.

Ha em Minas uma aldeia, a que se deo o nome chamando-a _Sam Thomé das Lettras_.

Um observador circumspecto, o general Cunha Mattos, não vio taes inscripções, e combateo a tradicção dizendo que esses traços phantasticos, que se observam n’um dos lados da _Serra das lettras_ foram formados por accidentes de terreno, isto é, por dendrites, para servir-me de suas expressões. (Vide _Itinerario do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão_. Rio de Janeiro. 1836. 2 vol. em 8.º T. 1.º pag. 63).

Dura até hoje esta opinião sobre a gigantesca inscripção da _Serra das lettras_, e acredita-se actualmente serem devidos a infiltração de particulas ferruginosas obrando sobre o grão da serra, e por est’arte simulando caracteres escriptos.

No Brasil são muitos os hieroglyphos grosseiramente embutidos, e ninguem duvida serem devidos á origem indigena. Muitas obras nos mostram os seos _fac-simile_.

A grande viagem pitoresca de Mr. Debret tem dois, que não deixam de ter interesse.

Fallamos da inscripção do monte de _Anastabia_, e das esculpturas embutidas n’uma rocha, que se encontra perto das margens do rio Yapurá, na provincia do Pará, bem pode ser que as palavras do Padre Ivo se refiram á este monumento, grosseiramente trabalhado, e de que trata Mr. Debret na pag. 46 do seo T. 1º, porem em alguns não acha a mais prevenida imaginação bases para assentar uma opinião historica ou religiosa.

Pelo que se refere _ás rochas incisadas_, de que falla o nosso bom frade, é tradicção geral em toda a America, que estes accidentes, resultados de grandes commoções da natureza, são sempre explicados pela legenda indigena, que os attribue ao supremo poder de um semi-Deos, que, a sua vontade, quebra as montanhas mais resistentes ao trabalho do homem e, algumas vezes, até os mais gigantescos.

Em Nova-Granada o salto de Tequendama não teve outra origem, pois foi feito, como se sabe, pelo grande Bochica: poderiamos tambem citar a abertura feita no _recife_, que margina o littoral de Pernambuco, e que se attribue ao grande Sumé, ou ao seu representante christão, o Apostolo viajante. (Vide Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, _Novo Orbe Serafico Brasilico_, ou _Chronica dos frades menores da provincia do Brasil_. 2.ª edicç. Rio de Janeiro. 1858.)

Jaboatão escreveu em 1761.

109 (pag. 311).

Tinha este chefe indigena um nome bem conhecido na ornithologia do Brasil. O _Jacupema_ é o _Penelopsupereiliaris_ uma das melhores caças do Brasil.

110 (pag. 334.)

Na familia dos Foulon, de que gozava muita consideração em Abbeville, tinham muitos dos seos membros se dedicado á vida monastica.

O padre Marçal esteve em Pariz com seo irmão o padre Claudio; este ultimo, cujo artigo está tão cheio de erros na biographia universal, era ja guardião do convento na sua patria desde 1608, mas, como o padre Ivo, começou o seo noviciado em 9 de junho de 1595.

A bibliotheca do Arsenal possue um opusculo, hoje raro, do padre Claudio, cujo titulo é—_L’arrivée des Pêres Capucins et la conversion des sauvages a nostre sainte Foy déclarés par le R. P. Claude d’Abbeville, prédicateur capucin à Paris_, chez Jean Nigaut, rue de St. Jean de Latran, em 1613. Pode comparar-se este escripto com o artigo intitulado—_Retour du sieur de Rasilly en France et des Toupinambous qu’il amena á Paris._ _Mercure française_. T. 3, pag. 164. _L’histoire chronologique de la bienheureuse Colette, réformatrice des trois ordres du Seraphique Pere St. François._ Paris. Nicolas Buon, 1628, em 12: não é do padre Claudio, como suppõe Eyriés. A dedicatoria tem a assignatura de Fr. S. d’A, indigno capuchinho. Já tinha morrido Claudio d’Abbeville quando appareceo esta obra. Depois de ter 23 annos de religião, falleceo em Ruão em 1616 e não em 1632.

111 (pag. 335).

Leia-se _Plymouth_: Claudio d’Abbeville escreve _Pleme_.

112 (pag. 335).

Trata-se aqui do _Rio do Ouro_.

113 (pag. 336).

Difficilmente por este nome se sabe ser a _Ilha de Fernão de Noronha_, e não _Fernando de Noronha_, como escreve alguns geographos.

Está a 75° long. E. N. E. do Cabo de Sam Roque, e na lat. de 3° 48, á 52′. Explica-se esta alteração de nome pela sua visinhança do Cabo de Sam Roque.

Alguns viajantes antigos escreveram _Fernando de la Rogne_: n’esse caso está o padre Claudio.

114 (pag. 337).

Omittio o padre Claudio d’Abbeville esta ultima circumstancia.

115 (pag. 339).

Leia-se _Tupan_ em vez de _Iupan_. Quanto a palavra Matarata, que ahi se lê, não se pode entender pelo adjectivo _Mbaraeté_, que significa—_forte_. Parece estar sob esta significação no _Tesoro de la lingua Guarany_, do padre Ruiz de Montoya.

116 (pag. 341).

O capitão du Manoir estava ha muito tempo estabelecido na Ilha, onde tinha muitas relações.

Foi elle quem hospedou os Missionarios, e lhes offereceo uma festa «tão magnifica como podia ser em França» disse o padre Claudio, a qual assistiram os Srs. de Rasilly e Pezieux. Foi da sua habitação que partiram os nossos para tomar posse do lugar, onde se edificou o _Forte de Sam Luiz_. Regressou á França antes de ser o Maranhão tomado pelos portuguezes.

Quando evacuaram as nossas forças navaes o porto do Maranhão, muitos francezes não seguiram o exemplo de Manoir, e se estabeleceram na nova Colonia, onde só foram permittidos artistas.

Erraria quem suppozesse ter sido abandonada a missão fundada com tanto zelo pelos nossos Religiosos: sem a menor alteração foram incumbidos d’ellas os Franciscanos: a este respeito achou-se tudo quanto podia desejar-se no _Orbe Seraphico_ do padre Jaboatão.

Contem este resumo uma longa biographia de Frei Francisco do Rosario, frade celebre na Ordem de Sam Francisco, que tomou posse do Convento dos Capuchinhos perto de dez annos depois, que estes o abandonaram de todo.

Embrenhava-se muitas vezes este zeloso Missionario nos desertos desconhecidos do Maranhão, onde ia cathequisar os indios.

Em 1630 compôz uma obra aproveitavel sobre as tribus que visitou. Infelizmente nunca foi publicada, e o seria se fosse encontrada, como precioso commentario á obra do padre Ivo.

Cansado por seos trabalhos, cuja multiplicidade espanta até a imaginação, foi para a Bahia, onde revestido das dignidades da ordem falleceo com cheiro de santidade em 24 de fevereiro de 1650.

Afirma-se haver elle predicto muitos annos antes os grandes acontecimentos politicos, que, produzindo a expulsão da Hespanha, dava independencia ao Brasil.

Parece que vio-se obrigado a reconstruir em 1625 os edificios que deixaram em começo os nossos Religiosos, e por isso foi elle em Sam Luiz julgado como o primeiro fundador do Convento da sua Ordem.

Vamos ainda dizer uma palavra para acabar estas notas. Serão ellas ainda um dia completadas pelo trabalho, que ha de preceder a _Relação do Padre Claudio d’Abbeville_, e si se quizer, o podem ser ja, consultando se varias obras francezas contemporaneas, absolutamente despresadas, sob este ponto de vista, pelos historiadores da America. N’este caso, entre outros, está o padre Pedro du Jarric, pois, na verdade, ninguem pensaria achar n’uma _Historia das Indias orientaes_ todos os factos religiosos, acontecidos em Maranhão antes de 1607.

Consultando-se o 5.º volume d’esta volumosa obra, encontra-se a tragica historia dos padres Francisco Pinto e Luiz Figueira, jesuitas portuguezes, os primeiros que visitaram os desertos desconhecidos, cujo littoral occuparam os francezes.

Francisco Pyrard, o viajante Belga, residente na pequena cidade de Laval, nos contou tambem na sua _Relação das Indias e especialmente das Ilhas Maldivas_, o que na Europa se pensava do Brasil no tempo, em que viveo o padre Ivo. Não trata do Maranhão, e bem o podia fazer.

Deve ainda dizer-se que esta bella provincia, conhecida mais pela obra de Mr. Herald do que por outras antigas, ficou por muito tempo fóra da toda a vida politica.

Doada a principio aos filhos de José de Barros, o famoso historiador das Indias, só foi conhecida na Europa por uma lastimavel catastrophe, pois era esquecida apesar da fertilidade e da magnificencia da sua vegetação.

Apparece comtudo n’um dos monumentos geographicos mais importantes, onde se verificou o que era o Brasil no seculo XVI: queremos fallar da bella _Carta_ de Gaspar Viegas, que tem a data de outubro de 1534, hoje na Bibliotheca Imperial de Paris.

Nenhum historiador até hoje ainda a mencionou, apezar de sua exactidão tão admiravel para aquelles tempos e ainda continuaria a ser esquecida se o Sr. de Cortambert não nos fizesse o favor de communicar-nos a sua existencia.

Sentimos muito praser recordando-nos, que este bello trabalho do desconhecido geographo vae de hora em diante ligar-se ao mais vasto e ao mais exacto reconhecimento das costas do Brasil, que tem podido obter a sciencia n’estes ultimos tempos, e d’ella fará objecto de especial estudo o Sr. capitão da fragata Mouchez na sua grande obra nautica a respeito do littoral do Brasil.

Deviam acabar aqui as notas indispensaveis para conhecer-se na França e mesmo na America o texto do nosso velho viajante.

Accrescentaremos apenas uma palavra, talvez indispensavel para comprehender-se o valor do documento por nós exhumado.

O padre Arsenio de Pariz, o fiel companheiro do padre Ivo d’Evreux, disse em 1613 ao Superior do seo Mosteiro á proposito das regiões, por onde evangelisou, o seguinte: