Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 25

Chapter 254,019 wordsPublic domain

Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia _Tupan_ sobre os altares, bebendo e comendo comnosco, que não tinham merecimento para ficar ahi em frente d’elle senão quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se ajoelhavam, imitando os francezes.

Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a campainha, juntavam as mãos e adoravam a Deos.

Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do Filho de Deos elles chamam _Tupan_, quer dizer, o proprio Deos, segundo suas crenças, _Aséreu yanondé Tupan rare_, quer dizer, «antes de morrer receberás o corpo de Deos».

Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo tão profundo, não me animaria a communicar-lhes senão em artigo de morte, e antes queria deixar esta tarefa para os que viessem depois de mim, porque dando n’um certo dia a communhão a uma India, a quem examinei tanto quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus Christo na Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se muito e não a poude engolir a ponto de querer tiral-a com a mão o que lhe prohibi disendo só poder ser tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e nem se assustasse tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade, que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda a confiança, o que fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a beber no calix: tão grande secura da lingoa e bocca proveio da grande timidez d’ella em receber tão santo manjar, o que me resolveo de então em diante a deixal-os bem fundamentarem-se no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes o Santo Sacramento, e ainda que muitos me pedissem o _Tupan_, eu lhes respondia que esperassem pela vinda dos nossos padres.

Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas faltas, até mesmo as proprias mulheres, e de coisas que são difficeis a este sexo declarar aos sacerdotes, representantes da pessoa de Deos.

Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a qualidade das pessoas, o numero de seos peccados, sem algum vexame tolo e mau como por ahi se observa.

Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, que é o lavamento dos peccados, a filiação de Deos, e a acquisição do Ceo, tendo como certo que os baptisados vão para o paraiso gozar da companhia de Deos, com tanto que não caiam outra vez em peccado mortal.

Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava _Jeropary_, e para onde iam os maus.

Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era muito feliz lá em cima, vivendo com os espiritos bons, e que seos paes que tinham tido boa vida, iam para um lugar de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre.

A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam crer do paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se purificam as almas antes de irem para o Ceo, de um quarto onde os meninos, que não chegaram a receber o baptismo, morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para não padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo a chave do Ceo.

Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens curiosos por saberem das coisas de Deos. Todos, quando com elles conversavamos, nos faziam mil perguntas á este respeito, iguaes á estas:

Como Deos fez o Mundo?

Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos bons espiritos poude fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, o fogo, o ar, a agoa, a terra, os primeiros homens, os primeiros passaros, peixes e animaes, reptis, arvores e hervas?

O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos vivendo sosinho?

De que forma está no Ceo?

Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva?

Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de mulheres, si vimos anjos e diabos?

Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, e depois da nossa morte como si faziam outros padres?

Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos como nós, si havia um padre que fosse rei, porque regeitavamos mulheres e mercadorias?

Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, si bebia e comia como nós, porque tinha morrido, si não vinha do Ceo passeiar as vezes na terra e fallar comnosco?

Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham existido, porque os outros _Caraibas_ francezes não eram tambem padres como nós, si fomos nós mesmos que nos fizemos Padres, ou si foi outra pessoa?

A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos com a verdade, e elles por gestos e palavras demonstravam seo contentamento.

Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes perguntas e entretinimento.

É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais singulares conversações, que tive com os _Muruuichaues_, isto é, com os principaes de _Maranhão_, _Tapuitapéra_, _Commã_, _Caietés_, _Pará_ e _Miary_.

Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas e respostas, visto que as vereis mais adiante, e espero que minhas respostas vos contentarão muito, e vos assevero que serão fielmente transcriptas até na propria linguagem com que foram proferidas.

Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais que ja deixei escripto, mormente não se achando tantos ornatos n’esta historia como exigia a curiosidade d’este seculo.

É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste na verdade do facto e na simplicidade do estylo.

Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, ou si não usar de muitas palavras, basta que não offenda em coisa alguma a substancia do facto, sendo essa abundancia de discurso necessaria e requerida para vos fazer entender bem claramente suas intenções, e as nossas expressões.

CAPITULO XVI

Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã.

Tendo tido muitas conferencias com este principal e grande feiticeiro, vou narral-as por capitulos: eis o primeiro.

_Pacamão_ é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, que quem não o conhece, não faria caso d’elle.

Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os principaes do Maranhão, especialmente na provincia de _Commã_, uma das mais bellas, fertil e povoada no paiz dos _Tupinambás_.

Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra tem movido todos os habitantes, sendo extremamente temído.

É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e por essas qualidades chegou a obter esse poder, grandesa e prestigio, sendo tido por supremo curandeiro, subtilissimo feiticeiro, muito familiarisado com os Espiritos, tendo entre suas mãos e á sua disposição a morte e a vida, concedendo vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de lustração, incensamento, e muitas outras coisas iguaes como ja dissemos.

Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes seos offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque tinham vindo aqui, e como se estabeleceriam.

Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam Luiz, entrou, e saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. Vinha bem acompanhado por indios enfeitados de pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as suas mulheres, cujo numero chegava a trinta.

Chegando a _Yuiret_, tendo passado o mar em nossa barca, que tinha ido buscar farinha á sua terra, distante mais de 40 legoas do Forte de Sam Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, que ia ao seo Forte, e foi esperado.

Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.

Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de Sam Luiz, fallando como era de costume, apregoando sua grandesa, o seo amor aos francezes, o objecto da sua visita, e tambem o valor e poder dos francezes.

Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um quartinho, onde estavam alguns francezes observando o que elle fazia.

Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o até a casa do governador, e foi obedecido promptamente, escanxando-se na cintura d’ella como usam os indios quando carregam seos filhos: assim entrou no Forte, e dirigio-se ao dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo.

Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, vendo-se um dos Principaes do Brazil montado em tão bello cavallo.

Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio á mente para desculpar-se, findo o que, e depois de tratar dos seos negocios, veio á minha casa, em São Francisco, acompanhado por gente implumada.

Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, onde assentou-se, e pedindo a um dos seos companheiros o seo caximbo, este o entregou ja com fogo.

Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando o fumo pelas ventas começou assim a fallar-me grave e pausadamente achando-me defronte d’elle n’outra rede:

«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e aos outros Padres; mas tu, que fallas com Deos sabes, que não é bom e nem prudente ser-se leviano e facil, mormente nós outros que fallamos com os Espiritos, e mover-nos com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque sendo observados pelos nossos similhantes, elles nos imitarão.

«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva por certa gravidade em nossas acções e palavras.

«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam suas canoas, se emplumam e vão logo vêr o que ha de novo são pouco estimados, e nunca chegam a ser grandes Principaes.

«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo.

«Os habitantes de _Tapuitapéra_ e muitos de minha provincia vieram antes de mim, porem são menos do que eu.

«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha Deos: sou mais capaz de o saber do que um só dos meos similhantes: não desejava que um só d’elles me precedesse ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses fallar com Deos.

«Quando me ensinardes o que é _Tupan_, terei mais autoridade e serei mais estimado, do que actualmente, e em meo paiz occuparei o primeiro logar depois de ti.

«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes virem, que eu sou filho de Deos e lavado todos desejarão sel-o, buscando imitar-me.

«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, porque sempre vizei altas coisas.

«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes.

«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio uma barca, pôz dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente por muitos dias, que a terra ficou submergida debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas, valles, mar, e separando-nos de vós.

«Noé foi pae de todos.

«Soube tambem que Maria era Mãe de _Tupan_, sendo Virgem, porem Deos mesmo fez corpo para si no ventre d’ella e quando cresceo mandou _Maratás_, Apostolos para toda a parte, nossos paes viram um, cujos vestigios ainda existe.

«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a _Tupan_, e sois temídos pelos espiritos: eis porque quero ser padre.

«Muito tempo ha, que eu sou _pagy_, e ninguem é mais do que eu, porem não faço caso d’isto, porque vejo que meos similhantes somente vos apreciarão.

«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, onde se encontram muitos javalys, viados, e corças, nada te faltará, e sempre estarei comtigo.»

Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de vel-o, ja tendo muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, como enganava com certos ardis os indios fazendo-os acreditar ter em seo poder um espirito familiar, sendo ainda maior o seo contentamento por vel-o principiar a reconhecer sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto no numero dos seos filhos e lavado com agoa divina.

Replicou-me assim:

«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos como convem?

«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar mais do que nunca entre os meos, persuadil-os a ser filhos de Deos, a procurar-te para serem baptisados, e fazeres em minha provincia o que quizeres, que de mim se diga que eu era o grande _Pagy_, sendo o primeiro a reconhecer Deos e vós outros padres.

«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha sombra procurarão a Deos e farão como eu.

«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos que _Pacamão_ seja _Caraiba_, e depois nós o seremos, porque tem melhor espirito e é mais esperto do que nós.

«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava os habitantes do meo paiz, como vós padres fazeis com os vossos, porem em nome do meo espirito, e vós o praticaes em nome de _Tupan_.

«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me diziam o que fizeram, e eu embaracei _Jeropary_ de fazer-lhes mal.

«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças aos que me despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento de minha casa, o que agora não faço e nem quero mais fazer, porque era a subtilesa do meo espirito, que me suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos, que julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha.

«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do soalho de minha casa.»

Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria não procurar elle a Deos como era conveniente, por que pretendia por meio do baptismo fazer-se maior e mais estimado entre os seos do que era antes por meio de seos grosseiros embustes, visto que Deos exigia de seos filhos, que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar os seos, muito mais do que os diabos fazem com os seos sectarios, em quanto elle tivesse esse espirito, não esperasse que os padres o baptisassem, e sim o fariam só quando elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas feitiçarias.

Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete do Sr. de la Ravardiere por nome _Mingan_, a quem eu tinha mandado chamar para conversar com _Pacamão_, porque é da indole d’esses selvagens dar mais credito aos interpretes mais velhos do que aos moços.

Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia até aquella hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade com os meos e seos pensamentos.

Eis como elle fallou:

«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, e com vossos paes, quando estavamos em _Potyiu_.

«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos similhantes, muito credulos.

«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos os não baptisados vão para _Jeropary_ no inferno, e tu irás com elles si não fizeres o que dizem os padres.

«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, sempre zombavamos do que faziam vós e os outros _pagys_: não diziamos palavra por não ser esse o nosso fim, e sim colher algodão.

«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, o que é hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo por isto nem eu e nem os outros, ir a Igreja, porque os Padres nos ensinam, que Deos prohibe a deshonestidade.

«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares com uma, se desejas ser filho de Deos e receber o baptismo.

«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece de poder salvar-te e livrar-te das patas do Diabo.

«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou a vir ter com os Padres e lhes pedir o baptismo.

«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, quer e deseja que todos que o buscam, renunciem o diabo e suas acções.»

Respondeo assim _Pacamão_:

«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso fazem de meos feitiços? Não sabes que sempre tratei os francezes como pude, e de muito boa vontade?

«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas e seos generos em troco de ferramentas: sentia-me satisfeito entre elles aprendendo alguma coisa de novo, porque os francezes tem mais espirito e intelligencia do que nós, e apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, e disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram a conhecer a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que aqui me trouxe, e é d’isto que nos occupamos.»

Disse a _Migan_ estar elle repetindo o que eu ja havia dito, isto é, que era bem vindo, sendo porem necessario buscar o baptismo com arrependimento e humildade.

Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de Deos, e a pequenez dos homens, especialmente dos captivos de Satanaz.

Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte fallar commigo dos seos negocios.

Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o Forte depois de ter cada um bebido um pouco de agoardente.

Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, que não seriam entendidas ou passariam desapercebidas si não fossem indicadas.

Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem sua autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo acção alguma sem reflectir, pela qual possam ser mal apreciados pelos seos inferiores, tão levianos e imperfeitos como elles, e por conseguinte tão incapazes de entretêr os espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter o gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se deixar levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, vêde como os diabos abusam da luz natural do homem, que claramente nos faz vêr si desejamos conservar em nós o verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir a leviandade e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos com firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido e decidido pela rasão.

De outra fórma somos menores em relação a profissão do Christianismo, do que estes feiticeiros, que se esforçam a ser graves procurando conquistar a estima de seos similhantes.

Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, que são a soberba e a grande presumpção, que já se abriga até entre as coisas sagradas: tão grande é o seo veneno a ponto de querer atacar o seo contrario, visto não haver maior antagonismo do que entre o Espirito de Deos e o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de Lucifer, a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos do diabo!

Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando com seo dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer reconhecido como grande por meio do Espirito Santo.

Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade!

Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades!

Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que tinhamos Deos em nossa algibeira para dal-o a quem bem nos aprouvesse, obedecendo elle a quem o entregassemos.

Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa e o obriga a commetter mil loucuras, inspirando esse _Pagy_ para isso. Deos nos livre de tal perigo!

Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da Virgem não ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: si foi dos francezes, não parece muito, porque os que vieram antes de nós só lhes fallariam de obscenidade, e concubinatos; é mais provavel, que fosse de tradicções antigas, porque apenas chegamos a _Yuiret_, _Japy-açú_ nos fallou quasi da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por aqui andou, como se lê na obra do Reverendo Padre Claudio d’Abbeville.

CAPITULO XVII

Segunda conferencia, que tive com Pacamão.

Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, em companhia de sua gente.

Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me _Ché assepiak ok Tupan_ «eu te rogo leva-me a vêr a casa de Deos quero fallar-te conforme teos discursos de hontem á tarde.»

Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, e assim o fiz.

Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta e proximando-se de mim fallou-me em segredo—aquelles, nada sabem e nem entendem o que se fallar á respeito de Deos, por tanto quero que conversemos á vontade.

Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, e pôr sobre os degraos do altar muitas e differentes Imagens.

Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete.

Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via.

1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem é este morto tão bem feito e tão bem estendido n’este pau encruzado? Expliquei-lhe que isto representava o Filho de Deos, feito homem no ventre da Virgem, pregado por seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu seo Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados com o sangue, que elle via correr de suas mãos, pés e lado.

Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com muita attenção a Imagem do Crucificado: exhalou depois um suspiro, e soltou estas palavras como _omano Tupan?_ «Que! será possivel que Deos morresse?»

Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que Deos tivesse morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, dando vida aos homens e aos animaes: o que falleceo foi o corpo somente, que elle tomou da Virgem Santa Maria para matar _Jeropary_, como elle via fazer aos meninos quando querem apanhar um peixe grande no mar, que devora os pequenos, deitando como isca no anzol de sua linha o corpo de um d’esses peixinhos, o que sendo visto pelo peixe grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado, puxado, derribado e morto, em favor e livramento dos pequenos.

Assim tambem este mau _Jeropary_ ia devorando todos os nossos Paes, porem aprouve a Deos enviar seo Filho para pescal-o á linha, servindo de haste esta Cruz, de anzol ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca seo corpo.

Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder sobre nossos paes?

Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo do fructo prohibido, e deixaram-se enganar pelo diabo, debaixo da forma de serpente.

Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, achou mais docil e rasoavel tomar o rapinador em lugar de suas victimas.

Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de _Tupan_ está ainda em França sobre a Cruz, como este que tu me mostras, e tu o vistes?

Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua morte, levando seo corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo e brilhando como o sol, sentado no mais bello lugar do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle todos os espiritos e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do seo inimigo.

Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, resuscitarão e irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto é, nós que somos lavados com o sangue derramado de suas chagas.

Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com _Jeropary_ arder em fogos eternos, si não fordes lavados com este sangue.

É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, e que vós o guardeis com todo o cuidado para lavar tanta gente.

Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes estes mysterios.

«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre a terra, e que em memoria e respeito a elle lavemos espiritualmente as almas com agoa elementar, que derramamos sobre vossos corpos.

«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada uma só vez pela mão de Deos?

«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor foram pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos os annos, apenas brilham por cima da tua cabeça, ellas te mandam chuva, que rega tuas roças.»

Disse ainda:

«Eram malvados os que mataram _Tupan_, porque elle era bom, eu o amo, e n’elle creio.»

Respondi-lhe. Foram seduzidos por _Jeropary_, como tu, que os animou a perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, porque elle os censurava por sua maldade, como nós agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo. Todos os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle hoje voltasse ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, repetindo os actuaes o mesmo que fizeram os outros antigamente.

Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem como esta para levar commigo quando regressasse á minha provincia. Repetirei palavra por palavra á meos similhantes o que acabas de dizer-me, e farei para ella melhor casa do que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que me destes.