Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 14
Respondendo o interprete a tudo isto, como devia, ficou satisfeito e assim o disse, asseverando que o mesmo aconteceria a seo Rei e a sua Nação, porque todos desejavam aproximarem-se dos francezes para conhecerem a Deos, terem machados e foices de ferro, com que cultivassem suas roças, e estivessem sempre em guarda contra os seos inimigos, plantando muito algodão e outros generos para offerecerem, como recompensa, aos francezes, aos quaes apenas pediam alliança e protecção.
Perguntou-lhes o interprete, si era grande sua nação, e si estava muito longe, ao que respondeo affirmativamente, marcando a distancia por legoas pouco mais ou menos, que podiam haver da Ilha á sua terra, mostrando com os dedos o numero de luas, isto é, de mezes, que eram necessarios para regressarem ao seo paiz, e accrescentou «não te posso dizer o logar da nossa habitação, porque meo Rei assim me prohibio, e tambem porque receiamos, que si nos faça guerra. D’aqui ha seis mezes regressarei para te dar certas noticias, e podes dizer ao teo chefe, que sendo verdadeiras as tuas informações viremos morar por aqui perto.»
O interprete respondeo—«vem, te rogo, vêr o Fórte, que fizemos, as grandes peças, que montamos sobre suas muralhas, e os francezes, que as guarnecem para de tudo dares noticias á teo Rei.»
«Não, disse elle, eu e os meos recebemos ordem de não saltar em terra». Tanto porem instaram com elle, quase recebendo refens, consentio alguns dos seos saltar em _Tapuitapera_, onde foram muito bem tratados, e ahi adquirindo, em troca de generos, que levaram, alguns machados e foices, regressaram mui contentes.
Durante essa visita, conservaram-se a nado as canoas, os remos armados, e tudo prestes se houvesse alguma traição. Tinham os outros as flechas e os arcos promptos, tanto desconfiam estas nações umas das outras!
Apenas chegaram os seos, restituiram os refens, e foram-se em paz. Deos os guie e os traga ao seo gremio.
Quanto á viagem ao _Uarpy_,[64][BE] rio e região, em distancia para mais de 120 legoas da Ilha, lá para as bandas dos Caietés, foi emprehendida pelo Sr. de Pezieux, com alguns francezes, e duzentos selvagens pelos seguintes motivos.
Primeiro: para descobrir uma mina de oiro e prata na distancia de 100 legoas acima do rio, d’onde os selvagens nos trouxeram enxofre mineral, muito bom, e por tanto havia esperança de serem as minas boas e abundantes.
Tem me esquecido dizer, que ha em toda esta terra grande numero de minas de oiro, misturado com cobre, de prata misturada com chumbo,[65] o que provam as agoas mineraes que descem dos montes.
Segundo: para traser comsigo uma nação de Tabajares, habitante das margens do Rio.
Terceiro: para procurar uma nação de _cabellos compridos_ por ahi errante, os quaes são doceis, faceis de serem civilisados, e que negociam com os _Tupinambás_.
Si se realisarem estas coisas, como creio, a Ilha será em pouco tempo rica de generos cultivados por todos estes selvagens reunidos, e tornar-se-ha forte contra a invasão dos portuguezes, e descançando n’esta esperança vou fallar de algumas raridades, que notei ahi, cortando as difficuldades que se apresentam á primeira vista por meio de razões boas e naturaes.
CAPITULO XXXVI
Dos astros e do sól.
É bello e magnifico o Ceo, n’esta zona tórrida, embora pareça muito menos estrellado do que na Europa, isto é, não apparecem tantas estrellinhas fixadas na abobada azulada d’aquelle como acontece na do nosso, pois no Maranhão ha estrellas maiores e brilhantes, e mais luzentes do que aqui.
Não me convenço de lá não haverem menos estrellas do que aqui, antes esta falta, que noto, attribuo á minha vista, e por mais esta razão.
Todos os que habitam fóra dos dois solsticios, _Cancer_ e _Capricornio_, olham obliquamente o centro do ceo, que é a linha ecliptica ou zona tórrida, onde passa o sol, e por tanto tem maior horisonte, ou maior espaço do ceo a contemplar, e menos numero de estrellas a contar.
É pela experiencia confirmada esta razão, porque nasce e deita-se o sol, sem preceder aurora, e assim acaba o dia e começa a noite, e si ha tarde ou manhã é quasi nada.
Na Europa acontece o contrario, pois algumas vezes temos mais de duas horas de tarde, e outras tantas de manhã, antes do nascimento e do occaso do sol, porque os habitantes da zona tórrida estão na esphéra direita e nós outros na obliqua.
Ainda acrescento outra experiencia.
Quando regressamos de Maranhão para cá, no Polo Septentrional, descubrimos mais depressa a estrella d’este Polo, do que quando na nossa viagem para lá descobrimos a estrella do Cruzeiro embora mais elevada do que o Polo Antarctico ou Austral.
Ainda fiz outra observação n’este planeta do Sol, é que mostra dois meios-dias diversos entre os dois termos do anno, de sorte que n’uma metade do anno, olhando o Este está á direita, isto é, na parte austral, e no resto do anno a esquerda, isto é, na parte septentrional, e em ambos elles ha pouca sombra. O sol no zenith somente duas vezes no anno olha para esta terra, como succede a todas as regiões contidas nos dois solsticios: algumas vezes está tão perto da esphera direita, que pouco falta para chegar ao meio dia, e ferir-vos a prumo o cume da cabeça.
Comtudo isto destinguem-se perfeitamente ambos estes meios-dias.
Explica-se isto por ser preciso cortar duas vezes, annualmente, o sol quando no zenith, a zona tórrida, como já disse, para fazer os solsticios de Cancer e Capricornio, e por tanto os habitantes da zona tórrida o vêem fazer o seo meio-dia ora de um lado, ora de outro: por exemplo: quando sahe do Capricornio afim de encaminhar-se para Cancer, os brasileiros habitantes da zona tórrida observam o seo meio-dia á direita e quando deixa Cancer com direcção á Capricornio vêem-no á esquerda.
Abre-se-me vasto campo para descobrir a sabedoria de Deos na organisação do mundo, tendo por fim apenas escrever succintamente uma historia, entrego á consideração do leitor chamando a sua attenção para a maneira como Deos dividio o curso do sol em duas extremidades e um meio, recebendo os habitantes de todas estas tres partes a mesma luz durante o anno, tanto uns como outros, excepto os habitantes de Cancer, que apenas tem durante o anno tres dias e algumas horas de sol mais do que os de Capricornio, originando-se por isso os annos bissextos e a reforma do calendario, como vamos explicar.
Principiemos pelo meio-dia, e acabemos pelas extremidades.
O meio é composto de duas extremidades, equidistantes uma da outra, porque de outra forma não seria meio.
O curso do Sol se faz em 24 horas, dia natural, e em 12 mezes por anno.
Ora sendo a zona tórrida o meio do curso diario e annual do sol, é indispensavel, que na sua terceira parte e porção mostre diaria e annualmente á luz do sol igual a que se apresenta nas duas extremidades, o que não poderia fazer; si os dias não fossem iguaes, tendo cada um 12 horas de Sol, porque, si excedessem ainda que pouco, não seria o meio do curso do sol, e sim cahiria mais para uma das duas extremidades, tendo, durante 12 mezes, uns dias maiores do que outros, compensando n’uns o que n’outros perdia, e convindo por isso marcar-se outra zona de céo, que fosse o meio e o centro d’esse curso, sendo o meio a essencia e a base das duas extremidades.
É impossivel imaginar-se dois extremos sem meio: como ja disse, o meio é composto de duas extremidades, e por isso sendo a zona tórrida o meio da carreira do sol, deve ter sua porção de luz á custa das duas extremidades, que são dose e dose, que dá o sol igualmente para os dois solsticios, entre as duas partes do anno, recompensando n’um tempo o que n’outro perdeo.
Consideremos agora uma terceira porção para servir de meio d’estas duas extremidades, dose á dose.
Convem tomar 12 de uma parte e 12 de outra para ser o todo igual: comprehendereis assim facilmente como esta zona tórrida gosa igualmente com as outras partes do mundo da luz do sol sem mudar seo numero de seis a seis em tempo algum, porque partecipa igualmente das duas extremidades, quer vá o sol visitar Cancer e seos habitantes dando-lhe com a sua boa chegada mais largura e liberalidade de luz, quer vá fazer outro tanto no Capricornio, não lhe sendo por isso de forma alguma importuna a zona tórrida, e nem alteando o seo imposto ordinario, fazendo-lhe pagar somente, seis horas da manhã, e seis depois do meio dia, a luz e calor para a sua passagem da travessia da terra, e pelo trabalho dos seos habitantes durante a sua vinda.
Quanto ás terras e aos habitantes inter e extra-tropicaes dividem entre si igualmente, pouco mais ou menos, em diversos tempos, a luz do sol, e por compensação mais n’um tempo do que em outro: no fim do anno acham que cada um teve 12 horas de luz para um dia natural, e dose mezes por anno.
Já disse que os habitantes de Cancer, dentro e fóra do seo Tropico, gosam mais tres dias do sol do que os outros.
Dar a razão natural d’isto, e o que dizem os astrologos, é o mesmo que nada, por ser segredo, que em si guardou a divina Providencia, e uma honra que deo ao mundo antigo, composto d’Asia, Africa e Europa, e si basta uma razão allegorica, sou de opinião que é para fazer sobresahir tres privilegios especiaes, que sobre o mundo velho alcançou o novo, e que são—a primeira habitação do homem expellido do Paraiso Terrestre; dadiva da lei escripta á Moysés; e a redempção do mundo por Jesus Christo.
CAPITULO XXXVII
Ventos, chuvas, trovões, e relampagos em Maranhão e suas circumvisinhanças.
Alem do que a este respeito disse em sua _Historia_ o padre Claudio d’Abbeville acrescentarei para satisfação do leitor o que me fez conhecer a experiencia:
1.º Fallando dos ventos, entre os quaes o do Oriente tem o sceptro e occupa o reino do Brasil, alem das razões dadas por esse Reverendo Padre, dou outra, que devo aos mathematicos, que por lá andaram e escreveram sobre a materia.
Dizem elles, que a constancia d’esse vento soprando por ahi é devida á disposição das costas do Brasil, em linha recta de Este a Oeste, porque tendo o sol levantado os vapores da terra e da agoa e atirando-os apòs si, pela violencia do seo curso diario encontram as costas do Brasil do Oriente ao Ocidente sem inflexão ou curva alguma e por isso seguem por ahi.
Praticamente observa-se isto com o fumo, que espalha-se no primeiro corpo solido, que encontra como sustentaculo de sua fraqueza, e sem elle derrama-se á feição do vento, que ahi sopra.
Com quanto o vento das outras tres partes do mundo, a saber, Oeste, Norte e Sul não reinem no Maranhão e suas circumvisinhanças em comparação com o de Este, não se pode comtudo dizer, que não soprem algumas vezes ventos do Norte e do Sul, e raras vezes o de Oeste.
Em Maranhão os ventos vão sempre augmentando desde Agosto até Janeiro, que é propriamente o estio d’esta terra, e quando o tempo é sempre sereno.
Explica-se isto pelo curso do sol que regressando do solsticio de Cancer para o de Capricornio surgem debaixo da zona tórrida grandes vapores, aquosos e humidos, e quanto mais se aproxima d’essas terras mais se levanta, e por tanto mais se reforçam esses ventos, que não são outra coisa senão esses vapores misturados com o ar.
2.º A razão porque começam as chuvas em Janeiro ou em Fevereiro, e vão sempre augmentando até principio de Junho ou fins de Abril, é porque o Sol volta do solsticio de Capricornio para o de Cancer, e attrahindo muita humidade expande-a no ar, e d’ahi cahem as chuvas: quanto mais o Sol se aproxima do seo termo, mais augmenta sua humidade, e torna a queda das agoas mais expessa, forte, e rapida, e por isso vemos no Brazil ser differente a epocha e a força das chuvas, isto é, mais depressa e mais abundante n’uma terra do que em outra.
De ordinario são as chuvas abundantes e frequentes, duradouras e continuas, mais á noite do que de dia: é o tempo proprio para semeiar-se, porque tudo nasce, cresce, produz, e dá colheitas.
Quando a terra é arenosa, e que está secca pela proximidade do Sol, ao cahir das chuvas continuas e abundantes, ella absorve admiravelmente as agoas, muda a sua secura para uma temperatura humida, que é a mãe das gerações.
São diversas estas chuvas do orvalho da noite no estio, porque tem este bom cheiro e aquellas mau, visto que provindo as chuvas do choque de expessos vapores aerios, trazem portanto comsigo a qualidade de seos agentes e a sua causa efficiente: acrescente-se ainda que a queda impetuosa das agoas sobre a terra, coberta de folhas em putrefacção ou de cinzas de paus queimados, revolve-a, e d’ella faz desprender-se, com o seo estado constante de calor natural, mau cheiro proveniente de taes objectos.
O orvalho cahindo doce e brandamente em noite serena, mais fria do que cálida, exhala cheiro agradavel, especialmente quando se derrama sobre plantas odoriferas.
É mais doentio o tempo das chuvas do que o das brisas, ou ventos de Este, porque em primeiro logar não sopram mais os ventos, e por conseguinte não purificam o ar, e d’elle não expellem vapores intensos, maritimos e aquosos, e por isso mui doentios: em segundo logar chocando-se as nuvens e cahindo as chuvas, apparecem molezas no corpo, doenças de coração, desarranjos do estomago, enfraquecendo-se os nervos, e infiltrando-se os ossos de humidade o que não apparece no tempo das ventanias, que limpam o ar, o mar, e a terra.
3.º Os trovões e relampagos são, sem comparação alguma, mais fortes e frequentes no Brasil do que no mundo velho, especialmente no tempo das chuvas, são horriveis os trovões, parecendo abalar-se a terra, e um relampago dura mais do que dose na Europa.
Durante esse tempo não sahem de casa os selvagens, e nem o mais valente se atreve a pôr o nariz fóra da porta, e eu mesmo, sem ser dos mais timoratos, fartei-me de medo, embora ninguem visse a queda do raio.
Eis a razão.
Emquanto é brando o calor de Agosto á Fevereiro raras vezes ha trovões; mas quando surge a guerra do frio e do calor, que é de Fevereiro á Junho, então é necessario que appareçam escorvas e peças, isto é, raios e trovões.
N’este tempo reina o calor na zona tórrida com todo o seo vigor, e o frio então se fortifica pelo regresso do Sol de Capricornio para Cancer, cheio de humidades do ar, e por isso é grande o combate, mais frequentes os trovões, e mais medonhos os relampagos.
Não se descobre a queda dos raios porque são altas e vigorosas as arvores do Brazil, e ordinariamente é n’ellas, como acontece em toda a parte, onde cahem os raios.
Como é o paiz coberto de florestas, e repleto de arvores de admiravel altura, é bem facil cahir o raio desapercebidamente.
Prova-se isto todos os dias com arvores cahidas e queimadas, que se encontram nas florestas.
CAPITULO XXXVIII
Mar, agoas, e fontes do Maranhão.
O mar, pelas suas marés, não é o mesmo que o do restante do Mundo.
Embora o Occeano acompanhe infallivelmente o crescente, o plenilunio, e o minguante da Lua, comtudo notaram nossos marinheiros em um ou dois dias, e algumas vezes mais, differença e falta de igualdade do que se observa n’outras marés do Universo.
Explica-se isto observando-se, que o Brazil está cercado de milhares de inflexões ou voltas, formadas umas por bancos e corôas de areia, e outras por voltas de pontas de terra e bahias.
Accrescente-se ainda terem todas estas terras as sahidas mui retalhadas, que impossibilitam o desembocar da maré com toda a sua força para os rios salgados e portos e barras, como acontece n’outras partes.
Reparae por exemplo o fluxo e refluxo do mar no rio Sena, pois quando o mar no Havre da Graça principia a refluir já a onda chegou a Ponte de Arche.
Reparei tambem na seguinte coisa commum ás outras marés, porem não tanto como as antecedentes.
O mar no seo fluxo, batendo nas pontas das rochas, deixa no meio um canal ou rego, que mostra a sua corrente principal, forrado de excrecencias maritimas, que ahi se amontoam, e si passar-se uma corda pelo seo nivel poderá servir de marca aos pilotos para reconhecer o canal no meio dos recifes.
Parece-me explicar-se isto pela propriedade da forma circular, que tem os elementos, a qual lhes permitte expandir-se até a circumferencia: em virtude d’isto o mar faz no meio do centro do seo fluxo o rego, ou fio de sua carreira, depois dispersa-se, e dá a cada ponta de rochedo a sahida para a maré, e por isso tenho observado algumas vezes muitos pedaços de pau serem arremeçados em diversos sentidos contra os rochedos pela violencia e corrente d’essas differentes marés.
As agoas do Maranhão são incorruptiveis, e muito melhores do que as da Europa, como tive occasião de verificar por espaço de dez semanas na viagem do meo regresso: eis a razão: quanto mais sugeito está um corpo á transformação e mudanças de qualidade, mais susceptivel se torna de ser corrompido e mau por causa das alterações, que soffre, ora as agoas do Maranhão achando-se sempre no mesmo estado, são por tanto incorruptiveis e optimas. As agoas da Europa são pelo contrario ora quentes, ora frias, e por conseguinte corrompidas e más.
Não são frias como as da Europa as fontes do Maranhão, porque sendo baixas as terras do Brazil não póde operar-se a anteperistase em suas entranhas, especialmente pela proximidade do sól, que penetra muito bem e com todo o vigor na terra, que é arenosa e mui susceptivel de calor.
As agoas da Europa são frias no Estio por causa da grande anteperistase das terras, d’onde cahem as agoas, que são altas, muitas vezes fortes e densas, e por isso resistem ao sol.
Conservam as fontes do Brazil sempre a mesma temperatura, porque o sol derrama-se igualmente por cima d’ellas, que nada tem, que lhes possa imprimir alguma qualidade fria.
Entre as fontes do Maranhão umas são melhores do que outras, e tem até côres diversas: a que nasce da terra é diversa em gosto e côr, porque sendo a terra baixa, e havendo muitas arvores, umas com bom gosto e outras com mau, estendem por ahi suas raizes, e d’ellas os olhos d’agoa, ou os veios das fontes recebem qualidade boa ou má, tanto da terra como das arvores.
Notei n’estas fontes o seccarem umas em setembro, e outras minguarem muito, porque sendo o terreno do Maranhão quente, secco, e arenoso consome facilmente as agoas das chuvas, que por elle corre, e que serve de alimento ás ditas fontes: achando-se pois os mezes de setembro, outubro, novembro e dezembro muito longe das chuvas, é natural, que ás fontes aconteça o que já dissemos.
Quem quizer beber agoa muito fria, deve expol-a ao sereno, e na manhã seguinte está tão fria como gêlo, o que não lhe succederá se n’essa hora for buscal-a á fonte, porque sendo as noites em Maranhão muito frias, ellas tem muito mais força sobre uma porção d’agoa guardada n’uma vasilha, cercada de ar por todos os lados, do que sobre agoas sempre em movimento pela corrente, contidas em leitos baixos, cobertas e sombrias por todos os lados, e tendo a superficie apenas á vista.
Facilmente observa-se isto na Europa, durante o inverno, nas fontes e poços situados em lugares retirados e sombrios, pois nunca suas agoas se gelam, ou pelo menos se esfriam.
CAPITULO XXXIX
Singularidades de algumas arvores do Maranhão.[66]
As arvores do Maranhão, em sua maior parte, são duras e pesadas, porque a solidez nas coisas mixtas provem da boa cocção da humidade.
N’este paiz existe em igual abundancia tanto a humidade como o calor, cada um durante a sua estação: as chuvas tem seo tempo proprio para alagar a terra, e o calor tambem o tem para coser e digerir esta humidade, que é nutricção dos vegetaes, especialmente das arvores, que estendendo suas raizes dentro e fóra da terra por ahi chupam muita agoa e sobrevindo o calor transforma a humidade em corpo solido.
As arvores estão sempre verdejantes por successão diaria e continua de folhas novas ás velhas, de fórma que, sahindo aquellas dos olhos dos ramos vão logo por força propria attrahindo a seiva, ficando d’ella privada as velhas, que por isso definham e cahem.
Observamos isto no nosso corpo quando uma unha nova vem substituir a velha.
Por esta renovação de folhas conservam-se as arvores no mesmo estado, o que não vemos na Europa porque o inverno retem no interior das arvores o calor natural d’ellas: é necessario que cáiam as folhas antes da ausencia do calor, ficando só a humidade, que apodrece o pé da folha em vez de lhe dar vigor como acontecia no tempo do calor, e por tanto assim se faz a queda das folhas.
No Brazil acontece o contrario porque vivendo o calor e a humidade em boa e perpetua companhia, novas folhas nascem ao mesmo tempo que as velhas cahem: geralmente, em todas as coisas notam-se tres estados: 1.º Crescer. 2.º Permanecer. 3.º Decrescer e assim sempre até morrer: eis o que observamos nas folhas—teem tempo para crescerem, ficarem perfeitas, e depois irem definhando até cahirem seccas.
Entre estas arvores merecem especial menção em primeiro lugar os _mangues_, arvores, que crescem nas barreiras do mar, e espalham seos ramos, e fibras sobre as areias do mar, ou entre as pedras que cobrem o limo, ahi se fortificam, engrossam, e chegando ao seo estado completo, começam elles mesmos a deitar novas fibras, que tem igual desenvolvimento, e assim se reproduzem infinitamente, não pelas raizes, como as outras arvores, e sim pelos seos ramos.
Não sei o que mais admirar, si a successão perpetua de pae a filho, ou a geração inteiramente diversa das outras arvores.
A razão, porque assim produzem estas arvores, provém de serem altas, pesadas e em seo principio finas e delgadas para a raiz, e grossas no centro: se nasciam da raiz de seo pae, nunca poderiam subir por causa da fraqueza e delicadesa de seo pé, da grossura e peso do seo meio, e assim ficam deitadas e rastejando pela areia, a que deo a natureza o encargo de dar dois nascimentos; um do ramo de seo pae, onde ficam perpetuamente encorporadas e por conseguinte bem sustentadas, outro da origem da enseiada do mar, na qual ellas aprofundam e estendem suas raizes, e d’ahi extrahem segunda nutrição, e assim sustentadas e nutridas por cima e por baixo com facilidade crescem.
Notae de passagem esta bella particularidade de terem dois nascimentos e duas nutrições: a primeira de cima consubstancial com o seo gerador, que com elle faz uma mesma essencia, sendo gerado, sahido d’elle, e sempre com elle e inseparavelmente vivendo de sua nutrição. O segundo nascimento e nutrição é debaixo do seio da areia do mar, nutrindo-se do mesmo mar, chamando para cima esta nutrição para unil-a com a que recebe de seo Pae: por estas duas nutrições cresce, estende seos ramos, dos quaes, de novo, por outro nascimento produz seos fios, que adquirem raizes dentro do mesmo mar, que o produz.
D’esta comparação eu me servia para fazer comprehender aos selvagens o Mysterio da Encarnação do Filho de Deos dizendo ter elle dois nascimentos, um de cima, eterno e divino, sahindo de seo Pae sem d’elle sahir, distincto de seo pae por hypostase como o ramo de mangue, com o filho gerado d’elle, unico comtudo na essencia e na substancia com seo gerador, como a fibra com seo ramo, vivendo de uma mesma nutrição divina e celeste, a saber, o amor do Espirito Santo, que constitue a terceira pessoa da Trindade: o outro nascimento é de baixo, temporal e humano, sahido do seio da Virgem Maria, nutrido com o seo leite sagrado, foi crescendo homem e Deos ao mesmo tempo, vivendo interiormente da nutrição divina, e exteriormente da nutrição corporal, e quando chegou á idade de 33 annos e meio, depois de haver communicado sua doutrina celeste aos homens, confirmada por seos milagres, estendeo seos braços, consentindo que fossem pregados na arvore da Cruz e do meio de suas chagas sahiram seos escolhidos, que depois tomaram raizes na Santa Igreja, regenerados pela agoa do baptismo, e nutridos pelos Sanctos Sacramentos.
Diziam-me os selvagens, que comprehendiam isto muito bem e sem a menor difficuldade, porque si Deos deo tal poder ás arvores, que não sentem, porque não poderia elle fazer o mesmo a si?