Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 26

Chapter 263,916 wordsPublic domain

Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença para fazeres uma casa, onde levantaremos um Altar igual á este, com iguaes ornatos, e com Imagens como as que estás vendo.

2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, feita em bordado alto, de extrema belleza, e revestida de perolas, presente do Sr. de S. Vicente quando regressou á França: olhando para ella, perguntou-me—quem é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para ella de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria, Mãe de Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio do ventre d’Ella.

Repetio estas palavras duas ou tres vezes—_Ko ai Tupan Marie?_ «Como é Maria Mãe de Deos?» _Kugnan Ycatu_, «linda mulher.»

Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo para Esposa e Mãe de seu Filho, que era a Princesa de todas as mulheres, tendo tido por marido Deos unicamente, e que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que tinha resuscitado depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, sendo levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada ao pé do corpo de seo Filho.

Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, respondi eu, não vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, só e unicamente, sem auxilio algum?

Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz do sol.

È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, sabeis grandes coisas, sois mais sabios do que nós, porque não prestamos attenção ás coisas da nossa terra, que vemos todos os dias, e vós em tão pouco tempo já as conheceis.

Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção ao que vou dizer-vos por intermedio do meo interprete para repetirdes tudo, quanto souberdes, aos teos companheiros, que ficaram na porta por tua ordem, visto ser da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos.

Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da creação e da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas partes: n’uma, por exemplo, a creação dos Ceos e dos elementos, n’outra a creação dos peixes e dos passaros, e n’outra a creação dos animaes, das arvores e das hervas: causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem os da sua terra, e quando descobriam um parecido, não deixavam de dizer-nos—eis tal passaro, tal peixe, e tal animal, e os que não conheciam perguntavam si haviam em França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços abertos, soltando da bocca um forte sopro de vento, e me perguntaram o que isto queria dizer?

Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram feitas todas as coisas, apenas com a palavra de Deos, cujo poder e dominio estendia-se ás duas extremidades do Ceo.

Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada pela costella do homem, quando dormia, pedio-me explicações, e assim o satisfiz dizendo, que Deos quiz com isto que elle tivesse uma só mulher e não mais de trinta como elle tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma, elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente uma e ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, que este só devia ter uma mulher, a quem amasse e conservasse, e não mudal-a á capricho da vontade, como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos uns com os outros, visto que costumaes roubal-as até na casa de seos proprios maridos.

Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos e o padre Sam Francisco, muito bem feitas e illuminadas.

Perguntou-me quem eram esses _Caraybas_?

Estes doze, respondi, são doze _Maratas_ do filho do _Tupan_,[107] os quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o Mundo Universal em doze partes: tomou cada um a sua, onde foi guerrear _Jeropary_, e lavar todos os crentes em Deos, deixando successores, que foram se revesando até nós. Peguei na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a vossa terra este grande _Marata_, e aqui fez muitas maravilhas, como por tradicção vos contou vossos antepassados. Foi elle quem fez talhar, á rocha, o altar as imagens, e as inscripções, que ainda existem actualmente, como tendes visto.[108]

Foi elle quem vos deixou a _mandióca_, e vos ensinou a fazer pão, pois vossos paes, antes de sua vinda, comiam só raizes amargas dos mattos.

Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo grandes desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem vêr _Maratas_.

Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos livrasse das mãos do diabo, e vos fizesse filho de Deos.

Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos paes.

Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, olhou para a imagem de Sam Francisco e me disse—quem é aquelle que está vestido como tu?

É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se vestem.

Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te mandou para cá e aos outros padres?

Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, porem deixou successores, que nos mandaram para cá. Não está mais em França, e sim no Ceo com Deos, onde esperamos ir vel-o.

Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou.

Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando assim o Filho de Deos, seo Rei, que vivendo n’este mundo não tinha mulher.

Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso altar, as quaes eram de bello damasco com grandes folhagens, agaloadas, e guarnecidas de passamanes e franjas de prata fina, bem como o frontal do altar.

Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos _Tupan_ com grande reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do seo regresso, e que lhe desse imagens para leval-as comsigo.

É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos.

Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario saber para ser lavado?

Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda muito que aprender.

Que me ensinarás ainda?

Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou te farei ensinar muita coisa, mas não te posso baptisar ja, sem primeiro saberes a doutrina de _Tupan_. Quero experimentar tua constancia, e esperar nossos padres que não tardam a chegar conforme me prometteram. Elles te baptisarão, e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e não te deixaram mais.

Antes d’isso não deixes de repetir na tua _caza grande_ á teos similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e assim nós, e todos os francezes, te estimaremos, e sempre serás bem vindo.

Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo que tu me lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar muitas vezes, porque sempre aprenderei alguma coisa.

Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo este tempo na porta da igreja.

Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que se aproximassem ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, mostrando-lhes as imagens e explicando o que representavam.

Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se admirada a seo geito, e depois despedio-se e foi para o Forte de S. Luiz, onde embarcou e regressou á sua terra.

Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e contou-me como cumprio suas promessas, fallando na _caza grande_, e repetindo o que lhe ensinei, e affirmou que todos se fariam christãos logo que elle fosse baptisado, o que me pedio ainda uma vez.

Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança de que seria baptisado em pouco tempo, apenas chegassem os Padres de França.

Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos occupado da primeira vez, e com avidez recebia todos os conhecimentos mostrando por seos gestos indizivel contentamento.

N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado por poucas pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando com muito menos arrogancia do que o fez na primeira vez.

CAPITULO XVIII

Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra.

O grande feiticeiro de _Tapuytapéra_ era homem muito respeitavel, de boa estatura e bem feito, valente guerreiro, modesto, grave, e de poucas palavras: era muito amigo dos francezes, e gozava entre os habitantes do seo paiz do mesmo poder, que Pacamão em _Commã_, Japy-açú em _Maranhão_, o Arraia-grande entre os _Caietés_, Thion e Farinha-molhada entre os _Tabajares_, rico, e de muito bons filhos, que são fieis aos francezes e christãos, como d’aqui ha pouco diremos.

Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos a quatrocentos dos seos companheiros para fazel-os trabalhar nas fortificações, e regressar á seos lares depois de acabarem seo tempo, revesando-se assim, e nunca menos de dusentos a tresentos selvagens.

Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos francezes mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, e recommendava-lhe perfeição de obra.

Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, por intermedio do seo interprete, por não me ter vindo vêr logo que chegou a Ilha, por estas palavras:

«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar comtigo, porem deve ser com descanço.

«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de se empregar com animo na fortificação d’esta praça.

«Não deixarei de te ir vêr com _Migan_, que está aqui para te fazer sabedor do que eu digo, contando-me tambem as maravilhas, que ensinas aos nossos similhantes.»

Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente vendo-o assiduo no trabalho para que fóssem bem feitas as trincheiras e fóssos afim de resistirem a seos inimigos, e que depois si nos offerecia occasião de conferenciarmos: que era só isto, que eu desejava, que nós todos o estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como porque elle era amigo dos francezes, e sempre fiel.

Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos sobre muitas coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo de sua gente, e particularmente das crianças, que carregavam terra, o que causava a elle e á nós muita satisfação, fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão lhes assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois era para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as maravilhas feitas pelos francezes n’esta terra.

«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque serão _Caraibas_, andarão vestidos, e verão as Igrejas de Deos construidas de pedra.»

Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos no futuro, assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam porque não haveria muita demora na vinda de soccorros e navios de França trazendo muitos Padres, muitos francezes guerreiros, muita ferramenta e generos para elles: que então se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam acompanhados por elles quando fossem guerrear seos inimigos, que viriam os _Tupinambás_ e os outros alliados cultivar a terra da _Ilha_, e que tudo isto poderiam vêr antes de morrerem.

Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha habitação.

Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, acompanhado pelos principaes da sua Nação, e pelo interprete _Migan_.

Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse estas palavras:

—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar grande e authoridade entre os meos.

Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos que se empregam n’este officio.

Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.

Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos e chuvas, e o forte estampido dos trovões si não houvesse um Deos, autor de tudo isto.

Temos então homens maus, que vivem livremente sem temer algum castigo, e pensamos que elles irão ter com _Jeropary_.

Temos outros homens, que são bons, que não matam, que dão expontaneamente a sua comida, e pensamos serem elles amados por Deos, e por tanto que não vão cahir no poder do diabo.

Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, que faziam conhecer _Tupan_, e que em seo nome lavavam os homens: foi este o principal motivo, que aqui me trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo desejo de ser instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem condemnados os não baptisados, e que se perderam nossos paes.

Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu afim de irmos todos para a companhia de Deos.

Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto d’ella outra para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará.

Os que na minha provincia confiam e tem fé em mim, serão christãos.—

Traduzindo-me o interprete tudo quanto acima escrevi, acrescentou «este homem tem muito amor a Deos, e conhece-o muito, porque usa das palavras mais expressivas da sua lingua para melhor exprimir o que sente e conhece, e tenho muita pena de não poderdes entendel-o e conhecer o que elle diz. Respondei conforme seos desejos, fazei com que elle entenda estas palavras, o mais eloquentemente que puderdes.»

«Informaram-nos os francezes muito bem de vós e de vossos filhos, tanto de vossa fidelidade, e amisade, como de vossa natural bondade: eis o verdadeiro meio de cedo receberdes o favor de Deos, alcançardes seo conhecimento e seo baptismo. Tu o vês ordinariamente diante de ti quando a terra produz facilmente muitos fructos, provenientes da semente n’ella lançada.

«O homem é a terra, e o Evangelho a semente: quando Deos encontra boa terra, sem cardos e nem espinhos, elle ahi lança sua semente: á vista disto muito espero de ti e de teos filhos, e te asseguro que si fossemos mais nós os padres, tu já levavas um comtigo: tende porem paciencia, breve chegarão outros.

«Não deixes comtudo de edificar a casa de Deos e a dos padres, para que apenas cheguem, possas leval-os e acommodal-os.

«Não podes demorar-te aqui muito tempo em virtude do teo cargo: nós como somos poucos, não podemos tambem ir comtigo; conserva teos bons desejos, e Deos te ajudará.

«Conheci ja que tens muito amor a Deos, que seo espirito tocou-te o coração, e illuminou-te o entendimento para te guiar no que me dissestes: é grande bem para ti, não o despreses.»

Respondeo-me assim:

—Nunca fui mau, nunca me agradaram as carnificinas dos nossos escravos. Nunca roubei as mulheres dos outros, contentava-me com as minhas. É bem verdade, que me fiz temido ameaçando os que me despresam com molestias, que contrahiam por medo.

Nunca fallei com Espiritos, como fazem os outros _pagés_, e apenas empreguei a subtilesa da minha intelligencia, e a grandesa da minha coragem. Minhas feitiçarias concorreram menos do que a coragem, que muitas vezes hei manifestado na guerra, para conquistar a authoridade que hoje occupo.

Estou velho, e só ambiciono paz e tranquilidade.—

Respondi-lhe haver procedido bem, irritando contra si muito menos o soberano, á vista do comportamento de outros feiticeiros, que entretinham relações com o diabo, e que assim ficasse gosando a tranquillidade de sua consciencia até o dia do seo baptismo.

Pedio-me para vêr a Capella, e buscou informar-se de tudo quanto via—altares, paramentos, e imagens.

Expliquei-lhe tudo bem á sua vontade, e assim despedio-se de mim para regressar ao seu paiz, o que fez. Dei-lhe imagens para levar comsigo, o que recebeo com muita alegria, e expliquei-lhe o que significavam, e recommendei-lhe que as guardasse com todo o cuidado para que _Jeropary_ não as tomasse, visto ter sido vencido antigamente pelo Filho de Deos, que morreo na Cruz.

Com taes impressões partio.

Pouco tempo depois foi convertido Martinho Francisco a quem permittimos edificar uma Capella na sua aldeia, onde celebrariamos missa, e baptisariamos quando fossemos a _Tapuitapéra_.

Este grande feiticeiro, de quem acabamos de fallar, teve ciumes, e mandou-me dizer, que muito se admirava de eu ter dado licença a Martinho Francisco para fazer uma Capella na sua aldeia antes d’elle construir uma na sua, preferencia que elle bem merecia pela sua grandesa, tendo tambem padres comsigo como lhe fôra permittido.

Aos que me trouxeram o recado respondi não ter ultrapassado de forma alguma minhas palavras e promessas, que era elle o primeiro de _Tapuitapéra_, a quem tinha dado licença para fazer uma capella, que devia preceder os outros e em quanto aos padres ainda não tinham chegado: que quando fossemos a _Tapuitapéra_ não deixariamos de ir vel-o e visital-o; mas que eu não podia recusar a Martinho Francisco, ja christão, o ter junto de si uma casa de Deos para fazer suas orações. Achou boa a resposta.

Entre os convertidos por Martinho, depois do seo baptismo, foram dois dos filhos d’este _Muruuichaue_, e com isto teve Martinho singular consolação, animando-os a aprender suas crenças e a doutrina christan; porem aconteceo, infelizmente, serem elles seduzidos pelas más palavras de um de nossos interpretes para deixarem o Christianismo.

Sabendo seo bom pae, que elles para esse fim tinham deixado seos habitos e vestidos, lhes disse o que ides fazer? moveis-vos por bem pouco!

«Porque vos despis, e dissestes, que não querieis mais ser christãos?

«Quero agora que torneis a tomar vossos vestidos; ide procurar Martinho Francisco na sua aldeia, e d’elle recebei a doutrina, que os padres lhe ensinaram.

«Não vos separeis d’elle, e nem cá venham senão em sua companhia.

«Eu mandarei chamal-o para que vá ter com os padres.»

Estes rapazes obedeceram a seo pae, tornaram a tomar seos vestidos, vieram procurar Martinho Francisco, que foi ter com o grande feiticeiro, e veio depois em companhia de muitos christãos ao Forte de Sam Luiz para nos declarar, e aos nossos chefes, como se passaram estas coisas, e a ellas se deo remedio, conforme a occasião permittio.

O Revd. Padre Arsenio, acompanhado por muitos christãos, foi vêl-o em sua aldeia, onde foi muito bem recebido, notando toda a alegria que póde mostrar no rosto um selvagem, presenteou-lhe com muita caça, e rogou-lhes que si quizesse morar em _Tapuitapéra_ que escolhesse para residencia sua aldeia, e ahi seria bem acommodado, tanto quanto permitte o paiz.

Depois d’isto mandou-me seo filho mais velho, chamado _Chenamby_, «minha orelha,» com sua mulher, ambos com carga, e um filho pequeno. Disse _Chenamby_—Meo pae está com muito cuidado em ti, receia que não tenhas farinha, e é isto que aqui me traz. Logo que houver milho elle te mandará muito. Tem muita vontade de saber logo que aqui cheguem os Padres, porque immediatamente deixará a sua aldeia, e atravessará o mar para cumprimental-os, pedir um d’elles e leval-o comsigo para aprender a sciencia de Deos, e ser por elle lavado.

Dois dos meos irmãos são _Caraibas_, os quaes, como sabes, se despiram, apesar das observações, que lhe fizeram, actualmente vão indo bem, e estão sempre com o _padre-miry_, «padre pequeno,» (sobrenome que davam a Martinho Francisco por causa do empenho d’elle em converter as almas): quero ser christão, conjunctamente com meo pae, minha mulher, que aqui está, e meo filho pequeno que ella carrega, o qual chegando á idade propria, darei aos padres para ser por elles instruido.—

Este _Chenamby_ balbuciava um pouco o francez, e entendia tambem alguma coisa, graças ao trabalho e empenho, que para isso empregava, fallando com os francezes o mais que podia.

Respondi-lhe em sua linguagem por meio do interprete, d’esta forma:

«Que estava muito contente por seo pae lembrar-se de nós principalmente pela constancia da boa vontade de seo pae e de seos irmãos para com o christianismo, e especialmente vendo elle e sua mulher dispostos a receberem a fé christã, e a nos offerecerem seos filhos para ensinarmos o que fosse conveniente quando comnosco estivesse.

«Exhortei-os por muitas palavras a terem elle e sua mulher constancia em tal desejo.»

Sua mulher era de agradavel presença, moça, modesta, e trazia em seos olhos não sei que pudor, não se animando a olhar-me directamente: alem d’isto occultava com o pé direito de seo filho sua enfermidade, guardando o respeito natural de não se apresentar de outra forma diante de mim, de que tirei boa conclusão agradando-me ainda mais de suas maneiras e procedimento: achei-a muito boa e caridosa para com os francezes, humilde e obediente a seo sogro e marido, virtudes não pequenas n’uma india.

Antes de partir prometteo-me seo marido, que não casaria com outra, e nem a abandonaria.

Respondi-lhe, que se assim fizesse os padres o casariam á face da igreja, depois de baptisado.

CAPITULO XIX

Conferencia com Iacupen.[109]

Era Iacupen um dos principaes da tribu dos _canibaleiros_, conduzidos para a ilha pelo Sr. de la Ravardiere, pae de um mancebo christão, de boa indole, chamado João, e antes _Acaiuy-miry_, «cajú pequeno ou cajusinho.» Teve por varias vezes o trabalho de vir de Juniparan procurar-me e conversar commigo sobre as coisas divinas, e sobre a vaidade d’este mundo.

Um dia veio a minha casa com seo filho, e assim fallou-me:

—Tenho muito desgosto de não ser baptisado, porque sei que em quanto estiver assim, o diabo pode perseguir-me e perder-me.

Ah! quem pode assegurar-me a vida até a noite?

Agora volto para minha aldeia, posso encontrar uma onça furiosa, que me corte a garganta, e me mate sosinho no bosque.

Para onde irá meo espirito?

Não tenho pesar e nem inveja, que meo filho, que aqui está, se baptisasse primeiro do que eu.

Mas dize-me: não é coisa notavel, que elle seja Filho de Deos antes de mim, seo pae, e que eu d’elle aprenda o que devia ensinar-lhe?

Penso n’isto, e torno a pensar muitas vezes, principalmente depois da vossa vinda, e da de outros padres: lembro-me da crueldade de _Jeropary_ para com a nossa nação, porque tem feito morrer a todos, e persuadio a nossos feiticeiros de conduzir-nos ao centro de uma floresta desconhecida, onde dançariamos constantemente, alimentando-nos somente do amago das palmeiras e da caça, succumbindo muitos por fraqueza e debilidade.

Sahindo nós de lá, e vindo nos navios do _Muruuichaue_ la Ravardiere para a ilha do Maranhão, armou-nos _Jeropary_ outra emboscada, instigando por meio de um francez aos _Tupinambás_ para matarem e comerem muita gente nossa: si não é a vossa chegada acabariam comnosco.

Ja vedes, que somos muito infelizes n’esta vida.

Perseguimos os veados e outros bixos para matal-os e comel-os, porem elles não necessitam de ferramentas, de fogo e nem de canoas, pois acham a comida feita: quando perseguidos n’um lugar, em poucas horas transportam-se para outro atravessando até braços de mar, sem canôa: nós outros porem não podemos fazer o mesmo: faltam-nos ferramentas, fogo e canoas, e o que é mais, vem ainda perseguir-nos nossos inimigos, ora os _Peros_, ora os _Tupinambás_, e finalmente outras nações adversarias: finalmente a nossa posição é peior do que a dos animaes da terra.—

Respondi-lhe: «O que disseste, é bem certo, porque o diabo o que deseja somente é matar o corpo e perder a alma, e assim procede sempre com aquelles, com quem tem pouco a ganhar retendo-os em suas cadeias: é um monsenhor, e trata cruelmente seos servos.

«Deos não é recebedor dos velhos, e nem dos moços. Os primeiros, que se apresentam, são recebidos por elle, comtudo os ultimos são sempre os primeiros, porque recebem o christianismo com mais consideração, e o conservam com mais fervor do que os que o abraçam ligeiramente.

«Nosso Deos nos fez miseraveis n’este mundo afim de não olharmos só nas delicias da carne, e sim para preparar-nos com destino a outra vida alem d’esta.»

Antes de passar adiante convem explicar o que elle quiz dizer, quando fallou da desgraça de sua nação, devida aos conselhos dos seos feiticeiros, e á carnificina feita pelos _Tupinambás_.

Havia entre elles um grande feiticeiro, que entretinha com o diabo visiveis relações, e gozava de tal poder entre elles que todos lhe obedeciam.

Aproveitou-se o diabo de tal ensejo para seduzir e enganar esta populaça, ensinando ao feiticeiro o que devia dizer-lhe para elle ir tomar posse d’uma terra, onde tudo, facil e sem trabalho lhe appareceria á medida de seos desejos.