Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 3
Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a segurança e boa fé.
Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S. Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma Cidade européa.
Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados.
Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia, e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de mosquetaria.
Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados, descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez, que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de 50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.
Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha em reserva.
Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos; foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617 derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.
Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio, em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes. Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a cathequese no Pará.[AJ]
Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante terão lugar importante nos _Annaes do Brasil_, chegaram aos ouvidos dos missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle.
Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho. Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os nomes de _Apiacas_, de _Gés_ e de _Mundurucus_, outrora tão temidos e hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração humana.[AL]
Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet, e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de laboriosas fadigas os elementos do seo livro.
Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o illustre Martius observou tantas tribus desimadas.
Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração. Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto d’uma vasta publicação.[AM]
Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas, fallando a _lingoa geral_, incumbia-se de alguma forma da execução do programma de Martius.
Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo d’Evreux.
Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens, habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do Maranhão.[AN]
Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o _itinerario_ seguido por estes homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos, mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO]
Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.
N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que buscavam converter.
Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das florestas.
Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a sua _Arte de Grammatica_, e pela primeira vez depois de alguns ensaios incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP]
Voltemos ao nosso piedoso viajante.
Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao novo mundo.
Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil, simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo seo amor á humanidade.
Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao Convento de Andelys.
N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da natureza e a frescura das paisagens.
É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia.
Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com raridades tão difficeis de serem alcançadas como a _Viagem_) nos prova, que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo.
Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem respondeu somente.
Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos deo o segundo, para nós uma especie de revelação.
É este o titulo do folheto «_Supplemento necessario ao escripto que o Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e João Maximiliano Delangle_.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR]
Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario, bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz, em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito de seos esforços.
Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi denunciado ao parlamento.
João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven, ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS]
Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de 50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT] Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes dignas de censura.
Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo: bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.
De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux; comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que nunca viram a obra do Padre Ivo.
Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW] ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro, proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY] e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de Ruão.
O _Epithome da la bibliotheca oriental y occidental_ de Leon Pinello, livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle tempo mencionou com exactidão a _Viagem_, que reimprimimos, embora o seo titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA]
Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á respeito do Maranhão.
É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses.
Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca mais regressou á America do sul.
Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos piratas.
Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a Narração de suas viagens pela America do sul.
Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão.
Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade.
A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora.
Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto _Cathalogo_ tracta especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o escripto em questão.
Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por ahi algures fosse descuberta a _Viagem_ de Ravardiere, serviria, com os escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim dizer, revelado pelo nosso Missionario.
NOTAS
[A] A ordem constitutiva do Mosteiro tem a data de 28 de Novembro. O lugar da escolha foi concedido no anno precedente por Catharina de Medicis aos Capuchinhos, vindos da Italia, e a doação foi confirmada por Henrique III em 24 de setembro de 1574. Vide _Boverio_, Annali di Frati minori.
[B] O _Mercure-Galant_ deo á luz uma descripção, muito curiosa, da grande botica do Convento.
[C] Em 1617 contavam-se 655 Religiosos nas duas Custodias de Pariz e de Roão, e entre elles 209 clerigos.
Em 1685 haviam em França 5:681 Capuchinhos.
[D] Não inventamos: um dos seos mais ardentes admiradores, tambem Capuchinho, falla d’elle nestes termos: _Tantarum segete scientiarum, factus est dives ut Galliæ Phœnix hac nostra ætate communiter sit appelatus_. Vide o vasto Repertorio de Diniz de Gênes. _Bibliotheca scriptorum ordinis minorum Sancti Francisci capucinorum._
Wading, mais moderado, contenta-se em chamar o Padre Ivo de Pariz—_egregius concinnator, insignis Capuccinus_.
O autor anonymo dos elogios manuscriptos dos Capuchinhos da Cidade de Pariz não pôz limites ao seu enthusiasmo, quando disse: «a natureza parece ter querido exgotar-se, quando cedeo a tão grande personagem tudo quanto podia dar-lhe com abundancia de grandeza, tão rara quam admiravel.»
Nasceo em 1590, Ivo de Pariz, tomou o habito religioso em 27 de setembro de 1620, seis annos depois que o Padre Ivo de Evreux regressou doente do Brazil, e afinal falleceo em 14 de ouctubro de 1678.
Este religioso conseguio imprimir vinte e oito obras de sua lavra, cujos titulos principaes vamos reproduzir seguindo a ordem chronologica de suas publicações.
_Os felizes resultados da piedade, ou os triumphos da vida religiosa sobre o mundo, e contra a heresia._ 4.ª edicção, Pariz 1634. 2 vol. em 12.
_Da indifferença._ 2.ª edicção. Pariz. 1640. em 8.º
_A theologia natural._ Pariz. 1640-1643. 4 T. em 4.º
_Astrologiæ novæ methodus et fatum universi observatum, a Franc Allaeo Arabe Christiano._ Pariz. 1654. Temeo este Capuchinho, apesar de atrevido e credulo, publicar este livro com o seo nome, e por isso deo-o á luz sob o titulo _Fatum Mundi_.
_Jus naturale rebus creatis á Deo constitutum_ etc. etc. Parisiis. 1658 in folio.
O _Fatum Mundi_ foi reimpresso em 1658, e no anno seguinte appareceu esta obra.
_Dissertatio de libro præcedenti ad amplissimos viros senatus Britanniæ Armoricæ._ Parisiis. 1659. in folio.
_Digestum sapientiæ in quo hebetur scientiarum omnium rerum divinarum et humanarum nexus_ etc. etc. 1654-1659. 3 vol. in fol, reimpressos com augmentos em 1661.
_O Magistrado christão, coordenado pelo Padre Ivo, seo sobrinho._ Pariz. 1688 em 12.
_As falsas opiniões do Mundo._ Pariz 1688 em 12 etc. etc.
Vê-se, que não ha analogia alguma entre os estudos d’estes dois Capuchinhos.
Uma das obras do Padre Ivo de Pariz foi queimada pela mão do carrasco.
[E] E não Silvére, como por descuido disse em sua biographia o veneravel Eyriés. (Vid Mr. Prarond. _Les hommes utiles de l’arrondissement d’Abbeville._ 1858—in 8.º)
[F] Vid o Manuscripto da Bibliotheca mazarina, ja citada, que tem este titulo «_Annales des R. P. Capucins de la Province de Paris, la mer et la source de toutes celles de ça les monts._» N. 2879 pet in 4.º
[G] Francisco de Bourdemare, ou Boudemard, natural de Ruão, deixou a Provincia, onde gosava sua familia de muita consideração para em Orleans fazer-se Capuchinho. Como noviço entrou no Convento d’esta Cidade, em 2 de outubro de 1603, porem é muito provavel, que voltasse para a Normandia antes de ir residir no grande Convento da rua de Santo Honorato.
[H] O Padre Leonardo morreu em Pariz com 72 annos de idade, no dia 4 de setembro de 1640. Antonio Fauro, seo pae, era conselheiro do parlamento de Pariz.
O livro dos _Elogios-historicos_, manuscripto da Bibliotheca Imperial, o qualifica como «o maior homem, que ja teve, e que nunca mais terá, a Religião dos Capuchinhos.» Encontra-se elle outra vez Provincial na rua de Santo Honorato no anno de 1615.
[I] Vide à respeito da expedicção protestante do Sr. Villegagnon, as Relações circunstanciadas de Niculau Barre, de João de Lery e do Anonymo conhecido por Chrispim. É certo que estabeleceram os Calvinistas seo predominio na Bahia do Rio de Janeiro, porem á elle se podem oppôr diversos pamphletos, escriptos por causa do Chefe da empresa. Estas peças satyricas fazem parte das ricas collecções da _Bibliotheca do Arsenal_.
[J] Como se verá em outro lugar, logo após a publicação da primeira parte da viagem, a antiga expedição de Ravardière foi precedida pelas de Riffault em 1594, e de De-Vaux, o companheiro d’este ultimo, que misturando-se com os Indios dedicou-se muito ao descobrimento d’este paiz.
[K] Julgamos dever reproduzir aqui o texto d’esta concessão renovada: não conhecemos o primeiro. «Luiz, a todos os que virem a presente. Saude. O defunto Rei Henrique, o grande, nosso muito honrado senhor e pae, a quem Deos perdoe, tendo por Cartas patentes de julho de 1605 constituido e estabelecido o Sr. de Revardiere de la Touche, seo lugar-tenente general na America, desde o rio do Amazonas até a Ilha da Trindade, e havendo elle feito duas viagens ás Indias para descobrir as enseadas e rios proprios para o desembarque e estabelecimento de colonias, no que seria bem succedido, pois apenas chegou n’esse paiz soube predispôr os habitantes das ilhas do Maranhão e terra firme, os Tupinambás e Tobajaras, e outros a procurarem nossa protecção e sugeitarem-se á nossa authoridade, tanto por seo generoso e prudente procedimento, como pela affeição e inclinação natural, que n’estes povos se encontram para com a nação franceza, bem conhecida por elles pela remessa que fizeram dos seos embaixadores, que morreram apenas chegaram ao porto de Caucalle, e dos quaes teriamos ainda recebido iguaes protestos, segundo as narrações feitas pelo Sr. de Ravardiere, tudo isto depois nos daria occasião de lhe fazer expedir nossas Cartas patentes de outubro de 1610 para regressar, como Chefe, ao dito paiz, continuar seos progressos, como teria feito, e ahi demorar-se-ia dois annos e meio em paz, e 18 mezes tanto em guerra como em treguas com os portuguezes etc. etc.»
Guardamos para a proxima publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de que este é o complemento, todas as occorrencias politicas, relativas á expedicção, e reservamos tambem para ella os traços biographicos de Razilly, de Ravardiere e de Pezieux.
[L] Pode-se ler tudo isto minuciosamente na _Carta de obediencia_ dada ao Padre Ivo na _Chronologia historica dos Capuchinhos da Cidade de Paris_ pag. 193. Tem a data de 27 de agosto de 1611, e começa assim: «_Venerando in Christo Patri Ivoni Ebroiense predicatori ordinis fratrum minorum Sancti Francisci Capucinorum, frater Leonardus pariensis ejusdem ordinis in Provincia parisiensi licet immeritus salutem in domino, in eo qui est nostra salus_».