Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 32
As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir as formigas, e activar a caça d’estes insectos, não o faziam somente para destruil-as, ou para resguardar suas plantações de milho de uma invasão invencivel.
As formigas grandes torradas eram consideradas como uma das golodices mais preciosas, cuja receita foi por ellas ensinada a alguns colonos do Sul, e sem duvida não será desputada pelos nossos modernos Brillat Savarin.
Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados em sal ou pela dissecação, e os Guaraons das margens do Orénoco apreciam muito as larvas da palmeira Muriti (não fallando de outra comida da terra do mesmo genero), assim tambem os nossos selvagens guardam grandes provisões d’estes insectos para sua nutrição.
Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que percorreo o Brasil, achou ainda em vigor o costume de se comer formigas assadas.
Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar no Espirito Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre rivaes dos da Cidade da Victoria, os chamavam _Tata Tanajuras_, «comedores de formigas», accrescentou «eu mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por uma mulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (Vide _Le second voyage au Brésil_. T. 2.º pag. 181).
Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio de Tours dos Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito que os indios tiravam das formigas como alimento.
Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois de haver fallado da especie grande, a que chamam Içans, escreveo—«_E estas formigas comem os indios, torradas sobre o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns homens brancos andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, e o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas de Alicante: e torradas são brancas dentro._»
71 (pag. 156).
O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, está muito longe da raça canina: é apenas o _papa-formigas_, chamado pelos indigenas _tamanduá_, e pela sciencia _Myrmecophaga jubata_.
O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou os quadrupedes do novo mundo nos proprios lugares, onde com plena liberdade se entregam aos seos instinctos, fez excellente descripção d’este animal.
Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima a chamada pelos portuguezes _Tamanduà-cavallo_: parece ter sido este sobrenome o causador de haver o padre Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser o _papa-formigas_ do tamanho de um cavallo.
A palavra india, que designa este curioso animal, é composta de duas Tupis—_taixi_, «formiga,» e _mondê_ ou _mondâ_, «tomar.»
72 (pag. 157).
Deve escrever-se _Taranyra_, cujo nome pertence a um pequeno lagarto. Falla-se aqui do _Tiú_ (_Tupinambis monitor_).
É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer para tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada pelo Padre Ivo d’Evreux.
A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não é de fórma alguma partilhada pelos descendentes dos Europeos, acostumados ás melhores mezas.
A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se á da gallinha mais preciosa, e por isso apparece nas melhores mezas do Brasil.
73 (pag. 162).
O nosso autor quer fallar da _Aranha caranguejeira_, (_Aranea avicularia_) porem aqui enganou-se. Exagera muito as dimensões d’este insecto, na verdade nojento, como se pode vêr em todas as collecções de entomologia. Não é verdade dizer-se que não fabricam fios para suas teias: a sua picada não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-se _Nhandu-Guaçu_ ou de _Jandu_.
74 (pag. 163).
O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota gosto de observação na historia natural, muito raro n’aquella epoca, mas convem não confundir a cigarra brasileira com o insecto assim chamado na Europa.
75 (pag. 165).
Na lingua _Tupi_ escreve-se _Okiju_. (Vide _Martius_, _Glossaria ling. bras._ pag. 465).
76 (pag. 168).
Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo contemporaneo o Padre du Tertre.
É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dos _pyrilampos_.
A entomologia estava então muito pouco adiantada para que houvesse uma classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher esta falta. Actualmente conhece-se no Brazil oito especies de pyrilampos a saber:
_Lampyris crassicornis_, _ « signaticollis_, _ « concoloripennis_, _ « fulvipes_, _ « diaphana_, _ « hespera_, _ « nigra_, _ « maculata_.
Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos a _lucidota thoraxica_.
77 (pag. 169).
É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: eis o que diz um observador sabio e veridico.
Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as abelhas não picavam, disse Augusto de Saint Hilaire «uma especie chamada _tataira_ deixa, segundo dizem, escapar pelo anus um liquido ardente; e por isso é só á noite que se colhe o seo mel.»
As especies chamadas _uruçú-boi_, _sanharó_, _burá_, _bravo_, _chupé_, _arapua_ e _tupi_ se defendem, quando são atacadas, mas parece não terem aguilhão, limitando-se a morderem como fazem as outras.
É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera tem a côr parda muito carregada, não se podendo até hoje conseguir tornal-a branca, como a da Europa.
Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes uteis insectos, que completam as do nosso grande botanico. (Vide _Voyage dans les provinces do Rio de Janeiro e de Minas Geraes_. T. 2.º, pag. 371 e seguintes.)
78 (pag. 176).
Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior variedade de macacos do que o Brazil.
Creio que aqui se trata primeiro da _guariba_, ou _mycetes ursinus_, e depois do macaquinho _stentor_, que intentou descrevêr o nosso bom Missionario.
É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel e tão animada, feita pelo nosso velho escriptor.
Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de uma crença popular muito vulgar no seculo XVI.
Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel aos macacos da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, não se extinguio ainda de todo nos campos da America Meridional, e mostraram a M. Castelnau uma india, que julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das florestas (Vide _Expedition dans les parties centrales de l’Amérique du sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au Pará, exécutée par ordre du governement français_. Paris 1851, _partie historique_. 5 vol. in 8.º)
79 (pag. 177).
Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos para conhecer-se a exactidão do que escreveo o Padre Ivo.
80 (pag. 180).
Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.
O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave de rapina (pag. 232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento do que a aguia, ter a perna da grossura de um braço, e a pata em fórma de unhada.»
Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe esta ave na America do Sul.
Diz o Coronel Ignacio Accioli ter o _gavião real_ tanta força a ponto de fazer parar em sua carreira um viado por mais forte que seja.
É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira vista se pode applical-a ao abestruz americano de _Nandú_, que se encontra somente no Ceará e Piauhy.
Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes citado, restabelece a verdade fallando do _Ura-açu_ disse «são passaros, como os milhafres de Portugal, sem differença alguma, negros e de azas grandes, de cujas pennas utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e vivem de rapina.» (Vide _Tratado descriptivo do Brasil em 1587_. Rio de Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)
Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista scientifico a parte ornithologica é muito imperfeita, embora a bellesa do estylo do nosso velho viajante.
O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, ou do colibri, é inteiramente inexacto, pois elle não tem o tal canto agudo, que faz lembrar o grito da cotovia.
Confundiram-se as recordações com a distancia.
81 (pag. 181).
Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios se _fazem galans_, preparando-se com pennas de papagaios.
Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, diademas e perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas as pennas pequenas e coloridas d’estes passaros, e cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle grudavam-na com certa gomma.
Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é muito usado e apreciado em certas tribus.
Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos.
A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra.
82 (pag. 185).
Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram a palavra _bastar_.
83 (pag. 185).
Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão cheio de bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo cemiterio do pequeno Convento não é sabida em Maranhão.
Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre Ambrosio na Capital da Picardia, «de parentes abastados, diz o manuscripto dos elogios, e que lhe deram educação conforme permittiam seos negocios.»
Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava prestes a receber a sua carta de licenciado, foi abalado pelas prédicas do Padre Pacifico de São Gervasio, e entrou no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do Mosteiro de Santo Honorato.
Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou a preencher as obrigações de irmão leigo.
Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de caridoso, que o fez tão popular.
Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter todas as Indias», diz a noticia a elle dedicada.
O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades quando emprehendiam viagens tão incommodas principalmente n’aquelle tempo.
Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em 26 de setembro de 1612 cahio doente, em sua pobre cabana de pindoba.
Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de receber a extrema uncção, conservou em bom estado e sempre firme o uso de suas faculdades intellectuaes.
Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual foi o fim de tão bom velho.
Claudio d’Abbeville assim o conta:
«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. Pedro, pendurado por cima de sua cama, e a que dedicava profunda devoção, elle disse—vamos, grande Santo, partamos, ja que vieste buscar-me.—
«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia restituio ao Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de 1612, dia da festividade do Glorioso Apostolo de França, S. Diniz, Bispo de Pariz:
«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado ao nosso Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos Francezes.» (Vide tambem «_Éloges historiques de tous les illustres religieux capucins de la ville de Paris, les uns par la prédication, les autres par les vertus et sainteté de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les infidelles etc. etc._ sob numero _Capucin_ Saint Honoré 4 (ter).)»
É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns annos o 1.º vol. d’esta importante collecção, contendo os Annaes da Provincia.
84 (pag. 186).
Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, com que se espalhou na Europa o _avati_, dos brasileiros, o _milho_ dos ilheos visto, bem como o tabaco, por Christovão Colombo na primeira viagem em 1493.
Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, sobre a origem primitiva do milho.
Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um viajante, que por seu saber pode passar por authoridade.
Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, onde o vio em estado inculto.
A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva por excellencia, e prepara-se sua farinha por processos simples, e que dão optimo gosto.
Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo quanto se refere á esta graminea para o precioso livro do Dr. Duchesne—_Traité complet du maüs ou blé de Turquie_. Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a grande obra de M. Bonafous.
85 (pag. 187).
Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que ao norte do Brasil se possa fazer vinho.
O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento do fructo sob os tropicos.
No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se grande numero de verdes.
È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da Bahia.
Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, a uva amadurece perfeitamente, e dá vinho precioso. (Vide, entre outras viagens a respeito d’este ponto curioso de agricultura americana—_Sallusti_, _Storia delle missione del Chile_. 4. vol. em 8.º Padre Barrére. _Nouvelle Relation de la France equinoxiale_. Paris, 1743. 1º vol. em 12, pags. 53 e 54.)
86 (pag. 187).
Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de uma especie de Ananaz. (_Ananas non aculeatus_, _Pitta dictus Plum_.)
Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas como as de seda.
87 (pag. 191).
Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão de Villemain.
Podemos affirmar, que se deve escrever _hansares_—que significa—uma foice de grande tamanho.
88 (pag. 192).
Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. É expressão do povo, confundida no Diccionario da Academia com a palavra—_renâcler_ «roncar» usada trivialmente no stylo familiar.
89 (pag. 194).
São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de indios.
Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração e no encanto das particularidades, senão um só viajante portuguez á Ivo d’Evreux e á Claudio d’Abbeville, e é aquelle cujo nome acabamos de proferir.
Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á ordem dos jesuitas.
Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas as dignidades até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento dos francezes ao Norte do Brasil, e certamente na Bahia soube de sua expulsão, e sobre isto infelizmente nada disse.
Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre Ivo d’Evreux.
Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se os indios ao christianismo, perdendo sua grandeza primitiva e conservando a maior parte dos seos usos.
O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, que combatem pela sua independencia contra seos conquistadores.
Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera indulgencia e admiração para com os povos ainda na infancia, aos quaes pregaram, e cuja prévidencia é o seo maior e mais terrivel defeito.
As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas pelo incansavel autor da _Historia geral do Brasil_.
O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome n’esta preciosa publicação, honra que aqui lhe restituimos, e a que tem direito como homem de saber e gosto.
O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo de _Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, Ilheos etc etc._—_Lisboa_, 1847, em 8.º de 123 paginas.
Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem preciosas informações á respeito de Cardim e dos missionarios contemporaneos do Brasil n’um escriptor de Toulon por nome Jarric. (Vide _La 2me partie des choses plus memorables advenues tant aux Indes orientales que autres pays de la découverte des Portugais en l’establissement de la foi chrestienne et catholique etc. Bordeaux 1610_ em 4.º É dedicado a Luiz XIII. O que n’este livro se refere ao Brasil, e particularmente ás regiões visinhas do Maranhão, acha-se na pag. 248 até 359.)
Morreo o padre du Jarric em 1609.
Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia em 1615.
Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada em 4 vol. em 8.º
90 (pag. 194).
Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido a narração de André Thevet, publicada em 1558, e nem a viagem mais recente de João de Lery, cujas opiniões religiosas deviam afastal-o d’essas obras.
Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente nota-se a similhança das narrativas.
Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que lhe fizeram os Tupinambás.
Descrevendo as ceremonias, que fazem os _Tuupinambaults_ para receberem seos amigos, que os vem visitar, merece dizer-se em primeiro lugar, que apenas chega o viajante a casa do _Mussacat_, isto é, do bom pae de familia, dá de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher para seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer aldeia, por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se não é procurado immediatamente. Assenta-se depois n’uma rede onde fica por algum tempo em silencio. Vêm depois as mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos com as mãos deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em occasião apropriada.
Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és bom, e valente: si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, accrescentam—trouxestes para nós tão bellas obras, como aqui não temos, e immediatamente derramam muitas lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam.
Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as finezas, dizendo de sua parte coisas agradaveis, não querendo porem chorar, (como eu sei alguns dos nossos, que vendo as maneiras d’essas mulheres perante elles, foram tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento exhalar alguns suspiros.
Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, entra depois o _mussacat_, isto é, o velho dono da casa, que fingirá durante um quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta ás nossas embaixadas, cumprimentos e apertos de mão á chegada dos nossos amigos). Chega-se depois onde estaes, e diz _ereiubé_, isto é, chegaste? etc. etc. (vide _Jean de Lery, istoire d’un voyage en la terre du Brésil_. Rouen, 1578, em 8º, 1ª edicção.)
91 (pag. 195).
Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo o nome de «_sapo boi_.»
Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se uns sapos muito grandes a que chamam _cururu_. Alguns ha que tem mais de um pé ou pé e meio de diametro: quando são esfolados, é impossivel dizer-se quam branca é a sua carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos francezes comel-a com apetite.
92 (pag. 203).
Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa a _Sumé_, o legislador dos Tupys.
No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem publicou o Sr. Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada á Ilha do Maranhão, e como desappareceo na occasião, em que se preparavam todos para sacrifical-o.
A palavra—_Maratá_—nos põe em embaraços, pois debalde a procuramos em Ruiz de Montoya: é alteração da palavra _Mair_ ou _Maïr_, tantas vezes empregada por Lery e Thevèt, para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou uma pessoa extraordinaria. Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado.
Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac dos peruanos, e ao Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma da America Central. (Vide Adolpho de Varnhagem, _Historia geral do Brasil_. T. 1º pag. 136, e _Sumé. Lenda mytho-religiosa americana etc. agora traduzida por um Paulista de Sorocaba_. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.)
93 (pag. 205).
O verbo _cantar_ na linguagem tupy é _Nheengar_. Um _Nheengaçara_ é um cantor propriamente dito.
94 (pag. 220).
Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados n’este lugar aos Caraibas.
Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão a chave d’este enigma. Os Caraibas do continente americano, nação immensa, eram notaveis em toda a America pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos feiticeiros os elevavam acima de todas as outras nações: eram no Novo Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão de Vasconcellos nos dá a prova d’esta supremacia intellectual: no sul do Brasil os _Caraibe-bébé_, eram feiticeiros ou advinhadores notaveis: assim se chamavam os homens intelligentes, os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros. O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome de _Carayba_ foi em seo principio dado aos Europeos, sendo todos os Christãos assim chamados. (Historia geral, pag. 312.)
95 (pag. 220).
Um _Caramémo_ é que se chama em Guyana um _Pagará_, isto é, um paneiro leve, feito com folhas de certa palmeira e ás vezes com bonita forma.
Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo os utensilios de uma casa indigena. Barrère fez desenhar este lindo _Specimen_.
96 (pag. 226).
Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em voga no seo tempo, não se esqueceo de uma graciosa alegoria na qual figura o Unicornio. Vide _Le Monde enchantée_, e especialmente a dissertação intitulada _Revue de l’histoire de la Licorne par un naturaliste de Montpellier_. (P. J. Amoreu.) Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags.
97 (pag. 239).
É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam os Tupinambás.
_Pero_ quer dizer _cão_ na lingua de Camões, mas suppõe-se que o nome—_Pedro_—muito usado no Brazil, provinha de tão estranha designação.
Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, recorrendo á tradicção, de como um serralheiro, chamado Pedro, fôra arremeçado pelas ondas, após um naufragio, ás praias do Maranhão. Graças a sua habilidade no trabalho do ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer conhecidos os individuos, que se julgavam ser da sua raça.
Em sua _Corographia_ o Dr. Mello Moraes escreveo esta _legenda_ muito mais completa.
98 (pag. 242).
Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão grammatical—esta parte do livro.
Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre tudo pela pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. Nada é mais dificil do que traduzir pelos caracteres da nossa escripta os sons das linguas indigenas. Essas inflexões tão delicadas, e as vezes tão fugitivas, em sua apparente rudeza são dificultosamente ffixadas no papel. Notou Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres physicos das raças.
As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, não percebiam da mesma fórma os sons, e nem os escreviam da mesma maneira: quando os portuguezes ouvem _Oca_, por exemplo, ou então _Toba_, o francez percebe _Oc_ e _Tob_, e quando aquelle ouve _Murubixaba_ este percebe _Muruvichave_. Deixa a differença de ser grande quando são as palavras pronunciadas conforme o genio de cada lingua.
A palavra _Tupinambás_, como se acha escripta no principio d’esta nota, (_Tobinambos_) equivale absolutamente pelo som na lingua portuguesa á palavra _Tupinambus_, como a pronunciavam os contemporaneos de Malherbe.
Para a historia da linguistica não é sem interesse esta curta doutrina christã, podendo ser comparada com certas obras do mesmo genero, escriptas por penna portuguesa, estando n’este caso, entre outras, os canticos religiosos em lingua tupy por Christovão Valente, os quaes incluí no opusculo—_Une fête brésilienne_. Pariz. Techener, 1850.
Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só exista na Bibliotheca Imperial.
Reproduzimos aqui seo nome—_Cathecismo brasilico da doutrina christã, com o ceremonial dos sacramentos e mais actos parochiaes. Composto por padres doutos da Companhia de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre Antonio de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda impressão pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma Companhia_, Lisboa, na officina de Miguel Deslandes 1861, em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618.
Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo procurando os seguintes manuscriptos, citados por Barbosa Machado, e que seria coisa curiosa si fossem publicados.