Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 21
Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, recolhem-se á casa d’elle, contentam-se com o que tem e vivem sóbriamente como tanto convem a um christão.
CAPITULO V
De um Indio, condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de morrer.
Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, que vendo-se simplesmente por fora a concha de uma ostra marinha coberta e suja de lama e lodo, que ella em si ja tivesse uma perola preciosa digna de ser collocada no gabinete dos principes.
Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e immundo, como não posso dizer, embora creia que o proprio diabo, author de taes traças, se envergonhe d’isto, não tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o tira d’isto?
Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação da divina Providencia, fosse escolhido para o reino do Ceo, e tirado d’esses abysmos infernaes, para receber (na hora da morte, bem merecidas por suas torpezas) o sagrado baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe proporciona facil e franca entrada no Paraiso?
Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio para o matto por ouvir dizer, que os francezes o procuravam e aos seos similhantes para matal-os e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do Evangelho, da candura, da puresa, e da claresa da Religião Catholica Apostolica Romana.
Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com segurança ao Forte de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros aos pés: vigiaram-no bem até que chegassem os principaes de outras aldeias para assistirem ao seo processo, e proferirem sua sentença, como fizeram a final.
Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e elle mesmo sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou morrer, e bem o mereço, porem desejo que igual fim tenham os meos cumplices.»
Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em sua alma dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, apesar de sua má vida passada, iria direito para o Ceo apenas sua alma se desprendesse do corpo.
Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal fim veio o Sr. de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. Francisco em Maranhão, e conversando si devia ser eu quem o baptisasse, resolvemos negativamente pelas seguintes razões:
Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas misericordiosas e compassivas, que expontaneamente empregavamos nossos esforços perante os grandes para alcançar a vida dos condemnados: que os grandes nos estimavam, e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos, que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, e que por isso tinhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, si eu o baptisasse publicamente, antes d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos d’estes espiritos debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções dando alem d’isso causa a varias murmurações dos selvagens, que diziam—«si os padres gostam da vida, porque deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os christãos porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, porque não pedem a vida d’este?»
Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos ser conveniente e necessario, que eu não o baptisasse. Roguei pois ao dito senhor que, depois de instruil-o pelos interpretes, o baptisasse antes de ir ao supplicio, sem as ceremonias da igreja o que se prestou e cumprio.
Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principaes selvagens o baptismo, depois do que um dos Principaes, chamado _Karuatapiran_ «Cardo vermelho,» de quem ainda fallarei, lhe disse estas palavras:
«Tens agora occasião de estares consolado e de não te affligires, pois presentemente és filho de Deos pelo baptismo, que recebeste da mão de _Tatu-uaçu_ (nome do Sr. de Pezieux em sua lingua) com permissão dos Padres. Morres por teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero pôr o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que detestamos tuas maldades; mas repara na bondade de Deos e dos Padres para comtigo, expellindo Jeropary para longe de ti por meio do baptismo de maneira que apenas tua alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr _Tupan_ e viver com os _Caraibas_, que o cercam: quando _Tupan_ mandar alguem tomar teo corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos compridos e o corpo de mulher antes do que o de um homem, pede a _Tupan_, que te dê o corpo de mulher e resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres e não dos homens.»
Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno, fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar que n’um dia resuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em que estava para occupar o seo corpo, acrescentando o que pensou ser indifferente á Resurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa, pois elle e o paciente foram instruidos da verdade: julguei acertado referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça sempre quanto sou fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever.
Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito boa vontade, e antes de caminhar para o supplicio disse aos que o acompanhavam: «vou morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de _Jeropary_ pois sou filho de Deos, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e nem de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, onde cuidaes que estão dançando vossos paes. Dae-me porem um pouco de _Petum_ para que eu morra alegremente, com voz e sem medo.»
Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão ser justiçados, aos quaes tambem se dá pão e vinho, costume não d’agora, e sim desde a mais remota antiguidade, pois então se offerecia aos criminosos vinho com myrrha e opio para provocar o somno dos pacientes.
Feito isto, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura á bocca da peça, e o _Cardo vermelho_ lançou fogo á escorva, em presença de todos os Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente a bala dividio o corpo em duas porções, cahindo uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais foi encontrada.
Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao Ceo, pois morreo logo depois de haver recebido as agoas do baptismo, certesa infallivel da salvação d’aquelles, a quem Deos concedeo tal graça, não pequena e nem commum, porem tão rara como o arrependimento do bom ladrão na Cruz, que tendo vivido sempre desregradamente até chegar áquelle logar, recebeo comtudo esta promessa de Jesus Christo—_Hodie mecum eris in Paradiso_, «hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto podemos dizer d’esse infeliz e desgraçado indio, que nos deo tão bella occasião d’admirar e de adorar os juizos de Deos.
_Karuatapiran_, o algoz, com gestos e palavras mostrava grande contentamento e alegria perante os francezes por haver recebido tal honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas as maiores existentes entre elles, e um favor não pequeno aos mancebos, quando escolhidos para tal fim, pois é uma especie de accesso de grandeza para ser um dia Principal.
Por tudo isto o grande _Karuatapiran_ exaltava-se d’este seo feito e d’elle se servia para se fazer timido dizendo por todas as aldeias por onde andava, o que tinha feito, asseverando ser irmão dos francezes, seo defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes.
CAPITULO VI
Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, quando nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei.
O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os povos ao conhecimento da Philosophia, e á obediencia de uma Republica, era representado pelo simulacro do seo _Palladium_, que fingiam ser trazido do Ceo, e por elles collocado no lugar mais alto de sua cidade.
Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, correndo de sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos ouvintes e expectadores, produzindo-lhes doce somno.
Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando a estatua de Hercules no frontespicio de seos Templos, tendo na sua cabeça a cabeça de um leão, e nas espaduas a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca uma especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas homens e mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a si.
Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, que os homens são attrahidos pela doçura e pela razão á obediencia das leis divinas e humanas, na qual se conservam por meio das armas, sustentadas pelos soberanos para a conservação dos seos vassallos.
O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua Magestade e os nossos Padres nos remetteram para cá á fim de chamarmos ao conhecimento de Deos estas pobres almas selvagens, que, antes de começarmos a cathequisal-as, reconhecemol-as anciosas por doçura, e por isso combinamos pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre nos démos muito bem.
Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos dados por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a clemencia para com os peccadores e infieis era um dos primeiros deveres conforme estas palavras: _Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatus argento_ «nós te faremos collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas de fios de prata em forma de vermesinho para mais fazer realçar a bellesa do oiro.»
Dizem os Septenta—_Simulachra auri faciemus tibi, cum vermiculacionibus argenti_; «nós te faremos pequenas estatuas de oiro fino, esmaltadas de fio de prata do feitio de vermesinhos.»
Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de Saphira, em que estavam gravados os mandamentos da lei de Deos porque a luz da gloria do Doador dava á saphyra diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em linha pelo dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias ou vermes da terra.
Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias divinas e as dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos umas e outras, por meio de estatuas e cadeias de oiro, a força e o poder da doçura para subjugar as almas mais barbaras á obediencia das leis de Deos.
Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de oiro de sua esposa com figuras de vermes da terra, e de pequenas lampreias, visto que elle mesmo se fez verme para chamar a si os vermes, e misturou-se com a terra para se juntar com os vermes, que ahi achasse.
Assim como as lampreias não repellem as serpentes por que podem causar medo com o veneno, que estas vomitarem, assim tambem Jesus Christo não despresa os homens, pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do seo veneno.
Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos de Sua Magestade?
Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens deve modelar suas palavras e acções pela doçura, de que sempre usou Jesus Christo na terra.
Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens.
1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, e amigos fieis, mais que seos paes, mães, e outros parentes, dizendo-lhes estas e outras palavras _pera-uçu_, _pare koroyco_ «somos vossos amigos, vossos intimos.»
Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança vinham conversar comnosco a ponto de tornarem-se importunos, não nos permittindo descanço algum, e só nos olhando e observando até os nossos menores gestos.
Vou dar-vos alguns exemplos.
Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram muitos selvagens, tanto de _Tapuitapera_ como da _Ilha_, quiz recolher-me para meditar no sermão, que devia prégar depois do jantar, e para isto mandei fechar as portas de nossa casa para que ninguem entrasse durante esse pouco tempo até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando uma abertura, e afinal quebraram algumas estacas e por ahi passaram.
Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento pelo que haviam feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?
Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e fallar comtigo livremente, na ausencia dos francezes, e para esse fim viemos de proposito». Á vista d’isto não tive outro remedio senão atural-os.
Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas fechadas, rompiam o panno de Guiné, com que forramos a Igrejinha para vêr o que fazia eu ajoelhado defronte do Altar, e diziam uns para os outros _ygneém Tupan_ «falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu rezava.
Para livrar-me d’estas importunações mandei construir uma cerca ao redor da nossa casa e Capella de S. Francisco, muito forte, e entremeiada com ramos de palmeira espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do que o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam meios de entrar e de me procurarem.
Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto por Plutarcho no tratado dos _Apophtegmas Laconicos_, «quem quizer ganhar a amisade dos homens, deve ter na lingua um regato de mel, e nas mãos muitos fructos» isto é—palavras doces e serviços conforme ás palavras.
Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que captarmos sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer a Deos e os sacramentos da Igreja, unicos fructos da Paixão de Jesus Christo.
Ælian, no livro 14 de suas _Historias diversas_, disse, que «Epaminondas se admiraria muito se sahisse do seo palacio para misturar-se com o povo, e não adquirisse um novo amigo para juntal-o aos seos amigos.»
Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim de conquistar novos amigos para Jesus Christo, porque viriam por si mesmos offerecer-se para isso.
Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos grandes do Areopago de Athenas, terminava a amisade dos homens junto aos altares dos Deoses, porem nunca fallou da amisade divina entre Deos e os homens, estabelecida e enraisada sobre os altares, porque pagão, como era, não podia comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante ao do proprio centro, onde cada creatura tem o destino de viver e descançar.
O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu amigo uma bella romã, que partio ao meio, e admirando a bellesa e o numero dos seos grãosinhos disse aos que com elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros, (nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta romã.
Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que Deos fez á Ordem Seraphica de São Francisco dando-lhe a faca da palavra para abrir o pomo ainda inteiro e fechado das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus Christo milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas tambem para um dia lhe serem fieis esposas.
Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, fazer os capiteis das columnas com arame, semeiado de romãs, indicando assim a missão do Evangelho para com as nações infieis, servindo para agarrar os peixes fugitivos por meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não havendo nada mais forte para obter o accordo que o proprio amor.
Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario fazer conhecer a estes selvagens, que nós os amavamos terna e infinitamente, que lhes offereciamos nossas pessoas e bens, dizendo-lhes _ore-mae pémareamo_ «tudo o que temos é vosso.»
Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia ordinariamente, lhes davamos todos, especialmente aos _Tabajares_, recem-chegados á _Ilha_, ainda necessitados de tudo, por não terem feito roças, especialmente os nossos visinhos.
2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, que deviam esperar de nossa amisade, isto é, reforma em sua vida, conhecimento do verdadeiro Deos, defesa do nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de enviar-lhes homens e armas conforme necessitassem. _Pe moé Koroiut, pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut peam: yande mogna gare, rhé, opap katu, ahé maé mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare soiy yauaeté oreru vichaue: Pepusurum okat araia oboure uaia pepusurô anuam_; quer isto dizer—«Nós vos ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente bom, e que nos prometteo o Ceo si n’esta vida fizermos o que elle diz. Viemos defender-vos de vossos inimigos. Nosso rei, que é forte e poderoso, vos dará sempre soccorro de armas e de homens.»
Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam que os francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham vindo agora por ordem do rei para tiral-os das cadeias de _Jeropary_, que não duvidavam aprender grandes coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não fallam como vós á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, porem se fallasseis comnosco vós nos dirieis o que Deos vos disser. Nossos filhos serão mais felizes do que nós, porque comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos promettestes, e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, que ja somos velhos.
Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques adiante dos _Peros_[97] tendo por alimento apenas raizes de arvores. Nossos filhos estarão seguros contra seos inimigos, os francezes se unirão á nossas filhas, e nossos filhos ás filhas dos francezes, e assim seremos parentes: ficareis comnosco, em nossas aldeias, e sereis nossos padres _Tupan_ os amará, e _Jeropary_ nada poderá contra elles. Haverá abundancia de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias francezas.
Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas coisas.
O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam n’um paiz novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, tinham por costume mandar fundir em bronze a Fé e os seos fructos, que publicamente promettiam a todos, representando uma dama, que estendia a mão direita, symbolo da Fé, trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, cheia de toda a especie de fructos, e tinham este mesmo carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr assegurando por esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que resultaria muitos bens e commodidades á sua nação.
Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando pela primeira vez n’estas terras barbaras, estendendo sua mão direita para prometter aos seos habitantes a fé de Jesus Christo, seo esposo, e a fidelidade de seos sectarios, que não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria vida para ajudal-a na salvação d’ellas.
Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, o conhecimento de Deos e das coisas divinas.
Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a França plantando pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões e paizes do Brazil, dando com a mão direita a segurança de defender e conservar estes selvagens obedientes á sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do commercio entre ella e o Brazil.
CAPITULO VII
Formulario da doutrina christã, que aprendiam e recitavam de cór, antes de serem baptisados.
No Levitico 1.º, e em outro lugar lemos, que antes da victima escolhida ser levada ao altar devia aquelle, que a apresentava, pôr suas mãos na cabeça entre os cornos.
Accrescentam outros, que esses cornos eram enfeitados de flores de junco marinho, (cujos espinhos, e não flores, foram postos na cabeça de Jesus Christo, offerecido em holocausto sobre a Cruz) e então os sacerdotes agarravam a victima, e a lavavam n’um grande vaso de bronze chamado _mar_. Representa isto os novos cathecumenos, desejosos de serem lavados pelo baptismo, e offerecidos diante do altar do Redemptor.
A primeira coisa, que se exige d’estes cathecumenos, é que ponham as mãos sobre a cabeça: as mãos são os hyerogliphos das obras, e a cabeça a séde do espirito e do entendimento. A primeira coisa portanto necessaria á estes noviços da fé christã é a operação do entendimento; quero com esta expressão dizer, que elles saibam e entendam o que pretendem crêr e prometter, e torcer os cornos da curiosidade e o proprio juizo dos orgulhosos possuidores do Junco marinho, corôa dos deoses, por meio da obediencia á Revelação divina. É o que pediamos aos adultos antes de conferir-lhes o baptismo, e nenhum o conseguia sem primeiro conhecer bem isto, por acto obrigatorio, a que deveriam tambem assistir os christãos, ignorantes de sua fé e profissão.
DOUTRINA CHRISTÃ
_na lingua dos Tupinambás[98] e em francez, e, em primeiro lugar a oração dominical_
_Ore-ruuc vuac peté cuare,_ Padre nosso, que estás no Ceo, _y moe-tepoire derere-toico_ sanctificado seja teo nome, _to-ure de reigne_ venha nós o teo reino, _teié-mognan deremimotare yboipé vaacpe iémognan eaue,_ seja feita a tua vontade assim na terra como no Ceo. _oreremiu-areduare eimé iury oreue,_ dae-nos hoje o pão quotidiano, _de-eiuru oré yangaypaue reçe,_ perdôa nossas offensas, _ore recome-moçaré supè ore-ieuron eaue_ como nós perdoamos aos que nos offendem _moar-ocar humé yepé tecomemo-pupé_ não nos deixeis cahir em tentação _oré pessuron peyepé mae ayue suy._ mas livrae-nos do mal. Amen Jesus.
SAUDAÇÃO ANGELICA.
_Ave Maria gratia, resse tonussen väé,_ Eu te saudo Maria, de graça cheia, _Deyron yandé yaré-reco_ o Senhor é comtigo, _ymonbeu katu poïre aue edereico kugnan suy_ benta és tú entre as mulheres. _ymonbeau katu poïre aue demeinboïre Jesus._ bento é o fructo do teo ventre, Jesus.
ORAÇÃO A VIRGEM.
_Santa Maria Tupan seu_ Santa Maria mãe de Deos _hé Tupan mongueta ore yangaypaue vaë ressé_ rogae a Deos por nós peccadores _cohu yran ore-requi ore-rumeué_ agora, e na hora de nossa morte. Amen Jesus.
O SYMBOLO DOS APOSTOLOS.
_Arobiar Tupan_ Creio em Deos _tuue opap katu maeté tiruan_ padre todo poderoso _mognangare vuac_ creador do Ceo _mognangare ybuy_ creador da terra _Jesus-Christo tayre oyepe vac_ em Jesus Christo, seo filho unico _ahe Sainct Esprit, demognan pitan amo_ que foi concebido do Espirito Santo _ahé poïre oart Sainct Marie, suy_ e nasceo da Virgem Maria _Ponce Pilate muruuichaue amoseico sericomemo poïre amo_ padeceo sob poder de Poncio Pilatos, presidente _yiuca poire amo yuira_ morreo sobre o madeiro da Cruz _ioasaue ressé_ morreo _ymoiar ypoire ytemim buire amo_ foi amortalhado e enterrado no sepulchro _ouue ieuue euue apeterpé_ desceo aos infernos _ahé sui turiare mossa poire ressé uue ombueue sui. Secobé yereie-buire_ ao terceiro dia resurgio dos mortos _oié upire vuacpé_ subio ao Ceo _Tupan tuue opap-katu maeté tiruan mognangare katu aue cotu seua_ está assentado á direita de Deos, seo Pae Omnipotente _ahé sui turiné ycobé vãe omano vãe poire paué recomognan_ de lá virá a julgar vivos e mortos. _Arobiar Saincte eglise catholique_ Creio na Santa Igreja Catholica, _arobiar Saincte tecokatu demosaoc morupé_ creio na communhão dos Santos _arobiar teco-engay paue ressé morupé Tupan deuron_ creio na remissão dos peccados por Deos _arobiar asé-recobé iebure_ creio na resurreição da carne _arobiar teiubé opauaaerem-eim-rerecoe nuame_ creio na vida eterna. Amen Jesus.
OS DEZ MANDAMENTOS.