Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 29

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Tudo isto se poderá vêr na seguinte carta, escripta por esses Padres á um honrado mercador de Ruão chamado Fermanet, um dos seos maiores bemfeitores, para que se veja que nada acrescentamos, e que apenas narramos os factos pura e simplesmente colhidos n’essas cartas e em informações de pessoas fidedignas, testemunhas occulares, e por que n’ella se encontram particularidades não mencionados nos outros.

Eil-a:

_Carta escripta pelos Padres Capuchinhos ao Sr. Fermanet._

A paz do Senhor Deos esteja comvosco.

Depois de tantas recommendações, que nos fizestes quando partimos para vos escrever, seriamos culpados si não vos dessemos noticias de paiz tão bom, graças á Deos.

Depois de 4 a 5 mezes de viagem ahi chegamos felizmente, sendo bem recebidos pelos Indios, conforme sua rusticidade, não nos importando o modo e sim a demonstração do seo contentamento então e ainda agora diariamente, trazendo-nos seos filhos para instruil-os o que faremos mediante a graça de Deos.

Quando voltar o Sr. de Rasilly, por estes 2 ou 3 mezes, nós vos mandaremos o numero dos convertidos e dos baptisados.

O paiz é muito bom, e ha esperança de produzir muito tabaco Petum, e Urucú, havendo ja muito assucar, bellas pedras, ambar-gris, e dizem-nos, que distante d’aqui 20 legoas ha uma mina de oiro.

Si não fosse grande a nossa pressa, nós vos dariamos mais algumas noticias, porem não podemos alongar-nos.

Beijando humildemente vossas mãos, e recommendando-nos á senhora vossa mulher, somos de vós e d’ella

Vossos humillissimos servos em Nosso Senhor.

Frei _Claudio d’Abbeville_. Frei _Arsenio de Pariz_.

_Narração de um marinheiro, vindo do mesmo paiz, feita ao Revd. padre Guardião do Havre da Grace, e por este communicada ao Revd. padre Commissario._

Revd. Padre, eu vos saúdo humildemente em Nosso Senhor.

O fim d’esta é communicar-vos, que veio hoje procurar-me um marinheiro, que vio e fallou com os nossos Irmãos, que estão em Maranhão com os Tupinambás, onde felizmente chegaram no dia 8 de Julho.

Este marinheiro ahi ouvio missa, e á ella assistio com muito respeito um velho selvagem do paiz, acompanhado por 25 ou 30 indios.

Quando chegou o tempo de consagrar-se e elevar-se a santa hostia, desceo um véo, causando-lhes isto admiração.

Recebida a explicação mostraram-se satisfeitos, e logo começaram a contar por toda a parte o que viram, e por isso vieram muitos ajudal-os a edificar sua habitação e Forte, ja em principio.

Veio o marinheiro em 22 de Agosto no navio de Moisset, recommendado ao Sr. de Manoir, a quem, segundo pensa, terão nossos Irmãos entregado suas cartas, ou a algum outro official de navio, o que me dispensa de contar-vos outras particularidades.

Não mudaram, e nem mudarão a côr dos seos habitos, usando apenas de um tecido mais leve do que o nosso, por causa do calor.

Deos seja louvado por tudo, e lhes conceda a graça de ahi apparecerem muitos fructos para a gloria do seo Santissimo Nome, e exaltação da Santa Fé da sua Igreja.

Sou de vossa Reverendissima o menor servo em Jesus Christo

Havre, 12 de Novembro de 1612.

Frei _Theophilo_, indigno Capuchinho.

NOTAS

CRITICAS E HISTORICAS

SOBRE A VIAGEM DO

PADRE IVO DE EVREUX

POR

MR. FERDINAND DINIZ.

NOTAS.

1 (frontespicio).

Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, antes da chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento algum importante. Eram arbitrarios os seos limites, convindo não esquecer que a immensa capitania do Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente tem 186 legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e nunca menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. Fica entre 1° 16′ e 7° 35′ de lat. merid. Confina ao N O com o Pará, servindo de linha divisoria o Gurupy, á N E é banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, separando-a d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia de Goyaz pelo rio Tocantins.[BG]

Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é sadio. As chuvas que fertilisam este rico territorio principiam regularmente em outubro.

O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações do terreno, mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, exceptuando-se d’estas asserções geraes e por força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde se encontram montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro etc. É regada por 14 correntes d’agoa.

De todos estes rios é o _Parnahyba_ o mais considerável: infelizmente suas margens não são totalmente sadias, pois em varios pontos, como em quasi toda a provincia, reinam as febres intermitentes. Avalia-se seo curso em 240 legoas. O _Itapecurú_, seo immediato, e de que falla constantemente o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno, o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis o _Pindaré_, o _Tury-assú_, o _Gurupy_, e o _Manoel Alves Grande_. Julga-se que é de 462,000 pessoas a população de toda a provincia, embora diga o relatorio official da presidencia, com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra é apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 escravos. Convem observar, que o recenseamento geral da população do Imperio, feito em 1825, dava apenas 165,020 almas, sendo esta cifra muito inferior á realidade, porque recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos seos escravos.

Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, a respeito da povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella cujo conhecimento seria muito curioso afim de apreciar-se as mudanças, que houveram nas aldeias depois do que escreveo o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, do que n’outra qualquer parte.

Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e raros sobre estas infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.

Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração provincial, tem que acabar muitos males afim de que seja completa a reparação.

Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.

Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade que dá completa liberdade aos habitantes das florestas, e nem os principios de civilisação, que se intentou incutir-lhes no seculo XVII.

Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, dizimadas pela variola, hoje são apenas a sombra do que foram sob o dominio dos seos chefes independentes.

Esta população indigena é comtudo maior nos desertos do Maranhão, e embora d’ella não tratem certas estatisticas, é avaliada em 5,000 o numero dos indigenas reunidos em aldeias.

Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em constantes relações com elles por espaço de 20 annos, a sua decadencia physica é menor que a moral, pois perderam até a reminiscencia de suas tradicções théogonicas, ainda mal, visto ser muito curioso o comparal-as com a narração dos antigos viajantes francezes.

Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, visitados por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem em seos canticos as legendas cosmogonicas do seculo XVI.

Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, os Gés, os Krans, e os Cherentes não podem fornecer ao historiador senão informações mui incompletas, pois que ha perto de 40 annos já o major Francisco de Paula Ribeiro se queixava do immenso esquecimento d’elles, (vide _Revista Trimensal_, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes tradicções, pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, como sejam os dos nossos velhos missionarios, onde pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi escriptos para serem combatidos.

De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se alguns homens energicos, que comprehendem o abatimento de sua raça, e que desejariam vel-a progredir, porem são mui raros, pouco comprehendidos, e demais só olham para o futuro, e não experimentam amor algum por sua antiga nacionalidade.

Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos para melhorar seo futuro, ainda os amesquinham com o seo odio tão irreflectido quam brutal.

Foi o que aconteceo a _Tempe_ e a _Kocril_, chefes conhecidos pelo major Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar ao caminho da civilisação as tribus, cujo governo lhe foi confiado, e a final foram victimas do seo zelo.

Vide «_Memoria sobre as nações gentias, que presentemente habitam o continente do Maranhão escripta no anno de 1819 pelo major graduado Francisco de Paula Ribeiro_, _Revista Trimensal_, T. 3º pag. 184.»

De passagem disemos, que não deixaram descendentes, pelo menos conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos missionarios francezes, suppondo-se apenas, que um ramo d’esta grande nação ainda hoje povôa _Vinhaes_ e _Villa do Paço do Lumiar_, achando-se no mesmo caso _S. Miguel_ e _Tresidélla_, a margem do rio Itapecurú, e _Vianna_, no Pindaré.

Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás com as tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras e Gamellas. São tambem subdivisões dos Timbyras os _Sakamecrans_, os _Kapiekrans_ ou _Canellas-finas_, e os Gés, que vagam pelas grandes florestas á Oeste do Itapecurú. Nega o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas diversas tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a ferocidade dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis represalias, de que tem sido elles os indios, sendo a escravidão a menos sanguinolenta. Elle avaliou em 80:000 o numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em 1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.

2 (pag. 1).

Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma praça entre os mais afreguezados armazens na galeria dos prisioneiros em Palacio, e soffrera-a como os outros no grande incendio de 1618.

Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de que este é continuação, morava na rua de Sam Thiago no _Folle de oiro_, e não na _Biblia de oiro_, que depois tomou por divisa.

Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver permittido, que mão impia privasse a França por mais de dois seculos do livro precioso, de que tinha sido edictor, e que hoje entregamos a publicidade, graças a uma d’essas empresas litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra das letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações.

O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado em marroquim encarnado, semeiado do flores de lys de oiro, e com as armas de Luiz XIII. Faz parte da reserva sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz.

3 (pag. 9).

A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar escolhido por seos antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ e 44″ lat. austral e 1° 6′ e 24″ de long. oriental do meridiano do Forte de Villegagnon, na bahia do Rio de Janeiro.

La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta de terra O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão pela calçada do _Caminho grande_.

Os rios _Anil_ e _Bacanga_, vindos de diversos pontos da ilha confundem suas agoas na mesma embocadura e formam vasta bahia. A elevação, que se apresenta ao S do _Anil_, á E e ao N. do _Bacanga_ (lugar onde se confundem as agoas d’estes dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde se levantou a cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.

A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal por uma Bulla de Innocencio XI, conta nunca menos de 30 mil habitantes, e está situada em terreno docemente ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de rica vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador. (Vide _Corographia Brasilica_, _Will. Hadfield_, _Milliet de St. Adolphe_, e principalmente os _Apontamentos estatisticos da provincia do Maranhão_, annexos ao _Almanack_ de 1860 publicado por B. de Mattos.)

Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha dorsal da peninsula, que separa as duas bacias dos rios na direcção de E. O.

Seo ponto mais elevado é o _Campo d’Ourique_, onde apresenta 32m 692c de elevação acima do nivel medio do mar.

É dividida em tres parochias: _N. S. da Victoria_, _S. João_, e _N. S. da Conceição_, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, 55 edificios publicos, e 2,764 casas, das quaes 450 tem um só pavimento.

Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais regulares as praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo recto, podiam ser mais largas e melhor dispostas sendo observadas as regras da hygiene.

Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação aos dois rios que banham a cidade. Em resumo é a Capital do Maranhão saudavel e limpa.

«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio do governo, assentado n’uma eminencia que domina o porto.

Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de suas janellas percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia avista-se ao longe as costas e a cidade de Alcantara: mais perto da barra está o pequeno _Forte da Ponta d’areia_, e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a pequena _ermida do Bomfim_, muito arruinada, e na frente do Anil a _Ponta de Sam Francisco_, onde segundo a noticia que nos dirige, entregou la Ravardiere ao commandante portuguez a cidade nascente e a fortalesa de Sam Luiz, nunca se podendo assas louvar n’essa occasião o procedimento inteiramente nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por parte da Hespanha.

O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar os feridos dos dois partidos, e que recebeo tão penhorador acolhimento no campo inimigo poude d’elle dar somente uma ideia, por sua narração sincera e franca, da cordialidade, que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois do combate. (Vide _Archivos das viagens publicadas_ por M. Ternaux Compans.)

Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o convento e Igreja de Santo Antonio, construidos no proprio lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, ajudado pelos padres Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo conventosinho sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto varios concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos francezes, achando-se hoje uma parte do edificio moderno occupado pelo Seminario Episcopal, e a Igreja, hoje em construcção, levanta-se com architectura gothica simples.» Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do Maranhão.

Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na cidade, porem é a unica que nos interessa directamente.

Mencionamos apenas o _Caes da Sagração_, assim chamado em memoria da coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e da vasta bahia, onde agora se escava para poder n’ella fundear uma fragata a vapor da primeira ordem, e apenas citamos a dóca que se projecta fazer nas _enseiadas das Pedras_.[BH]

Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam a igreja do Carmo, a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, o Theatro, e mais outras que força é omittir, pois apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar englobadamente o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.

William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que tratou d’este paiz, observou que é na cidade de Sam Luiz, onde no Brasil se falla o portuguez com mais pureza. É a patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, Odorico Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.

Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, que causaria inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se actualmente Odorico Mendes na traducção em verso das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo disputa com a inspiração.

Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são geralmente repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves Dias) pertence tambem á provincia do Maranhão, por elle explorada como sabio e como viajante intrepido, porem nasceu em Caxias.

As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem a honra da bibliotheca publica; porem este estabelecimento, creado n’uma cidade eminentemente litteraria, não está em relação com as necessidades crescentes de outras instituições suas, relativas á instrucção publica. Ha tres annos contava apenas 1031 volumes.

Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o primeiro que, com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na Cidade nascente, marque o principio de uma era nova para estabelecimento tão indispensavel n’uma Capital, já florescente. Muitas outras instituições supprem esta deficiencia, publica-se na Capital diversos jornaes, taes como o _Publicador Maranhense_, a _Imprensa_, o _Jornal do Commercio_ etc. etc., e tambem ha uma _Associação typographica_, um _Gabinete de leitura_, e a sociedade litteraria _Atheneo Maranhense_.

Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que o Padre Arsenio de Pariz com muita difficuldade achava apenas uma folha de papel para escrevêr á seos Superiores.

4 (pag. 11).

A Cathedral de _São Luiz_ ou do _Maranhão_, (assim com estes dois nomes se designa a Cidade) deixou a invocação de São Luiz de França. É a antiga Igreja do Convento dos Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. S. da Victoria. (Vide Ayres do Cazal—_Corographia Brazilica_. Rio de Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166).

Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente se estão trabalhando para o augmento do Convento de S. Antonio, respeitou-se a pequena Capella feita pelos francezes. São tres os frades d’esta Ordem, Frei Vicente de Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim de S. Francisco, todos sacerdotes.

5 (pag. 12).

Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então prodigiosa abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne era muito saborosa: chamam-na os portuguezes _peixe-boi_, e os indios _manati_. Ainda hoje os habitantes ribeirinhos do Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a excellente carne d’este peixe. (Vide Osculati, _America equatoriale_). Claudio d’Abbeville lhe deo o nome de _Uraraura_.

6 (pag. 14).

Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes.

O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo nome de _Tapuitapéra_, está hoje dividido pelas comarcas de Alcantara e de Guimarães. Antigamente foi occupado por onze aldeias de indios, das quaes a maior era Cumã. _Tapuitapéra_ dista 40 legoas de Maranhão.[BI] Pensa _Martius_ que esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. Vide _Glossaria linguarum brasilensium_. Erlanguem. 1863, em 8.º

N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos vegetaes e dos animaes.

O _Aparaturier_, que deo tão felizes comparações ao padre Ivo, é simplesmente o mangue (_Rhyzophora._ Lin.) Esta arvore das praias americanas tão util á industria, forma vastas florestas maritimas, e em roda da costa do Brasil e de Venezuela. Com muita frequencia se tem destruido estas arvores, em varios lugares, e temos ouvido até attribuir-se a invasão recente da febre amarella á destruição systematica d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas as praias brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa á descoberto praias cheias de lôdo, habitadas por myriades de carangueijos, formando assim pantanos d’onde se desprendem miasmas de especie muito perigosa.

No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, o _branco_ e o _vermelho_, e para a descripção scientifica d’elles enviamos nossos leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que a palavra antiga, ahi empregada pelo padre Ivo, vem do verbo _parere_, parir, porque esta arvore se reproduz pelas raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de si. (Vide _Nossas scenas da naturesa sob os tropicos_,) e ahi achareis o effeito do mangue nas paisagens.

7 (pag. 17).

É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, que se trata das tartarugas do Maranhão.

Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que se chama—_manteiga de tartaruga_, de que se exporta prodigiosa quantidade.

8 (pag. 17).

N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se podem caçar, um nome desperta naturalmente a attenção do leitor, e é _vacca brava_. É bem possivel, rigorosamente fallando, que os campos do Mearim ja tivessem algum individuo da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida em Pernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este ponto.

Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: a vacca brava, ou _bragua_, como chama em outro lugar, é o _Tapir_ ou _Tapié_, conforme Montoya, animal muito commum em todo o Brasil.

Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes d’um nome pedido por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no tambem _Anta_ ou _Danta_, que significa, dizem, bufalo. Quando chegou aos americanos a sua vez de dar nome ao boi, chamaram-no _Tapir-açù_.

Martius observa com razão, que esta palavra na lingua geral se applica a todo o mamifero corpulento. Sendo este pachyderma o animal mais corpulento conhecido na America do Sul, foi sua caça procurada de preferencia pelos Europeos, e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se mais rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos paizes da America era um animal sagrado, e assim figura em diversos monumentos.

No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por ser boa caça como pela espessura de seo couro, de que faziam escudos impenetraveis ás flexas, pela maior parte armadas de uma ponta aguda de madeira ou de cana.

João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses broqueis, porem não chegaram á Europa, porque uma terrivel fome devida á longa viagem de 5 mezes obrigou o pobre viajante a comel-as, depois de amolecidas por meio d’agoa.

Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente o Tapir americano, consultem uma excellente dissertação, dedicada especialmente á este animal, escripta pelo Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto.

No _Glossario_ de Martius lê-se uma extensa synonimia relativa ao Tapir. (Vide pag. 479.)

9 (pag. 18)

É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos francezes.

Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi ainda bem esclarecido: o mais afamado capitão de indios de que se recorda o Brasil fez suas primeiras campanhas durante o dominio dos francezes.

O celebre Camarão, o grande chefe ou _Morubixaba_ dos Tabajares, commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere e Jeronymo de Albuquerque.

Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta guerra, partio de sua aldeia, no _Rio Grande do Norte_, e foi para o _Presidio de N. S. do Amparo_, no Maranhão, em 6 de setembro de 1614: seguio-o seo irmão _Jacauna_ com um filho de igual nome, e de 18 annos de idade.

Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, adquirio fama immortal nos fastos do Brasil por occasião da expulsão dos hollandezes. (Vide _Memorias para a historia da Capitania do Maranhão, impressa nas Noticias para a historia e geographia das Nações ultramarinas_.)

10 (pag. 18).

No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se pode dar aos _Pecoris_ ou _Tajassus_, ou _Porcos do Matto_ na linguagem dos naturaes. Não é extraordinaria a proesa do fidalgo, porque andando os _pecaris_ sempre em bando basta chumbo grosso para matal-os. Martius deo a synomimia completa d’este animal no _Glossaria linguarum brasiliensium_. (Vide a divisão _Animalia cum Synonimis_, pag. 477.)

11 (pag. 18).

Um _ajoupa_ é uma pequena cabana coberta de folhas e abertas por todos os lados.

Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos de Guyana. Vê-se estampas de _ajoupas_ em Barrére.

12 (pag. 19).

Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso de Xaintongeois. (Vide o _Manuscripto original de sua viagem_ na Bibliotheca Imperial de Pariz.)

João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades de Henrique IV, visitou suas praias. (Vide o _Manuscripto_ do seo _Relatorio_ na _Bibliotheca de Santa Genoveva_.)

Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento.

João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho das Amasonas, que tanto occupou Condamine e o illustre Humboldt. Tudo quanto elle referio d’estas guerreiras soube do chefe _Anacaiury_, cujo personagem, ou seo homonymo, encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux.