Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 15

Chapter 154,018 wordsPublic domain

N’esse paiz existem arvores, que se mostram exteriormente seccas, sem folha alguma, e comtudo quando chega o tempo proprio brotam d’ellas em quantidade flores muito bellas e em cachopas, porem são de diversas cores e ordinariamente amarellas.

Encontra-se a razão d’esta particularidade no logar escolhido pela naturesa para terminar a sua acção: por exemplo; quando é liberal dando a qualquer membro um excesso de nutrição, é á custa dos outros: quando estas arvores dão sua seiva para formar uma casca grossa, verdejante e humida e cobrir de lindas folhas os seos ramos, não produzem bellas flores, as quaes naturalmente, em todos os vegetaes, formam-se de uma seiva bem digerida e subtil, e por tanto podendo subir facilmente até as extremidades dos ramos, não cuidando das outras partes da arvore para lhes dar qualquer nutrição.

Reconheci isto em França, onde se pódam as cerejeiras para não dar fructo, afim de com toda a sua seiva produzirem flores largas e dobradas, como rosas almiscaradas duplas.

Tambem existem outras arvores, que fecham suas folhas, e as dobram sobre si, quando o sol está no seo occaso, e apenas se levanta ellas desdobram-se e expandem, como acontece em França, ao Girasol.

Este phenomeno é devido á humidade ou sereno na noite, que as aperta e fecha porque o frio tem essa qualidade, e o calor do dia as abre e as expande por ter essa propriedade.

Com bastante difficuldade pude deparar com as razões naturaes de muitas singularidades, que vi em Maranhão, porem confesso com franqueza, que nunca achei a causa natural: certas arvores d’aquelle paiz, apenas se toca com a mão o seo tronco, immediatamente fecham todas as suas folhas: por certo haverá n’estas arvores alguma propriedade sensitiva, como ha na esponja, a qual apenas sente a mão do homem, que a pretende cortar, ella se aperta, e occulta-se no concavo e na fenda da pedra do mar, que a forma.

Os cajueiros, que produzem uma fructa propria para fazer vinho, nascem espontaneamente pela costa do mar, e por isso vivem da seiva maritima e salgada, resultando d’isto ser o vinho de cajú picante e acre, e produzir no futuro dores nos rins, e ser prejudicial aos pulmões.

Por experiencia coei este vinho, e d’elle tirei muito sal.

Ha espinhos, que dirieis serem creados por Deos para representar o mysterio da paixão de Jesus Christo,[67] porque crescem formando ramilhetes quatro em cima, equidistantes á maneira de uma Cruz, e um no cume com a ponta virada para o Ceo, ornado de nove folhas, dispostas como tres raminhos, cada um com tres espinhos, que em tempo proprio se transformam em tres flores, ficando o espinho maior no centro.

São estes cinco espinhos os instrumentos das cinco chagas de Jesus-Christo. Cercando a corôa de espinhos seo Chefe, como o espinho de cima é cercado de folhas, isto é, de peccados e de vaidades das tres idades do mundo, na lei da natureza, escripta e de fé, cujos peccados e imperfeições se transformam, pelo merecimento do sangue de Jesus Christo, em flores da Graça, em boas obras, e na recompensa da gloria.

CAPITULO XL

Dos peixes, passaros e lagartos, que se encontram n’esses paizes.

Eis uma questão não pequena, de phisica ou de philosophia natural—«como pode um animal, vivo e perfeito na sua especie, formar-se sem progenitores.»

Alberto, o grande escriptor, vio peixes vivos no meio de uma grande pedra marmore, tirada da rocha, e rachada no centro.

Não é novidade para os que leram este autor, porque eu vi em Maranhão, nos regatos formados pelas chuvas, e que pouco duram, muito bons peixes, iguaes em tamanho e côr aos que vivem em rios permanentes, e que nascem de ovas.

Como é possivel, que sem haver ovas, possam estes peixes nascer, crescer e morrer, com a queda, augmento e ausencia das chuvas?

A razão d’isto está na força e influencia dos planetas predominantes em janeiro e fevereiro, quando nascem estes peixes, e na conjuncção forte da humidade e do calor e na disposição do terreno, tudo isto combinado de tal forma, que dá origem a taes e taes peixes de preferencia aqui do que em qualquer outra parte; como vemos na Europa em que a diversidade das terras, por onde passam as chuvas, produz differentes variedades de peixes.

Entre os passaros do Maranhão, dos quaes eu diria maravilhas, si outros ja o não tivessem feito, notei uma especie singular de aves aquaticas vermelhas,[68] cuja penna e carne são de côr escarlate, dando-se a particularidade de serem brancas quando sahem do ovo, depois com o tempo, quando podem vôar; são pretos, e assim ficam até chegarem a sua grandesa e grossura natural, d’ahi vão se tornando meio pardos e meio vermelhos, e finalmente totalmente rubros, passando assim por quatro mudanças.

Não digo isto por ouvir dizer, porem observei nos que se criam em casa presos. Este phenomeno não se dá sem uma razão profunda, e fundada na naturesa, e me parece ser esta: a côr da pelle e das pennas é devida á disposição e qualidade do alimento, que nutre a ave, porque diz o philosopho, a pelle e as pennas nascem, crescem e se nutrem com a superfluidade dos alimentos: ora a côr branca faz suppor alimentação leve e delicada, e por isso a avesinha ao sahir da casca do ovo, vivendo somente á custa de moscas e mosquitos, que vôam ao redor d’elle, é natural que suas plumas, originadas de tão fraca comida, tenham a côr branca.

A côr negra porem faz crer em abundancia e superfluidade de alimentação, porque a intensidade do calor natural vae sempre excitando o apetite, e empurrando-o para o pasto e por isso notei, que quando esta ave tem as pennas pretas é glutão e come constantemente.

A côr parda e meia vermelha mostra uma tendencia, ou uma regra, nascida expontaneamente da naturesa para acolher uma certa alimentação, que lhe é propria, e então observei escolher esta ave uma comida singular e especial, isto é—os carangueijos, os quaes consummidos no estomago, ahi se transformam em chylo vermelho como escarlate, e este cahindo no figado, se d’elle não receber alguma côr, como acontece com os outros animaes, tinge-o com sua côr, e sempre assim passa para as veias, das veias para a carne, da carne para as pennas, e tão perfeitamente, que si fosse um mettido dentro de uma panella para cozinhar, podia dizer-se que havia dentro uma porção de vermelhão.

Entre milhares de lagartos e reptis do mar, appliquei minha attenção para uma especie bem monstruosa.

É um animal que vive umas vezes n’agoa, outras em terra, e tambem nas arvores, contendo em si as tres espheras com que vivem todos os animaes do mundo.

Com os peixes partilha o elemento d’agoa, com os homens e os quadrupedes o da terra, e com os passaros aninha-se e repousa nas arvores. Direi ainda que só parece terem os astros lhe dado sobre os rins, desde a cabeça até o fim da cauda um reflexo de seos raios e brilhos, porque notareis no dorso uma bella facha de raios do sol e das estrellas, similhantes aos que fazem os nossos pintores ao redor do globo do sol e das estrellas.

Tem a pelle esmaltada de côr prateiada e azulada, como a abobada celeste quando serena.

Quando este animal sente a intensidade do Sol, sahe do mar, sobe ás arvores visinhas, e escolhendo um ramo para deitar-se, ahi se estende e descança.

Põe seos ovos nas arvores maritimas, os quaes aquecidos pelo calor do Sol deixam sahir os lagartinhos, que apenas sahem das cascas dos ovos conhecem logo o pae e a mãe, acompanham-no ao pasto no mar, em terra e nas arvores.

Explico a rasão d’isto dizendo que quanto mais humido é o animal, mais somnolento é elle. Entre todas as especies de animaes esta sorte de lagartos é humida e fria, e por tanto sujeita ao dormir, e como seja mais agradavel o somno quando se tem os membros em certo grau de calor, eis por que elles buscam soalheiros. Reconhecendo pequeno o seo calor natural, eis porque põem seos ovos em lugar expostos aos raios do Sol.

CAPITULO XLI

Da pesca do Piry.

Os selvagens do _Maranhão_, de _Tapuitapera_, e de _Comã_ tem uma pescaria certa e annual, como annualmente a do bacalhau nos Bancos da Terra Nova.

Alguns mezes depois das chuvas, quando julgam as agoas escoadas, muitos embarcam em suas canoas, levando farinha para alguns mezes ou seis semanas, e assim vão costeando a terra á um lugar distante da Ilha 40 ou mais legoas: ahi se arrancham, levantam choupanas, e depois dedicam-se a pescaria, a caça dos crocodillos, e á procura das tartarugas.

Ahi se reunem muitos selvagens de diversas aldeias da Ilha, de Tapuitapera, e de Comã.

Apanham-se os peixes nas pôças, ou buracos de areia com pouca agoa, e quando se vae um pouco mais tarde, coagido pela estação, encontram-se essas pôças seccas e o peixe morto.

Sendo impossivel dizer-se o numero ou a quantidade d’estes peixes, faço porem comprehendel-a asseverando, que chega para carregar todos os selvagens, e ainda fica muitissimo. São grossos e curtos, não excedem porem a grossura e expessura de um braço, tem de comprimento meio pé entre a cauda e a cabeça, o focinho achatado e muito similhante ao do tenca, e parecem-se muito com os peixes maritimos chamados _marujos pintados_.

Apanhados nas redes, que levam, chamadas _pussars_, seguram-nas pelo meio dose a dose, lançam-nos com entranhas e tudo ao fumeiro para assal-os, e assim ajuntam muitos, que levam para suas casas, e com esta comida sustentam-se um ou dois mezes. Quando querem comer, tiram a pelle do peixe, seccam-na ao sol, pisam-na em um almofariz, reduzem-na á pó, com que fazem seos _mingaus_, isto é, suas bebidas, como fazem os turcos com o pó dos quartos de boi cozidos ao forno quando vão para a guerra.

Dirigindo-me um dia para a Ilha, achei-me em certa aldeia, onde nada tendo que dar-me para jantar, ferveram alguns d’estes peixes n’uma panella, do caldo fizeram _mingau_, vindo o resto no prato.

Bem contra minha vontade de nada me servi por causa do mau gosto da fumaça, porem com muito apetite comeram de tudo os francezes, que vinham commigo, achando saborosos os peixes, com grande satisfação dos indios, que os apreciam tanto á ponto de irem muito longe buscal-os.

Como se acham em tanta abundancia estes peixes em taes fóssos ou poços desde o inverno até esse tempo? Se explicações servem ja as dei no cap. 40, e por isso á ellas me refiro, acrescentando ainda o seguinte.

A grande quantidade de chuva faz transbordar os rios, os regatos, e o proprio mar, de maneira que todos estes campos ficam innundados até a altura de um homem: assim sahem os peixes do lugar natural, onde habitavam, ahi regalam-se com pastos novos a ponto de não se lembrarem de regressar a Patria, e por isso quando as agoas se abaixam, ficam presos em fóssos e poços como vimos em todos os lugares onde se dão estes factos.

A caça dos jacarés lhes é util e agradavel: são pequenos crocodillos com 8 ou 10 pés de comprimento, de pelle dura, ventre molle, sem lingua, com olhos vivos, sempre alerta e maus: accommettem o homem, cortam e devoram o primeiro membro que agarram.

Escondem-se em grotas, á margem dos rios, e sempre de emboscada, nadam como peixes, arrastam-se ligeira e brandamente, abrem a bocca, e como que intentam assustar-vos si vos encontram: põem ovos iguaes aos de galinha, porem cobertos de protuberancias, como as castanhas; dizem que são bons para comer, mas eu não affianço porque nunca os provei, pois sempre tive muito horror á estes bixos.

Chocam seos ovos, e d’elles sahem jacarésinhos, gordos, grandes e compridos, como os lagartos que vemos pelo estio correr nos muros.

É para admirar, que de tão pequeno bixo origine-se tão grande animal, e que apenas sahido da casca do ovo começa a andar e arrastar-se!

Sua carne cheira a almiscar, é doce e desagradavel: os selvagens porem não fazem caso d’isto, apreciam-na muito quando a encontram, e por isso empregam-se muito em caçal-os.

O logar _Piry_, humido e cheio de limo, tem muitos jacarés, que são perseguidos pelos selvagens por meio de flechas, atiradas com direcção á garganta ou á barriga, e depois acabam-nos com uma barra de ferro, escamam-nos, e cortam-nos em pedaços, que assam.

Si são pequenos, cozinham-nos com escamas, e assim preparados acham-nos muito bons e até delicados, porque assados com sua gordura, dizem elles, nada perdem de sua substancia.

Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse muitas occasiões de o fazer, visto que recebi muitos presentes d’elles quando voltaram os selvagens do _Piry_.

A recordação somente d’estes animaes me fazia nauseas até o coração, á vista d’esses pedaços.

Diziam os francezes, que o comeram, ser similhante a carne fresca de porco, um pouco mais adocicada, oleosa, e com o cheiro de almiscar.

He muito perigoso tomar-se banho n’esse paiz, a não ser em logar descoberto, porque estes despresiveis animaes se arrastam de mansinho e se atiram sobre vós.

Contaram-me, que um menino, da aldeia de _Rasaiup_, cahindo n’um riacho, onde hia buscar agoa, foi agarrado e devorado pelos jacarés.

Quando andei pelas costas do mar, desde _Trou_ até _Rasaiup_, em companhia de muitos selvagens, elles me levaram para beber agoa n’uma grota cheia de sarças e outras mattas, e me advirtiram, que ahi ninguem se podia demorar muito por ser o escondrijo dos jacarés.

Fazem-lhes muita guerra os nossos selvagens, por gosto e utilidade, e trazem grande provisão d’elles quando voltam do Piry.

A razão de não terem lingua, estes animaes é porque segundo creio, tem a garganta e o pescoço, inteiramente inflexiveis, a ponto de não poderem olhar nem para traz nem para o lado sem moverem o corpo todo: alem disso, elles tem o maxillar inferior duro e immovel, tudo isto contrario ao uso da lingua, e só mastigam com o maxillar superior.

Eis porque agarram e devoram a presa de um só jacto, não precisando viral-a e reviral-a da garganta.

Disse S. Gregorio, que os crocodillos do Nilo chegavam a ter até o comprimento de 20 covados, a cor de açafrão, porem os do Maranhão e de suas circumvisinhanças não iam alem, como ja disse, de 10 ou 12 pés, com a differença tambem de habitarem aquelles, durante a noite, a agoa, e de dia a terra, porque busca o calor, visto serem no Egypto á noite as agoas quentes e a terra fria, e de dia vice-versa.

No Maranhão acontece o contrario: de noite ficam em terra, e de dia n’agoa, porque as agoas são frias á noite e quentes de dia, e a terra temperada.

A razão, porque este animal tem medo dos que o perseguem, e é atrevido contra os que fogem d’elle, é porque facilmente atira-se sobre este, e só com muita difficuldade se defende d’aquelles, sendo este procedimento o resultado de sua naturesa timida e assustada.

Tem só um intestino, porque não faz a primeira digestão nas carnes cortadas em bocadinhos.

Temem mais os selvagens que os francezes, e os do Nilo receiam mais os egypcios do que os estrangeiros, o que explica Solinus dizendo reconhecerem elles naturalmente pelo cheiro os que o guerreiam constantemente.

Disse um phisiologista, que quando elle devora alguem, chora a sua desgraça: não sei si será verdade.[69]

Alem d’estes exercicios, no Piry perseguem os selvagens as tartarugas, ahi em quantidade incrivel, e trazem-nas vivas tantas quantas podem.

Não são avarentos, antes sim por poucos generos alcançareis muitas.

Lembro-me, que passando algumas canoas pela nossa situação de São Francisco, por uma faquinha de custo de um soldo na França, deram-me setenta, e pela farinha, que lhes offereci para jantar, mimosearam-me com vinte e cinco, que guardei em lugar humido e fresco, deitando-lhes todos os dias um pouco d’agoa, e assim se conserváram sem comer por mais de seis semanas.

Os selvagens comem-nas com muito gosto, e dizem que ellas lhes conservam a saude, e lhes fazem bom estomago.

Cozinham-nas em seos cascos inteirinhas, sem tirar-lhes as entranhas, e nós as achamos assim preparadas muito melhores do que de outra fórma.

Si algum d’elles soffre dos ouvidos por algum defluxo tiram as mulheres o sangue d’estes reptis, misturam-no com o leite tirado de suas mamas, e com isto friccionam o fundo da orelha.

Quando arrancam o cabello dos seos corpos, com pinças de ferro, que lhes dão os francezes, esfregam a pelle com...

(falta uma folha).

CAPITULO XLIII

Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas.

Ha outra caçada de um verme, tão divertida e agradavel como as precedentes, é a dos ratos domesticos e selvagens.

Não comem os domesticos, ao menos que eu saiba, porem caçam-nos cruelmente; porque si entra um rato em qualquer casa, reunem-se todos os habitantes, uns com arcos, e outros com flechas e paus, e com o auxilio tambem de alguns cães não escapa o pobre rato.

Depois de morto é espetado na ponta de uma vara, fincada no meio da aldeia, para servir de alvo ao exercicio das flexas dos meninos.

As aldeias mais proximas dos portos, onde chegam navios, tem mais ratos, porque apenas sentem a terra, atiram-se as ondas, nadam, trocando assim o seo paiz natal, que é o mar, para ficar n’um paiz mais firme e seguro, que é a terra.

Comem os ratos selvagens, que vivem nos bosques e no dizer d’elles é comida deliciosa.

Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo lugar no matto, fazem varias entradas, similhantes ás coelheiras, ou terreiros de coelhos: reunem-se depois muitos sujeitos, armados de paus, e vão fazer grande alarido ao redor d’esse fosso, como se costuma fazer nas caçadas dos lobos.

Batem as mattas, e d’ellas fazem sahir os ratos, e elles fugindo, e encontrando esses buracos tão proprios para se occultarem, ahi entram, e então aproximando-se os selvagens, toma cada um conta do seo buraco, e entrando outros dentro do fosso, á cacete matam os ratos, dividem-nos igualmente, e regressam para a aldeia trazendo cada um o que lhe tocou.

Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos por diante sem lhes tirar a pelle, a qual fazem tostar depois que o animal está cozido por dentro, para não perder a gordura, e depois os guardam dentro de uma porção de farinha.

São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, mais apreciados do que os javalys e os viados, e as vezes trazem os selvagens quantidade incrivel d’elles.

Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a epocha propria d’ellas mudarem de habitação.

As que podem vôar buscam a região do ar, deixando suas casas, feitas e cavadas na terra.

As outras, si por instincto natural desconfiam, que podem as agoas invadir suas grutas, e estragar seos armazens, celleiros, ou dispensa, pegam na bagagem, com ordem digna de ser mencionada, e auxiliadas com a experiencia, como vou contar para servir de modello a todas as outras.

Na nossa casa de S. Francisco, no principio das chuvas um milhar de milhões de formigas sahio de uma caverna, perto d’ahi, e veio tomar posse de um canto do meo quarto, onde cavou camaras, ante-camaras e celleiros.

N’uma bella manhã sahiram todas, e trouxeram um alqueire, talvez, de ovos, indo em diversas estações, isto é, em distancia de 2 passos uma da outra.

Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar cada uma o que trazia no montão proximo, e assim iam fazendo os outros acervos ou companhias.

Admirei-me de vêr tantas formigas, e tantos ovos, que deitavam mau cheiro.

Mandei fazer bom fogo, e atirar sobre estes ovos, e no caminho por onde passavam estes animaes.

Puzeram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos que poude, como fez Eneas á Anchises, seo pae na destruição de Troya.

Não fui tão bem succedido, porque regressaram ao lugar que haviam escolhido, não pensando talvez, que me incommodassem, o que assim não aconteceo, porque reunindo-se todas por espaço de 2 dias, deliberaram ir a pilhagem fóra do quarto, mostrando-se contentes com a habitação, que bem a meo pesar lhes dei.

Causar-vos-hia satisfação vendo estes animaesinhos, desde o amanhecer até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são as folhas de uma certa arvore, em cujos ramos, como presenciei, estavam muitas para cortal-as e deixal-as cahir em terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava para os armazens.

Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seo tamanho: por um iam as carregadas, e por outro as desembaraçadas, evitando assim a confusão e a mistura, embora fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo fazem as outras especies de formigas.

É para admirar-se tambem a especie de abobadas, que com admiravel industria fazem quando querem caminhar abrigadas.

Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o dedo pollegar, para o que aballa-se uma aldeia inteira de homens, mulheres, rapazes e raparigas.

A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, e nem onde hia tão apressada tanta gente deixando suas casas para correr após as formigas voadoras, as quaes agarram mettem-nas n’uma cabaça, tiram-lhes as azas para frital-as e comel-as.

Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas e as mulheres que, sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas a sahir[70] por meio de uma pequena cantoria, assim traduzida pelo meo interprete.

«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella vos dará avelans.»

Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo agarradas, tirando-se-lhes as azas e os pés.

Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, e as formigas que então sahiam, eram da cantora.

Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, que tiram de suas cavernas.

No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, e deixam somente aquelles, por onde pode vir a chuva raras vezes.

As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, especialmente estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,[71] com pello de lobo, fedorentos o mais que é possivel, focinho e lingua muito aguda, e que procura o formigueiro para alimentar-se: outro, uma qualidade de formigas corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, como o zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas e fracas, trabalham conjuntamente sem fazerem barulho, e nem se offenderem.

Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando á parte, só e só, não vivem mais em companhia, e põem se de embuscada pelo caminho, onde costumam passar suas irmãs e parentas, como fez antigamente Abimelech, bastardo de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em Ephra.

Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado.

Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente com estes animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: de tudo se aproveitam e nada perdem, reunindo o util ao agradavel.

Vejamos o resto.

A caça dos lagartos, chamados pelos _Tupinambás_—_Tarure_ (os grandes) e _Toju_ (os pequenos,) é feita por diverso modo,[72] conforme são da terra ou do mar.

Os maritimos habitam ordinariamente as praias cobertas de mangues, onde, duas vezes dentro do espaço de 24 horas, entra o mar.

Ahi nutrem-se de carangueijos, de mexilhões, e de camarões, vulgarmente chamados em França—lagostins, e de peixes, que apanham na enchente.

Poem seos ovos nos concavos das arvores.

Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vasante; enterrando-se pelo tujuco.

Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande lebre, conforme o tamanho do animal.

Fervem-nos para fazer mingau, ou assam-nos ao fumeiro.

Os francezes assam-nos ao espeto, bem untado de gordura de peixe-boi, e a primeira vista pensareis que são coelhos ou lebres espetadas.

O guisado, que d’elles se faz, é muito parecido com o das lebres e coelhos, e muitos francezes gostam mais d’elles do que os nossos coelhos.

Eu antes quero crêr do que provar.

A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de homens, embora tenha visto alguns homens atraz delles, como os meninos, e até 20 selvagens, homens e rapazes, atraz de trez lagartos.

Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte, que lhe pertence e acham-na muito boa.

Os rapazes apenas os veem correr pela casa, nas paredes ou nas arvores, flecham-nos, porem escolhem os maiores por que tem mais que comer: alguns tem o comprimento de um braço e a mesma largura.