Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 16
Ha outros vermes, que não sahem das arvores, deitados sobre folhas, expostos ao sol: dizem os selvagens que são venenosos, e por isso os deixam: não se assustam com a vossa presença, si não os perseguirdes.
Parecem-se com os camaleões, de que ainda fallarei, tem brilho nos olhos, e a côr de escarlate.
Costumam estes lagartos domesticos á juntarem-se e unirem-se em forma de bolla, de tal maneira que a cauda do macho toca a cabeça da femea, e reciprocamente, e assim todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as duas caudas.
Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não sabia o que seria, e nem si era alguma especie de serpente, com quatro olhos, e um só corpo enrolado.
Os lagartos femeas são mais grossos do que os machos.
Os pequenos lagartos poem ovos, de cinco até sete cada um do tamanho da cabeça do dedo minimo, n’um buraco, que cobrem de areia, fazendo o resto o calôr do sol.
Os lagartos grandes põem ovos maiores, á proporção do seo corpo, e ordinariamente fazem ninhos nos tectos das casas, nos bosques, e para ahi levam tudo o que acham ser molle, como sejam musgos, pennas, algodão, farrapos, e frequentam muito a casa si não lhes fazem mal.
Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e conduzem na bocca o que acham, e é um prazer vel-os em tal lida.
Não fazem caminho direito quando construem seo ninho, e antes usam de muitos rodeios para não serem descobertos.
O sol chóca e faz abrir seos ovos, porque são muito frios e não tem calor proprio para isso.
São caçados por cobras grandes e horriveis, umas brancas como agoa, outras de côr de violeta, e finalmente algumas manchadas de diversas côres.
Invadem até as casas para nos tectos caçarem estes lagartos, que apenas as presentem ao longe, fogem como se a casa tivesse pegado fogo.
Mandei matar tres cobras d’estas n’um domingo, quando eu e meos companheiros fomos dizer missa na capella de S. Francisco, onde as achamos perseguindo os lagartos grandes, dos quaes já tinham matado muitos.
Pagaram tal temeridade levando cada uma mais de cincoenta cacetadas, e ainda se salvariam, si eu não as mandasse cortar em pedaços, que viveram e remecheram-se por mais de 24 horas procurando reunirem-se o que não conseguiram por estarem distantes umas das outras, talvez por quatro ou cinco passos.
Os selvagens tem muito horror d’estes lagartos, e dizem ser venenosos.
Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica negra, e por isso mesmo é fragil como vidro, e quebra-se por qualquer causa.
Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles.
Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que estava na nossa casa de S. Francisco, onde se conservou por dois annos sem cauda, vindo diariamente comer em nossa presença, com as galinhas com que se familiarisou.
Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que ha uma especie de lagartos grandes que apanham os frangos, e levam-nos para o matto, onde vão comel-os.
CAPITULO XLIV
Das aranhas, cigarras e mosquitos.
A vida do homem é comparada com a da aranha em muitos lugares da Escriptura Santa, especialmente no Psal. 89. _Anni nostri sicut Aranea meditabuntur_ «nossos annos se passaram, serão contados e meditados como os da Aranha.»
Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento do ar, n’elle nutrido, d’onde se deriva a etymologia do seo nome, nunca descança, sempre trabalha, de si tira com que formar sua teia, sempre em perigo por se achar ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê do menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou de uma camareira, que com um espanador destrua todo o trabalho.
Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças e miserias d’esta vida?
Não perderei tempo referindo o que se sabe acerca da naturesa d’este verme, e apenas contarei o que achei de curioso e especial nas formigas do Maranhão, e antes de entrar na materia fallarei d’uma especie do tamanho de um punho de braço, e as vezes até maior.
Encontram-se ordinariamente no tronco das arvores, proximas ás casas, nas estacas, nos cantos, caminham pouco, não tem teias, muito venenosas, vermelhas quasi da côr de borrachos quando sahem do ovo, coisa horrivel e feia!
Fogem d’ellas os Indios, e julgam mortifera a sua picada. Nutrem-se da corrupção do ar.
Existem outras de diversas especies, maiores e menores, e todas domesticadas, e nos mattos encontram-se grandes, menores, e pequenas.
Em todo o tempo produzem e especialmente no inverno.
Com a frescura da noite juntam-se: deixa o macho a sua teia para se unir com o seo fio á teia da femea, si ella está collocada em lugar mais baixo: si porem a teia da femea é superior á do macho desce ella, vem procural-o, e assim si juntam.
É muito facil de vêr-se, pois o praticam todos os dias, no fim da tarde.
O macho é pequeno, e a femea é tres vezes maior do que elle.
Fazem uma pequena bolça, redonda e chata, muito bem feita e tecida, parecendo-se com setim branco e a similhança de um breve de _Agnus Dei_.
N’ella deixam apenas um buraquinho, por onde com o pé introduzem os ovos.
Quando está fechada a bolça tapam o buraquinho, e carregam-na junto ao ventre e estomago, aquecendo-a por esta fórma, e quando presentem estar os filhos em estado de sahir, rasgam a bolça ao redor, como se faz com a casca da fava, sahem logo, correm pela teia da mãe, e a noite agasalham-se debaixo da mãe, como fazem os pintos com as gallinhas afim de resguardarem-se do frio da noite.
Quando tem forças, cada uma faz a sua teia, e por sua industria cuida de si.
Ha outras, que fazem pequenos pucaros de barro, do tamanho e feitio de uma ameixa de dama, tão bem feitos, quanto é possivel, por dentro e por fóra, o que tambem fazem certas especies de moscas, de que ainda fallarei.
São as boccas d’estes potes proporcionaes aos seos tamanhos, com um buraco tão pequeno, em que cabe apenas um alfinete, por onde sahem os ovos para serem aquecidos pelo Sol.
Este pucaro costuma estar junto a uma arvore, ou n’uma folha de palmeira, e a terra de que é feito, muito se parece com a de _Beauvais_.
Enchem o pucaro de ovos, tapam no, e quando as mães julgam ja terem os filhos sahido da casca, destapam o buraco, e então sahem as aranhasinhas e acompanham-nas.
As aranhas dos mattos procedem de outro modo: roem as amendoas das nozes das palmeiras espinhosas, pouco a pouco e deitam fora tudo por meio de tres buracos naturaes, que tem estes fructos: depois ahi dentro fazem seus ninhos e depositam seos ovos.
São differentes as teias destas aranhas quanto a sua posição por ellas escolhidas.
As domesticadas armam suas teias nas rachas e entradas dos buracos, afim de agarrarem moscas e mosquitos.
Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, e de um arbusto a outro para agarrarem borboletas e outros bichinhos iguaes: outras tecem as teias por cima da terra para pilharem vermes, como sejam formigas e outros iguaes.
Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, e então descem as aranhas, matam-nas por meio de um aguilhão, que tem em si, e depois chupam-lhe os miolos e o sangue, e só quando se fartam, é que as deixam.
Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem maiores.[73] Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se de peixinhos.
Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes as que mandei cortar em pedaços, e asseveram os selvagens, que se morderem a cabeça d’algum individuo, ficará louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem muitas cigarras,[74] que fazem em tempo proprio um barulho infernal, como eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, tamanhos e cantos.
São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, e voz forte e alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. Não cantam no inverno, e sim no estio, e quando se aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de estalarem pelos lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar mais harmonia á voz.
Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, que conservei entre folhas na nossa casa.
Reconheci ser seo canto devido a tres coisas.
1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem para estenderem bem os lados, e ficarem sonoras. Ha grande accordo entre a extensão dos lados, e as azas, por meio das quaes forma-se o som, que claramente se vê tomarem ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem e dilatam os flancos.
2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias para formar o som por serem muito seccas.
3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e batendo as azas do meio contra os lados e com auxilio do ar, forma o som.
Vou fazer-vos comprehender isto por meio de comparações vulgares.
N’uma cithara ha tres coisas para produzir harmonia—as costas onde fica o ar, que entra pela rosa do meio, as cordas tesas, limpas, seccas e bem collocadas, e a mão do tocador: assim tem estes animaesinhos as costas e as ilhargas cheias de ar, que entrou pela bocca, as segundas azas são as cordas, e as grossas a mão do tocador.
Cantam no estio desde o nascer do sol até meia noite ou duas horas depois, e se callam por causa do orvalho, que começa a cahir com frio, e assim ficam até que appareça o sol e com seos raios extinga as gottas de orvalho, que cahiram nas folhas, e então vem ellas aquecer suas azas.
Em quanto guardam silencio, é minha opinião, que ellas se nutrem com o mesmo orvalho, e não digo isto sem causa pois quasi sempre ficam no mesmo logar, e quando sentem algum movimento voam para outra folha.
Algumas d’ellas, especialmente as todas verdes, não tem voz, arrastam-se pela terra como os gafanhotos, juntam-se como as moscas, põem em setembro ovinhos negros nos buracos dos ramos das arvores, nos quaes se formam os vermes, ao depois cigarras: vão pouco a pouco se fortificando afim de passarem a estação invernosa, e substituirem seos paes e mães que n’esse tempo morrem arrebentados á força de gritar como ja disse.
Não tem sangue, ou tem muito menos que as moscas, porem são organisadas de uma substancia porosa, secca, e ligeira.
Matam-nas as gallinhas, porem não as comem, e quando por acaso o fazem, enfraquecem e emmagrecem.
Ha n’este paiz diversas especies de mosquitos, porem apenas tratarei dos que o merecerem pelos seos principios naturaes, e são os chamados _Maringoins_ pelos selvagens: ha de diversos tamanhos e grossura, e todos tem a mesma forma.
Originam-se de um humor acre, gostam dos sabores picantes e acidos, e por isso encontram-se muito no mar e suas praias no tempo do inverno, formados pelo humor e vapores do mar.
Incommodam muito os homens picando-lhes a pelle com seo bico ponteagudo como uma agulha, e sugando assim o humor salgado, que corre entre a pelle e a carne.
Gostam da luz porem aborrecem a chama e a fumaça, e por isso quando anoitece, as que andam por fóra, poisam nas folhas das arvores, e os que estão dentro de casa nos tectos, bem a seu pesar, por causa das fogueiras, que acendem os selvagens ao redor de si, para se livrarem d’elles.
Nos lugares mais proximos a agoa, maior abundancia d’elles existe, visto serem creados por agoas, como ja disse.
São caçados pelos morcegos, que, buscando-os nos lugares onde se fixam, involvem-nos com suas azas e depois os comem.
São por elles muitissimo perseguidos os nossos francezes, quando vão á pesca do peixe-boi, e para evital-os armam suas redes no ramo das arvores, o mais alto que podem, por ahi soprarem mais o ar e o vento: si se partissem as cordas dariam bello salto, e não deixam de emballançar-se para afugental-os.
CAPITULO XLV
Dos grillos, dos camaleões e das moscas.
De todos os animaes, que fazem companhia ao homem, no Brasil, nenhum ha que iguale ao grillo, chamado pelos selvagens _Cuju_[75]; e por ser tão familiar e domestico pude á vontade satisfazer minha curiosidade estudando este animalsinho.
Nasce da corrupção.
Quando se faz uma casa coberta de palma fresca, apparecem n’um momento milhões e milhares d’estes grillos ou _Cujus_. Virão dos bosques visinhos? não pode ser; porque nas casas cobertas de palma velha não são encontrados, logo força é confessar, que formam-se na palma nova com o auxilio do sol.
Notei que dois ou tres dias depois de coberta a casa, os grillos são brancos como neve, signal de nova geração, pouco a pouco tomam a sua cor ordinaria, amarello-negro.
Alem d’isto originam-se tambem de ervilhas, e favas podres o que conheci por experiencia.
Quanto á producção do pae e da mãe provêm d’uma semente deixada nas folhas de palma: é pegajosa e fica onde se colloca, até que d’ella por meio de calor saia outro grillosinho.
É ardente no seo ajuntamento, e eis porque tanto se multiplicam.
É muito pequeno, porem astucioso, tem horas para comer e para cantar: não deixam de procurar comida quando presentem estarem todos deitados, e então descem do tecto e correm, por assim dizer, os cantos da casa, onde se aproveitam de todas as migalhas e restos de comida, e se encontram restos de carangueijo deixam tudo mais.
Acabada a comida regressam a seos logares, onde cantam e passam o resto da noite, e o dia tambem, se o ardor do sol o não encommodar.
Não gostam de chuvas, e emquanto está chovendo, não cantam.
Gostam portanto do tempo sereno e doce, sem muito calor, e sem muita chuva. Roem muito os pannos, que encontram, e se acharem um capote de cem escudos n’uma noite dão cabo d’elle.
Não tocam em panno de linho á não estar elle engordurado, ou com algum liquido, de que gostem, e por isso para conservar-se alguns vestidos, embrulham-se n’estes pannos.
Tem quatro inimigos capitaes.
1.º Os lagartos, que correm apoz elles, como os cães atraz das lebres.
É um gosto vêr as voltas e vira-voltas que dá a caça e o caçador.
2.º Certos macaquinhos amarellos e verdes a que chamam os selvagens _Sapaius_, vivos e ageis como um passaro; caçam com uma das mãos e na outra guardam os grillos.
3.º São as gallinhas, que os devoram com incrivel avidez, e para isto voam sobre as casas, e não poucas vezes estragam a cobertura d’ellas.
4.º São certas formigas grandes, que atacam-os nos buracos e cavernas, onde se abrigam nas casas: distrahi-me algumas vezes vendo tão singular combate; a formiga desce ao buraco, onde tanto faz, que o _Cuju_ sahe á campo, ou então é puchado pelos pés, e muitas vezes prefere a morte á perder suas pernas posteriores, que leva a formiga.
Outras vezes deixa-se o grillo comer dentro do buraco, de maneira que somente fica a cabeça e as azas, que as formigas carregam como tropheos.
Tem os grillos particular malicia, como experimentei, por que mordem a extremidade dos dedos das pessoas, que dormem, e carregam o bocadinho de pelle que podem tirar.
Achei-me por isso muito encommodado do pollegar, a ponto de não poder escrever por oito dias.
O Camaleão é um animal do tamanho e da grossura de um pequeno lagarto, e á elle similhante no rosto, olhos, e cabeça, tendo nas costas escamas como o crocodillo, e parece ter a pelle coberta de pelle ou limo.
Tem a cauda muito comprida, e de ordinario dobrada em dedalus, diminuindo gradualmente até a ponta.
Raras vezes se vê o macho com a femea, e por isso não me atrevo a contar o modo de sua procreação, porque não pude vel-a, e nem imaginal-a. Contento-me apenas em referir o que vi.
É muito demorado no seo andar, está sempre ao sol, deitado sobre folhas ou ramos, e por isso se pensa que vive só de orvalho.
Batem-lhe as ilhargas constantemente, e muito mais quando receiam alguma coisa, sendo isto motivado pela sua timidez natural, proveniente de muito humor frio, pelo qual torna-se venenoso quando é comido por algum animal.
Nunca se encontra nas arvores fructiferas, prevenção da naturesa para não envenenar com o seo frio excessivo o fructo que tocasse, e por isso é visto nos ramos de arvores, que somente servem para o fogo.
Como o lagarto tem quatro pés, e muda de côr conforme o movimento do corpo, e os batimentos das ilhargas.
São raros em Maranhão, e somente são encontrados em lugares bem expostos ao meio-dia: deitam-se nas folhas, estendem as quatro patas, e descançam a cabeça. Não fazem movimento algum com os olhos, quando estão vendo, e nem abaixam as palpebras superiores: constantemente bate-lhe o papo.
Dizem, que se este animal fosse lançado ao fogo difficilmente arderia, porem envenenaria pela fumaça as pessoas presentes.
Não fiz esta experiencia com o camaleão, e sim com outro animal mui similhante a elle pela friesa.
Mandei lançal-o n’um braseiro, que mandei preparar, e retirando-me para longe, tomei cuidado que ficasse sempre no fogo, movendo-o constantemente, e depois que morreo, vio-se que o fogo não poude obrar contra seo corpo, ficando inteiro e solido, conservando sua figura e pelle: mandei tiral-o do fogo e enterral-o.
Ha muitas especies de moscas, umas da noite, outras do dia.
As moscas da noite são as que buscam o seo sustento durante ella agarrando os bichinhos, que voam, onde encontram: como tem de alimentar-se nas trevas, deo-lhes a Providencia uma luz,[76] que trazem adiante e atraz: a luz dianteira está n’uma placa de forma quadrangular, adherente ao estomago, sendo os dous angulos, que tocam a sua barba, muito estreitos, e esta construida de uma pellicula diaphana, e coberta de um pello mui delicado, com que recebem a humidade da noite, e por este meio produzem um brilho de luz. Percebeis bem isto recordando vos do brilho da pescada á noite, por causa da delicadesa da escama ou da sua pelle humedecida.
Acontece o mesmo com certa especie de madeira podre, ou melhor rarifeita, e tenue, livre de todas as immundicies, e que tem a propriedade de attrahir a humidade.
O mesmo tem elles no chato da barriga, onde se encontra uma pellicula bem lisa, cheia do pello tão fino, de que acima fallei.
Quando voam atravez de uma noite escura, parecem ser grossas faiscas de ardente fornalha de fundir metaes.
Pertencem ao dia as outras moscas; são infinitas e varias e por isso somente me demorarei, tratando das que tiverem alguma coisa digna da consideração do leitor, como sejam as abelhas, e as vespas, e do mais que fallarei.
As abelhas do Maranhão, e de suas circumvisinhanças fabricam suas casas de tres modos: entre os ramos das arvores, como ja disse, quando escrevi sobre o _Meary_, ou no concavo das arvores, isto é, no tronco principal, porque escolhem uma arvore que tenha uma concavidade no tronco, sobem pela frente d’elle, e depois descem até a terra, onde fazem os alicerces dos seos cortiços, e depois fabricam o seo mel, caminhando sempre para cima. Quando não é assim, escolhem lugar apropriado, levantam da terra um cortiço concavo, onde fabricam mel e cera.
É virgem a sua geração, e creio não haver entre elles macho e femea, e assim todos trazem comsigo o germen da futura procreação.
Dir-vos-hei a razão d’este meu modo de pensar, que formei observando com attenção um cortiço de abelhas n’uma grande arvore concava e secca, distante 30 passos de nossa casa de São Francisco, o que ainda me foi facil, pois estas moscas não dão ferroadas,[77] comtanto que não se lhes faça mal, embora se esteja bem perto d’ellas.
Fizeram os selvagens um buraco ao pé d’esta arvore, por onde sahia o mel, e por ahi observei tudo bem a minha vontade, até mesmo as camarasinhas, em que se achavam ellas envolvidas.
Estes casulos eram tapados de todos os lados, embrulhados n’uma tella bem delicada, e por cima está a cera e o mel.
N’algumas camarasinhas d’estas, achei somente algumas gottas de semente, claras como a agoa da rocha, e soube ser a materia de que se organisavam as novas moscas.
N’umas vi o _cháos_, ainda informe, feito e composto desta materia prima, a maneira de uma pasta molle, branca como creme: n’outras vi moscasinhas, perfeitamente formadas, e ja com movimento, porem envolvidas n’uma tella delicada e diaphana, que rasguei com cuidado, e vi n’estas moscas todas as suas partes bem distinctas e conformadas, menos os pés, por serem os ultimos, que se formam, e ja depois, que se movem.
Reconheci ser verdade o que diz S. Isidoro d’estas moscas «_Apes dictæ sunt quia sine pedibus nascutur, nain postmodum accipiunt_:» as _abelhas_, ou antes os _apedes_, são assim chamados porque nascem sem pés, sendo este nome composto por _a_, que quer dizer—_sem_, e _pedes_—_pés_. Assim composta quer dizer—_sem pés_, mas não se usa em francez, e sim emprega-se o nome de _abelhas_.
Sobre o que eu disse á respeito de sua geração virginal, alem da experiencia, que eu tive, de que podem duvidar alguns espiritos, ha uma testemunha irrefragavel, Santo Ambrosio, Doutor que si dedicou ao estudo dos segredos da abelha mais do que nenhum outro antes ou depois d’elle.
Não o fez sem motivo, pois desde o seo berço que estas moscas se alojaram em seos labios, e depois em toda a sua bocca, eis suas palavras: _Apes nuilo concubitu miscentur, nec libidine resolvuntur, nec partus doloribus quatiuntur, sed integritatem corporis virginalem servantes subito maximum filiorum examen emittunt_: «não si misturam as abelhas por meio de alguma conjuncção, não si entregam por meio de sensualidade, não soffrem dores de parto, porem conservam a integridade virginal de seo corpo, e em pouco tempo produzem grande numero de novas abelhas.»
Diz o autor do livro da «_Naturesa das coisas_»—_Omnibus virginalis integritas corporis_—«conservam todas a inteiresa virginal do seo corpo.»
Ha diversas especies de vespas, tendo uma d’ellas alguma coisa de novo: esta qualidade é negra, mui delgada no meio do corpo a ponto de julgar-se estar o ventre unido ao estomago por um só fio.
São industriosas o mais, que é possivel.
Recolhem-se todas á um nicho de terra, no cimo das arvores, tão bem estocado, que dentro d’elle não cahe uma só gotta d’agoa; a cobertura ou tecto d’este nicho é em fórma de zimborio, e apenas cahe a chuva, corre ligeiramente, e ahi não si demora: n’elle não tem abertura alguma, e apenas cinco ou seis buracos proporcionaes á grossura d’ellas.
No interior fazem accommodações para viver, e fabricam uma especie de mel bem amargoso, e negro como tinta.
Cada uma tem sua casa, cavada na espessura do nicho, á maneira dos buracos de um pombal, onde se agasalham os seos habitantes.
É admiravel a sua industria no fabrico d’estes nichos, e presenciei-a muitas vezes.
Á margem das fontes fazem argamassa, carregando com os pés um pouco de terra, que desmancham e amassam com agoa, que vão buscar, e trazem unido ao pello de suas coxas. Assim preparado, vão carregando em varias partes do seo corpo.
1.º No pescoço.
2.º Nos pés.
3.º Na união das coxas contra seo corpo.
Não deixam seos filhos no nicho commum, porem fabrica cada uma o seo cubiculo á parte, á imitação da flor de meimendro, presa ou suspensa á algum pau, ou outra coisa coberta, longe do perigo de ventos e de chuva.
Levam muito tempo preparando seo nicho, e o enfeitam o mais que podem, com o brunidor do seo fucinho.
Depositam no interior sua semente, como fazem as abelhas, fecham a entrada, occultam-na, dormem á noite em commum, e ainda a madrugada está longe, e já ellas se despertam para montar guarda e fazer sentinella ao redor de sua habitação, fazendo guerra de morte a quem se lhe aproximar.
Posso dar noticias d’isto, porque um dia, indo a um canto de minha casa arrumar não sei o que, quando passei, bati, sem querer, com a minha cabeça no nicho, onde estava a mãe, e ella, julgando mal de minhas intenções, pensou que eu o fizesse por maldade, e cheia de colera, escolheo a parte mais delicada do corpo humano, isto é, os olhos, para vingar-se.
Permittio Deos porem que em lugar dos olhos me ferisse as sobrancelhas com o seo aguilhão.
Foi tão doloroso o golpe, e tão penetrante o veneno, que cahi por terra, batendo-me extraordinariamente todas as minhas veias, desde a planta dos pés até o cume da cabeça, como nunca senti em minha vida.
Recolhi-me a cama com o coração sobresaltado, inchou muito a parte offendida, e ardia como brasa.