Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 27

Chapter 273,886 wordsPublic domain

Esta nação, tão cheia de prejuisos, seguio este desgraçado, não intermediando muito tempo sem conhecer a zombaria do espirito do conductor, porque falleceram milhares, e acharam-se no meio de vasta floresta, dançando constantemente, como elle lhe ordenou, até que chegasse o Espirito para lhe indicar o lugar procurado.

Ahi achou-se o Sr. de la Ravardiere, demonstrou-lhe seo engano, o que reconhecido, seguiram-no e embarcaram-se em seos navios com destino á Ilha do Maranhão, onde algum tempo depois um miseravel francez tendo uma questão com o Principal d’essa gente, para vingar-se, instigou os _Tupinambás_ a matal-a, subindo esta carnificina a cem ou á cento e vinte, entre mortos e prisioneiros.

Tal barbaridade foi praticada cinco ou seis mezes antes da nossa chegada.

Continuemos.

Depois de minha resposta, disse-me:

—Tenho bem pesar de não poder obsequiar-vos como mereceis, porque não tenho meios de ter escravos; outr’ora fui rico, hoje sou pobre.

Fiz o que pude ao padre, residente em _Juniparan_.

Tenho bem pesar de não traser-te caça sempre que venho vêr-te.—

Repliquei-lhe immediatamente:

«Não é isto que desejo de ti, e estou muito contente de conhecer tua devoção, e tua boa vontade, porem ambiciono que sempre progridas de dia á dia, e adquiras novos conhecimentos á respeito de Deos.

«Tens um padre na tua aldeia, visita-o sempre, e d’elle aprende as maravilhas de _Tupan_.

«Tens alem d’isto teo filho, que sabe a doutrina christan; elle que a ensine a ti e a todos de tua casa, o que fará melhor do que nós, visto pronunciar bem as palavras da tua lingua.»

—O que acabas de dizer-me afflige-me muito, respondeo-me elle, porque meo filho depois de christão, logo no principio, procedeo bem: ja sabia lêr um pouco no seo _Cotiare_, e escrever, estava sempre com o padre, e o seguia por toda a parte.

Deixou depois tudo isto, entregou-se á liberdade, esqueceo o que havia aprendido, e foge para o matto quando o padre o procura: isto me mata e como nada aproveito em fallar-lhe, eu te peço que tu lhe mostres, e proves ser elle filho de Deos, e que _Jeropary_ o quer seduzir: eil-o aqui, falla-lhe.»

Satisfiz-lhe o desejo, recordando á seo filho o fervor, com que recebeo o baptismo, admirando-me de vel-o tão mudado a ponto de fugir dos padres, pelo que eu acreditava andar o diabo no seo encalço si não regressasse aos seos deveres, se não frequentasse o padre de _Juniparan_, e não abraçasse sua antiga fé.

Ouvio-me pacientemente, e prometteo-me melhor procedimento.

Considerae, eu vos peço, o zelo de um verdadeiro pae para salvar seo filho, como mostrou o grande feiticeiro de _Tapuitapéra_: este pae é ainda pagão, e comtudo vós o vedes solicito, e cuidadoso pela consciencia de seo filho.

Quantos paes ha em França, que só cuidam dos bens temporaes de seos filhos, e despresam os espirituaes!

Veio outra vez visitar-me em companhia de alguns selvagens, seos visinhos: rolou nossa conversação á respeito da creação do Mundo, da providencia de Deos para com o procedimento dos homens, e da vocação singular e particular de cada um.

—É preciso, disse, que seja Deos um Espirito poderoso, incomprehensivel para nós, para crear com uma só palavra, como ouvimos muitas vezes de vós outros padres, tudo o que vemos e ouvimos.

Imagino a immensidade do mar, que ha d’aqui até a França, tanto assim, que os navios gastam doze luas no trajecto de ida e volta, e admiro que o sol, que temos, seja tambem vosso.

Quantos passaros, peixes, e animaes existe no Mundo, todos foram feitos por _Tupan_.—

O segundo ponto de discussão foi este:

«Vejo-me embaraçado quando penso nas diversas nações, que existem no Mundo.

«Vejo os francezes ricos, valentes, inventando navios para passarem o mar, canoas, e polvora para matar os homens insensivelmente, bem vestidos e nutridos, temidos e respeitados.

«Ao contrario nós vivemos errantes e vagabundos, sem roupas, machados, fouces, facas e outras ferramentas.

«De que procede isto?

«Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francez, e outro _Tupinambá_, ambos doentes e fracos, e não obstante um nasce para gozar de todas as commodidades e o outro para viver pobremente.

«Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e comtudo uns são escravos, e outros _Muruuicháues_.»

Eis o terceiro ponto de discussão:

—Não posso tranquilisar o meo espirito quando penso, que vós outros francezes tendes mais conhecimento de Deos do que nós. Porque temos vivido tanto tempo na ignorancia? Dizei-nos, que foi Deos quem vos enviou, e para que não o fez antes? Nossos paes não se teriam perdido, como succedeo. Os padres são homens como nós, e porque elles fallam a Deos, e nós não?—

Respondi-lhe a tudo isto, dizendo «ser muito pequeno nosso espirito para conceber coisas tão altas, reservadas por Deos só para si. Basta saber que elle fez tudo, ama e dá o necessario a todos.»

Quando vê um individuo disposto a abraçar suas crenças não deixa de o mandar vesitar pelos seos Apostolos, que lhe proporcionam meios de salvar-se, sendo de crer não achar-se seo coração e espirito, antes da nossa vinda, disposto e apto para receber tão grande luz, qual a do Evangelho.

Estes e outros discursos similhantes, que adiante encontrareis, vos habilitarão a julgar da capacidade de suas almas para receberem a fé de Jesus Christo, nosso Salvador.

CAPITULO XX

Conferencia com o Principal d’Orobutin.

Era este Principal de alta estatura, muito magro, modesto e affavel, e tinha estado doente desde a nossa chegada até quando veio vesitar-nos.

Entrou em nossa casa acompanhado por alguns dos seos, com muito respeito e quasi a tremer.

Acolhendo-o muito bem, mandei sental-o em frente a mim n’uma rêde de algodão, e logo conforme o costume, principiou assim a fallar-me:

«Vim hoje ter comtigo, ó padre, para duas coisas: a primeira para desculpar-me e pedir-te que não repares o não me encontrares quando chegaste em _Uraparis_, como fizeram _Japy-açú_, _Pira-Juua_, _Ianuarauaeté_, e outros Principaes da ilha, e não poude tambem vir antes de _Pacamão_, de _Aua Thion_, meo chefe, pois achava-me gravemente doente, porem no meio de minha molestia sempre tive o desejo de vêr teo rosto, e ouvir de tua bocca o que meos companheiros de aldeia me contavam de vós outros padres.

«A segunda coisa que aqui me traz, é offerecer-te meos filhos, que t’os dou, quero que sejam teos, e que os faças _Caraibas_.

«Desejo igualmente e peço-te, que venhas tu ou um dos padres á minha aldeia edificar uma casa para Deos instruir a mim e a meos similhantes, e declarar-nos o que _Tupan_ deseja de nós para sermos lavados, como tem sido os outros.

«Asseguro-te que não faltariam viveres, por ser minha terra boa e abundante de caça.»

Advirto ao leitor, que é facil traduzir as palavras e pensamentos d’este selvagem, porem não os gestos e a vivacidade do seo espirito ao pronuncial-os: direi apenas que suas expressões eram acompanhadas de lagrymas e com vóz cheia de fervor e devoção revelava-me o toque do Espirito Santo, e o ardente desejo de ser christão.

Respondi-lhe:

«Não precisa pedires desculpa pela tua auzencia quando saltamos na ilha, porque alem de estares doente, muito longe é d’aqui á tua aldeia, e isto só basta para seres desculpado.

«Regosijo-me muito vendo em ti tão boa vontade para comnosco, e tão grande desejo de tua salvação, da de teos filhos e em geral da de teos similhantes.

«Si actualmente tivessemos mais padres acredita que eu iria, ou mandaria outro á tua aldeia, porem não podemos deixar a ilha por causa dos estrangeiros que nos vem vêr, e ao que é conveniente corresponder.

«Logo que chegarem os padres de França asseguro-te que terás um d’elles, porque reconheço claramente seres um dos escolhidos por Deos para seo filho.

«Coragem, e espera o que te digo.»

Replicou-me:

«Déste-me muita consolação, porque desde que correo o boato em nossa terra de dizerdes maravilhas de _Tupan_ e de tratardes com bondade nossos similhantes, que eu nunca mais tive socego de espirito.

«Quando irás procurar os padres, quando da bocca delles ouvirás o que dizem teos compatriotas? Levanta-te, e faze esforços para caminhar.

«Obedecendo muitas vezes a este pensamento, levantei-me da cama, porem estava tão magro e descarnado, que nem pude sustentar-me nas pernas: olha para meos braços, meo corpo, e minhas coxas, que não recobraram ainda a carne e a gordura, que a molestia me comeo.

«Admirou-me muito quando soube ter _Marentin_ vindo tão doente procurar-te, e receber o baptismo.

«Peço-te encarecidamente, que antes do meo regresso me ensines alguma coisa de Deos, e acredita, que fixarei em minha memoria, e não esquecerei uma só palavra, e mui fielmente o referirei a minha gente e a meos filhos.

«Tenho tres filhos, sendo o mais velho este que aqui vedes: quero que fiquem com os padres quando vierem, que se assentem á seos pés, e que escutem com cuidado o que elles disserem, e cumpram suas ordens.

«Elles caçarão e pescarão para os padres.»

Pelo interprete lhe disse ter elle razão, e que eu não podia recusal-a, e assim que attendesse bem ao que eu ia ensinar-lhe, e que chamasse para junto de si seo filho e seos companheiros, o que feito principiei a explicar-lhes o mysterio da creação e da redempção por meio de comparações ordinarias e palpaveis.

É impossivel descrever-se a attenção e emoção, com que elle recebia estas agoas sagradas do Redemptor.

Nunca animal algum foi tão avido e desejoso por uma fonte clara em pleno estio, do que este saboreando a nova doutrina.

Prasa ao Ceos, sem fazer comparação alguma, que os christãos acolhessem a palavra de Deos com tanta avidez.

Tinha as espaduas curvadas, em quanto fallei, os olhos meio baixos, e apenas como que a furto respirava e cuspia, e n’essa occasião era possivel presentir-se o caminhar de um rato.

No fim disse-me—que grandes coisas! nunca ouvi fallar n’ellas e nem n’outras similhantes, porque Deos não quiz fallar comnosco, e nem com os nossos antepassados, e nenhum _Caraiba_ ainda nos entreteve contando-as.

Acabas de dizer-me que Deos está em toda a parte, que não póde ser visto, mas vê tudo e nos ouve, acompanhando-nos por toda a parte, e sempre adiante: que somente os baptisados podem sentil-o e reconhecel-o, que não tem corpo como nós, mas sim é um espirito derramado por todo o universo.

Ouvi bem, mas difficilmente comprehendo, porque não estamos costumados a ouvir tão grandes coisas, e sim temos inclinação natural para pescar, caçar, flechar e fazer muitos exercicios. Em quanto aos mais entregamo-nos aos nossos feiticeiros, dotados de animo mais subtil para conversarem com os espiritos.

Disseste-me ser Deos como o ar que respiramos constantemente, pois sem elle morreriamos: que _Tupan_ nos dava vida e respiração, entrava em nós e nos cercava por toda a parte como o ar: que assim como o ar existe e vae por toda a parte, assim tambem Deos entrava e existia em todo o lugar.

Entendo bem este ponto, pois si Deos fez o ar, necessariamente é mais do que elle.

Estou muito satisfeito por me dizeres, que _Jeropary_ apenas era criado ou servo de _Tupan_, que é perseguido pelos espiritos bons, quando faz ou persegue algum homem ou mulher sem licença de Deos, e que finalmente não tem poder sobre os baptisados.

Bem fez Deos, porque _Jeropary_ é mau, e eu bem desejaria que elle fosse açoitado até morrer pelos bons Espiritos.

Apenas eu fôr christão, si elle aproximar-se de minha aldeia, irei atrevidamente ao seo encontro, e não terei medo algum.—

Desculpae as expressões d’este selvagem, não christão.

Escutae o resto da sua conversação.

—Era necessario, que a moça, com quem Deos se casou, fosse muito bonita, riquissima, e a mais poderosa do seo paiz, por ser _Tupan_ o maior de todos os _Muruuichaues_: creio que seo filho tinha grande sequito e muito acompanhamento; porem os malvados traidores, que o mataram, eram velhacos e cautellosos porque o fizeram occultamente pois si sua gente soubesse o teriam defendido.

Parece-me que ficariam bem admirados quando o viram sahir vivo de sua sepultura: devia então vingar-se dos que o fizeram morrer, mas tu me disseste uma coisa admiravel, isto é, que elle subio para o Ceo, somente em corpo e alma, que está sentado acima do sól, que tem olhos mais claros que o sól e a lua, que nada se faz na terra, que elle não veja e observe tanto na tua patria como na nossa, ouvindo distinctamente as nossas palavras, as vossas preces nas Igrejas, escutando-as, e vindo todos os dias sobre os vossos altares, onde com elle fallaes, bem como todos os _Caraibas_ com liberdade, até sem abrir a bocca, não deixando de perceber o que dizeis em vosso coração.

Disseste tambem, que foi elle quem vos mandou para cá afim de ensinar-nos estas coisas, a meo vêr muito bellas, e não me enfadarei de ouvil-as, porem o barco está prompto para regressar, e estão á minha espera minhas roças, que deixei boas para a colheita.

Tudo isto obriga-me a partir, alem de não ter trazido farinha commigo.—

Respondi-lhe, que si era só por falta de farinha, que elle se via constrangido a partir, que eu tinha alguma á sua disposição e de seos companheiros.

Agradeceo-me a seo modo, despedimos-nos reciprocamente, e elle partio.

CAPITULO XXI

Conferencia com o Onda, um dos Principaes de Commã.

Este Principal sempre foi o pae commum dos francezes em _Commã_ honrando-os, respeitando-os, e defendendo-os contra todas as más indisposições suscitadas, como era costume, pelos malvados e libertinos, a ponto de ser por elles aborrecido e ameaçado de ser espancado senão morto a não ser o receio, que tinham dos francezes.

Quando foi nossa gente ao Pará, elle a acolheu com toda a bondade e generosidade, ambicionando ser o _chetuasap_ ordinario do chefe dos francezes, consistindo toda a sua fortuna e felicidade em ser amado e apreciado pelos francezes.

Tinha um filho com 20 annos d’idade, que recommendou muito ao Sr. de la Ravardiere e a todos nós, pedindo que o acolhessemos bem, não exigindo outra recompensa de sua fiel amisade senão a de poder seo filho viver entre os francezes, n’uma palavra—ser francez.

N’essa occasião tinha recommendado á seo filho, que se esforçasse o mais, que podesse, para aprender a lingua francesa, e para o conseguir com mais facilidade ordenou-lhe que frequentasse os francezes quanto podesse, estando sempre entre os residentes em _Commã_, e de tal fórma se houve, que aprendeo algumas palavras de nossa lingua.

Pensou este bom homem ter obtido todas as riquezas do mundo, quando vio seo filho balbuciar vinte ou trinta palavras francezas, e julgou ser tempo de trazer este grande doutor aos _pays_, isto é, aos padres para ser baptisado, e depois ser _Caraiba_, «francez.»

Tereis sem duvida notado, tanto por este discurso, como por muitos outros precedentes e subsequentes, que os selvagens julgavam necessario ser primeiro baptisado para depois ser francez, sendo manifesta loucura o pensar em contrario e na verdade não se enganavam.

O verdadeiro francez é mais francez pela piedade e religião do que pela origem, visto que Deos o felicitou fazendo-o vassallo e subdito de um rei christianissimo, primeiro filho da igreja, e sempre seo fidelissimo protector, como demonstrou em todo o tempo e em todas as occasiões.

Si dermos credito a Santo Agostinho, no Tratado do Ante-Christo, é elle, que deve resistir a este Ante-Christo, como se vê em mais de um lugar.

Voltemos ao nosso homem.

Trouxe seo filho com muito respeito, e assentando-se n’uma rêde, e o rapaz perto d’elle, desculpou-se de não ter vindo logo vêr-nos e visitar-nos, assegurando porem ser um dos nossos melhores amigos, que desejava ter padres com elle na sua aldeia, que os acolheria muito bem, que nada lhes faltaria para a vida, nem javalis, veados, e outros bichos proprios á esse fim.

É por esta fórma que todos se desculpam.

Depois d’isto, assim fallou-me:

«Sou homem de idade, como vedes, porem tenho muita força, e espero vêr este meo filho, que aqui te trago, bom _Caraiba_, como me prometteo o Grande, que sympathisa com elle, quer vestil-o e tel-o aqui com os francezes.

Eis porque venho pedir-te para laval-o com agoa de _Tupan_: assevero-te, que elle sabe tudo quanto é preciso saber, e breve o ouvirás porque tive o cuidado que elle fallasse com os francezes, e todos me dizem que elle entende muito.

É bom rapaz e amigo dos francezes.»

Dizendo isto, fez signal a seo filho para aproximar-se, e ordenou-lhe que contasse tudo quanto sabia de francez.

Só com muito custo podia conter o riso, e nem si quer me era permittido usar do interprete que ria-se a bom rir, de tal simplicidade; comtudo, eu o tranquilisei pedindo-lhe desculpa pelas travessuras de um pequeno papagaio, que eu tinha, a fim de não pensar que era elle o provocador do riso.

O rapaz recitou-me a doutrina, que seo pae julgava bastante para receber o baptismo, e o fez d’esta maneira: _bom dia, senhor, como estaes: Bem, senhor, prompto ao vosso serviço, quereis comer, sim: pão, peixe, carne, minha cabeça, eo chapeo, meo gibão, meo borzeguim, minha camisa_[BF]

Não pude ouvir mais com receio de arrebentar de riso.

Disse-lhe ser bastante, que só por isto eu fazia ideia d’elle não ter perdido seo tempo.

O bom homem pressuroso interrompeo-me dizendo ter ainda que dizer-me.

Levantou-se do seo logar, tomou todos os utencilios do meo quarto, e mostrando-me um apoz outro disse-me, que elle de tudo sabia o nome em francez.

Aproximando-se de minha mesa, e agarrando-a com duas mãos, dizia—elle ainda sabe o nome d’isto em francez.

Dirigio-se a seu filho, e perguntou-lhe se era verdade o que dizia. Sim, respondeo-lhe o moço, e ainda mais, pois chamaria pelo nome tal e tal francez, bem como tambem sabia a denominação das armas: _Um arcabuz, que faz puf, uma espada, um canhão, que faz pataú_.

Mas, disse-lhe o pae, bem depressa saberás o resto?

Sim.

Muito bem, replicou o pae, não deixes de vir todos os dias recitar tua lição diante do padre.

Deixando-lhe toda a liberdade de fallar afim d’eu poder conter o riso, e d’elle dar expansão ao seo fervor, que não era isto, que eu exigia para conferir-lhe o baptismo, e sim o conhecimento de Deos e de outras coisas dependentes da nossa religião.

Ficou admirado de ouvir-me, reconhecendo inutil a estima que elle tinha de vêr seo filho, grande doutor, e parecendo não entender até o que eu lhe dizia.

Pelo interprete expliquei-lhe o meu pensamento, e elle respondeo-me não ter ouvido ainda fallar n’isso, mas que como seo filho era intelligente cedo aprenderia bastando-lhe apenas uma lua, para o que deixava seo filho no Forte de Sam Luiz.

Disse-lhe que elle fazia muito, que eu o trataria o melhor que me fosse possivel, e sempre seria bem acolhido entre os francezes.

Mas, disse eu, porque não procuras para ti o bem, que desejas a teo filho?

Ah! respondeo-me, sou muito velho: nada mais poderei aprender, como esses rapazes, que vão ser _Caraibas_.

Como, repliquei, antes queres ir com os diabos queimar-te no inferno, do que esforçar-te para aprenderes a sciencia de Deos? Tua velhice não é desculpa aproveitavel.

Tens eloquencia para fallar um dia inteiro, si quizeres. Calcula ha quanto tempo fallas, e quantas palavras tens proferido.

Não precisas aprender a quinta parte das questões, que me tens proposto, afim de seres christão; nas palavras de tua lingua, pelas quaes comprehendemos os objectos expressados na nossa linguagem.

Aprendeis com muita facilidade cantigas e descantes, tão compridos sobre feitos de vossos antepassados.

Poderás assim aprender facilmente o que queres, que saiba teo filho.

Pois bem, me disse elle, vou fazel-o.

Voltando-se para o filho, recommendou-lhe que escutasse bem tudo quanto lhe ensinassem, que não perdesse uma só palavra, e que imitasse todas as acções dos francezes, que viria depois buscal-o para a terra d’elle afim de ensinar-lhe o que tivesse aprendido.

Serás bem recebido, todos farão caso de ti, e se reunirão para te ouvir contar tão boas coisas. Depois viremos procurar os padres para nos baptisarem.

Assim fallando, olhou-me a sorrir-se.

Muito bem, disse elle: Padre, não beberemos bom vinho de França? ou _Cauin_, que queima, isto é, aguardente?

Não terás d’ella alguma garrafa na tua frasqueira? Dá-me as chaves d’ella.

O _Muruuichaue_ me deo em sua casa um pouco, e era muito boa e muito forte: esfregando seo estomago com a mão, dizia-me, olha, ainda sinto ella aquecer-me.

É costume da França tirar da frasqueira a garrafa quando se recebe visitas de amigos.

Tenho desejos de vir muitas vezes a _Yuiret_, quando chegam navios de França para gozar do seo vinho muito melhor do que o nosso.

Vendo finalmente a simplicidade d’este homem, que foi o primeiro a rir-se, e não tratando nós mais das coisas de Deos, foi-me necessario rir tambem, dar-lhe agoardente, e depois de ter bebido um bom copo, pelo interprete notou não ter eu bebido com elle, que convinha fazel-o, e que depois elle me acompanharia.

Assim o fiz para chamar estes homens ao seio de Deos, tel-os como que obrigados ou agradecidos a nós em tudo quanto podessemos, conforme sua naturesa, quando n’isto não ha offensa á Deos.

Depois de achar-se um pouco enthusiasmado com o segundo copo começou a pronunciar gutturalmente estas palavras—_Goy y katu de katogne kauin tata_, «oh! quanto é bom, muito bom o vinho de fogo, ou o vinho que arde.»

Como mau agouro ouvi a palavra _Goy_, que é o começo para beber-se muito, e principiei a cogitar na maneira por que havia de fechar a garrafa, visto não haver necessidade de tal despesa, então grande pela sua falta.

Disse ao meu interprete, que a levasse, e este querendo cumprir a minha determinação, o meo selvagem agarrou a dizendo não ser costume dos francezes guardarem as garrafas, tiradas da frasqueira para a meza e que por muitas vezes se tinha achado entre elles.

Reconheci que era necessario resgatar a minha prisioneira, embora ella nada me ficasse a devêr pela sua boa composição.

Disse-lhe, que _cauiu-tata_ não era similhante ao que tinha bebido antigamente, que perturbava a cabeça de quem o bebesse muito, que eu devia cuidar do seo corpo e de sua saude, mas que eu ainda lhe daria um copinho para dizer-lhe adeos, e assim foi-se satisfeito.

Veio visitar-me no dia seguinte. Prevenindo-me e indo ao encontro dos seos desejos mostrei-lhe uma garrafa quebrada, igual a do dia antecedente fingindo estar muito triste pela agoardente que se tinha derramado e perdido: mostrou-me igual sentimento, e batendo na coxa me disse—Aqui está, si tivesses permittido, nós a tinhamos bebido, e nada teria acontecido.

o...

* * * * *

_Faltam as ultimas folhas d’esta narração no exemplar unico da edicção original, existente na Bibliotheca Imperial de Pariz._ (Vide o Prefacio.)

_Suppre-se de alguma forma esta falta, bem sensivel, publicando-se no fim da obra, curiosissimas cartas, por longo tempo esquecidas._

NOTAS

[BC] Por falta de typos proprios deixamos em claro este espaço.—Do traductor.

[BD] Quarta parte de um soldo de França.—Do traductor.

[BE] Gurupy.—Do traductor.

[BF] Em francez muito mal escripto estão estas palavras, é impossivel traduzil-as com taes erros.—Do traductor.

ADDENDUM.

Congratulação á França pela chegada dos Padres Capuchinhos á nova India da America Meridional do Brazil.

Grande reino, e povo francez, tens razão de louvar a Deos: Christianissimo Reinado, de dia para dia crescem tuas alegrias, dando sempre de ti boas novidades: sól dos reinos, flor dos povos do Universo, és notavel por todas as maneiras.

Por tua antiguidade na fé catholica, religião christã, devoção aos altares divinos, e fervor em ouvir a palavra de Deos.

Pelo amor e dedicação a teo Principe natural, por tua honesta sinceridade, ou sincera franqueza, na conversação, qualidades, que nenhuma outra nação possue como tu.

Esplendido, magnifico, e magnanimo reino sobre todos os reinos da terra.