Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 2
Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da França n’aquelles lugares.
Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente.
Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da esquadra.
Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das fadigas, a que diariamente se entregava no _Fórte_.
Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia, basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz.
Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.
Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida.
Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se suspeita.
O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão, completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R]
Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que cantaram um _Te-Deum_ no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos hoje, que elles previram o máo exito da missão.
Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»
O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo, que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas, que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um extracto do seo contheudo.[S]
Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa.
Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que Richelieu chegou ao apogeo do seo poder.
Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.
A _Historia Geral do Brasil_, publicada ultimamente pelo veridico Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas, expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de 1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades.
De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23 d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as ordens do seu chefe mais experiente do que elle.
Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes appellaram ambas as partes belligerantes.
Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em 3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o _Forte de São Luiz_ á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no _Forte de Belem_ soffreo rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U]
Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de bom gosto.[V]
Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia.
Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15 annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio completa e absolutamente.
Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo companheiro, foi inteiramente dilacerado.
Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha.
É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no _Forte de Belem_, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613.
Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance.
Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha.
Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio, e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha, chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com toda a calma e conveniencia.
Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava muito interesse á obra e ao seo auctor.
Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar: ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por si ou por _meios_ subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo, tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII.
O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha, e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas navegações.
O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz.
Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma serie de artigos, que publicava a _Revista de Pariz_ a respeito dos _antigos viajantes francezes_, e na verdade sem desvantagem, ao lado do Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de Sant’Pierre do 16º seculo.
Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção.
Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo. Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante, e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser consultados quando se tracta dos tempos primitivos.
O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas, que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio, mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!
O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor do _Timon_, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios, e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia.
Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades.
Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA]
Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não aconteceo. _Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos os illustres religiosos da Provincia de Pariz_ infelizmente só dão noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S. Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em Pariz.
Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros, que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias.
D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga brasileira.
Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a tranquillidade de suas existencias.
Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo, percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD]
Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em imital-os.
Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE]
Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que habitam.
Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro quasi a exhaurir-se.
Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela verdade.
Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer extincta, e que não se poderia consultar frequentemente.
Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios.
Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á respeito do culto do _maracá_, guardam silencio relativamente ao que então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas ideias religiosas do grande povo da costa.
Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas, que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas. Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos, é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de que entre elles encontraram se tão curiosos _especimens_. Note-se, que estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos.
Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG]
Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens, e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.
A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim para os francezes tem outro genero de merecimento.
Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria.
Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se teria entristecido profundamente.
Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do Pará.
Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.
Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras.
Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador; mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.
Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido, atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos.
Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos acontecimentos precedentes.
Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás.
As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e espontaneamente, aldeias mui longinquas.