Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 24
_Pacamão_, grande feiticeiro de _Commã_,[104] contou-me um dia, que faria sahir agoa da terra, com que lavava estas gentes, com grande admiração de todos os barbaros, que viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua casa, e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos espiritos, mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande vaso e mettendo-o em terra d’elle fazia sahir agoa por meio de tubos ou canaes, ou tabocas, que em abundancia se encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os seos.
Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas á respeito das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas habitavam Nymphas, e n’outras deosas: estas faziam uma coisa, e aquellas—outras; umas eram perigosas e enganadoras, outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e outras profanas.
Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos com os venenosos de diversas cores, correr para agoa, pensam supersticiosamente, que essa fonte é prejudicial ás mulheres, e que d’ella bebe _Jeropary_.
Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo que me davam as mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso logar de Sam Francisco, fiz correr o boato, que lá haviam sardões, e depois d’isto nenhuma mais se animou a ir ahi excepto as escravas do Forte, que não tinham licença de lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar amural-a e fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre limpa.
Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes lagartos atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, ficando grávidas, e parindo lagartos em vez de crianças.
Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as escravas do Forte em bandos, armadas de cacetes, de facas, e de outros instrumentos iguaes para se defenderem, diziam ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito riso a nós outros, os francezes.
Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas por estes feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo espirito aos outros, isto é, por meio da herva _Petun_ introdusida n’um caniço, de que elles pucham a fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua virtude.
Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia falsa imitar Jesus Christo quando deo seo espirito aos Apostolos, e o seo poder aos seos successores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas. Assim se lê em São João—_Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum Sanctum_: «soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»
D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, si o diabo não lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n’esta grande e vasta região do Brasil, sem communicação alguma com o velho mundo, não podiam aprendel-a de outra nação.
Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia necessaria para curar os infermos, porque vós os vedes puchar pela bocca, como podem, o mal, dizem elles, do paciente, fazendo-o passar para a bocca e garganta d’elle, inchando muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um só jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao de um tiro de pistola, e escarrando com grande força dizendo ser o mal, que haviam chupado, e fazendo acreditar ao doente.
Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia alegre na aldeia de _Vsaap_.
Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do paiz.
Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito sobre o seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se por diversas vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, e apesar de tudo isto o doente continuava a gritar. Veio o feiticeiro depois procurar-nos e mostrando-nos dois outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do ventre, cujos intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a garganta.»
Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado do ventre esses pregos.
Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que meteria na cabeça d’esse rapaz ter elle comido as ripas e os pregos; mas não sendo communs entre elles pregos de ferro, não sei como poude illudir os assistentes com tal loucura.
Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me estes ao meo fim.
Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal em tudo quanto acabamos de dizer até aqui, muito maior deve ser o nosso espanto pelo que vou dizer, isto é, pela existencia da confissão auricular entre os selvagens.
Nada digo que não ouvisse da bocca de _Pacamão_, de outros selvagens e dos franceses.
O grande _Pagy_, na sua provincia de _Commã_, ia visitar, quando lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando que todos fossem confessar-se com elle, especialmente as mulheres e as raparigas, e quando encontrava alguma que se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o seo _espirito_, que as havia de atormentar, e tinha muita finura para reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes depois não sei que especie de absolvição, e contava tal feito d’esta e d’aquella, e apesar de tudo isto sempre exerceo seo officio de confessar até nossa chegada.
Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira de confissão auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso de occultarem alguma coisa com o seo _espirito_, que os castigaria, e que os absolveria, se tudo confessassem?
CAPITULO XIII
Claros signaes do reino do diabo no Maranhão.
O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita de seo Pae, encarregou a seos Apostolos e discipulos de irem pelo universo converter os infieis assegurando-lhes por certos indicios e signaes a proxima ruina do imperio dos demonios, a saber—_signa eos qui crediderint hæc sequentur: In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur novis, serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, non eis nocebit. Super ægros manus imponent et bene habebunt_: «estes signaes seguiram os crentes, em meu nome expellirão o diabo, fallarão novas lingoas, desviarão as serpentes, e si beberem algum veneno mortifero nada soffrerão.»
Para bem entender-se estas palavras, convem notar com os padres e doutores, que foram postas litteralmente em pratica pelos primeiros christãos, quando na primeira idade da igreja era preciso combater a obstinação dos judeos e a louca sabedoria dos gentios.
Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi por todos condemnada a pertinacia dos judeos e tida por vaidade a sabedoria humana, não foi mais necessario observar litteralmente estes signaes na conversão dos incredulos e sim unicamente a pratica allegorica e mistica.
Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito todos os dias em Maranhão.
Primeiramente elle disse—_In nomine meo dæmonia ejicient_: «em meo nome elles expellirão os demonios.»
Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido por diversas formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente o medo e o temor que tinham do nome de Deos, procurando por todos os meios embaraçar nossa missão, já persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já infundindo-lhes terror com o signal da Cruz e excitando-os a arrancar os que existiam, dando maus exemplos com ridicularisar o que sanctamente ensinavamos a estes barbaros, intimidando por muitas vezes os habitantes de _Maranhão_, _Tapuitapéra_, _Commã_, _Caetés_, _Pará_ e _Mearim_ e fazendo-os fugir para os matos e logares desconhecidos com receio de serem presos e captivados pelos francezes ou pelos portuguezes.
Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque quando julgavamos tudo perdido, foi quando Deos mostrou o poder do seo nome, conservando não só estes selvagens junto de nós, mas tambem fazendo com que despresassem seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir _Jeropary_, com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo.
Vou mostrar bons exemplos.
Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros dos campos do Mearim e das habitações de _Thion_, como da maneira porque os diabos manifestavam o temor, que tinham das cruzes, que plantavamos em nome de Jesus Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir com elles, eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—_porque Jeropary tem medo de Tupan_.
_Acaiuy_, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de espaço, veio me pedir licença para fazer sua casa ao pé da minha, não querendo ficar com os outros no _Forte_, dizendo-me entre outras rasões que tinha para isto, ser porque _Jeropary_ não se atrevia a aproximar-se do logar, em que habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o.
_Pedro Cão_, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos annos, dizia a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, e a outros quando o interrogavamos á respeito de sua felicidade na guerra, que Deos sempre o livrára de mil perigos porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se animados, quando em companhia d’elle, não temendo _Jeropary_.
O mesmo pensavam os habitantes de _Tapuytapéra_ á respeito dos novos christãos, julgando que elles perseguiam e faziam fugir _Jeropary_, mostrando-se contentes por isto quando tinham esses christãos em suas aldeias.
Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos cathecumenos como ponto de fé, que logo que elles fossem _lavados_, adquiririam poder contra o diabo, e nunca mais deviam temel-o.
Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são _espiritos maus_, que temem os _Pays_ e os _Caraybas_, isto é, os padres e todos os que são baptisados.
Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, elles me disseram—_Jeropary yportassuasseque gésera_—«o diabo está agora pobre e miseravel, tem muito medo e já não é atrevido como era.» _Jeropary ypochu, Tupan Katu_ «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem Deos é muito bom.»
Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro signal, e segurança da total ruina do diabo?
São os proprios diabos, que confessam temer o nome de Jesus Christo, as armas de sua paixão, e até os seos servos, dissuadindo seos intimos amigos para que de nós se ausentassem, abalando ceos e terra afim de embaraçar-nos, e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim cahiram de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias.
Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só nos resta continuar as obras começadas.
_Linguis loquentur novis_: «fallarão novas linguas». Na verdade os nossos selvagens do Maranhão fallam uma linguagem inteiramente nova, visto que, esse _Marata_ antigo, isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo de quem fallarei mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam agora, a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo dos Apostolos _Arobiar Tupan_ etc. etc., a dirigir-se a Deos por meio da oração dominical _Oreruue_ etc. a encaminhar suas vidas e acções segundo os mandamentos da lei de Deos _Ymoeté yepé Tupan_ etc. etc. conforme os mandamentos da Igreja. _Are maratecuare ehumé_ etc. «lavar e fortificar suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» _Iemongarauiue_ etc.
É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre os mysterios da nossa fé, como sejam a unidade da essencia em Deos, e na Trindade das Pessoas; que o Filho de Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que os maus vão para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo e alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: são estes com tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só fallando em matar, comer, assar e seccar a carne dos seos inimigos, e nas suas incontinencias, libertinagens e loucuras.
Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre os barbaros, que somente sabem o que lhes ensinou a natureza.
Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, bem cheio, de vinho e de carne, e viram que os gentios de diversas nações davam signaes de entender o que prégavam, e que os Apostolos por sua vez tambem os percebiam.
Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados quando viam seos similhantes, baptisados, discorrer em sua lingua sobre coisas altas, profundas, e tão novas, como as que conheciamos por seos interpretes, e diziam uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de _Tupan_, como os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, quaes as que nos contam: como nossos filhos sabem mais do que nós, nossos Padres, e mais remotos antepassados, que embora tenham vivido muito nada nos contaram como estes Padres: por força fallaram com Deos.
_Em terceiro lugar._ _Serpentes tollent_ «elles desviaram as serpentes.» Que são essas serpentes do Brazil, que com sua lingua e cauda envenenam estes povos? Não são todos os grandes e pequenos feiticeiros, que envenenam suas Nações?
A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o paiz, onde está, das serpentes venenosas.
S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que trazia no dedo.
O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder do Espirito Santo, que de ordinario busca agentes naturaes docemente, sem constrangimento, para dispôr o objecto a receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de outra fórma contraria.
Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de Satanaz, que o Espirito Santo expelle para tornar a Nação cheia d’abusos susceptivel de acceitar o Evangelho e de conhecer a Deos.
Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação a estes feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, que nunca fez para com os sacrificadores do Paganismo, creio ser bem recebida a minha opinião, porque, alem de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do diabo, na gentilidade esposavam o christianismo.
Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que se arrastam na terra, tornam-se passaros voadores no elemento do ar, conforme a profecia de Isaias: _De radice colubri egredietur Regulus, et semen ejus absorvens volucrem_: «da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta[105]: _De radice serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes volans_: «da raiz da serpente sahirá o Basilico, e o seo fructo será uma cerasta volante.»
Para entender esta passagem convem recordar-se do que escrevem os naturalistas, a saber, que as cobras grandes e grossas geram o Basilico quando comem um sapo; porem o Basilico procura gallinhas brancas, com quem se unem, pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e d’elles sahem serpentes, que voam.
Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme me diziam e pensavam os selvagens, e aconteceo-me por duas vezes, que uma gallinha branca que eu tinha, pozesse dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama e salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia louca.
Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o Basilico nos mattos a tinha coberto, pelo que convinha matar, quebrar e queimar os ovos, para evitar a morte infallivel de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem queimal-os, d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a primeira vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas mudam de canto, e não param n’um lugar.
Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga cobra é Satanaz, Principe dos Demonios, os Basilicos são os Diabos destacados nas Provincias por Lucifer para seduzir o Mundo; as serpentes são seos Ministros, como sejam os _Pagys_ ou feiticeiros do Brazil, que desejam adquerir azas para mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos velhos e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo execrando e diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como o resto dos indios pela ablução ou lavagem de seos antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo.
Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados costumes, e abominaveis peccados, como sejam as vilanias, raivas, e vinganças, já descriptas amplamente n’outra parte.
_Em quarto lugar._ _Et si mortiferum quid biberint non eis nocebit_: «e si bebem algum veneno mortifero, não lhes damnificará.» O verdadeiro veneno, que engolem as almas, é a falsa doutrina, que o Diabo faz suggerir nos ouvidos dos novos christãos.
Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos Apostolos. Certos seductores iam corromper os individuos sem malicia, e apenas bebiam ellas o _Aconito_, sentiam-se afflictos, impressionados em sua alma, e abalados em sua fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—_Spiritus Domini, ferebatur super aquas_ «o Espirito do Senhor é levado sobre as agoas de Chaos,» isto é, ainda não purificadas e nem limpidas, ou como querem dizer os outros: _Incubabat aquis_, deitava-se sobre as agoas do Chaos para d’elle tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram Castor e Pollux, ou então _fouebat aquas_, aquecia essas agoas ainda frias.
O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade e fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos antigos crentes.
Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro caminho pelos maus discursos d’aquelles, que tem a alma mal conformada, vae chocando os ovos abandonados pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem separadas da presença d’aquelles que as tem lavado.
Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso Aquilon, não quer que o veneno bebido lhes dê a morte, conduzindo-as ao regaço de sua Mãe, e entre os braços dos que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em Jesus Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, e tomar o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para resistir de ora em diante a todos os choques.
Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos Apostolos, onde um certo numero de novos christãos de _Tapuitapéra_, seduzidos por más palavras de um certo personagem, metade d’elles se deshouveram e renunciaram o Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo.
Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de cuidados para remediar este mal levando para ahi tudo quanto julgaram necessario, e por isso essas novas plantas, fanadas por brisa gelada, adquiriram seo antigo vigor e florescencia, e tornando a vel-os no Forte de Sam Luiz, procuramos animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem de Martinho Francisco, ahi nosso suffraganeo.
Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os seos negocios de dia para dia.
N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os padres que por la andam, lhe deem terriveis combates, e que seo reinado vá de decadencia em decadencia, até total ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via e experimentava a disposição geral e universal d’estes selvagens,[106] especialmente dos meninos, para os converterem.
CAPITULO XIV
Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e começarão a estabelecer o reinado de Jesus Christo.
O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—_In finem pro torcularibus, psalmus David_, isto é, o psalmo de David, que deve ser cantado em acção de graças ao Senhor no fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do imperio de Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do reinado de Jesus Christo—_Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum et ultorem_. «Tens apurado teos louvores pela bocca dos meninos e das crianças de peito á despeito dos teos inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o tyranno vingativo.»
Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a por esta forma—_Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem inimicitiarum et ultorem_ «estabelecestes a força do teo imperio pela bocca e confissão da Fé dos meninos para mostrar tua grandesa, e destruir o autor das vinganças e o sanguinario vingador.»
Disse São Jeronymo—_Quiescat inimicus et ultor_ «fechaste a bocca ao seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra os homens pela voz dos meninos.»
Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da proxima fundação do reinado de Jesus Christo e a queda do poder dos demonios.
Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos este signal da providencia de Deos, e assim limito-me a referir o que se passou no Triumpho de Jesus Christo antes de sua Paixão, quando os meninos em alta voz diziam—_Hosanna filio David_ «seja bem vindo o Filho de Deos,» o que disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—_In finem pro torcularibus_, «no fim pelas pressões,» isto é, no fim do reinado de Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus Christo, quando era tempo de pagarem os meninos este tributo de reconhecimento.
Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, e na consummação do captiveiro de Satanaz sobre as almas infieis, e no principio da Santa Igreja, fundada entre ellas, principalmente pelos meninos, o que desejo mostrar ter sido feito pelos filhos do Brasil.
Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos e maus costumes de seos paes, mostram não sei que disposição singular e particular para receber, como si fosse uma taboa rasa, qualquer pintura...
(Falta uma folha.)
... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender comparando com as coisas, que veem diariamente.
Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, tomando carnes e recebendo vida entre duas conchas, sem mistura, nem effusão de semente do humor marinho, e apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de Deos no ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue da materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou corpo sem alguma outra operação humana.
Gostavam muito da comparação, e me disseram que em seo paiz muitas coisas se geravam pela simples influencia do Sol, como os lagartos, que sahem dos ovos, depois que recebem a vida do calor do Sol, e por isso não tinham difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que Deos se fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, porque, diziam elles, _Jeropary_, apesar de ser espirito mau, entra no corpo dos monstros para nos amedrontar, espancar e atormentar.
Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente se convenciam da verdade e da realidade de Jesus Christo, Filho de Deos, sob as especies de pão e vinho, ao passo que viamos tantas almas vacillantes n’este ponto, embora lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas.
A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que disse a Escriptura Santa no proverbio 25—_Sicut qui mel multum comedit, non est ei bonun, sic qui scrutator est magestatis, opprimetur a gloria_.—«É coisa tão doce como o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender mais o estomago.»
Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação das obras de Deos e a leitura das letras santas, mas para aquelle que vae muito alem, e tudo mede pela vara de seo espirito, impellido pela soberba de seo entendimento.
Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos raios da gloria de Sua Magestade, como se observa nos mochos cegos, visto quererem olhar e julgar da face do sol, e da sua luz.
Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os mysterios de nossa fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas vistas, e docilmente obedecem a vontade e poder do soberano, que pode o que quer, quer e faz o que diz.
Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda christãos, apenas se lhes fazia signal de sahirem da igreja, retiravam-se promptamente, ficando comtudo na porta, que se conservava fechada em quanto se recitava o canon da missa, e fazia-se a communhão.