Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 22

Chapter 223,792 wordsPublic domain

_1.º Ymoeté yepé Tupan._ I Honra um só Deos _2.º Aytè ereté netieume poire renoy teigné._ II Não jurarás em vão o nome de teo Deos. _3.º Ymoeté dimanche are maratecuare eum aue._ III Honra e sanctifica o domingo, dia de repouso. _4.º Ymoeté deruue desseu eaue._ IV Honra teo pae e tua mãe. _5.º Eparapiti humé._ V Tu não matarás. _6.º Eporopotare humé._ VI Tu guardarás castidade. _7.º Emonmaron humé._ VII Tu não furtarás. _8.º Teremoen humé aua ressé._ VIII Tu não levantarás falso testemunho contra teo proximo. _9.º Yemonmotare humé aua remerico ressé._ IX Tu não conhecerás a mulher de outrem. _10. Yemonmotare humé aua mae ressé._ X Tu não cubiçarás coisas alheias.

RESUMO DOS MANDAMENTOS DE DEOS.

_1.º Opap katu maeté tiruan sosay asé Tupan rausuué._ Sobre todas as cousas amarás a Deos. _2.º Oie ausuue eaué asé uua pichare raussuue._ Ama teo proximo como a ti mesmo.

OS MANDAMENTOS DA SANTA IGREJA.

_1.º Arve maratecuare ehumé messe renduue._ Ouve missa nos dias de festa. _2.º Sei hu iauion yemonbeu._ Todos os annos ao menos uma vez confessa teos peccados. _3.º Tupan rare pacques iauion._ Teo Deos pela paschoa commungarás. _4.º Iecuacuue iauion erecucuue._ Tu guardarás jejuns pela quaresma e vigilias. _5.º Aiamion asé mae moiaoc._ Pagarás os dizimos.

OS SETE SACRAMENTOS.

_1.º Iemongaraiue._ Baptismo. _2.º Asé seurap aua reu assu yendu karaiue non._ Receberás na testa o santo oleo pela mão do Bispo. _3.º Asé-reon yanondé Tupan rare._ Antes de morrer receberás o corpo de Deos. _5.º Oyekoacuue, oyemonbeu._ Penitencia, confissão. _6.º Oyemo-auare._ Ordem. _7.º Mendar._ Casamento.

CAPITULO VIII

Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos espiritos e da alma.

O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica por elle composta para os pobres e infelizes, cheios de anciedade e oppressão, particularmente os infieis, diz—_Placuerunt servis tuis lapides ejus, et terra ejus miserebuntur._ «As pedras de Syão agradarão a teos servos; e por esta causa serão misericordiosas para com a terra.»

S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—_Quia placitos fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_. «Teos servos fizeram suas pedras agradaveis á tua Magestade, até chegar ao pó sem consideração.»

Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte todos os outros mysterios, e digamos que _Placuerunt servis tuis lapides ejus_.

Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens e barbaros como pedras proprias para construir e edificar a Santa Igreja em paizes desertos, e com o nosso ministerio demos a misericordia divina á algum punhado de terra e areia.

Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que são na verdade tres grãos de areia, á similhança da extenção e profundidade das areias do mar, isto é, em comparação da quantidade e multidão das nações immensas pelo seo numero, na visinhança do Maranhão.

Digamos depois, com São Jeronymo, _quia placitos fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_, que temos feito vêr a toda a Christandade, e aos seos monarchas, espirituaes ou temporaes, em desencargo de nossa consciencia, que á Deos agrada o despertar estes barbaros do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que á Deos agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do fogo da luz natural, que sob as causas de mil superstições é sempre guardada entre estas nações desde o naufragio universal do diluvio.

Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é a crença natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos e da immortalidade da alma.

Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, que haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e brutal que não reconheça universalmente uma Magestade Soberana, porque, como diz Lactancio Firmiano, em suas Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—_Nemo est enim tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in cœlis tollens etc_. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, que levantando os olhos para o Ceo, ainda que não possa comprehender que haja Deos, qual seja a sua providencia, embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade e bellesa d’estas abobadas azuladas, que não reconheça haver um Soberano que tudo isto dirige e com harmonia.

Boecio, livr. 4º, da _Consolação dos sabios_. Prosa 6.ª _Omnium generatio rerum_ etc. «que a geração continua dos mistos, a diversidade, e ordem das formas, que vestem a materia primitiva, convence natural e necessariamente, que ha um primeiro director no movimento uniforme de tantas coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este mundo universal.»

Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—_Quis dubitare potest mi Lucilli, quin Deorum immortalium munus sit quod vivimus?_ «Quem é meu amigo Lucilio, que duvida não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses immortaes?»

Aristoteles, Livro II _dos animaes_, depois que contou muito bem a perfeição d’elles concluio _debemus inspicere formas et delectari in Artifice qui fecit eas_: «devemos contemplar as formas das creaturas, não para olhal-as só e simplesmente, e sim para d’ellas passar ao que as fez afim de nos regosijarmos.»

É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento de Deos, porem não da Essencia, Unidade, e Trindade, materia inteiramente dependente de fé, embora Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios, pelos quaes possam os homens formar algumas conjecturas.

Aristoteles, livro 4º, do _Ceo e da terra_, depois de ter pensado muito nas perfeições d’este mundo, disse _Nihil est perfectum nisi Trinitas_. «Somente a Trindade é perfeita.»

Estes selvagens sempre chamaram a Deos—_Tupan_, nome que dão ao _trovão_, a maneira do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras primas o nome do autor: Note-se porem que este nome no singular não se applica aos relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as partes, por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque sabem e reconhecem, que elles são formados pela poderosa mão d’Aquelle, que habita nos Ceos.

Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do paiz si elles acreditavam, que este _Tupan_, autor do trovão, era homem como elle?

Responderam-me que não, porque si fosse um homem como nós, seria um grande senhor, e como poderia elle correr tão depressa, do Oriente para o Occidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro partes do mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse homem, era necessario, que outro homem o fizesse, porque todo o homem procede de outro homem. Ainda mais: _Jeropary_ é o creado de Deos, e nós não o vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que _Tupan_ seja um homem.

Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja?

Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe em toda a parte, e que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros ainda não fallaram com elle, pois apenas fallam com os companheiros de _Jeropary_.

Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos espiritos dos selvagens, que com tudo não o reconheciam por meio de preces e de supplicios.

Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus.

Chamam os bons espiritos ou anjos _Apoiaueué_, e os maos ou diabos _Uaiupia_.

Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes.

Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, que não fazem mal ás suas roças, que não os castigam e nem os atormentam, que sobem ao Ceo para contar á Deos o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem á noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os francezes.

Pensam, que os diabos estão sob o dominio de _Jeropary_, que era creado de Deos, e que por suas maldades Deos o despresou, não querendo mais vêl-o e nem aos seos, pelo que aborrecia os homens e nada valia: que os diabos impedem as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem em guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz medo, habitando ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente em logares onde tem sido sepultados os corpos de seos parentes.

Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar cajus em algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao encontro _Jeropary_ gritando com voz medonha, e chegou até o ponto de espancar muito alguns dos seos.

Dizem tambem, que _Jeropary_ e os seos tem certos animaes, que nunca se vê, que só andam a noite, soltando gritos horriveis, que abala todo o interior (o que ouvi infinitas vezes) com os quaes convivem, e por isso os chamam _Soo-Jeropary_ «animal de Jeropary», e creem que estes animaes servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por isso nós o chamamos _Succubes_ e _Incubes_, e os selvagens _Kugnan Jeropary_ «a mulher do diabo» _Aua Jeropary_ «o homem do diabo.»

Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, mas que tem um piado queixoso, enfadonho, e triste, que vivem sempre escondidos, não sahindo dos bosques, chamados pelos indios _Uyra Jeropary_ «passaros do diabo,»[99] e dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem é um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos pelo diabo, e que só comem terra.

Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem a verdade d’isto: muitas vezes estes animaes nocturnos vinham rodear nossa casa de Sam Francisco e soltar seos gritos medonhos, quando as noites eram sombrias e negras.

Apromptei-me para com outros francezes investir estes passaros onde se achassem conforme pudessemos prevêr, porem nada pudemos conseguir por não vel-os, embora os ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de legoa.

Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de gatos bravos, o que não pode ser a vista do som, do sussurro e do volume do grito, que elle solta.

Outros disseram ser o vagido de _vaccas bravas_, o que negam os selvagens dizendo ser vozes de uma especie de animaes parecidos com maçaricos, e maiores do que uma raposa.

Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de _Jeropary_, e para isto fui caminhando de mansinho até onde meos ouvidos me levaram a pensar, que lá estavam, pelo piado melancolico d’elles. Calculado o lugar ahi fui no dia seguinte á tarde muito cedo occultar-me nos mattos, e d’esta vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se este triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando sobre a areia, e soltou seo canto medonho, o que não pude aturar. Sahi logo do meo logar e fui onde elle estava e nada achei: sua configuração e tamanho era de uma coruja de França e as pennas pardas.

Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque lemos na Historia, e em diversos autores a união dos diabos com animaes feios e immundos, e foi elle que desde o principio do mundo tomou a forma de uma serpente cabelluda para enganar nossos primeiros paes.

Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na _An_, e quando deixa este para ir ao lugar, que lhe é destinado, _Anguere_.

Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, segundo o que pude comprehender de varios discursos d’elles e de muitas perguntas que lhes fiz, pensando que estas mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos homens, visto terem todos almas immortaes depois da morte.

Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham alma.

Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus vão ter com _Jeropary_, que são ellas que os atormentam de concomitancia com o proprio diabo, e que vão residir nas antigas aldeias, onde são enterrados os corpos, que habitaram.

Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar de repouso, onde dançam constantemente sem nada lhes faltar.

Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres pontos de sua crença natural de Deos, dos Espiritos e das Almas, por meio de cuidadosas indagações entre discursos communs, que ouvi por dois annos de muitissimos selvagens.

CAPITULO IX

Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas cadeias por tão longo tempo estes selvagens.

Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo e subjugou setenta Reis, aos quaes mandou cortar os dedos das mãos e dos pés, e todas as vezes que queria comer, mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como cães para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, e era com isto unicamente que elles viviam, porque acabada a refeição do tyranno passavam elles outra vez para os grilhões.

Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre exerceu nas Nações á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as sempre presas, não lhes consentindo outros viveres alem dos seos restos, cortando-lhes todos os meios de acção e de fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos naturalmente imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se a Deos para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais teme, o que é facil de vêr-se em nossos selvagens por longo tempo sem conhecimento algum do Deos Omnipotente, presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções, que entre elles lançou o diabo.

Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas de Satanaz em suas...

(Falta uma folha.)

... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira de proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam entre os selvagens o lugar de Mediadores entre os espiritos e o resto do povo, e são os que hão adquirido maior autoridade por suas fraudes, subtilezas e abusos, com que tem subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo da salvação, como está escripto no _Proverbio 29_—_Princeps qui libenter audit verba mendacii, omnes ministros habet impios_ «o Principe, que prestar ouvidos á mentira, é servido por ministros impios e maus.»

Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, nós a aplicamos ao nosso fim dizendo, que este Principe, que presta attenção á mentira, ou para melhor dizer, que é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da verdade: seos officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas, e encantos provenientes da instigação dos demonios, como são os feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam sem a menor contestação, embora conheçam os enganos, que reciprocamente empregam contra seos compatriotas.

Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, si os favorece a capacidade de seo espirito, de sorte que os que o possuem melhor, são considerados mais habeis.

Começam muitos a aprender este officio, convidados pela honra e lucro, que d’elle colhem os mais espertos, porem poucos atingem á perfeição.

Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os velhos não confessem saber alguma coisa d’elle.

Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, e d’elles dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante de seos similhantes para obter fama.

Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo se predizem a chuva, e ella apparece, se sopram algum doente e elles recobram a saude, o que os faz muito estimados e respeitados como feiticeiros experientes.

Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou cirurgião cuidasse de um doente perdido, ou de alguma chaga pertinaz, e que apparecesse a saude, não tanto pela industria do medico, e sim pela boa naturesa coadjuvada por unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria attribuida á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam d’isto para fazer voar sua fama entre as boas cidades, e serem recebidos com muita distincção nas boas casas.

O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, quando se restabelece o infermo depois dos seos sopros.

Não receis que isto fique só na casa do doente, porque sae o feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, e triplicando-as.

O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente a todos os feiticeiros; porem d’entre elles escolhem os mais bellos espiritos, e lhes infundem suas invenções e subtilesas.

Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes operações e communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se apenas a dar-lhe malicia conforme o juiso e talento do seo espirito.

Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o instruem largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, que são de ordinario as nigromancias, judiarias e magicas. O mesmo acontece aos feiticeiros: achareis muitos pequenos, de que não se faz grande caso, e nem se tem muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais instruidos e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos e grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias importunando os seos habitantes, cuidando de dansas e de outras coisas, que dependem do seo officio.

Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam contentes, mas quando é convidado algum de seos superiores soffrem-no com paciencia.

Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves se mostram: fallam pouco, buscam a solidão, evitam o mais que podem as companhias, com o que alcançam mais honra e respeito, são mais procurados depois dos Principaes, e estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os maltrata.

Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, longe de visinhos.

O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, isto é, o necessario para conservar o espirito de Deos, fazer sua alma capaz das suas visitas e consolações para o que necessario é amar a solidão e n’ella residir, evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia dos homens, com o que não somente adquirireis favores espirituaes, mas tambem a honra e o respeito d’aquelles, que evitaes.

A compleição dos homens é similhante a da honra e da sombra: si correis após ellas, ellas fugirão diante de vós, si as evitaes, ellas vos procurarão.

Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis despresados; fugi d’elles, sereis respeitados.

Por similhança este velho doutor da malicia ensina os seos principaes discipulos a evitar communicações, a fugir de tristezas e melancolias, a fugir de invenções e fantesias, a residir sós com suas familias com o fim de poder melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes quer conservar estes povos na ignorancia e superstição regosijando-se de vêr tantas nações presas em suas cadeias.

Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte os exercicios da verdadeira Religião, mas de todos os tempos e em todos os lugares, porque não pode ser autor, e sim falso imitador do verdadeiro bem.

Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas para picar o segador, assim tambem elle occulta seo veneno e sua falsa Religião sob apparencia somente de uma imitação das obras de Deos.

Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, se cobre d’areia deixando apenas de fóra os cornos afim de enganar os passaros com a ideia de ser comida, e quando se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha.

O Genesis compara o diabo com esta serpente _Cerastes in semita_ «Ceraste no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, nutridos e entretidos com taes engodos, que eu não os acreditaria si os não visse, e si o leitor duvidar, peço-lhe que creia no que vou contar-lhe.

São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos seos feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, que elles podem enviar-lhes molestias e fomes, e tirar-lhes tudo o que elles tem, e embora saibam os proprios feiticeiros, que elles todos são embusteiros, não julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros.

Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua Comadre lhe pedem permissão para que os feiticeiros o visitem, o bafejem, e lhe toquem com as mãos.

O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me muitos selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente licença para me trazerem seos feiticeiros afim de me bafejarem, e apalparem-me, sem o que, asseguravam-me, eu não ficaria bom?

O grande _Thion_ adoecendo apenas chegou do _Mearim_ ao Fórte de S. Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou ser isto devido a ameaça do Principal-feiticeiro da sua terra, que pretendia seduzir e impedir esses povos _Mearinenses_ de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem nas florestas do _Mearim_.

Tinha ameaçado _Thion_ com a morte apenas aqui chegasse, o que não aconteceo, porque depois d’uma febre violenta recobrou sua saude: com tudo, emquanto esteve doente, pensou morrer, por maiores que fossem as nossas advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras.

Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade entre os seos, muito mais aquelles, que se chamam propriamente _Pagy-uaçú_[100] «grandes feiticeiros», porque são como os Soberanos d’uma Provincia, muito temidos, chegando a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario tem communicação tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos os povos; são graves e por isso não se communicam facilmente com os seos: são muito bem acompanhados quando vão a qualquer parte, e tem muitas mulheres, não lhes faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes quando os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas o melhor que possuem em suas caixas.

Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e pelo contrario zombam delles, e muitos me contaram os meios, que empregaram para isto, o que ainda direi em lugar proprio.

_Japy-açú_ e o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ tiveram entre si uma questão, de que resultou reciproca desconfiança.

O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se lembrava das molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que pensou morrer a ponto de lhe pedir que as removesse, e si agora já não as temia?

Estas palavras impressionaram _Japy-açú_, e julgou-se feliz de ter sua amisade. A questão foi por causa de uma mulher retida por força; porem merece ser contada esta historia por haver relação entre ella e o objecto de que tratamos.

Adquirio o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ em sua Provincia e circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito Magico, que a seu bel-prazer distribuia molestias e mortes, curava e dava saude, e por isso alcançou em seo paiz o grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á sua vontade.

_Japy-açú_ mofava e zombava de tudo isto, o que sabido pelo outro o fez dizer, que em pouco tempo em si mesmo experimentaria si não tinha o poder de fazer bem ou mal a quem quizesse.

Não fez _Japy-açú_ caso d’isto, porem veio a fortuna proteger ao seo contrario fazendo com que elle cahisse doente muito naturalmente; pensou ser sua molestia devida ao feiticeiro de _Tapuitapéra_, embora a existencia do mar entre uma e outra Provincia, e pela força de imaginação agravou-se sua molestia a ponto de o julgarem á morte.

Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, porem nenhum lhe deo saude e afinal escolheo as melhores fazendas que havia e humildemente mandou a esse feiticeiro seo antagonista, pedindo-lhe pelos mensageiros seos parentes, que desse ordens á molestia para deixal-o.

O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei que moxinifada para elle tomar, asseverando-lhe cura em breve tempo. _Japy-açu_ acreditou, principiou pouco a pouco a passar melhor temendo d’ahi em diante o feiticeiro, que comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras vezes o apontava para mais firmar sua autoridade.

Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam as molestias por força d’imaginação e apprehensão, d’estes selvagens a respeito das ameaças ou dos favores de seos feiticeiros?

Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com os exemplos mui communs, dos _Hypocondriacos_, ou doentes imaginarios, os quaes embora sãos, e bem conservados, julgam-se debeis e fracos, pensando cada um soffrer uma molestia differente.

Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam uns grandes feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem o bem.

CAPITULO XI