Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 30
Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco.
Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como desejava, o Amasonas «por serem violentas as correntes para os navios, e mesmo para o seo patacho que ja fazia muita agoa.»
Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em França impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, quarenta annos depois, convidou a Mararin a reerguer projectos esquecidos. Para a conquista da Amasonia elle queria união com os indios, e por sua vontade devia o Cardeal ligar-se «aos illustres _Homagues_ (Omaguas) aos generosos _Yorimanes_ e aos valentes _Tupinambás_.» Nunca certamente os selvagens receberam tão pomposos nomes!
Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição pelas margens do Amasonas em 1613, feita por ordem de la Ravardiere e ainda no tempo de Luiz XIII existia uma copia.
13 (pag. 20).
Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico d’esta farinha, de que os indios fazem grandes provisões.
A especie de mandioca, conhecida pelo nome de _Carimã_, serve de base.
Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, é pisada n’um almofariz, peneirada e misturada com certa quantidade de outra qualidade de mandióca na occasião de ser torrada, o que se faz até ficar muito secca, e n’esse estado é conservada por muito tempo.
Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos os esclarecimentos necessarios no _Tratado descriptivo do Brasil_, pag. 167.
Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da mandióca tirou a maior parte dos seos processos da economia domestica dos Tupis, e resumio concisa e habilmente tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da planta. (_Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du Brésil_. T. 2—pag. 263 e seguintes.)
14 (pag. 21).
Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o nosso Missionario.
Estas grandes canoas chamavam-se _Maracatim_, por causa do _Maracá_, que, como protector, trasiam na prôa. _Iga_ chamava-se uma canôa pequena, e _Igaripé_ uma canoa de cortiça ou casca de arvores, etc. etc. (Vide _Ruiz de Montoya_, _Tesoro_, na pag. 173.)
15 (pag. 21).
André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram com exactidão este genero de ornato, chamado _Araroye_ pelo ultimo d’estes viajantes.
Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico.
16 (pag. 24).
A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, e bem pode ser que antigamente se encontrassem algumas mulheres cansadas do jugo dos homens, e por isso entregues á vida guerreira.
Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine e sessenta annos antes do Padre Ivo o franciscano. André Thevet não esteve longe de vêr n’estes selvagens americanos descendentes directos do exercito feminino commandado por Pentisilée.
Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas era de todos os seculos e de todos os periodos da civilisação.
17 (pag. 25).
Esta nação não é indicada no _Diccionario topographico, historico, descriptivo da Comarca do Alto Amasonas_. Recife. 1852—1 vol. em 12.
Tambem não a encontramos na longa nomenclatura da _Corographia Paraense_ de Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva. Deve estar extincta, e Martius tambem não a cita no seo _Glossaria_, publicado ultimamente.
18 (pag. 25).
Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande aldeia alem de Tapuitapéra.
Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio.
Segundo o padre Claudio—_Cumã_ significa _proprio para pesca_, porem duvidamos que seja exacta a explicação.
Debalde procura-se esta palavra no _Glossaria_ de Martius publicado em 1863.
19 (pag. 25).
_Cazal_, o _Diccionario do Alto Amasonas_, e _Accioli_ nada dizem a respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito de 2,000 homens! Martius trata de uma nação de _Pacajaz_ ou _Pacayá_, no Pará. (Vide _Glossaria linguarum_. pag. 519.)
20 (pag. 25).
Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre mangues e troncos das palmeiras _muritis_ lembra um facto bem curioso, classificado outr’ora como fabula, e descripto na Relação de Walther Ralegh.
É bem possivel que haja alguma exageração, porem o facto é authentico, e deo-se na foz do Orenoco.
Os _Waraons_ visitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, os _Guaraunos_ descriptos pelo sabio Codazzi, são um e o mesmo povo, salvos de inteira destruição por sua maneira de viver.
Os _Camarapins_, cujo desaparecimento acabamos de provar, foram menos felises.
Á respeito dos indios das _Iouras_ consulte-se o resumo, que outr’ora fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico francez provou sua moradia entre os Waraons. (Vide _Guyana_, 1828, em 18.)
Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, citava em 1841, os Guaraunos, como não tendo ainda abandonado suas casas aereas.
Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com os habitantes da Trindade. (Vide o _Resumen de la Geographia de Venezuela_. Pariz. 1841—em 8.)
Agostinho Codazzi morreo ultimamente.
Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á nossa disposição, pertenciam á collecção das viagens, possuida em 1824 pelo edictor Nepveu.
21 (pag. 28).
Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era muito dedicado á nação, a cujos interesses servia.
O titulo de _Capitão_ afinal estendeo-se a todos os chefes da raça indigena.
22 (pag. 29).
Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o padre Ambrosio, residente em _Iuiret_, cuja pronuncia segundo Claudio d’Abbeville, é _Jeuiree_, e ella indica a estranha significação d’este nome.
O _Pay açu_, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavra _Pay_ quer dizer em portuguez _Padre_. Pay-_guaçu_, diz Ruiz de Montoya significar Bispo ou Prelado em Guarany.
O nome de _Pay_ foi mais facilmente adoptado pelos indigenas pela sua analogia em designar pessoas graves. Os feiticeiros eram chamados—_hechizeros_—para servir-nos da propria expressão do lexicographo hespanhol.
Da _lingua geral_, modificação do Guarany, _Pay_ significa padre, monge e senhor. _Pay Abaré Guaçu_ era a designação dos prelados e dos jesuitas. Os indios ainda chamavam o papa _Pay aboré oçu eté_.
23 (pag. 29).
Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia do nome de um povo, que elle ja escreveo muitas vezes de forma diversa.
Claudio d’Abbeville escreve _Topinambás_, o author da sumptuosa entrada _Tupinabaulx_, Hans Staden _Topinembas_, e emfim João de Lery _Tuupinambaults_. Malherbe suavisando a expressão escreve _Topinambus_. Foi esta ultima orthographia a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem preferimos a que é adoptada pelos brasileiros.
24 (pag. 31).
Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre Ivo, suppomos que elle pretende designar os povos mais selvagens ainda que os Tupinambás, ou então que se entregavam mais especialmente a anthropophagia.
Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição da palavra _Canibal_. Notaremos apenas, que 50 annos antes do tempo, em que escreveo o padre Ivo, designavam-se assim, quasi que exclusivamente, os indios mais proximos do Equador.
Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito da madeira de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa do rio de Ianaire é melhor que o da costa de Canibaes e de toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 verso), e mais adiante: «visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles diremos apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, e alem até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que em qualquer outra parte da America. Esta canalha come ordinariamente carne humana, como nós comemos carneiro.» (pag. 119.)
25 (pag. 31.)
Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram os portuguezes.
Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello rio, porem exagerou o seo curso.
Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, que Adriano Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas no quadro, que traçou, dos rios do Maranhão.
Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas margens desde o tempo, em que o nosso bom frade assim o chamava alterando-lhe o nome!
Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os Timbyras, cultiva-se milho, mandióca, canna de assucar, fumo e algodão, e a producção ultima d’este genero foi tão abundante, que subio a 35,000 saccas.
Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, assentadas á margem d’este rio, e apenas se encontram em nossos livros de geographia.
Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha patria de Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade rica, commercial, banhada pelo Itapecurú, e distante da capital sessenta legoas.
Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje este numero elevou-se a 6,000 habitantes.
Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, e com immensas solidões de campos de criação de gado, conhecidas pelo nome de _sertão_.
Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, um theatro, estabelecimentos de utilidade publica, que nem sempre se encontra em cidades mais consideraveis.
O nome de _Caxias_ tem no Brazil significação politica, porque, em 1832, travou-se no _Morro do Alecrim_ uma batalha, cujo resultado consolidou a Independencia da Provincia. Mais tarde, na propria colina, chamada das _Tabócas_ deo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido[BJ] _Fidié_, e que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos.
Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, as perturbações, que se seguiram a este acontecimento, e as luctas tempestuosas, que houveram neste canto ignorado do mundo até 1848, quando o Dr. Furtado conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade nascente.[BK]
A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: 20 mil habitantes formam a população d’este vasto municipio, empregado superficialmente na agricultura.
Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão cumpridas para serem contadas, assimilham-se ás da idade media, que a historia local as vezes registra, mas que facilmente esquece visto não ligar-se á algum dos grandes interesses, que prende a attenção do mundo.
Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, a mais florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, e como ella separada da Capital por um espaço de 60 legoas.
26 (pag. 34).
Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra pelo Padre Ivo d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece ser mais particular ao Norte do Brazil.
Martius escreve _Jurupari_, ou _Jerupari_. _Anhagá_ parece ser mais uzado ao Sul. Não se acha a significação desta palavra no _Tesoro de la lingua Guarani_. _Angai_ neste precioso Diccionario significa espirito mau. _Anhanga_ significa hoje apenas um _phantasma_. (Vide Gonçalves Dias, _Diccionario da lingua Tupy_.)
27 (pag. 36).
Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares pelos Tupinambás. Pag. 36.
Tabajares não significa de maneira alguma _inimigo_, e sim senhores da Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem, _Historia geral do Brazil_. T. 1.º Accioli. _Revista do Instituto_.)
28 (pag. 36).
A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, veio sem duvida alguma do costume que tinham estes indios de furar o labio inferior, e mesmo as faces para n’ellas introduzir discos de uma especie de esmeralda, feitos com muita paciencia, e apreciados como joias estimaveis. (Vide _Sur l’usage de se percer la lévre inferieure chez les Américains du sud_, a serie de nossos artigos, inserida com muitas gravuras no _Magasin pittoresque_. T. 18 pag. 138, 183, 239. 338, 350 e 390.)
29 (pag. 36).
_Mearinense_ é evidentemente um nome creado pelo nosso bom Missionario, e melhor não o inventaria Rabelais.
Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam nas ferteis margens do Meary, d’onde proveio o nome á provincia, no pensar de Cazal. O Mearim, que offerece um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, e as canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce na _Serra do Negro e Canella_ aos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ de long. contados da Ilha de Villegagnon na bahia do Rio de Janeiro.
30 (pag. 36).
A palavra _Tapuya_ ou _Tapuy_ tem levantado grandes discussões: será o nome de um povo? (Vide o _Diccionario de Gonçalves Dias_).
Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. Será preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, a qual estes deram tal nome. Um escriptor, authoridade na materia, Ignacio Accioli não hesita a tal respeito.
Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, elle diz: «outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como pensam muitos, em pequenas tribus fallando perto de cem dialectos, e são os _Aymorés_, os _Potentus_, os _Guaitacás_, os _Guaramonis_, os _Guaregores_, os _Jaçarussus_, os _Amanipaqués_, os _Payeias_ e grande numero de outras.» (Vide T. XII da _Revista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica e politica sobre quaes eram as tribus aborigenes_, etc., etc., pag. 143.)
31 (pag. 42).
Este pensamento passou como proverbio na ilha e em Goyana.
32 (pag. 42).
Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao sahir do Forte da Bertioga suscitou grande discussão para saber-se com certeza, quem foi o primeiro que o tocou. (Vide _la Collection. Ternaux Compans_.)
33 (pag. 49).
Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem é necessario escrevel-o assim com mais exactidão, _Ibira Pitanga_. (Vide _Ruiz de Montoya_.) Lery escreveo _Araboutan_, Thevet _Oraboutan_. Desapparece esta celebre madeira cada vez mais das grandes florestas, onde íam buscal-os os nossos antepassados.
34 (pag. 51).
É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavra _Carbet_ não pertence á _lingua geral_.
O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo precioso _Tesoro de la lingua Guarany_.
É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros povos de Guyana.
Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia.
Convem fazer certa differenca entre os _Carbets_, ou _casa grande_, e as _Ocas_ ou _Tabas_, que formavam a architectura rudimentar dos outros povos do Brasil.
Ouçamos a este respeito o Padre _du Tertre_. «No meio de todas estas casas, fazem uma grande, commum, a que chamam _Carbet_, a qual tem ordinariamente 60 ou 80 pés de comprimento, e é formada de grandes forquilhas de 12 a 20 pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas collocam uma palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocar em terra, e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, ficando muito escuro o interior da casa, pois a claridade só entra pela porta, e esta é tão baixa, que para entrar-se é necessario curvar-se.»
Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra do anno de 1643, e se referem especialmente a architectura rustica dos Caraibas insulares.
Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro publicado pelo nosso autor, porque na realidade não ha grande differença entre os _Carbets_ das ilhas e os dos continentes.
Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão rapidamente construidas, apresentar-se-iam certas variedades conforme os usos e fins para que se destinam. (Vide a este respeito _Le voyage pittoresque au Bresil de Debet_, depois as gravuras do livro de _André Thevet_, publicado em 1558.)
Haviam pequenos e grandes _Carbets_, aquelles onde os Piagas faziam suas charlatanerias, e estes onde se formavam os grandes conselhos.
Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos vastos alpendres, tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros.
No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas ilhas ou no continente, formar um conselho qualquer era _Carbeter_; o termo era proprio e acha-se usado por todos os viajantes. (Vide entre outros Biet, _Voyage de la France équinoxiale_. Paris. 1654, em 4.º)
35 (pag. 56).
David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos outros naturaes da Normandia no fim do seculo XVI, veio tentar fortuna entre os selvagens do Brasil.
Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia muitos annos em Jupinaram, na ilha do Maranhão.
Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, e sabe Deos de que reputação gozavam estes interpretes no que dizia respeito ao que então se chamava mundo civilisado.
Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, dizia-se, que elles partilhavam.
David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. 3, pag. 164)
Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, e assim foi bom por ser o unico capaz de traduzir para a Rainha, a longa exposição de Itapucu.
De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo de cessão, que la Ravardiere fez de seos direitos a Francisco de Rasilly, o que indica, sem duvida alguma, o gozar de consideração excepcional.
O nome de Migan nos parece ser _nome de guerra_, pois esta palavra na lingua _tupy_, significa o caldo grosso, que se fazia com a farinha de mandioca.
Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram os indios, notou a habilidade d’este homem.
Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado a Ivo d’Evreux.
36 (pag. 65).
É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, um selvagem fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a que foi obrigado á responder João de Lery em 1556: «o que quer dizer vós _Mair_ e _Peros_, (francezes e portuguezes) virdes de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá não a tendes?» (Vide _Histoire d’un voyage en la terre du Bresil_, Rouen 1578 em 8.º)
37 (pag. 70).
Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, e as porções immensas de terra, que reunem estes indios para comer quando lhes falta a caça e a pesca.
Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando tulhas de bolasinhas, dispostas symetricamente, é procurada pelos selvagens por conterem particulas animalisadas e que a fazem nutritiva.
Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas como os do continente comem terra, embora pense que seja por aberração de gosto.
«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de tão grande aberração de gosto não pode proceder, penso eu, senão de um excesso de melancolia.» (_Hist. nat. das Antilhas, habitadas pelos francezes_. T. 2º, pag. 375.)
Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem do rio Ucayale, encontram-se ainda os indios _Pinacos_, cujo nome verdadeiro é _Puynagas_. Estes indios despresados por seos compatriotas, são afamados comedores de terra. A este respeito, entre outros, foi publicado um curioso opusculo de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo de _Observations sur les Geophages des Antilles_. Paris. An. VI. Tem somente 11 paginas.
38 (pag. 73).
Na enumeração das diversas classes da infancia achamos ainda exactidão no padre Ivo, embora confundisse a letra N com a R: a palavra _menino_ escreve-se _Curumim_ nos Glossarios brasileiros. (Vide Gonçalves Dias, _Diccionario da lingua Tupy_. Leipzig, 1858 em 12.)
39 (pag. 81).
Gonçalves Dias chama a virgem _Cunhã mucu_. (Vide _Diccionario_.)
40 (pag. 82).
Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI seculo, como acaba de ver-se ainda não estava modificado.
Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e sim tambem em pleno vigor na Europa, e especialmente entre os Bascos, e era então chamado a «encubação.»
As «_Miscellanias historicas_,» publicadas em Orange em 1675, contem interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, diz elle, um admiravel costume em Bearn. Quando pare uma mulher, anda á pé e o marido deita-se para guardar o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este costume dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa no livro 3º da sua _Geographia_.»
O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, na excellente obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, e os Tartaros segundo o testemunho de Marco Paulo, cap. 41. livro 2.º
Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer até o recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente observado pelos mais valentes e afamados guerreiros Tupinambás, e provocaria o riso do homem civilisado, si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem admiravel, para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado de mui crueis privações, porque o indio, que acaba de ser pae, e que se condemna a tão ridiculo repouso, não só priva-se de alimentos, como ainda se entrega a outros supplicios com intenção de evitar que soffra o filhinho certos males, que elle receia.
Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com stoicismo afim de poupar algumas dores ao recem-nascido.
O homem civilisado das cidades, embora mediocremente intelligente, abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias de dedicação, embora inconstantes dos selvagens, e ri-se antes de proferir seo juiso.
A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o que faz seo marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores e entrega-se a um novo trabalho ainda mais pesado, porque todo o serviço da casa cahe sobre ella.
No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido depende do procedimento stoico de seo marido. Nunca podemos saber qual era o motivo, que obrigava os antigos a entregarem-se a este repouso tão exquisito, não differente provavelmente do concedido aos americanos. Carli, cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir motivo tão ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse serem elles alimentados abundantemente. (Vide _Lettres Américaines_. Boston et Pariz, 1788, T. 1 pag. 114.)
É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa passagem.
Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar real valor ás palavras _italianisadas_ pelo autor.
Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos inclinado á zombaria do que os seos predecessores, quando descreve a «incubação» entre os Galibis.
«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, come pouco, e quando acaba o resguardo, está tão magro como um esqueleto.»
O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, não deixando a _casa grande_, e nem se animando a levantar os olhos para os que o rodeiam. (_Voyage de la France equinoccial_, Livro 3.º pag. 390.)
Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia o autor da historia moral das Antilhas esquecer a incubação.
Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia com uma ceremonia identica, que vio n’uma provincia de França.
Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, porem não nega ao pobre paciente o merito do jejum, antes confessa, que durante sua reclusão apenas lhe dão um pouco de farinha e agoa. (Vide _Historia moral_ pag. 494.)
Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que entre os povos do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares, os Petiguaras, e muitas outras tribus imitam os Tupis, e estes nomes nada mais adiantam.
Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre os indios, dando-se assim ao mais extravagante dos costumes a sua origem verdadeira.
41 (pag. 84).
_Tamoi_ quer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui ha alteração de palavra, proveniente por differença de pronuncia.
Lê-se no _Tesoro de la lingua Guarany_, base da lexicographia brasileira _Tamôi_, _abuelo_, _Cheramòi_, _mi abuelo_, _Cherúramôîruba_, _mi bisabuelo_, _Cherúramôî_, _el abuelo de mi padre_, etc.
Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre as outras tribus da mesma raça.
No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças de _Nicteroy_, ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis dos franceses foram expellidos d’esse bello territorio por Salema, e os restos de suas tribus desceram para as regiões do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, que se haviam refugiado especialmente nos campos de Maranhão.
42 (pag. 87).