Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 18
Accrescento ainda, que o Perú, que está no mesmo paralello que a terra firme do Maranhão, é abundante de trigo e de vinhas. Quem pode impedir, que ahi se produzam estes generos?
Quanto ao vinho, não é feito das vinhas do paiz, embora ahi possam crescer,[85] e contam-nos, que as trazidas pelos nossos religiosos na ultima viagem pegaram e produziram fructos. Quem pode impedir grandes plantações de vinhas, e que em dois ou tres annos se façam grandes colheitas?
A França nem sempre tem vinho, actualmente porem tem muito.
Os flamengos, os inglezes, os hibernios e dinamarquezes não fabricam vinho, contentam-se com cerveja, e se querem beber vinho abrem a bolsa, e ahi vão os melhores vinhos do Universo.
O mesmo succede em Maranhão, porque os navios ahi os levam. É bem verdade, que é um pouco mais caro do que em França, porem é melhor, segundo pensam alguns francezes, que avaliam as coisas pelo preço.
Os mais economicos acostumam-se com a cerveja do paiz que é muito boa por ser feita de milho, e não é muito cara por haver muita abundancia deste genero na terra e serem as agoas boas e puras.
4.ª Dizem. Si é assim não é máo, porem pode ahi fazer-se vantagens, visto que, em quanto ahi estive, nunca me animei a gastar dinheiro. Respondo.
Se todos soubessem porque se dava essa falta, ficariam contentes, porem não é cousa que todos devam saber.
Direi somente, que esta falta não provem da terra, que é propria a produsir bons generos quando bem cultivada, como sejam: _Algodão_, _canafistula_, _madeira de diversas cores_, _piteira_,[86] _tinturas de urucú_, _de cramesim_, _pimentas longas_, _lapis-lazuli_, _cobre_, _prata_, _oiro_, _pedras preciosas_, _plumas_, _passaros de diversas cores_, _macacos_, _macacos-monos_, _e saguins_, e especialmente assucares, quando si levantarem engenhos e plantarem cannas.
Si nada de lá se trouxer (callando o que si deve dizer em publico) provem da má direcção dos negocios, cuidando cada um de si, o que tem feito com que haja pouco sortimento de mercadorias francezas, necessarias aos selvagens, e pelas quaes dão algodão, tinturas, pimentas, e outras coisas similhantes, alem de outros generos, que por si mesmo possam obter os francezes.
Vendo os selvagens a pobresa dos armazens, onde apenas haviam mercadorias para com ellas si comprar farinha, ficam preguiçosos, nada fazem e nem farão emquanto os francezes não tiverem coisa alguma a dar-lhes em recompensa: tal é o seo genio e assim o farão, e por isto não merecem censura, por que em todo o Christianismo não si encontra um só homem, que trabalhe de graça.
Não vos admireis si nada tragam, e sim si na primeira viagem conduzirem comsigo alguma coisa.
Não me prendo as rasões ja ditas, e outras, que callo, e sim no caso de provêr-se á esta falta, como convem, eu vos asseguro que a Ilha e suas circumvisinhanças ainda produzirão bons estofos.
Tendo satisfeito a todas as perguntas e objecções sinto repugnancia em responder a muitos mancebos, que por bens de fortuna somente possuem a espada e o punhal, mais que ricos de coragem cortam muitas vezes a garganta uns dos outros, e vão em companhia para um paiz bem triste, onde navio algum vae levar novidades.
Desejaria perguntar-lhes—que fazeis em França senão esposar questões de vossos irmãos mais velhos? Porque não experimentaes fortuna, ou ao menos porque não ides enriquecer vosso espirito com a vista de coisas novas? Passarieis assim o vosso tempo, em quanto si aplaca o vosso coração, e si fortalece o vosso juiso: prestarieis serviço a Deos e ao vosso Rei visitando esta nova França.
Ahi descobrireis novas terras, achareis alguma coisa de valor, como sejam pedras preciosas etc., e quando mais não fosse, bastaria que, quando voltardes, não ficasseis mudo nas reuniões, porque aquelle que viaja tem sempre ganho o seo pão.
As cinzas e os fogões são para os cazeiros, creados por Deos para cultivar a terra.
A nobresa n’este mundo tem outro fim, e qual é elle? o de empregar vossos esforços e trabalhos para dilatar o reinado de Deos, ajudar os Apostolos de Jesus Christo a chegarem aos fins para os quaes são enviados, isto é, para augmento do sceptro e da corôa de vosso principe, e morrer por estas duas empresas—é morrer em leito de honra.
Vós me respondereis—mas sob que ordens e porque meios? Minha penna, senhores, não pode ir mais longe. Fiz o que devia e o resto ignoro.
Espero portanto, que Deos inspirará aquelles, que tudo podem, á favor da perfeição de tão alta empresa.
CAPITULO XLIX
Instrucção para os que vão pela primeira vez ás Indias.
Sabio é aquelle, diz o proverbio, que para seos negocios se aproveita do exemplo e experiencia dos outros.
Se os nossos francezes, antes de terem ido á India, soubessem o que depois conheceram, teriam melhor dirigido os seos negocios, e nem teriam passado pelos encommodos, que soffreram: o que resolver ahi ir, calcule quanto tempo ahi se pode demorar, junte ainda mais um bocado, porque lá não se tem a commodidade do regresso quando se quer.
Faça seo sortimento para esse tempo, e por duas formas, uma para si e outra para os selvagens afim de obter delles viveres e outros generos.
As suas provisões devem consistir de aguardente forte, do melhor vinho de Canaria, em bons frascos de estanho, bem arrolhados e acondicionados n’uma frasqueira fechada a chave, e esta tão bem guardada, como o seo coração, para servir nas necessidades e nas molestias que podem apparecer.
Fuja de sucia com pessoa alguma, porque então desapparecem bem depressa as suas provisões.
É costume no mar, desde que se suspeita haver vinho ou agoardente na frasqueira de algum passageiro, o pedir-se de vez em quando uma vez d’esses espiritos para beber em companhia, e quando se está em viagem deve-se fazer de duas coisas uma, ou ser-se liberal e para isso não faltam instigações, ou então passar-se por velhaco, e soffrer todas as injurias, que lhe queiram fazer.
O meio mais seguro para evitar estas coisas é não entrar em sucias.
Para a passagem do mar deve surtir-se de algum vinho tinto, e de coisas iguaes para quando precisar visto o trivial do navio ser muito mal preparado.
Deve fornecer-se de um bom numero de camisas, lenços, e vestidos de fustão, e não de estofos pesados, excepto os vestuarios para festas, porque n’este paiz não se precisa senão de pannos leves.
Leve sabão para o aceio da casa, muitos sapatos porque lá não achará um só, senão os que para ahi forem levados e por alto preço, de forma que pelo preço de um par tereis em França uma duzia, toalhas, guardanapos, lençóes e um bom colchão, e se quizerdes viver á francesa, isto é, com limpesa, deveis levar baixela de estanho para quando estiverdes doentes.
Devereis levar assucar, boas especiarias, uma porção de rhuibarbo muito fino, tudo bem acondicionado n’uma caixa para livrar o assucar das formigas do paiz, porque é impossivel imaginar-se o que fazem estes animaesinhos, que metem-se por toda a parte, e tudo trespassam se é de madeira.
Devem essas caixas ser feitas de ferro branco.
As mercadorias pelas quaes dos Indios obtereis em troca viveres e outros generos do paiz, e escravos para servir-vos e cultivar vossas roças, são as seguintes—facas de cabo de pau, de que usam os magarefes, e muito apetecidas pelos selvagens, muitas thesouras de bolsa de couro, muitos pentes, contas de vidro verde-gaio, a que chamam missanga, foices,[87] machados, podões, chapeos de pouco valor, fraques, camisollas, calções de adellos, espadas velhas, e arcabuses de pouco preço.
Dão muito apreço a tudo isto, e assim tereis escravos e bons generos.
Não esqueçaes tambem pannos verdes-gaios, e vermelhos de pouco valor, porque não fazem grande differença dos estofos, rosetas, assobios, campainhas, anneis de cobre dourado, anzóes, alicates de latão chatos, com um pé de cumprimento e meio de largura, tudo isto por elles muito apreciado.
Assim bem providos destes generos, não duvideis de serdes bem vindo entre elles: ahi não deveis viver vida folgada, e muito negocio fareis n’esse paiz pelo qual pouco dareis, se souberdes guiar-vos.
Assim preparado, não vos esqueçaes do principal, que é antes de embarcardes purificar e robustecer vossa alma com o Santissimo Sacramento da confissão e da communhão, dispondo todos os vossos negocios como quem não sabe se o mar lhe permittirá o voltar.
Apenas embarcado, fazei vossa cama o mais perto, que fôr possivel, do mastro grande para evitardes o balanço visto ser ahi o lugar mais quieto do navio.
Deve-se sempre temer a Deos, porem não receiar os acasos do mar, sendo melhor mostrar o rosto tranquillo do que desassocegado, visto de nada servir o medo.
Não vos assusteis senão quando os pilotos implorarem misericordia, porque então é preciso cuidar da alma, visto irem mal as cousas.
Quando virdes o navio navegando de lado, as caixas viradas, o mar entrando no convez, as vellas molhando-se nas ondas, os marinheiros jurando e buffando,[88] não vos assusteis, mostrae-vos sempre de animo prasenteiro, não vos descuidando porem da vossa consciencia.
Não questioneis com algum marinheiro, pois com isso nada alcançareis.
Quando chegardes ao porto, não vos apresseis em saltar, cuidae primeiro nas vossas mercadorias e bagagem, porque acontece muitas vezes visitarem a bagagem, e serrarem os caixões, onde vem os generos, de maneira que se possa introduzir a mão.
Fazei conduzir tudo em vossa companhia para casa do vosso Compadre, que deveis escolher com estes predicados se fôr possivel.
1.º Que tenha escravos, canôa e cães, para não sentirdes falta de peixe e de caça, senão raras vezes tereis estes generos, sendo necessario compral-os aos selvagens, e assim muito cara vos seria a vida.
2.º Indagae se elle tem bom genio especialmente a mulher, porque nada ha peior do que má hospede.
Se encontrardes bom acolhimento, convem fazer alguns presentes, e depois deveis trazel-os sempre na esperança de outros, sem serdes comtudo muito liberal, e por isso todos os mezes lhe deveis dar alguma coisa afim de não vos chamarem avarento, e como tal não vos apregoem entre os seos iguaes, criando assim difficuldades quando quizerdes obter alguma coisa.
Não vos deixeis prender pelos affagos das filhas dos vossos hospedes, ou de outras, pois não vos faltarão caricias se souberem que tendes mercadorias.
Em tudo o mais é preciso andar prevenido, tendo sempre bem presente á memoria o acaso e o perigo, que fazem contrahir molestias sórdidas áquelles, que de si se esquecem.
Podeis livrar-vos d’isto com facilidade, mormente se considerardes o grande peccado, que commeteis.
CAPITULO L
Do acolhimento, que fazem os selvagens aos francezes recem-chegados, e como convem proceder para com elles.
Si ha nação no mundo, que goste de fazer bom acolhimento aos seos amigos recem-chegados, e que os receba em suas casas para tratal-os bem o quanto é possivel, sem duvida alguma os _Tupinambás_ occupam o primeiro lugar á vista do que fizeram aos francezes.
Logo que fundeou o navio, que trasiam os francezes, surgiram de todos os lados selvagens em suas canôas, bem enfeitados de pennas e preparados segundo sua classe como si fossem para uma grande festa.
Apenas descobrem ao longe navios que demandam a terra corre logo este boato por todas as aldeias _Aurt vgar uaçú Karaibe_, ou _Aurt Navire suay_ «ahi vem os grandes navios de França.»
Immediatamente tomam os seos vestidos bonitos, si os tem, e principiam a fallar uns aos outros por esta forma: «ahi vem navios de França, e eu vou ter um bom compadre, elle me dará machados, foices, facas, espadas, e roupa: eu lhe darei minha filha, irei pescar e caçar para elle, plantarei muito algodão, dar-lhe-hei gaviões e ambar, e ficarei rico, porque hei de escolher um bom compadre, que tenha muitas mercadorias.»
Dizendo isto batem nas pernas e nos peitos em signal de alegria.
As mulheres e os rapazes fabricam farinha fresca e nova, e os homens vão pescar e caçar, e quando a casa está provida de carnes de diversas qualidades, raizes, peixes, caça, e farinha, vão todos aos navios.
Os mais impacientes vão em suas canôas á bordo do navio, ancorado na enseiada, endagar se vieram os seos velhos _Chetuassaps_, e qual é o francez que traz mais generos para lhe offerecer seo compadresco, sua casa e sua filha.
Apenas salta o francez é logo rodeiado por elles: homens e mulheres mostram-se prasenteiros, presenteam-nos com viveres, convidam-nos para compadre, offerecem-se para levar-lhes sua bagagem, em fim fazem o que podem para contental-os e agradal-os.
Não tem inveja por estar um francez em casa de outro: o que primeiro se apresenta é que leva o hospede, sem a menor questão, e nem por isso se insultam.
Fazem mais ainda: quando um francez muda de compadre, não questionam por isto, despresam-no, e tem-no por homem mau, e assim raciocinam.
«Si não poude viver com aquelle, como viverá commigo?»
Si o selvagem é genioso, avarento e preguiçoso, quando o francez o deixa não se zangam os outros, antes dizem «É bem feito ser elle despresado, é um homem difficil de ser aturado, avarento e preguiçoso.»
Escolhendo o francez um compadre, segue-o e vae para a aldeia,[89] e então o hospede com certa gravidade, como si nunca o houvesse visto, lhe estende a mão e lhe diz: «_Ereiup Chetuassap?_» «Chegaste meu compadre,»[90] coisa digna de vêr-se e de contemplar-se.
Direis ao vel-os, que sahem á maneira dos imperadores de um gabinete bem fechado, onde estavam empenhados em grandes negocios.
Si querem fazer grande acolhimento a um francez e lhe mostrar que muito o estimam, antes que o pae de familia lhe diga _Ereiup_, as mulheres e as filhas o lamentam e depois dam-lhe bons dias.
Responde-lhe o francez _Pá_, «sim?» resposta que quer dizer «sim de todo o coração: eu te escolhi para morar comtigo, e para ser meo compadre, e do numero de tua familia: te dei a preferencia porque te estimo e por me pareceres bom homem.»
Diz-lhe o selvagem—_Auge-y-po_ «muito bem, estou muito contente, honras-me muito, sêde bem vindo e aqui serás tão bem acolhido como em parte alguma.»
Por isto reconhecereis a candura e a simplicidade da naturesa, que consiste em poucas palavras e muitas obras. O contrario acontece á corrupção, pois inventa muitos discursos, muitas palavras adocicadas, cortejo sobre cortejo muitas vezes só com o chapéo, e não com o coração.
D’estas duas recepções qual será a melhor e a mais consentanea com a lei de Deos, e com a simplicidade do christianismo?
Após aquellas palavras, elle vos diz—_Marapé derere?_ «Como te chamas? qual é o teu nome? como queres que te chamemos? que nome queres que se te dê?»
Convem notar, que si não escolherdes um nome pelo qual sereis conhecido em toda a parte, elles vos darão um escolhido entre as coisas naturaes, existentes no seo paiz, e o mais apropriado á vossa physionomia, genio, ou maneira de viver, que por ventura descobrirem em vossa pessoa.
Por exemplo, entre os francezes, um foi chamado _beiço de sargo_, porque tinha o beiço inferior puchado para diante como os peixes chamados _sargos_.
Tiveram outros o apellido de _garganta grande_ porque nada o fartava, de _sapo-boi_,[91] por estar sempre entumecido, de _cão pirento_ pela sua cor má, de _piriquito_ porque levava só a fallar, de _lança grande_ por ser alto e esguio, e assim por diante, e ordinariamente fazem estas coisas em suas _casas grandes_, e por esta fórma pouco mais ou menos. «Que nome se ha de dar a teo compadre?»
—Não sei, é preciso estudar.
Indica cada um a sua opinião, e o nome que encontra mais apropriado, e si é bem recebido pela assembléa lhe é imposto com seo consentimento, si é homem de posição: si é do vulgo, queira ou não queira, ha de ter o nome, que lhe der a assembléa.
Tem tambem outra maneira de impôr nomes: quando elles vos estimam, e vos dam muito apreço, elles vos dam o seo proprio nome.
Depois de saber vosso nome pensam na cozinha dizendo—_Demursusen Chetuasap_, ou então _Deambuassuk Chetuasap?_ «Tem fome, meo compadre? quer comer alguma coisa?»
A hospede vos escuta e vos attende prompta a servir-vos si disserdes _sim_ ou _não_, porque tomarão vossa resposta, como dinheiro contado, visto que n’essas terras nem se deve ser vergonhoso, e nem guardar silencio.
Si tendes fome, direis _Pá, chemursusain, Pá, cheambuassuk_, «sim, tenho fome, quero comer.»
Perguntam elles _Maé-pereipotar_, «que queres tu comer? que desejas tu que eu te traga?»
São mui liberaes no principio, diligentes na caça e na pesca, afim de contentar-vos e ganhar vossa affeição para obter generos; mas cuidado, não lhe dês tudo no principio, conservae-o sempre na esperança, dando-lhe cada mez alguma coisinha.
Á sua pergunta dizei, si quereis carne, peixe, passaros, raizes, ou outra qualquer coisa, e então vossos hospedes, o marido e a mulher trazem para vós a caça, o _Mingau_, que tiverem, podeis comer a vontade e dar a quem quizerdes.
Apenas tiverdes comido, arma a sua rede ao pé da vossa, principia a conversar comvosco, offerece-vos um caximbo cheio de fumo, que accende, chupa tres fumaças, que expelle pelas ventas, e depois vos entrega como coisa muito bôa, e que faz muita estima, como na França se pratica com as bebidas.
Accende tambem seo caximbo, e depois de haver tomado cinco ou seis fumaças diz—_Ereia Kasse pipo_: «deixaste teo paiz para vir ver-nos, visitar-nos e trazer-nos generos?»
Respondei-lhe _Pá_—«sim, deixei tudo, despresei meos amigos, e meo paiz para vir aqui vêr-te.»
Levantando então a cabeça como que admirado, diz _Yandé repiac aut_, «compadeceo-se de mim, olhou-nos com piedade: lembraram-se os francezes de nós, não se esqueceram de nós.»
Deixaram sua terra para nos vir ver—_Y Katu Karaibe_: «são bons os francezes e muito nossos amigos.»
Depois pergunta ao francez _Mabuype deruuichaue Yrom?_ «Comvosco quantos superiores, guerreiros, capitães e principaes vieram?»
Responde-lhe elle _Seta_, «muitos.»
Replica o selvagem—_De Muruuichaue?_ «Não és d’esse numero? Não és um dos principaes?»
Bem podeis pensar, que não ha ninguem, por mais mediocre, que seja a sua condicção, que de si não diga bem, e por isso responde o francez _Ché Muruuichaue_ «sim, sou um dos principaes.»
Diz o selvagem _Teh Augeypo_ «muito bem, estou muito contente: basta, fallemos de outra coisa.» _Ereru patua? Ereru de caramemo seta?_ «Trouxestes muitas caixas e cestas, cheias de mercadorias?»
São as melhores noticias, que se lhes pode dar, para as quaes tem sempre dispostos o animo e o coração, de sorte, que tudo quanto dizem é somente como que um preambulo para chegar a este ponto.
Depois que o francez responde-lhe affirmativamente diz o selvagem—_Mea porerut decarameno pupé?_ «O que trouxestes em vossas caixas e coffres de joias? que mercadorias?» dizem elles com vóz doce e agradavel, pois são muito curiosos de saber o que trazem comsigo os francezes.
Deve estar prevenido o francez para não dizer e nem mostrar o que elles desejam, afim de trasel-os sempre na expectativa, si dos seos serviços quer aproveitar-se.
Deve responder-lhe—_Y Katu paué_ «trouxe tantas coisas, cujos nomes nem mesmo sei, são bellas e magnificas.»
Esta resposta é como agoa lançada na fornalha ardente do ferreiro, a qual redobra o calor, e activa a chama, e assim desperta a curiosidade do selvagem, até por meios adulatorios, expressados por gestos, dizendo _Eimonbeu opap-Katu_ «eu te peço, não me occultes nada, dize-me.» _Yassoi-auok de Karamemo assepiak demae_: «Abre-me tuas caixas, teos cestos, deixa-me vêr tuas mercadorias, tuas riquezas.»
Deve responder o francez _Aimosanen ressepiak_ ou _Kayren deué_ «agora não posso, deixa-me descançar, logo te mostrarei:» _Begoyé sepiak_ «não duvides, um dia verás á tua vontade.»
O selvagem entende o que isto quer dizer, e vendo que perde seo tempo, diz a si mesmo, levantando os hombros, e como que se lastimando—_Augé katut tegné_, «pois bem, esperarei.»
Bem sei que não serei ouvido, porem, diz elle ao francez _Dererupé xeapare amon?_ «Não trouxestes muitas fouces e machadinhos de cabo de ferro?»
_Dererupé urá sossea-mon?_ «Trouxestes machados de cabo de pau?» _Ererupé ytaxéamo?_ «Não trouxestes facas d’aço?» _Ererupé ytaapen?_ «Trouxestes espadas d’aço?» _Ererupé tatau?_ «Trouxeste arcabuzes?» _Ererupé tatapuy seta?_ «Trouxeste muita polvora?»
Responde o francez a tudo isto _Aru seta yagatupé giapareté_ «Sim, trouxe muita coisa boa e bonita.» Diz o selvagem _Augé-y-pó_ «Muito bem.»
_Ercipotar turumi? Ercipotar keré?_ «queres dormir? queres deitar-te?» Responde o francez _Pa che potar_ «sim, quero dormir, deixa-me.»
Da-lhe então o selvagem as boas tardes, ou boas noites, dizendo—_Nein tyande karuk tyande petom_ «boa tarde, boa noite, descançae á vontade.»
Deixemol-os em descanço, e passemos á segunda parte d’esta historia.
Continuação da historia das coisas mais memoraveis, acontecidas no Maranhão em 1613 e 1614.
SEGUNDO TRATADO.
CAPITULO I
Dos fructos do Evangelho, que appareceram cedo pelo baptismo de muitos meninos.
O cantico segundo, (representando allegoricamente a origem da Igreja, em terra nova, ainda não illuminada pelo conhecimento do verdadeiro Deos) diz: _Vox turturis audita est in terra nostra: ficus protulit grossos suos: vineæ florentes dederunt odorem suum_: «foi ouvida a voz da rolla em nossa terra: produzio a figueira seos figos verdes, e as vinhas em florescencia derramaram seo aroma.»
Interpretando estas palavras Rabbi Jonathas, diz em sua Paraphrase chaldaica, que a vóz da rolla significa a vóz do Espirito Santo annunciando a Redempção promettida a Abraham, pae de todos os crentes: eis suas proprias palavras:—_Vox spiritus sancti et redemptiones quam dixi Abrahæ Patri vestro_: «a vóz do Espirito Santo e da Redempção, que prometti a Abraham, vosso Pae.»
Diz mais, que pela figueira deve entender-se a Igreja, e que pelos figos novos se representa a confissão da fé, que devem os crentes fazer diante de Deos, e finalmente que pelas vinhas em flor exhalando bom cheiro são indicados os meninos louvando o Senhor dos seculos: _Cœtus Israel, qui comparatus est precocibus ficubus aperuit os suum, et etiam pueri et infantes laudaverunt Dominatorem sæculi_: em nosso tempo vimos isto realisado em Maranhão, e suas circumvisinhanças, onde depois que á vóz do Espirito Santo, por meio da prédica do Evangelho, se fez ouvir n’estas terras, e tocou o coração de muitos, especialmente dos que solicitaram o baptismo, a bella figueira da Igreja produzio novos figos, que são as almas sahidas de infidelidade para a crença do verdadeiro Deos, e então as vinhas em florescencia exhalaram seo cheiro quando em suas cabeças receberam os meninos as agoas do baptismo, louvando o Senhor dos Seculos pela parte que ja tomavam do sangue de Jesus Christo e da fé da Igreja.
Coisa admiravel, digna de ser bem pensada e considerada: apenas a vóz do Evangelho trovejou, e fuzilou por essas florestas desertas, por estas sarças, cheias de agudos espinhos, esses pobres bichos (esses selvagens) presos nos laços do cruel caçador Satanaz, começaram animados pela força e impetuosidade d’essa vóz a construir seus pequenos templos, como outr’ora tinha predicto o Propheta Rei David no Psalmo 28. _Vox Domini præparantis Cervos, et revelabit condensa et in templo ejus omnes dicent gloriam_: a vóz do Senhor amançando os viados, descobrirá o interior das brenhas e das sarças e no seo Templo todos entoarão louvores á elle.
Explicam os doutos, em varias licções, estas palavras dizendo que á voz do Senhor parem os bichos seos filhos, á similhança da mão da parteira ou do cirurgião habil, que serve para tirar do ventre da mulher o menino sam e salvo.
Esta voz não é outra, a darmos credito aos naturalistas, senão o ribombo do trovão, e a luz do relampago, que por um segredo muito intimo da naturesa faz com que param as femeas dos animaes ferozes.
O mesmo produz a prédica do Evangelho, animada e vivificada pelo Espirito Santo, excitando o coração d’estes barbaros, ha muito tempo internados nas sarças e brenhas da ignorancia, da infidelidade, e dos maos costumes.