Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 13

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Do regresso á Ilha do Sr. de la Ravardiere e de alguns Principaes, que o seguiram.

Com a chegada da barca portugueza o Sr. de Pezieux escreveo ao Sr. de la Ravardiere e expedio uma canôa para tal fim, descrevendo o estado em que nos achavamos e prestes a sermos sitiados em breve tempo.

Gastou a canoa tres mezes na viagem, e sciente destas coisas partio logo que poude em direcção da Ilha, afrontando perigos, que muitos são n’estes mares; porem de coisa alguma nos serviria sua actividade, porque se n’esse intervallo soffressemos o cerco seriamos já então vencedores ou vencidos.

Esta interrupção da viagem do Amazonas causou muito mal a Colonia, porque se teria colhido muitos generos pelas margens dos rios, muito mais povoados de selvagens de diversas nações do que a Ilha, Tapuitapera, Comã e Caieté.[50]

São mais pacificos, e bem providos de algodão.

Quanto mais pobres e necessitados de machados, foices, facas e vestidos, tanto mais facil é a troco de qualquer d’estes objectos alcançar grandes riquezas.

Outro prejuiso soffreo a Colonia dos francezes, porque achando-se muitas nações resolvidas a aproximarem-se da Ilha, por ahi residirem e fazerem suas roças, vindo com o Sr. de la Ravardiere, ao saberem taes noticias dos portuguezes, resolveram suspender a execução do seo plano, e esperar o resultado dos negocios.

Chegando o Sr. de la Ravardiere proseguio-se activamente nas obras dos Fortes das avenidas da Ilha, montando-se-lhes artilharia e dando-se-lhes guarnição.

Passados alguns dias achou-se acompanhado por muitos guerreiros selvagens, que vieram para a Ilha, e entre elles estava o _Arraia grande_ dos Caietés, selvagem pelos seos muito estimado, valente, bom conselheiro, e de tal influencia, que os seos companheiros o seguem, trabalham e abraçam inteiramente as suas ideias, o que foi muito util aos francezes visto assim terem muitos homens dedicados, e occupados no serviço.

Pouco antes da viagem do Amazonas alguns bregeiros espalharam entre os _Caietés_ do _Pará_, que sob o pretexto dessa viagem iam os francezes captival-os.

Esta noticia aterrou-os de tal forma, que muitos ja estavam resolvidos a deixar suas casas, e a buscar outro lugar quando o _Arraia grande_ por seos discursos lhes fez vêr quanto era infundado o seo receio, dizendo então muito bem dos francezes.

Elle, sua mulher, e alguns parentes acompanharam uma barca, que ia da Ilha para o Pará em busca dos generos do paiz, ahi mui preciosos.

Quiz a infelicidade que, no regresso para a Ilha, naufragasse a canôa por estar muito pesada duas legoas longe da terra.

Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se agarrados a um pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao bote.

Esperou o _Arraia grande_, que todos procurassem meios de salvarem-se, e afinal elle, sua mulher, e um interprete francez si puzeram a nadar animando elle a todos com estas palavras—«a morte é invejosa, vêde como atira estas ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo, mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que não é chegado o tempo de nos levar.»

Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto um francez, victima de tubarões.[51]

Vendo o _Arraia grande_ os francezes nús e famintos, em lugares estereis e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a nado atravessou grande espaço cheio de mangue desembaraçando-se á muito custo das raizes destas arvores, e do tujuco onde as vezes se enterrava até o pescoço.

Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem com algumas canoas, vestidos e viveres, e depois que todos regressaram ás aldeias defronte do lugar do naufragio, elle lhes entregou tudo quanto haviam perdido, e que o mar tinha atirado ás praias.

Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, onde se demorou um anno pouco mais ou menos, e em tão pouco tempo aprendeo a fallar francez, e ainda hoje se fazia entender bem, embora ja se houvessem passado muitos annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda hoje conta varias particularidades, que la existem.

Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse relativamente ao Christianismo, porque deixo isso para o seo lugar proprio, mas quanto ao temporal muitas vezes o ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente aos _Tabajares_ do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, que habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, de muito vinho, de pão, de boi, de carneiro, de galinhas, de muitas especies de ovos, e de grande variedade de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, cercadas de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia, batendo o mar na base da muralha, ou então sendo esta circulada de fossos cheios d’agoa.

«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, e os Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados por muitas pessoas, como o Sr. de la Ravardiere, residente perto da cidade, onde cheguei.

«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade chamada Pariz. Os francezes aborrecem, como nós, os _Peros_, e lhes fazem guerra por terra e por mar, e sempre com vantagem, porque são fracos os _Peros_, valentes e animosos os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. Alguns maldizentes de nossa gente espalharam não terem os francezes podido tomar os _Camarapins_, porem isto é falso. Cumpriram seo dever e si os Tupinambás tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o chefe dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos fossem queimados como aconteceo em parte.»

Fez este e outros discursos similhantes, e depois percorrendo a Ilha, em cada aldeia os repetia nas _reuniões_ na _caza grande_.

Procurando imitar a maneira porque entrou na grande praça de São Luiz, não só para saudar os Tabajaras, como tambem para ajudar os francezes, dispoz elle a sua gente, em numero de cem a cento e vinte, um a um, ou um atraz do outro, e assim por diante.

A uns deo cabaças, panellas, e rodela, e a outros espadas e punhaes, a estes arcos e flexas, a aquelles differentes instrumentos, dividindo os tocadores de Maracá[52] pelas desenas, e assim percorreram a habitação dos _Tabajaras_, e depois foram á praça grande do Forte, onde estavamos, e ahi acabaram suas danças, muito similhantes a dos _Pantalons_, andando e fazendo mesuras, batendo todos ao mesmo tempo com o pé em terra, ao som da voz e do Maracá, cujo compasso todos observavam entoando sempre louvores aos francezes.

Mechiam em todos os sentidos a cabeça e as mãos, com taes gestos que faziam rir as pedras.

Chamam os Tupinambás a esta dança _Porasséu-tapui_, quer dizer, _dança dos Tapuias_, porque era outra a dança dos _Tupinambás_, sempre em roda e nunca mudando de lugar.

Acabada a dança, veio saudar-nos, e foi comer e descançar na casa, que se lhe havia preparado.

CAPITULO XXXIII

Viagem do capitão Maillar,[53] pela terra firme á casa de um grande feiticeiro. Descripção d’esta terra e das zombarias d’elle.

É verdade, reconhecida por todos que hão habitado o Brasil, não ser a terra firme tão bonita e tão fertil como as Ilhas.

São as ilhas formadas por areia preta e fina, queimada e ardente pelo continuo calor, e por isso são ellas mais sujeitas n’esta Zona tórrida aos calores e ardores, porque o mar redobra pela reflexão e poder da luz do Sol sobre a capacidade proxima e concentrica da terra, o que se prova por meio dos espelhos ardentes, cujos centros sendo opacos, e mais elevados do que suas circumferencias e bordas, os raios do sól se reunem e concentram ahi, produzindo fogo e chama, e assim queimando os objectos convenientemente dispostos n’esses lugares.

Ouvindo o Sr. de la Ravardiere os indios fallarem muitas vezes de uma localidade muito boa, distante 100 ou 150 legoas do Maranhão, na terra firme para as bandas do rio Mearim e longe d’elle 40 ou 50 legoas, mandou uma barca e canoas com o capitão Maillar de São Maló, alguns francezes, e um cirurgião, todos muito conhecedores da natureza das hervas e arvores preciosas.

Ahi vivia, vindo do Maranhão, um dos seos principaes feiticeiros, com 40 ou 50 selvagens, entre homens e mulheres, n’uma aldeia, que edificara, cultivando a terra, que tudo lhe produzia em abundancia, e por isso abusando da credulidade dos Tupinambás este miseravel lhes dizia possuir um espirito com o poder de fazer a terra dar-lhe o que quizesse.

Ahi chegou o capitão com muitas difficuldades, passando vasta e comprida planicie de juncos e caniços, atravessando agoa pela cintura, e depois de alguma demora regressou contando-nos o seguinte.

A terra d’esta localidade é dura, gorda e negra, boa para a cultura da canna do assucar, e muito melhor que a de Pernambuco, o que bem podia avaliar por ter residido por muitos annos ahi e em outros lugares possuidos pelos portuguezes.

A terra é cortada por muitos riachos capazes de moverem engenhos para o fabrico do assucar.

Ha abundancia de peixes d’agoa doce, grandes e de varias qualidades; são innumeraveis as tartarugas; existe toda a qualidade, e em quantidade inexprimivel, de caça, como sejam viados, corças, javalis, vacas-bravas, e diversas especies de tatús, muitos coelhos e lebres, iguaes ás de França, porem mais pequenas, immensa variedade de passaros, como sejam perdizes, faisões, mutuns,[54] pombas bravas, trocazes, rolas, garças-reaes, e outras admiraveis.

A terra produz raizes tão grossas como a coxa: o tabaco petum ahi cresce forte e optimo, e dizem que dá duas colheitas por anno.

O milho cresce forte, cheio, e dá muitas espigas.

Ha fructas muito melhores, e em maior quantidade do que na Ilha, em _Tapuitapera_, e _Comã_, papagaios de varias côres e diversos tamanhos, notando-se entre elles os _Tuins_,[55] do tamanho de pardaes, os quaes aprendem com facilidade a fallar, porem morrem de mal quando são levados para a Ilha: vi entre muitos salvarem-se apenas seis, os quaes comendo, cantando, e dançando em suas gaiolas, sem apparencia de molestia, davam duas ou tres voltas e morriam logo.

Ha tambem muitos macacos e monos barbados, bonitos e raros, e que seriam muito apreciados em França, se lá chegassem.

Ahi residia um barbeiro ou feiticeiro muito bem arranjado e com todas as commodidades.

Tinha vindo, um pouco antes d’esta viagem, fazer suas feitiçarias e nigromancias para ganhar o vestuario e a ferramenta dos selvagens do Maranhão e leval-os comsigo quando fosse para a sua terra. Estas feitiçarias eram diversas.

Tinha uma grande boneca, que com artificio se movia, especialmente com o maxilar inferior; dizia elle ás mulheres dos selvagens, que si desejavam vêr quadruplicada a sua colheita de grãos e legumes trouxessem e dessem á ella alguns d’estes generos, afim de serem mastigados tres ou quatro vezes, e por esta forma recebendo a força de multiplicação do seo espirito, que estava na boneca, podiam depois serem plantados em suas roças, pois já comsigo levavam a força da multiplicação.

Gozou de muita influencia por onde passou, muitas foram as dadivas das mulheres, e mal satisfazia o que promettia, guardavam ellas com todo o cuidado os legumes e grãos mastigados.

Estabeleceo uma dansa ou procissão geral fazendo com que todos os selvagens levassem na mão um ramo de palmeira espinhosa,[56] chamada _tucum_, e assim andavam ao redor das casas, cantando e dansando, para animar, dizia elle, o seo espirito a mandar chuvas, então n’esse anno mui tardias: depois da procissão _cauinavam_ (bebiam _cauim_) até cahir.[57]

Mandou encher d’agoa muitas vasilhas de barro, e rosnando em cima d’ella não sei que palavras, ensopava um ramo de palmeira, e com ella aspergia a cabeça de cada um d’elles, dizendo «sêde limpos e puros afim de meo espirito enviar-vos chuva em abundancia.»

Tomava uma grande tabóca de bambu, enchia-a de _petum_, deitava-lhe fogo n’uma das extremidades, e depois soprava a fumaça sobre os selvagens dizendo «recebei a força do meo espirito,[58] e por elle gozareis sempre saude, e sereis valentes contra vossos inimigos.»

Plantou no centro d’aldeia uma arvore de maio, carregou-a de algodão, e depois de haver dado muitas voltas e vira-voltas em redor, lhes prognosticou grande colheita n’esse anno.

Apezar de tudo isto não vindo a chuva, dia e noite fazia elle dançar e cantar os selvagens, gritando com quanta força tinham afim de despertar seo espirito, como faziam outr’ora os sacrificadores de Baal.

Com tudo isto não choveo.

Fez acreditar á estes selvagens, que elle bem via o seo espirito, carregado de chuvas, do lado do mar, porem que não se animava a vir por causa da _Cruz_, erguida no centro da praça, fronteira a Capella de N. S. d’Vsaap, e que se quizessem ter chuva não havia mais do que deital-a por terra, e teriam concordado n’isto facilmente, pondo-o logo em execução se ahi não estivessem os Francezes, e si não temessem o castigo.

Chegando estas noticias ao Forte, mandou-se immediatamente o _Cão-grande_ e alguns Francezes para irem buscar o feiticeiro afim de vêr si elle poderia dançar no meio d’uma sala, contra sua vontade, e teria sido preso si, advertido como foi, não preparasse sua bagagem, e com sua equipagem não se salvasse n’uma canôa, mandando desculpar-se, d’ahi ha pouco tempo, por um seo parente trazendo muitos presentes com o fim de fazer pazes.

Fez crer aos selvagens da Ilha, que tinha um espirito muito bom, que era muito amigo de Deos, que não era mau, e que por tanto só podia fazer bem.

Dizia elle: «come commigo, dorme, caminha diante de mim, e muitas vezes vôa diante dos meos olhos, e quando é tempo de fazer minhas hortas, só tenho o trabalho de marcal-as com um pau a sua extensão, e no dia seguinte acho tudo prompto.»

Sabendo alguns selvagens christãos, que pretendiamos castigar seo companheiro que d’elles tanto abusou, me pediram, que me condoesse d’elle e que nada soffresse por não ter sido mau e nem o seo espirito, visto terem ambos feito crescer os bens da terra. Ensinei-lhes a este respeito o que deviam crêr.

Vede, meos leitores, quanto Satanaz é astucioso: similhante á um macaco imita as ceremonias da Igreja para elevar sua superstição, e conservar sob seo dominio as almas dos infieis por essa procissão de palmas, essa aspersão d’agoa, esse sopro de fumo para communicar o espirito, de que fallaremos mais simplesmente no _Tratado do espiritual_.

CAPITULO XXXIV

Da vinda dos Tremembés, como foram perseguidos, suas habitações, e procedimento.

N’esse tempo a nação dos _Tremembés_, moradora alem da montanha de _Camussy_, e nas planicies e areiaes da banda do rio _Tury_, não muito distante das Arvores Seccas, das Areias Brancas, e da pequena Ilha de Santa Anna, sahio, sem esperar-se, para a floresta, onde se aninham os passaros vermelhos, e para os areiaes onde se encontra o ambar gris, e se pesca grande quantidade de peixes, com intenção, de surprehender os _Tupinambás_, seos inimigos irreconciliaveis, o que malogrou-se, visto que muitos _Tupinambás_ da Ilha tendo ido ahi com o fim especial de pescar, foram accommettidos pelos _Tremembés_,[59] sendo uns mortos immediatamente, outros captivos sem saber-se o que d’elles fizeram, e finalmente alguns embarcados n’uma canôa poderam salvar-se regressando á Ilha do Maranhão, onde contaram tão tristes casos causando nas aldeias, a que pertenciam os mortos, tanta indignação, que todos, vóz em grita e chorando, especialmente as mães e as mulheres, insistiram pela vingança, ao que acquiesceram os Principaes, vindo pedir aos francezes um chefe e alguns soldados, no que foram satisfeitos.

_Japy-açú_ foi o conductor d’este exercito[60] composto de grande numero de selvagens, e acompanhado por alguns francezes.

Atravessaram o mar entre a ilha e as areias brancas, saltaram em terra para descançar e passar a noite pescando uns, caçando outros, e as mulheres e as filhas procurando agoa pelos areiaes, a qual não podia ser senão salôbra, isto é, meia doce e meia salgada, armando as redes, fazendo fogo e preparando a comida.

Os mancebos _Tupinambás_ fizeram _Aiupuues_, (choupanas) tanto para os Principaes como para os Francezes: na melhor _auipaue_ alojou-se o Coronel, e os Capitães armaram suas redes ao redor da do Coronel, ceremonia que observam em todas as suas guerras, especialmente quando se acham perto do inimigo.

Escondem o fogo com receio de não serem á noite descubertos pelos inimigos, por ser costume geral d’elles o fazer subir no cume de arvores muito altas suas sentinellas afim de descubrirem fogo ou luz dos inimigos.

Na manhã seguinte puzeram-se em marcha até um grande areial cercado de mato por tres lados, e de mar pelo ultimo: ahi encontraram as choupanas dos _Tremembés_, uma panella portugueza, e combinando isto com o que já sabiamos anteriormente, ficamos sabendo, que os Portuguezes estavam na _Tartaruga_, na serra de _Camussy_, unidos aos _Tremembés_, aos _Montagnars_, tanto de _Ybuapap_ como de _Mocuru_, principalmente com _Jeropary-uaçu_, isto é, com o _Grande-diabo_, principe e rei de uma grande nação de Cambaes,[61] muito amigo dos francezes, e inimigo natural dos portuguezes, podendo afiançar-se com certesa, que si os francezes ahi fossem, elle trahiria os portuguezes e unindo-se a elles, por ser _mulato-francez_, isto é, filho de um francez e de uma india.

Voltemos ao nosso proposito.

Encontraram os nossos selvagens ainda vivo um dos seus, que fugio para o mato, e escondeo-se no concavo de uma arvore; porem ouvindo o som das trompas de guerra, que eram feitas de um grosso madeiro cavado, tendo as aberturas superior e inferior similhantes á uma trombeta, sahio muito magro, e quase que sem figura humana por não ter comido durante oito dias senão folhas da arvore, onde escondeo-se: ensinou, como lhe permittiram suas forças, o lugar onde jaziam mortos seos companheiros, que foram encontrados com as cabeças rachadas, e sobre seos corpos os machados de pedras, instrumentos d’essas atrocidades, por ser costume entre elles nunca se servirem d’uma arma com que ja mataram um inimigo.

_Caruatapyran_, um dos Principaes de Comã, trouxe-me um d’esses machados de pedra, ainda tinto de sangue, com alguns cabellos adherentes, e com um pouco do cerebro do Principal _Íanuaran_, que com elle foi morto, o que se soube por ser encontrado sobre seo corpo.

_Caruatapyran_ pegando um d’esses machados, feito em fórma de crescente, ensinou-me o que eu não sabia, dizendo-me terem os _Tremembés_ o costume mensal de vellar toda a noite fazendo seos machados até ficarem perfeitos, em virtude da superstição, que nutriam, de que indo para a guerra armados com taes instrumentos nunca seriam vencidos, e sim sempre vencedores.

Em quanto os homens e as mulheres se entregavam a este trabalho dançavam as moças e os meninos a frente das choupanas ao luar do crescente.

São valentes os _Tremembés_ e temidos pelos _Tupinambás_; d’estatura regular, mais vagamundos do que estaveis em suas moradias: alimentam-se ordinariamente de peixes, porem vão á caça quando lhes apraz: não gostam de fazer hortas, e nem casas: moram debaixo das choupanas; preferem as planicies ás florestas porque com um simples olhar descobrem tudo quanto está ás suas vistas.

Não conduzem após si muita bagagem, pois contentam-se com seos arcos, flexas, machados, um pouco de _cauï_, algumas cabaças[62] para guardar agoa, e umas panellas para cozinhar a comida: com mais destresa que os Tupinambás pescam á flexa: são tão robustos a ponto de segurarem pelo braço um dos seos inimigos e atirarem-no ao chão, como se fosse um capão. Dormem n’areia ordinariamente.

Servem-se d’este lugar de areias brancas, e de arvores seccas para agarrar os _Tupinambás_, como ratoeira para pilhar ratos, e isto por tres razões.

A primeira, por causa da pesca, ahi abundante e variada.

A segunda, por causa de uma floresta, onde os passaros vermelhos de todas as partes vem fazer ninho para desovar. Não deixam de ir ahi em certo tempo os _Tupinambás_ para tirar do ninho os filhótes e os ovos meios chocos, havendo abundancia impossivel de descrever-se, levando, quando regressão á villa, provisão para dois mezes, preparando antecedentemente uns assados, e outros seccos e duros como paus, o que nunca me agradou, e a fallar verdade, nunca pude comel-os, embora sejam para os selvagens o primeiro prato, e bem delicioso. Logo contarei alguns uzos particulares, e bem notaveis, d’estes passaros.

O terceiro motivo é para colher o ambar-gris, chamado pelos Tupinambás _Piraputy_ «excremento de peixes,»[63] por que elles pensam ser o ambar-gris o excremento das baleias, ou de outros peixes iguaes em corpulencia, o qual vindo á tona d’agoa, é pelas ondas atirado a essas praias.

Dizem alguns francezes não ser o ambar-gris outra coisa mais do que a «flor do mar,» a que os selvagens chamam _Paranampoture_, ou uma certa gomma do mar, _Paranamussuk_.

Decida o leitor como lhe aprouver.

N’estas areias encontra-se o ambar-gris em massa, mais n’um tempo do que n’outro, e algumas vezes chega a massa a tal tamanho e grossura, que merece ser guardada n’algum gabinete real, não podendo ser justamente apreçada e vendida. Acontece as vezes virem poisar sobre ellas todos os bixos, passaros, carangueijos, lagartos, e outros reptis d’ahi, das circumvisinhanças, e do mar, e com elles as vêem procurando-as com cuidado, e por isso são essas grandes massas partidas em varios pedaços.

Aconselhei a elles, que ahi fizessem um _Forte_ não só para impedirem as correrias dos _Tremembés_, como para tapar a entrada aos navios, que buscam a Ilha de Sant’Anna afim de colherem o ambar-gris; não ha duvida, que o mar atira muitas vezes sobre estas areias o ambar, que por ahi espalhado é comido por animaes, passaros e reptis, pois os selvagens da Ilha ahi vão apenas duas ou tres vezes durante o anno.

Tenho certesa, que a colheita do ambar chegaria para pagar as despezas do Forte, da sua guarnição, e do mais que fosse necessario.

Os nossos selvagens e francezes depois de muitas indagações por varios lugares somente acharam os corpos mortos dos seos, as choupanas, e vestigios de inimigos, e assim regressaram á Ilha mais famintos do que feridos.

CAPITULO XXXV

Da chegada dos Cabellos-compridos á Tapuitapera e da viagem ao Uarpy.

Lá para o lado do Oeste havia uma nação, de que nunca se fallou, desconhecida por todos os _Tupinambás_, moradora nos mattos na distancia de mais de 400 á 500 legoas da Ilha, sem conhecer a vantagem dos machados e das foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e assim viviam em segredo nas florestas d’essa localidade sob a obediencia de um Rei.

Souberam por alguns selvagens, que apresionaram no mar, da vinda dos francezes á Maranhão, da sua residencia ahi, trazendo comsigo Padres, que ensinavam qual era o verdadeiro Deos, e absolviam os selvagens dos seos peccados.

Levando taes noticias ao seo rei mandou este logo algumas canoas, e n’uma d’ellas foi o governador, abaixo d’elle, d’esta nação, acompanhado por duzentos mancebos fortes e valentes, ageis na natação e no uso da flecha, com instrucção de chegarem á Ilha, porem não podendo pôr pé em terra, limitando-se apenas a fallar com os interpretes dos francezes, e regressando depois á sua terra tomando todo o cuidado para não ser descoberto o caminho que seguiam.

Chegaram defronte de _Tapuitapera_, onde então se achava o interprete _Migam_, que apenas soube da chegada d’elles foi ao seo encontro no mar, e com o seo Principal fallou por muito tempo.

Interrogou-o o Principal acerca dos Padres, quem eram, o que faziam e ensinavam: á respeito dos francezes, quaes suas forças, e mercadorias, si era certo terem conciliado os _Tupinambás_ com os _Tabajares_, e si viviam em paz na Ilha.