Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 17
Julguei perder o olho, e assim estive por muitos dias, ao depois fiquei bom.
Procream ainda de outra forma. Fazem um pequeno pucaro de barro, arredondado, similhante aos feitos pelas aranhas, como ja disse, deitam dentro suas sementes, que se transformam em vermes vermelhos, iguaes aos que se encontram nas ameixas das damas: adquire depois azas, e fica vespa.
Não tem os selvagens cantharidas em seo paiz, porem fazem muito apreço d’ellas e dão muitos generos para possuil-as. Trazem-nas os francezes, porque anteriormente já tinham ensinado aos selvagens as propriedades d’ellas, o que não se deve escrever: prova isto que os homens viciosos mais depressa gastariam esta nação do que ella o é por natureza.
Ha tambem insectos e vermes roedores mui subtis e engenhosos, com uma capa bonita e inteira, porem passando uma escova por cima, desapparece até o pello e fica só a urdidura.
O mesmo acontece aos vermes roedores dos bosques, que fazem grande sussurro.
Deos porem fez passaros que vae tirando das arvores taes vermes.
CAPITULO XLVI
Das onças e dos macacos do Brazil.
A onça é o animal mais furioso do Brazil e é do tamanho dos galgos da Europa.
No rosto parece-se muito com o gato, tem bigodes horrivelmente dispostos, vista perspicaz e aterradora, pelle como a de lobo, manchada de negro á maneira da do leopardo, garras muito compridas, patas como de gato, cauda grande e maior que todo o corpo diminuindo pouco a pouco até a ponta, e com ella brinca n’um areial voltando-se para apanhal-a, e correndo para o mesmo fim, como fazem os gatinhos no meio de uma salla, divertindo-se cada um com o rabinho.
Ama a solidão, aborrece a sociedade, habita só nos bosques, e somente é acompanhada por occasião da sua juncção, o que feito retira-se a femea.
Nada receia, nada teme: pára vendo dirigir-vos á ella, ou fica no fim da estrada, por onde tendes de passar, de forma que ou voltareis, ou então combatereis porque não cede.
É melhor a retirada ainda que com algum vexame, do que por orgulho arriscar sua vida em luta com tal animal.
O Rvd. padre Arsenio assim o fez, vindo da aldeia da _Mayoba_ para a nossa casa de S. Francisco, quando encontrou, ao meio dia, na estrada uma onça que veio esperal-o. Regressou para a aldeia, e assim evitou perigo tão proximo.
Não buscam os homens, e é raro encontral-as, e quando isto se dá o perigo é certo.
Não se atiram, e nem correm logo atraz das pessoas que vêem, antes dão-lhe tempo bastante para fugir, e apenas agarram um ou outro menino, porem raras vezes.
Tem muito medo de fogo a ponto de não se approximarem d’elle, e por isso evitam-nas os indios accendendo fogueiras em suas casas, sempre abertas quer de dia quer de noite.
Fazem guerra desabrida aos cães e macacos, vindo agarrar aquelles até junto ás aldeias, sem causarem o menor mal aos selvagens deitados em suas redes, e quando vão estes á caça, acompanhados por muitos cães, são estes devorados e comidos pelas onças, que fingem correr diante d’elles, e quando se acham longe de seos senhores, saltam sobre elles e facilmente os estrangulam.
Poucos escapam de suas garras para trazer noticias a seos senhores, que não os ouvindo ladrar, acreditam que as onças os comeram.
Não vão mais alem, e regressam mais depressa a casa onde suas mulheres e filhos choram a morte do cão, que elles levaram á caça com intenção de divertirem-se.
Si é perigoso atacar um soldado furioso, e victorioso de seos inimigos, ainda muito mais o é apresentando-se em tal occasião á vista das onças.
Caçam os macacos desta sorte: batem em circumferencia o bosque, onde se abrigam os macacos, encurralam-nos n’um ponto, onde se agrupam: então trepam as onças em varias arvores, e d’ali se atiram sobre os ramos e hastes de outras onde estão os macacos, e assim os apanham.
Empregam tambem outro ardil. Occultam-se debaixo de folhas n’um lugar, onde ellas sabem, que os macacos vem beber, ou quando estão pescando mariscos e carangueijos, então d’um só pulo agarram os que podem.
Fazem ainda mais.
Quando vêem ou ouvem que os macacos estão reunidos em qualquer lugar, vão surrateiramente arrastando a barriga pelo chão, como fazem os gatos quando querem agarrar algum ratinho, e depois estendem-se e fingem-se mortas.
Chega um macaco, pára, chama outros, que chegam logo, descem o mais que podem, sempre desconfiados, para verem e examinarem se na verdade está morto o inimigo: rangem uns os dentes, e outros como que fazem uma especie de discurso de congratulação por tal fim: eis senão quando resuscita o fingido morto, mais depressa do que elles sobe ao cimo da arvore, onde transforma a vida d’elles em morte, não simulada e sim real.
A onça só pare uma vez, e um só filho, como a leôa, e eis a razão de haverem poucas no Brasil. A onçasinha rasga o utero de sua mãe, que o nutre mui curiosamente até que fique em estado de cuidar por si de sua alimentação. Apesar de tal ruptura, unem-se em tempo proprio, porem não ha fructos d’esta união.
As onças são errantes, caminham por diversos logares, atravessam braços de mar, e quando falta-lhes pasto em terra, vão ao mar pescar carangueijos e outros iguaes bixos do mar.
Existem tambem onças marinhas, como ja disse quando fallei do Meary, tendo a parte anterior igual a da terra, e a posterior similhante a cauda de um peixe.
São tão furiosas, como as terrestres, e saltam da agua contra seos inimigos.
Machos e femeas veem-se livres dos filhos que trazem no ventre, á maneira das baleias, dos golfinhos e de outros peixes do mar.
Em Maranhão e seos contornos ha muita variedade de macacos:[78] uns grandes, fortes, barbados, e de sexo bem distincto, especie perigosa, e que nas mattas muito bem se defendem das invasões dos selvagens.
Contou-me um interprete que n’um certo dia um selvagem com uma flecha ferio a espadua de um destes macacos, e que elle tirou a flecha, arremeçou-a contra o selvagem e o ferio gravemente.
Atiram-se sobre as raparigas e mulheres, e forçam-nas si não são mais fortes do que elle.
Ha outros barbados, mais pequenos, que trazem mamas nos seios, e sexo bem visivel em lugar proprio.
São muito bem tratados pelos francezes: os selvagens os agarram atirando um projectil qualquer sobre elles, que cahem atordoados, e são assim amarrados.
Os triviaes são quasi que similhantes em sexo, e nem merecem descripção alguma.
Em geral os monos são agradaveis á vista.
Caminham um atraz do outro, e com tal cadencia no passo, que os que vem atraz assentam os pés e as mãos, onde assentaram os que foram adiante.
Fazem assim uma corda de duzentos á tresentos, e diria ainda mais, si não receiasse causar admiração ao leitor.
Achei-me muitas vezes nas mattas, onde elles habitavam e dir-vos-hei, sem precisar o numero, que vi grande quantidade d’elles na fórma ja dita.
Cousa agradavel o mais que se pode imaginar.
Arremeçam-se estes animaes de uma arvore a outra, de um ramo a outro, como faria um passaro bem voador, e o fazem com tal prestesa, que mal se vê.
Si vos descobrem debaixo de alguma arvore, fazem incrivel matinada, e depois de vos fazerem muitas caretas e de dizer-vos mil injurias em sua linguagem, embrenham-se pelos mattos.
Nunca deixam em hora certa,[79] á tarde ou noite, de ir beber agoa, mas sabeis com que subtileza?
Pára o grosso do exercito na distancia de 300 passos da fonte, manda espias para examinar a fonte e suas circumvisinhanças, espreitam si nada ha que os assuste, examinam com cuidado si ha embuscada de algum inimigo, e apenas o descobrem gritam com voz forte e correm a reunir-se ao exercito.
Voltam depois de algum tempo e praticam o mesmo.
No caso de segurança gritam e ganem para vir o exercito, e chegado este ainda usa de outra velhacaria.
Bebem todos um a um: á medida, que um bebe, passa alem e trepa n’uma arvore, e assim até o ultimo: assim bebem, passam para outro lado, por onde não vieram e ahi acabam a fieira.
Deixam a fonte e vão em tumulto procurar seos amores, e n’isto ha ordinariamente grandes gritarias, gemidos, mordiduras e arranhamentos, porque querem os mais fortes escolher as damas e serem servidos em primeiro lugar.
Nada digo sem experiencia e tudo isto presenciei todas as tardes na nossa fonte de S. Francisco.
Vão pescar sempre em companhia, carregando ás macacas ás costas seos filhos.
Pescam carangueijos e mariscos.
Antes de agarrarem os carangueijos, quebram-lhe as tezoiras para livrarem-se das mordidellas, depois quebram-nos com os dentes, e, se estão rijos, com pedras, e o mesmo fazem com os mariscos.
Cuidam muito as mães no sustento dos filhos, antes de poderem elles por si buscal-o; tiram o marisco e o carangueijo da concha, limpam-no muito bem, e offerecem ao filho nas costas, e estes o agarram e comem.
Nunca vão para longe das arvores: é o seo refugio apenas ouvem algum motim, ou vêem alguem, e por isso para as suas pescarias escolhem lugares proximos á arvores altas e copadas.
Si veêm passar uma canoa de selvagens, muito longe d’elles, saudam-nos rindo a seu modo, si se aproxima a canoa, fogem, e ninguem os pilha.
CAPITULO XLVII
Das aguias, dos passaros grandes e dos passarinhos d’aquelle paiz.
Na Ilha ordinariamente não se vêem aguias, porem ha muitas na terra firme, proxima a Maranhão.
Não são verdadeiramente tão grandes como a do velho mundo, porem são mais furiosas, atrevidas, e valentes, que accommettem os homens, e não fazem seos ninhos, sobre rochedos, como diz Job, _Aquilla in petris manet_ «a aguia mora nos rochedos» porem entre as arvores.
Vou contar-vos á este respeito o que ouvi em Maranhão sobre duas aguias extraordinariamente ferozes, que vieram aninhar-se nos mangues _d’Uy-rapiran_, aldeiazinha na costa, distante legoa e meia do Forte de S. Luiz.
Mostraram-me o lugar, onde ellas viviam, n’um dia, em que passeiando pelo mar fui visitar um francez, morador n’essa aldeia.
Tinham essas aguias cortado ramos mais grossos do que uma côxa de homem, e tinham feito tão boas acommodações, que melhores não fariam doze homens.
Ahi tinham depositado seos ovos com seos filhinhos, e ninguem se atrevia a passar por perto.
Vão caçar cabritos-montezes, matam-nos, espedaçam-nos com unhas e bicos, e depois trazem alguns boccados a seos filhos.
Pescam da mesma fórma arremeçando-se sobre os golphinhos, pirapamas, e trombudos, e tiram-no do mar com suas garras, deitam-nos em terra, dividem-nos em pedaços, que levam a seos filhos.
Vão ainda mais longe: mataram um homem e uma mulher _Tupinambás_, o que lhes causou a sua morte e a do seos filhos, porque si lhes armou uma cilada tão bem arranjada, que conseguio-se matar o macho, e a femea achando-se viuva retirou-se para a terra firme abandonando seos filhinhos, que foram passados pelas armas dos _Tupinambás_ em vingança do crime commettido na pessoa dos dois, que elles mataram, e destruio-se-lhes o ninho.
A femea é maior que o macho, ambos de côr parda, olhar vivo e feroz, poupa forte e irriçada no cume da cabeça, pennas grossas no canudo e grandes como a de um gallo da India: servem-se d’ellas os _Tupinambás_ para emplumar suas flexas.
Nota-se n’estas pennas uma coisa particular e especial: si os selvagens as misturam com outras pennas, como sejam de araras, e de outros passaros grandes, são estas roidas e comidas por aquellas, pelo que são guardadas a parte, e com outras não as deitam em suas flexas.
Por maiores, que sejam os outros passaros, é a Aguia o Senhor e o Rei não por igualdade de forças, mas por subtileza e ligeireza de vôo, subindo muito alto quando quer perseguir os passaros grandes, e descendo mui rasteiramente quando elles tambem descem, e quebram-lhes a cabeça com o bico.
Ficam assustados todos os passaros quando ouvem o seo grito, calam-se e occultam-se entre folhas.
Caçam principalmente os gaviões, parecidos com as pombas brancas, que vivem nas praias, saltando de ramo em ramo, esperando a vinda de passarinhos para assaltal-os e agarral-os. Ahi vão as aguias caçal-os, e despedaçal-os n’um momento.
Nutrem-se tambem de tartarugas do mar e de terra, e não poupam a alguma serpente ou cobra que por ventura encontrem.
Raras vezes podem os selvagens pilhal-as de geito para flechal-as.
Trepam-se no cume das arvores, onde expandem as azas aos raios do sol, tirando com seo bico as pennas velhas, que por esse estado ja não servem: ahi vão os selvagens buscar estas pennas para seo uso.
Assimelham-se muito na fórma e côr ás pennas dos gallos da India, e são muito boas para escrever.
Alem d’estas aguias ha passaros grandes chamados _uira uaçú_, quasi do tamanho dos abestruses da Africa,[80] mais compridos, porem não tão grossos.
Os grous de lá parecem-se com os pardaes. Si algum foi para a França, levado por nossos companheiros, saibam que ha outros ainda mais grossos.
Agarram-nos os selvagens quando pequenos, e para isso procuram a occasião em que os paes vão caçar.
São brancos quando pequenos, mechem-se pouco a pouco, e vão mudando até que alcance suas pennas e cor verdadeiras.
São muito glutões, e parece que não se fartam, porem quando comem é por muitos dias.
Si os macacos pudessem persuadir os selvagens a extinguir essa raça, o fariam indubitavelmente, porque perdem milhões dos seos para sustento d’ellas.
Os _Tupinambás_, que criam estes passaros, conhecem que a melhor carne, que se lhes pode dar, é a de macacos, e para isto vão ao matto caçal-os e matal-os.
Ha outras especies de passaros grandes, porem que não se comparam com estes, e são as _araras_, os _canindés_, e outros, os quaes são agarrados pelos indios por maneira astuciosa.
Vão ao matto, escolhem as arvores, onde costumam estes passaros passar a noite, e onde se recolhem depois de comer: fazem debaixo d’essas arvores uma casinha redonda, com capacidade para conter tres homens, e coberta de palhas: ahi se recolhem e esperam a vinda dos passaros, que como não desconfiam, aproximam-se muito, e então os selvagens lhes atiram qualquer projectil, que os atordoa sem matal-os, cahem em terra onde são facilmente agarrados e prendem, e com o correr do tempo de tal maneira se domesticam, que embora os soltem, não deixam a casa do seo dono: introduzem-se pelos quartos, fazem grande matinada, com voz similhante a do côrvo, aprendem a fallar como os papagaios, e dão suas pennas á seos hospedes para com ellas se adornarem e enfeitarem.[81]
Os habitantes do rio depennam seos gansos para encher colchões, e os indios tiram as pennas d’estes passaros para fazer seos enfeites e adornos.
Ha muitas e diversas qualidades de garças, umas maiores, e outras mais pequenas.
Fazem seos ninhos nos mangues á beira do mar, vivem de peixe, e trazem alguns inteiros a seos filhos que principiam a comel-os desde os seos primeiros dias.
Admirei-me de ter sido encontrado um peixe grande, do tamanho de um arenque, no ventre de uma garça, pouca implumada.
Os selvagens vão tirar dos ninhos as garçasinhas, armados de bons cacetes para se defenderem dos paes e mães, que em tal caso não deixam de acudir aos que nutrem tão terna e cuidadosamente afim de estenderem a especie.
Similhantes as garças ha outros passaros chamados _forquilhas_ pelos francezes e portuguezes, porque teem a cauda fendida quando vôãm: fazem seos ninhos nos mangues, em lugar recondito, e pouco frequentado dos homens o quanto é possivel: ahi põem, e deixam seos filhos, vão para o mar, e ahi ficam por todo o dia enchendo de peixe uma grande bolsa, que trasem debaixo da goela, e que depois levam a seos filhos: quando está vasia esta bolsa, enche-se de vento que os alivia e sustenta no meio do ar, quando passam muitos dias e noites sem ir a terra, e atiram-se pelo mar em distancia de 50 a 60 legoas procurando alimentos.
Tem a vista extraordinariamente apurada a ponto de verem do mais alto lugar, a que sobem, o peixe que náda no mar, e sobre elle cahem e agarram-no. Tem uma propriedade muito boa e é que perseguem os peixes, que andam atraz dos pequenos para devoral-os.
Aproximam-se d’agoa, e como querem participar da presa, perseguem-nos o quanto podem.
Alem destes passaros grandes ha milhares de passarinhos, entre os quaes merecem especial menção os seguintes.
As andorinhas do mar em tão grande quantidade, que cobrem as praias nas vasantes: são boas para se comer, e á vontade matareis muitas com uma arma, carregada de chumbo miudo, e sentado n’uma canoa.
Ha outra qualidade de passaros, que admiram muito a ponto de não se acreditar, e comtudo é verdade, por mim experimentada, os quaes tem por bico duas facas, embutidas em seos cabos, e aos quaes dão o nome de _navalhas_: o bico não lhes serve para buscar alimento, e por isso dizem que elles só vivem de vento, porque essas facas cortantes não lhes servem senão de passatempo quando passeiam pelas praias, e encontram outros passaros, que são por elles cortados pelo meio.
No dia, em que parti do Maranhão, um mancebo pertencente ao Sr. de Sam Vicente, que me acompanhou em toda a minha viagem, matou um, cujo bico guardei e trouxe para a França.
Ha melros como os de França, iguaes na plumagem e no canto, que espandem suas pennas á vontade no fim das chuvas, quando vem o bom tempo visitar os habitantes da zona tórrida: no fim do bom tempo e principio das chuvas soltam um canto triste, como que chorando o passado, e prevendo as tempestades do inverno, si tal nome merece.
Ha muitos passarinhos de bellesa incrivel: uns pardos, outros cor de violeta, azulados, amarellos e mesclados: fazem os selvagens penachos de suas pennas, que são muito caras por ser difficil matal-os, porque presentindo o inimigo, que os busca, trepam-se no cume das arvores mais altas, nas pontas dos ramos, fazem seos ninhos os quaes amarram com uma embira muito forte, e na outra extremidade que cahe no sollo, fabricam uma especie de pote de terra, no qual criam seos filhos entrando por um só buraco, proporcional á sua grossura.
Trouxe para França esses passarinhos, que aqui causaram muita admiração.
Possue o Maranhão um genero de passarinhos, que não excede no corpo á extremidade do pollegar, e acrescento com todas as suas pennas, e tem canto melodioso, que faz lembrar o das andorinhas, que imitam quando querem cantar: levantam o bico, e soltam o canto o mais alto, que podem, e o sustentam em quanto o permittem suas azas.
Fazem suas casas junto ás fontes, onde muitas vezes vão banhar suas azinhas para mais facilmente voarem alto. Ahi perto fazem seos ninhos, e imaginae o tamanho dos ovos, que chegam de 5 a 7: seos filhinhos ainda são de mais admiravel pequenez.
São tão fecundos, que os meninos enchem cabaças de ovos d’elles.
Ha de diversas cores, amarellos, violetas, pardos, etc.
CAPITULO XLVIII
Resposta a muitas perguntas, que fazem n’aquelle paiz á respeito das Indias Occidentaes.
Para perfeição d’este primeiro tratado, julguei acertado responder á todas ás perguntas, que se fazem n’esse paiz.
1.ª Si esta terra de equinoccio pode ser habitada por francezes delicados, naturaes de um paiz temperado, criados com cuidado e bons alimentos, pois não parece poderem se accommodar n’um paiz agreste, selvagem, cheio de mattas, entre barbaros, e debaixo da zona tórrida e ardente.
Respondo, que na verdade todos os principios são difficeis, porem pouco a pouco apparece a facilidade.
Não ha no mundo villa ou aldeia, que não cause susto e encommodo no principio, porem depois de alguns annos tudo vae bem, e os nossos padres ja ahi deixaram o fructo de suas fadigas.
Não eram mui delicados os cidadãos romanos? E comtudo não deixaram Roma e Italia para plantarem suas colonias nas florestas gaulezas e allemans?
O portuguez não é, como nós os francezes, na Europa sugeito a todas as molestias, trabalhos e fadigas? Sim! porem é neste ponto mais soffredor do que nós, pois bem sabe ser necessario primeiro lavrar para depois colher: comtudo estabelece-se muito bem no Brasil, faz grandes negocios, sendo a terra bem preparada e cultivada. Havendo dinheiro ha ahi de tudo, como em Lisboa. Eu vos lembro, que se a paciencia dos homens tem tornado, dentro de oito mezes, boas e ferteis as terras crestadas pelo gelo ou congeladas, uma terra, o coração do mundo, não será habitavel pelos francezes? É até loucura pensar n’isto, e portanto concluo, que esta terra é apropriada á naturesa dos francezes como é a França, si for bem cultivada e provida de viveres necessarios e acommodados ao gosto francez, como sejam pão e vinho: quanto á carne, peixe, legumes e raises, ha de tudo isto incrivel abundancia, tendo apenas o trabalho de colher e plantar os vegetaes.
Enganar-se-hia porem quem pensasse, que as arvores produzissem patinhos assados, as corças, quartos de carneiro, recentemente tirados do espeto, e o ar andorinhas bem cozidas, de fórma que não havia mais trabalho do que abrir a bocca e comer.
Com tal fantasia, não lhe aconselho, que lá vá, porque arrepender-se-hia.
É pois esta terra habitavel pelos francezes, e si ahi não tiverem commodidades, arrepender-se-hão, porem tarde.
2.ª Eis o que disse, e basta[82] a terra é habitavel, e pode ahi morar-se com algum encommodo durante alguns annos. Mas será saudavel para os francezes? Os indios ahi são sadios, e vivem longo tempo, embora selvagens e barbaros, nascidos n’este clima, e acostumados á tal temperatura. Não tem os francezes tal privilegio, pois são sujeitos á muitas febres, que se terminam em paralysia e outros encommodos. Respondo a isto, que julgamos das substancias pelos accidentes, e das terras pelos encommodos e enfermidades.
Comparemos agora a menor aldeia de França com a Colonia Francesa n’estas terras, e no espaço de um anno achamos haver na aldeia dez vezes mais doentes do que em dois no Maranhão.
Si algumas pessoas se dão mal, não é novidade pois em toda a parte está a morte: assim são as molestias.
D’estes males não estão isentos Reis e Principes em paizes os mais agradaveis e salubres, que se possa imaginar.
Em dois annos, que lá estive, apenas houve uma morte a do Rvd. padre Ambrosio:[83] fallo da morte natural, porque os devorados pelos peixes, a culpa foi d’elles por se lançarem ao mar.
Morreu o Rvd. padre de uma paralysia, porque estando muito atado a derrubar arvores grandes, e tendo o suor molhado seo habito, foi assim mesmo celebrar missa, e apenas sahio da igreja foi acommettido por uma febre, de que falleceo poucos dias depois.
Digo isto com certesa, porque o assisti até o fim, achando-se fóra em serviço de Deos os outros dois padres.
Á vista d’isto Maranhão e Paris pleiteam entre si.
Diz Paris—«és má terra, porque mataste um padre capuchinho que te mandei.»
Responde Maranhão «por um perdi quatro dos meos.»
«Tendes rasão para censurar-me?» Assim o deveria ser, si os meus fossem tratados como principes, e o pobre capuchinho apenas tivesse farinha, ou pouco mais.
«Concordemos pois, que o clima é sam e salubre, e que desperta muito o apetite, e si houvessem muitas gulodices como em França, para ahi iriam as pressas muitas moças francezas.»
3.ª Dizem vae tudo muito bem, porem não ha vinho, e nem trigo, principaes alimentos, indispensaveis nos melhores banquetes para as carnes mais delicadas.
Respondo, que ha milho em grande abundancia, de que se pode fazer pão, como nós o faziamos, e o achavamos muito agradavel ao gosto, embora gostassemos mais da farinha do paiz, especialmente quando fresca, porque não é pesada ao estomago.
Este pão de milho serve d’alimento em muitas terras do velho mundo,[84] e especialmente na Turquia, onde é chamado trigo da Turquia.
Não se perdeo ainda a esperança, que a terra firme do Brasil, forte e gorda, não possa produzir trigo, com que se fabrique o pão como na França.
Os habitantes de Pernambuco ja o fizeram; não estão longe de nós, porem em terras peiores.
Quanto a terra firme do Maranhão, melhor seria si o rei de Hespanha não prohibisse nas Indias Orientaes e Occidentaes plantação de trigo e de vinhas para tel-as sempre dependentes de seo soccorro, e de tudo quanto cresce nos seos Reinos de Hespanha e Portugal.