Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 31
Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, aqui offerecida pelo nosso missionario.
Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia americana, despresaram sem duvida esta collecção de frases, provenientes d’uma lingua, que comtudo servio de recreiação á Boileau: o mesmo não acontecerá n’um vasto Imperio, onde as letras são hoje tão honradas.
Ha muitos annos já, que o Autor da _Historia Geral do Brazil_ provou a importancia do estudo das linguas indigenas n’uma _Memoria_ impressa entre as actas do _Instituto Historico do Rio de Janeiro_. (Agosto 1840.)
O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira grammatica, conhecida, da lingua geral, não fallava o Tupy sem uma especie de enthusiasmo; o padre Figueira o imitou em sua sincera admiração; Laet, com quanto não manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e nisto foi seguido por Bettendorf.
Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo quem melhor fez sobresahir sua importancia debaixo do ponto de vista philosophico.
«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que a fallaram, tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de objectos, todos necessarios embora á seo modo de vida, podessem conceber signaes representando idéas, capazes de indicar o objecto, que não conheciam antes, e isto não de qualquer forma, e sim com propriedade, energia e elegancia», accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a não ser da natural, encontraram em sua propria lingua expressão para patenteiar toda a sublimidade dos mysterios da religião, e da Graça, sem pedir emprestado coisa alguma aos outros idiomas.»
Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje esquecida a lingua usada entre tribus numerosas quando em 1500 Pedro Alvares Cabral descobrio o Brasil.
Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais tambem ainda hoje se falla n’algumas aldeias, tendo estreita affinidade com o _Guarany_, lingua usada na mór parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo XVI.
Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança dos idiomas dos povos civilisados, e ainda mais talvez quando uma corrente de ideias novas vem desvial-os da liberdade do seo andar.
O _Maya_, o _Quiché_, o _Aztéco_, o _Quichua_, o _Aymara_ não são o que foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro.
Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, confrontar a differença enorme, que apresenta o Nahuatl antigo com o que fallavam muitas pessoas do seo tempo, imagine-se o que não succederia quando se fizesse a mesma confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno Guarany.
Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais fallada com a pureza da sua origem, segundo diz o Sr. Beaurepaire de Rohan, si não pelos _Cayuas_, das nascentes de Iguatiny.
São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da lingua antiga debaixo do ponto de vista grammatical.
Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, de Thevet, e de Lery tem mais valor do que as Relações de Claudio d’Abbeville e Ivo d’Evreux.
Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito no nosso opusculo publicado sob este titulo—_Une fête bresilienne célébrée á Rouen en 1550. Suivie d’un fragment du XVI siécle roulant sur la Théogonie des anciens peuples du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam Valente_. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º
O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario apresentado pelo padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. (Vide _The literature of American aboriginal languages_. London, 1857, in 8.)
Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos de tanto folego, merecendo o primeiro lugar os do illustre _Martius_.
Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, que já publicou em _Leipzig_ o _Diccionario da lingua Tupy_ (1858) foi de novo estudal-o nas profundas florestas do Amazonas.
A philologia brasileira ainda fará grandes progressos.
43 (pag. 94).
Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel o nosso viajante occupar-se largamente d’uma raça, que com os _Morobixabas_ representam o papel principal na vida civil e politica dos Brasileiros.
Simão de Vasconcellos nas suas—_Noticias do Brasil_—nada deixa a desejar a tal respeito, e para elle enviamos nossos leitores, observando apenas que os _Piayes_, os _Pagé_ ou _Pagy_ somente alcançavam a prodigiosa influencia, que gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão rigorosos a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o titulo, que tanto ambicionavam.
São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura do Orenoco até as do Rio da Prata.
Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, entregavam-no ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no de bebidas asquerosas, cuja base era o succo do tabaco, e algumas vezes defumavam-no a ponto de perder os sentidos.
Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos guerreiros.
Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamar _Collegio dos Piagas_, á similhança do _Collegio dos Druidas_, certas particularidades muito minuciosas, applicaveis principalmente ás Provincias do Sul.
No Norte os _Pages Aybas_ eram os feiticeiros afamados astrologos, ou melhor _tempestuosos_, a que nada podia resistir. Sob sua dependencia estavam os astros, e sob sua obediencia o sol e a lua para cumprir suas ordens: desencadeiavam os ventos e levantavam tempestades. Os mais ferozes animaes, como as onças e jacarés, obedeciam-no.
Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o Pagé Aybas a um meio, que nunca falhou, isto, é a _herva dos feiticeiros_ ainda mais poderosa do que a da Europa, o _Paricá_, cujos effeitos terriveis foram descriptos pelo Dr. Rodrigues Ferreira. (Vide _Memorias das Academias das Sciencias de Lisboa_.)
Mastigava-se o _Paricá_, e com isto fazia-se um unguento, uzado para uncturas.
44 (pag. 100).
Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: leia-se pois _rocou_.
Em toda a America Meridional costumavam os selvagens tingir a pelle de vermelho alaranjado, ou de negro azulado por meio do _rocou_, _Bixia Orellana_, ou _Genipapeiro_ (_Genipa Americana_.)
O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta arvore, em abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, e limpido que se extrahe della, fica muito negro logo depois da sua applicação, e assim conserva-se por 9 dias (Vide a este respeito _Humboldt_, _Voyage aux régions équinoxiales_.)
45 (pag. 101).
Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria designando pela palavra _Thon_ o que se chama _bicho de pé_, _niga_, _pulex penetrans_, dos entomologistas. Bem pode ser que a palavra seja da _lingua geral_. Encontra-se com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 (Vide _France antarctique_. pag. 90). È muito conhecido este insecto, e por isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo os males, que produz. (Vide entre outros Naturalistas, o veridico Auguste de Saint-Hilaire, _Voyage dans l’interieur du Brésil_. T. 1.º pag. 35 e 36).
46 (pag. 106).
Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre.
Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham sido exploradas em beneficio da sciencia.
Alem das _Plantas uteis do Brazil_, devidas ao nunca assás chorado Augusto de St. Hilaire, ha hoje a _Flora brasiliensis_ do illustre Martius, tambem autor da _Materia-medica_ deste paiz.
Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida nomenclatura de livros especiaes.
Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros concorrido para estes trabalhos scientificos, citando somente as _Memorias_ do Dr. Freire Allemão, recentemente publicadas, e a grande collecção, infelizmente não acabada, da _Flora Fluminensis_.
47 (pag. 108).
Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se não é a propria syphilis, tambem acha-se descripta na _France antarctique_ de André Thevet, livro publicado em 1558 (vide pag. 86). João de Lery tambem descreveo seos symptomas. Está claro, que não se pode attribuir aos negros de Guiné molestia tão geral entre os Americanos.
48 (pag. 114).
O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito dos funeraes dos Indios, e com elle concordam em tudo Lery e Thevet, dando este ultimo uma excellente estampa representando um Indio prestes a ser sepultado. (Vide pag. 82 v.)
49 (pag. 114).
Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas singulares previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, peixe, raizes de cará e de farinha de mandióca. É rigorosamente verdadeiro tudo o que o padre Ivo conta n’este capitulo, como se pode vêr nas estampas que apresentam Thevèt na _France antarctique_, e Lery na sua _voyage_.
50 (pag. 117).
Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do Maranhão, tinham cabellos cumpridos. Pertenciam á raça Tupy, pois que _Migan_, o interprete natural de Dieppe, entendia sua linguagem, e o mesmo succedia aos de Commã, cuja aldeia tinha indios com este nome.
Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente bellicosa occupando a maior parte do territorio de Pernambuco. Fallavam a lingua Tupica, ou _lingua geral_. Encontram-se as mais curiosas particularidades á respeito de sua organisação interna no _Roteiro do Brasil_, manuscripto existente na Bibliotheca Imperial de Pariz.
Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto em 1587 por Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, que existe sobre as diversas tribus do Brasil existentes no tempo do padre Ivo.
Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de Lisboa, reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suas _Noticias das nações ultramarinas_, e depois o Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem, colleccionando todas as copias d’esta mesma obra, embora sob diversos titulos, publicou uma nova edicção superior á todas, sob o titulo de _Tratado descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de Sousa, senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete annos, seo vereador da Camara_. _Rio de Janeiro._—1851 em 8.º
51 (pag. 118).
O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamente _requin_, quando na primitiva era _requiem_. Pode bem ser, que o nome imposto a este peixe tão voraz provenha da rapidez com que mata.
52 (pag. 120).
O _Maracá_ era um instrumento symbolico, usado tanto nas festas religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das curiosidades do Rei, o descreveo muito bem em seos manuscriptos, inedictos, e como sei que não será desagradavel para aqui transcrevo as suas palavras:
Tendo nas mãos um ou dois _maracás_, que é um fructo grande, de forma oval, similhante ao ovo de abestruz, e da grossura de uma abobora, mais agradavel á vista do que ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com elles muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis. Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no a ponta de uma haste, enfeitam-no com pennas e enterrando a outra ponta, fica ella em pé. Cada casa tem um ou dois Maracás, que respeitam como si fosse _Tupan_, trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.
Pensam que é _Tupan_ que lhes falla (Manuscripto de André Thevet, conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)
Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas a respeito do Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que ouvio em Paris por occasião do baptismo de tres indios sendo padrinho Luiz XIII.
Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, os indios revestidos dos seos bellos adornos, e com o _maracá_ em punho, excitaram muito enthusiasmo, a ponto de haver muita paixão pela sua dança e pela sua propria musica.
Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta em honra d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo ao celebre Peirese dizendo tel-a mandado á Marco Antonio «como excellente peça digna de ouvir-se» (Vide _Correspondance_, pag. 285, antiga edicção.)
Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica então em voga, e do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado o primeiro no officio, ignorando porem si sahira bem, e si o gosto da Provincia se conformará com o da Côrte.»
Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres selvagens distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a residir em França.
Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem completamente estes pobres selvagens, resolveram algumas beatas a casarem-se com elles, e ja deram começo a excursão d’este plano.»
Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do Maranhão, suas mulheres não gozavam iguaes favores.
Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando opinião singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação de dar-lhes casa e comida, mas que ás senhoras, suas mulheres, não podiam ser senão...» bem me entendeis, e por isso não podia recebel-as em sua casa.
53 (pag. 120).
É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora ás margens do Mearim, reconheceo logo serem essas terras essencialmente proprias para a plantação da canna de assucar, a que se empregam todos os braços de 15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida á influencia do Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada por tão longos annos hoje sulca este solo admiravel.
54 (pag. 122).
Deve lêr-se _Mutum_ sendo a especie mais pequena designada pelo nome de _Mutum Pinima_. (Vide _Diccionario Tupy_ de Gonçalves Dias.)
Trata-se aqui de Hocco _Crax Alector_, caça mui procurada.
A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente louvaveis exforços para naturalisar em França este passaro do Brasil e da Goyana.
55 (pag. 122).
É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo nome de _Tui_.
Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um dos flagellos da agricultura.
56 (pag. 123).
É a palmeira chamada—_Tucum_—pelos brasileiros.
Consulte-se a magnifica _Monographia das palmeiras_ por Martius. O _Tucum_ tem fibras verdes e macias, das quaes se faz excellente fio, proprio para cordas.
57 (pag. 123).
Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a formar um verbo derivado da lingua indigena.
Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era o _Cauim_ preparado em grande quantidade.
Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, ou talvez melhor de cidra, quer fosse preparada com milho mastigado pelas mulheres, quer com mandióca cajú ou jabuticaba.
Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. (Vide a importante obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.)
A palavra _cauin_ atravessou espaços immensos, são os mesmos em toda a parte os processos para o seu fabrico, o que prova estreito parentesco entre os povos mais distantes, uns dos outros.
Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e chamamos a attenção dos nossos leitores para as suas curiosas narrativas.
O que os nossos antigos viajantes chamavam _Cauinage_ era afinal uma solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos.
Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções.
O «vinho da Europa» se chama hoje _Cauin Pyranga_, e a aguardente tão fatal aos indios, _Cauin Tata_, «bebida de fogo.»
58 (pag. 123).
Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta festa solemne, na qual se infiltrava o _espirito de coragem_, aos guerreiros prestes a partirem para uma expedição.
Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia.
Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado como planta sagrada.
Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito da origem do _Petum_ na carta, que dirigimos a Mr. Alfredo Demersay, sobre a introducção do tabaco em França, (Vide _Etudes economiques sur l’Amerique meridionale. Du Tabac du Paraguay_. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º)
59 (pag. 125).
O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta á penna do padre Ivo, é uma garantia da exactidão das suas narrações.
Ainda em 1817 existiam alguns _Tramembez_ entre os trabalhadores brancos do Ceará: cultivavam mandióca e residiam na villa de _Nossa Senhora da Conceição d’Almofalla_, onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal, _Corographia Brasilica_, T. 2º, pag. 235.)
Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos encarniçados dos Tupinambás.
60 (pag. 125).
Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do commando.
É a figura indigena mais predominante nas duas obras do padre Claudio d’Abbeville e padre Ivo.
Na _lingua geral_ a palavra _japim_ é o nome de um lindo passaro, de pennas amarellas e negras, que anda em numerosos bandos e que em toda a parte faz tão lindos ninhos.
Pode tambem dar-se-lhe outra significação. _Japy_ significa na lingua indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide Gonçalves Dias, _Diccionario_.) A primeira explicação é a unica adoptada. Japy-uaçú era o que se chamava um _Mitagaya_, um grande guerreiro.
61 (pag. 126).
Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da Europa.
_Jeropary-açú_, de que tratam escriptores portuguezes, nada tem de commum com um principe ou um rei, taes como eram representados no novo-mundo por convenção hierarchica.
Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André Thevèt na sua _França antartica_ e na sua _Cosmographia_. O historiador de Portugal, La Clede, que vivia no seculo XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos pomposos titulos, que dá a alguns pobres chefes de tribus.
62 (pag. 127).
Com o nome de _cabaças_ conhece-se geralmente no Brasil vasilhas ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira.
Em Venezuella chama-se _Tutumas_.
Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, cores inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a este respeito Claudio d’Abbeville, _Histoire de la mission des péres Capucins_.)
63 (pag. 128).
É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro escriptor portuguez, que escreveo uma historia regular do Brasil em 1576.
Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de que se serve o padre Ivo, porem não partilha sua opinião, antes crê ser o ambar um producto vegetal formado no fundo do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI e XVII o encontro, quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar, arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, enriqueceo muita gente.
64 (pag. 131).
Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, e no Diccionario de Milliet de Saint Adolphe.
A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos com certesa ser na provincia de Pernambuco.
A palavra _Cahetés_ significa _floresta grande_, e se applica a diversas localidades.
Foram os _Cahetés_, que em 1556 mataram e devoraram o primeiro Bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha.
Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade de Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se do governador da Bahia.
Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não cresce ahi planta alguma, segundo a crença do povo. (Vide Adolpho de Varnhagem—_Historia Geral do Brazil_.)
O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á respeito dos Cahetés, indios considerados geralmente como invensiveis guerreiros, e que se gabavam de habeis musicos.
A exploração do _Uarpy_, de que aqui se trata, e emprehendida pelo Sr. de Pezieux é uma prova evidente do cuidado, que havia de explorar-se esta região, percorrendo-se de N. a S.
65 (pag. 131).
Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão em 1613, existem hoje na serra de _Maracassumé_.
Encontra-se o metal precioso sobre tudo em _Piranhas_, (districto de _Santa Helena_) nas cabeceiras dos rios Pindaré, Gurupy, Cabello de Velha (_Cururupu_) Prata (Santa Helena) na Revirada, nas margens do Tomatahy, etc., etc., porem em pequena porção.
Existe cobre na Chapada no lugar _Fazendinha_ e no Alto Pindaré.
Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo e em Pastos-Bons.
Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não se sabe com certesa.
Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral no estado actual da industria: depararam-se ja com alguns indicios no canal do Arapapahy, e affirma-se haver uma mina na distancia de meia legoa do Codó, na fazenda de Santo Antonio, cujas amostras provam ser de superior qualidade. Dizem haver tambem em Vinhaes.
Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha e pedras semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da Parnahyba.
De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, ou para melhor dizer, os primeiros veios de ouro, destinados a enriquecerem o Brasil, somente foram descobertos em Minas-Geraes, no anno de 1595.
Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as riquezas metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam o _Rio doce_, e o _Jequitinhonha_.
Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte na occasião em que se lança no mar, pouco distante do primeiro, com o andar dos tempos deo á corôa enorme quantidade de diamantes.
Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no valle cercado de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—_Ivitur_, e pelos portuguezes—_Serro do Frio_, não eram completamente despresadas pelos indios, pois seos filhos as ajuntavam, e com ellas brincavam.
No Maranhão não ha diamantes.
66 (pag. 141).
Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, porem deve-se desculpal-o por não ser naturalista como um theologo do seo tempo. Foi ainda mais parco o seo predecessor.
O que disse de algumas plantas do genero _mimosa_ indica a sua preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes.
As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, de que se fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas.
Diremos de passagem, que a palavra _Cauin_ deriva-se do nome indigena d’esta arvore. _Caju-y_, licor de _Caju_.
67 (pag. 145).
Á flor da paixão (_Grenadilla cœrulea_) na qual a imaginação prevenida encontra santos attributos, gozava então de prodigioso favor. Foi descripta em varias obras, e gravada exagerando-se os pontos de similhança, que podia ter com os instrumentos do supplicio de Jesus Christo.
Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas flores d’estas, e mostrou-as aos amadores. Alguns annos depois elle se teria aproveitado da descripção poetica, que d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no poema intitulado _Caramuru_.
Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura do seculo XVII, mui curiosa, mostrando a planta com o seo tamanho natural na obra _Antonii Possevini Mantuani Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen ingeniorum Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ_. 1610 em 12.
68 (pag. 146).
O guará (_Ibis rubra_, ou _Tantalus ruber_) desappareceo em parte de varias localidades do littoral, onde costumava expandir sua brilhante plumagem, sujeita, conforme a idade, a diversas modificações.
Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha em 1557, vê-se qual é o papel, que representa esta ave na industria indigena.
Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições para procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim de servirem nas festas com que as tribus se obsequiavam reciprocamente.
Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de gallinhas, tinctas com uma preparação vermelha de _Ibirapitanga_, ou pau-brasil.
Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, do rio de Sam Francisco, e principalmente nas desertas regiões do Rio Negro. Ainda tambem encontram-se algumas na _lagoa dos patos_, e em _Guaratuba_. (Vide _le second voyage d’Aug. St. Hilaire_. T. 2º, pag. 222.)
69 (pag. 152).
É impossivel aos que não leram as obras da idade media interpretar bem o sentido d’esta frase.
O livro conhecido sob o nome de _Phisiologus_ gozava ainda de certo credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem quizer informar-se d’isto minuciosamente leia o precioso resumo d’esta curiosa obra, publicada pelos Rvds. padres Cahier e Martin, sob o titulo _Melanges d’Archéologie, d’histoire et de litterature_. 4 vol. in-fol.
70 (pag. 156).