Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 19

Chapter 193,849 wordsPublic domain

Nas _casas grandes_ não se falla mais de outra coisa senão do conhecimento de Deos, contando cada um o que ouvio de nós quando veio visitar-nos, e terminando essas especies de conferencias pela manifestação do grande desejo, que tinham de vêr seos filhos baptisados e elles tambem, por meio d’estas e outras palavras similhantes.

Que coisas, diziam elles, são estas, que os Padres nos contam por meio dos interpretes? Nunca as ouvimos iguaes.

Nossos paes, ja por tradicção nos contaram, que outr’ora veio aqui um grande _Maratá de Tupan_,[92] isto é, Apostolo de Deos nas provincias, onde residiam, e lhes ensinou muitas coisas de Deos: foi elle quem lhes mostrou a mandioca, as raizes para fazer pão, porque antes só comiam nossos paes raizes do matto.

Vendo este _Maratá_, que nossos antepassados não faziam caso do que dizia, resolveo deixal-os, mas antes quiz dar-lhes um testemunho de sua vinda aqui, esculpindo n’uma rocha uma especie de mesa, imagens, letras, á fórma de seos pés, e dos seos companheiros, as patas dos animaes, que trasiam, os furos dos cajados, a que se arrimavam em viagem, o que feito passaram o mar, procurando outra terra.

Reconhecendo nossos paes sua falta, procuraram-no muito, porem nunca d’elle tiveram noticias, e até hoje ainda não veio visitar-nos algum _Maratá de Tupan_.

Muito tempo ha, que frequentamos os francezes, e nenhum d’elles nos trouxe padres, e nem nos contou o que por seos interpretes nos dizem os padres.

Por exemplo fazem viver de maneira diversa os _Caraibas_.

Prohibem os francezes de tomarem nossas filhas, o que outr’ora faziam com facilidade, dando-nos em troca algumas mercadorias.

Dizem grandes coisas de Deos, e á elle fallam em suas Igrejas, e para isso fecham as portas, fazem-nos sahir para que desça _Tupan_ diante d’elles, e então si ajoelham todos os _Caraibas_.

Bebe e come _Tupan_ em bellos vazos de oiro, e em mesa bem preparada e ornada de bellos estofos, e bonitos pannos de linho.

Adornam-se com ricos vestuarios, e quando querem fallar aos _Caraibas_ assentam-se no meio d’elles, e somente falla um Padre, que está assentado.

Escutam-no todos os francezes, falla por muito tempo, cança-se, ninguem o entende porem todos ahi estão firmes.

Depois que este falla, cantam uns depois de outros, de lado a lado, lêem n’um _Cotiare_, (n’um livro) o que cantam e dizem elles que assim estão fallando á Deos.

Julgam nossos paes perdidos com _Jeropary_, ardendo em fogos subterraneos, e riem-se de nós quando choramos e lamentamos nos funeraes de nossos parentes.

Mandam atirar no matto a comida, a bebida, e o fogo, que costumamos dar aos nossos parentes defunctos para fazer a viagem até onde estão nossos avós nas montanhas dos Andes.

Elles nos dizem e prégam, que somos muito tollos em dar credito aos nossos _barbeiros_ e _feiticeiros_, especialmente ao seo sopro para o curativo dos infermos.

Fallam com altivez contra _Jeropary_, e não o temem de fórma alguma.

Promettem aos que crêem em _Tupan_, e que elles lavam com suas mãos, de subir ao Céo por cima das estrellas, do sol e da lua, onde está _Tupan_ sentado, e em roda d’elle os _Maratás_, e todos os que acreditam em suas palavras, e são por elles lavados.

Regeitam raparigas e mulheres, dizendo que o filho de _Tupan_ não as teve, sahindo do ventre de uma rapariga chamada _Maria_ com a qual nunca seo marido teve relações.

Ha dias nos quaes não comem carne embora lh’a offereçam.

Não se passam dez dias, contando pelos dedos, que não mandem os Francezes vestirem-se com roupas bonitas, e irem a casa de _Tupan_ fallar com elles e escutar a palavra de Deos.

Vestem-se de maneira diversa dos outros francezes, caminham diante d’elles, e todos os saudam. Convivem sempre com os grandes, que lhes fazem tudo quanto querem, e dizem até que abandonaram suas riquezas e fazendas para mais livres conversarem com _Tupan_, e manifestarem a vontade d’elle aos francezes.

Quando vamos vel-os, nos acariciam, especialmente a nossos filhos dizendo-nos, que já não nos pertencem e sim a elles, sendo-lhes dados por _Tupan_.

Que não nos penalizemos por isso, porque nunca nos deixarão e nem nossos filhos: que elles são muitos em França, que todos os annos virão outros, que depois de haverem educado e ensinado nossos filhos, os farão fallar em Deos tão familiarmente como elles o fazem: que lhes ensinarão a _rotiarer_ (a escrever) e a fazer fallar o _papere_ (o papel) mandado de muito longe aos que estão auzentes.

Dizem-nos que seo Rei é poderoso, que os ama, e nos ajudará em quanto elles estiverem comnosco. Ah! porque não somos mais moços para vêr as grandes coisas, que farão os Padres em nossas terras! Elles construirão com pedra grandes Igrejas como ha em França.

Trarão bellos estofos para ornar o lugar, onde desce _Tupan_. Mandarão buscar _miengarres_, isto é, musicos cantores[93] para entoarem as grandezas de _Tupan_.

Recolherão todos os nossos filhos n’um lugar, onde alguns dos Padres cuidarão d’elles. Mandarão buscar de França mulheres para ensinarem o que sabem á nossas filhas. Não nos faltarão ferramentas para nossas roças. Ah! diziam alguns d’elles em continuação, si chegarmos a vêr essas mulheres em nossas terras, então temos certesa que não nos deixarão os francezes, e nem os Padres, especialmente si nos derem mulheres de França. Si eu tivesse, disse um d’elles, uma mulher franceza não queria outra, e faria tanta roça que havia de chegar para sustentar tantas francezas, como de dedos eu tenho nas mãos e nos pés, isto é, vinte, numero infinido para significar muito, porque depois de terem chegado a vinte, começam a contar de novo.

Levantando-se então elle, que era o Principal no meio do grupo, em que me achava, e batendo nas nadegas com quanta força tinha, disse _Aça-uçu, Kugnan Karaibe, Aça-uçu seta, &._ «Amo uma mulher francesa com todo o meu coração, amo-a extremosamente.»

Respondeo o _Cão grande_, tambem Principal—«prometteram-me uma mulher francesa, que desposarei na mão dos padres, e me farei christão como fiz meo filho Luiz-galante, e quero ter em pouco tempo um filho legitimo. Minha primeira mulher está velha, e por isso não precisa mais de marido, e as outras oito, ainda moças, as darei por esposas a meos parentes, e ficarei só com a mulher de França, e minha velha mulher para nos servir.»

Faziam outros iguaes discursos em suas _cazas grandes_ e na minha residencia, ou quando me viam passar, contentando-me de referir apenas o que acima escrevi para mostrar o fervor d’estes barbaros, suscitado pelo Divino Espirito Santo.

_Vox turturis audita est in terra nostra_, para produzir de seo seio fechado e preoccupado por mil infecções estes bellos e amigaveis viadinhos, _vox Domini præparantis Cervos_, e em outro logar _Cerva charissima e gratissimus hynnulus_, cap. 5º dos _proverbios_, «a côrça muito estimada, e o templo muito lindo.»

Continuemos.

A estas palavras seguio-se logo a pratica, porque foram muitos meninos entregues ao Rvd. padre Arsenio, residente em _Juniparan_, e a mim, morador em São Francisco, perto do Fórte de São Luiz, para acudir aos francezes e receber os Indios de outras terras, que todos os dias nos vinham vêr e conhecer, si era verdade o que de nós se dizia em longes terras.

Foi esta a divisão, que fizemos, de tantas e tão grandes terras para cultivar e lavrar o que permittissem nossas forças, cuidando um de uma parte e outro de outra, excepto quando houvesse necessidade de sahir da Ilha, porque então se tomariam providencias adequadas.

Impossivel é á palavra o pintar o contentamento e a alegria, que sentiamos vendo estes selvagens trazer-nos seos filhos, voluntaria e expontaneamente, para serem baptisados, preparando-os o melhor que podiam com os meios offerecidos pelos francezes, isto é, vestidos com um pedaço de panno de algodão, escolhendo padrinhos entre os francezes, contrahindo assim com elles estreita alliança, especialmente com os meninos baptisados, si estivessem em idade de o conhecerem, porque então considerariam seos padrinhos como seos proprios paes, chamando-lhes pelo nome de _cheru_, «meo pae» e sendo pelos francezes chamados os rapazes _cheaire_ «meo filho,» e as meninas _cheagire_ «minha filha»: vestiam-nos em summa o melhor, que podiam, e os selvagens, paes dos meninos baptisados, lhes offereciam todas as commodidades resultantes de suas roças, de suas pescarias, e caçadas.

Vendo assim estas cousas, lembrava-me do que diz o cap. 5º dos _canticos_. _Oculi ejus sicut cólombæ super rivulos aquarum, quæ lactæ sunt lotæ, et resident juxta fluenta plenissima_: «os olhos de Jesus Christo, esposo da Igreja, parecem-se com os olhos da pomba, orvalhada de leite, que contempla os regatos das fontes, e faz seo abrigo e morada nos rochedos, que abrangem rios amplos e espaçosos.»

Estes olhos de Jesus Christo são as graças do Espirito Santo, que fazem quebrar seos ovos á maneira das tartarugas, expostos á mercê das innundações do mar e da frialdade da areia.

Tem estes mesmos olhos por plano e fim lavar e purificar as almas, especialmente as almasinhas rociadas de leite. Assim como a pomba branca brinca sobre os riachos, e habita á margem dos grandes rios, assim tambem o Espirito Santo folga e muito na conversão de uma terra nova, e encara com bons olhos a sahida d’estas almasinhas do estado geral d’estas terras barbaras, a saber, da ignorancia de Deos para chegar a conhecel-o por meio das agoas do baptismo, partecipantes, como nós, da visão de Deos, porque não fazem accepção de ninguem, visto que estas almas barbaras lhe custaram tanto como as nossas.

Oh! preço infinito! oh! falta de caridade, que não tem desculpa perante Deos, de se verem tantas almas pedindo a salvação, sem embaraços e riscos, e em risco de se perderem por não haver um pequeno auxilio.

Bom Deos! todos nós acreditamos, e Jesus Christo confirma esta crença, que uma só alma valle mais que todo o resto do mundo, isto é, que todos os imperios, e reinados da terra, que todas as riquezas e thesouros do homem: mais ah! não temos difficuldade de pôr em execução nossas crenças.

Não posso deixar este assumpto sem primeiro declarar a luta interior, que experimentei, para fazer vêr e descarregar minha consciencia tanto quanto a julgo compromettida, parecendo-me bastante para minha justificação e defesa o que acabo de dizer.

Li e notei em bons auctores, profundos e perspicases no conhecimento dos segredos e mysterios da Escriptura, que as pombas brancas orvalhadas de leite eram certas pombas, que os Syrios creavam em honra e veneração de sua rainha Semiramis, sendo prohibido matal-as sob pena de morte.

Contam-nos os antigos ter-se esta rainha immortalisado por um acto memoravel, entre seos altos feitos d’armas, o mais milagroso quanto é possivel á grandesa dos reis, qual a suspensão entre o Céo e a terra de seos jardins, pomares, e bosques de recreio.

Salomão procurou esta comparação entre as coisas profanas para mostrar uma obra divina notavel entre as outras, qual a conversão das almas, inteiramente reservada ao poder de Deos por ser uma segunda creação pela qual assim como suspendeo a terra no ar, assim tambem suspenderá jardins, pomares, e florestas de sua igreja com surpresa dos calculos e juizos humanos, afim do dar lugar aos seos predestinados e eleitos chamando-os quando lhes apraz, no meio dos desertos, e do interior das mais vastas e densas florestas.

Antes de ir adiante, não deixarei escapar a coincidencia que se nota entre a grande Semiramis e Maria de França, rainha christianissima.

Semiramis rainha reinante e tutora do seu filho o rei d’Asyria emprehendeo grandes coisas, em beneficio e sustentaculo do imperio de seo filho.

Igual caso se dá com a nossa rainha, e embora Semiramis tenha em seo tempo feito muitas obras magnificas, pelas quaes grangeou o amor e a obediencia de seos subditos mais do que outra qualquer, sua antecessora, a immortalidade de seo nome foi devida a seos edificios miraculosos.

Com igual razão direi, que entre as heroicas acções da rainha, mãe do rei, que levaram a posteridade seo nome immortal, conta-se a missão dos padres capuchinhos ás terras do Brasil para ahi plantar os jardins da igreja, começada e fundada sob sua authoridade e ordem, e assim será o Brasil obrigado a sustentar estas pombas brancas em memoria e lembrança de tão grande Semiramis que tem tanta piedade como poder para aperfeiçoar esta empresa.

Ainda vos peço, que em nossas pequenas pombas rociadas de leite deveis vêr os filhinhos dos selvagens conduzidos ao gremio do christianismo pelo baptismo.

Ha cinco annos, pouco mais ou menos, nem havia desejo de se intentar a cathequese d’esta gente.

O diabo ahi mandava com imperio, arrastava para si todas estas almas sem pagar dizimo a Deos, porem presentemente, em quanto durar e continuar a missão, com o auxilio de Deos ouvireis dizer quaes os grandes fructos, ja colhidos, e outros que se colhem todos os dias.

A nossa maior consolação, a que nos fazia soffrer as amarguras e as difficuldades dos trabalhos, que ahi não nos faltavam, era vêr a franqueza e boa vontade, com que os selvagens nos apresentavam seos filhos para serem baptisados dizendo então nós, em conversa com elles, que para nós nada havia mais agradavel do que o trazerem elles seos filhos á pia baptismal, e sempre que comnosco fallavam era assumpto da conversa a manifestação de seos desejos por verem seos filhos por nós baptisados.

Poderia aqui reproduzir muitos exemplos para confirmar esta verdade, mas como tenho de referil-os em lugar proprio, deixo-os agora de mão.

CAPITULO II

Do baptismo de muitos infermos e velhos, que falleceram depois de christãos.

Entre os mais bellos enigmas sagrados, que recita Job no seo livro, está no Cap. XIV a parabola do loureiro dizendo. _Si senuerit in terra radix ejus, et in pulvere mortuus fuerit truncus illius, ad odorem aquæ germinabit, et faciet comam quasi cùm primo plantatum est_: «Si a raiz do loureiro se mergulha na terra, e seo tronco morrer no pó, apenas sentir o cheiro da agoa germinará e produzirá nova copa de folhas, como si fosse recentemente plantado.»

Os Setenta assim inverteram esta passagem: _Si in petra mortuus fuerit truncus ejus, ab odore aquæ florebit, et faciet messem, sicut nova plantata_: «si o tronco do Loureiro morrer na pedra, com o cheiro d’agoa florescerá, e como planta nova mostrará em breve sua copa.»

Outra versão ha ainda mais bella: _Attracto humore aquæo iterum germinat, exibet quæ fructus decerpendos, ut plantæ solent_ «o Loureiro morto chupando a agoa germina de novo, e como as outras plantas offerece sazonados fructos.»

N’estes trez trechos descobrireis muitas coisas, que servem litteralmente ao nosso fim.

1.º A raiz do Loureiro dentro da terra.

2.º Seo tronco morto no pó ou na pedra.

3.º O cheiro d’agoa, que dá a vida perdida á raiz e ao tronco fazendo produzir folhas, flores e fructos.

O Loureiro representa as Nações infieis, conforme a ficção dos antigos da nympha Daphné, a qual perseguida pelos demonios com o nome de Appollo foi convertida em Loureiro.

Sua raiz sepultada no pó ou na rocha representa longa serie de annos, nos quaes estas Nações barbaras jazeram entregues aos seos barbaros e inveterados costumes.

O tronco ja morto representa o fim e terminação d’esta ignorancia.

Deos querendo presentemente visitar esta Nação escolheo os enfermos, os velhos, os caducos e moribundos para fazel-os renascer em Jesus Christo, levando as folhas verdes da graça, as flores dos dons do Espirito Santo, e os fructos dos meritos da paixão de Jesus Christo, e com isto tudo o cheiro e o atractivo da agoa do baptismo.

Sentiamos muito consolo quando baptisavamos os doentes e os velhos, cuja morte era esperada com certeza, por que receiavamos que por falta de soccorros, nos vissemos obrigados a deixar e abandonar todos os meninos recentemente baptisados e os adultos, que constantemente si apresentavam.

Tinhamos ao menos certeza, que baptisando os que se achavam proximos da morte, abria-se o Paraizo, e perdia-se a occasião que lhes faria perder talvez a graça obtida, ficando sós e longe dos Ministros da Igreja para nutril-os na graça recebida.

Alem d’isto o baptismo d’estes velhos fazia muita impressão no coração das testemunhas vendo a devoção, com que ordinariamente recebiam o baptismo.

Vou dar-vos alguns exemplos.

Na ilha cahiram doentes duas raparigas, uma livre e outra escrava, sendo aquella casada com um Tupinambá, muito bom moço, o qual depois da morte de sua mulher, constantemente nos perseguia para ser baptisado, aprendendo com muito boa vontade a doutrina christã.

Esta rapariga, proxima da morte, pedio que lhe dessem o baptismo, confessando por palavras nascidas do coração a verdade da nossa religião, mostrando por signaes exteriores o toque do Espirito Santo no seo coração, banhando-se de lagrymas de amor e de reconhecimento ao grande _Tupan_, que lhe fazia tão assignalada graça de a ter feito nascer neste seculo para tiral-a do meio de tantas almas perdidas de sua nação e conceder-lhe o goso do paraizo.

Fitava com attenção o Ceo, e com palavras doceis e tremulas recitava o que sabia á respeito da crença de Deos, repellindo para bem longe _Geropary_ e seos antigos enganos.

No meio d’este discurso, precursor da morte, lamentava a condemnação de seos antepassados.

Fazia exposições muito bellas a seo marido e o animava a receber quanto antes a purificação de seos peccados.

Devo dizer d’ella um facto muito particular, qual o de haver conhecido um só homem, o seo marido, o que é não pequeno milagre n’aquelle paiz, por causa do mau costume introdusido pelo diabo no coração das moças, de se honrarem pela deshonra, e de não apreciarem a castidade ou a virgindade.

Bem vêdes por isto, que em todos os escolhidos de Deos ha sempre alguma virtude natural, que provoque, não por merecimento e sim pela occasião, a graça de Deos, que similhante ao sol, com indifferença, está a entrar n’alma de todos, si houver para isso disposição.

A _Tapuia_, ou escrava, atacada por violenta febre, que a atormentava muito, achava-se em sua rede só e por todos abandonada, conforme o uso e costumes d’elles, que consideram grande deshonra cuidar d’uma escrava quando está a morrer, isto antes da nossa chegada a ilha, quando então lhes mostrámos o quanto era desagradavel á Deos a crueldade com que atiravam por terra o escravo moribundo e lhe quebravam a cabeça como ja disse.

Esta desgraçada mulher, prisioneira de Satan, e victima das desgraças communs da natureza, que são as enfermidades e as doçuras dolorosas e insuportaveis, sem pessoa alguma junto de si foi então olhada com piedade, e visitada por seo Creador, animando-a a pedir o baptismo. Oh! juiso de Deos! Oh! providencia eterna!

Quem poderá comprehender teos conselhos na vida do homem!

Esta pobre creatura, dardejada vivamente no coração pelas flechas das primeiras graças do seo senhor, não merecidas por alguma obra boa anterior, que houvesse feito, lançava suas vistas por todo o quarto procurando ver, si alguem lhe apparecia para mandar chamar os Padres, afim de ser lavada com as agoas do baptismo, e felizmente lhe appareceu um francez, a quem expoz seos desejos, e veio elle logo dizel-os ao padre, indicando a casa d’ella, que era perto, e elle foi logo visital-a, instruil-a e baptisal-a.

O francez, que cuidou d’ella, e o padre que a baptisou, me contaram coisas admiraveis.

Esta infeliz creatura quanto ao corpo, porem muito feliz quanto á alma, principiou a experimentar os penhores do Ceo, e o merecimento do sangue de Jesus Christo que recebeo pelo baptismo. Tinha sempre os olhos fixos no Ceo, derramava abundantes lagrymas, e dizia de momento a momento, estas palavras—_Y Katu Tupan, ché arobiar Tupan_. Oh! quanto Deos é bom! Oh! quanto Deos é bom! eu creio n’elle. Depois por meio de signaes mostrava aos francezes, que _Jiropary_, o diabo, andava ao redor de sua rede, e então dizia _Ko Jiropary, Ko y pochu Jiropary_: «está ali o diabo, atirai sobre elle a agoa de _Tupan_, isto é, agoa benta para elle fugir.» Fazia-lhe o francez a vontade e dizia ella que o diabo fugia a toda a pressa, e por isso constantemente pedia ao francez que derramasse em roda d’ella e de sua rede muita agoa benta o que fazia, bem como o padre quando ahi se achava.

Apenas lhe apparecia uma dor de cabeça, que muito a encommodava, pedia para que lavassem a testa, as fontes e a cabeça com agoa benta, com que alliviava muito, a ponto de não sentir mais doença alguma: pouco depois entregou sua alma ao Creador.

Amortalharam e sepultaram seo corpo á maneira dos christãos: aconteceo porem, que alguns malvados, filhos de _Giropary_, que nunca foram descobertos, senão seriam punidos, foram á noite desenterral-a, quebraram-lhe a cabeça e roubaram o panno de algodão de sua mortalha: pela manhã foi outra vez sepultada.

Ninguem se admire d’isto, pois o diabo reserva sempre para si alguns bons servos, mesmo nos reinos os mais bem policiados, afim de executar suas mais detestaveis intenções.

Sabeis sem duvida, que os _Tupinambás_ aborrecem naturalmente os que abrem as sepulturas dos mortos e não podem por isso tolerar, que os francezes abram as covas, onde foram enterrados seos parentes para lhes tirar os objectos, que elles cheios de superstição ali deixam.

Ahi estava a morrer um velho _Tabajare_, tão magro, que os ossos lhe furavam a pelle, sem voz, e sem movimentos na sua rede.

Julgando-se mais proximo da morte do que da vida, inspirado por Deos, pedio o baptismo.

Fomos visital-o e cathequisal-o pedindo-lhe sua opinião a respeito de todos os pontos e artigos, que lhe propuzemos.

Com as mãos postas nos disse que acreditava no que lhe diziamos.

Demorando-nos nos artigos relativos á crença da Santissima Trindade, da Incarnação, Morte, e Paixão do Filho de Deos, do Baptismo, e do Mysterio da Santa Eucharistia, por que estava proximo da morte, procuramos fazer-lhe entender estas materias tão altas e profundas por comparações familiares, a que prestou muita attenção, e dezejando com todo o fervor o baptismo nós lhe promettemos, que no cazo de ficar bom elle receberia as ceremonias do baptismo na capella de S. Luiz, e aprenderia com gosto a doutrina christan, que ensinavamos aos catecumenos antes de baptisal-os.

Respondeo-nos, que não era tão longe a Capella de Sam Luiz, que não podesse ser levado até lá afim de, antes de morrer, ser baptisado, consolação que muito desejava afim de ir direito para o Ceo.

Vendo este fervor e devoção ficamos satisfeitos e concordamos ser elle carregado n’uma rede até a igreja de Sam Luiz, e ahi baptisado com toda a solemnidade.

Alguns dias depois morreo tranquillamente.

N’esse mesmo tempo cahio doente uma mulher _Tabajare_, e tão gravemente, que todos julgavam-na em breve morta: fomos vel-a e lhe offerecemos o baptismo que aceitou de muito boa vontade, e com muita attenção escutava o que diziamos, por intermedio dos interpretes, a respeito das glorias do Paraizo, das penas do inferno, do que ella devia crer, antes de receber o baptismo no caso de Deos lhe dar saude, e que podesse aprender a religião christan, e então na igreja receberia as ceremonias do baptismo, no que concordou e foi baptisada: recobrando sua saude, julgou do seu dever cumprir sua palavra, embaraçando-a porem o facto de ser mulher de um _Tabajare_, que tinha mais duas, não podendo ella continuar a viver com elle casada segundo as leis do christianismo.

Removemos este obstaculo seguindo o conselho de Sam Paulo: _si qua mulier fidelis habet virum infidelem et hic consentit habitare cum illa, non dimitat virum etc quod si infidelis discedit, discedat_: «si alguma mulher fiel estiver casada com um homem infiel, e que este queira morar com ella, ella que não o deixe, si o homem infiel a deixar, ella o deixe tambem.»