Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux

Part 11

Chapter 113,551 wordsPublic domain

Não penso em coisa alguma. Ai Kogué. Penso em alguma coisa. Maerssé-kaien-arico. Penso em vós. Dressé kaien-arico.

Si veem um conversando com outros, tem muita curiosidade de saber o que dizem, e por isso vão procural-os, e amigavelmente lhe perguntam:

Que dizeis? ou então, em que { Mára-erepe? Mára-erepipo? conversavam? { Mara-peie-peiupé.

Respondem elles:

Fallavamos de nossas occupações. Ore-rei-koran koiomongueta. Fallavamos de vós. Deressé koia-mongueta.

Assim passavam entre si a vida mui pacifica e familiarmente.

CAPITULO XXV

Dos caracteres incompativeis entre os selvagens.

Costumava Socrates dizer, que assim como o vinho aspero e grosseiro é de digestão má e desagradavel ao paladar, assim tambem os caracteres rudes, grosseiros e impectuosos não servem para companheiros de uma conversação entre homens.

Escreveo Plutarcho, que assim como o som aspero dos caldeirões e panellas quebradas encolerisam os tigres a ponto de fazel-os accommetter desesperadamente e saltar sobre os que vem fazer perto d’elles tão incommodo e desagradavel barulho, assim tambem fazem as más inclinações, ou os maus caracteres entre os homens.

Aborrecem sobre todas as coisas o companheiro, que provoca e faz mal ao seo visinho, e chamam-no _Moiaron_, e quando se insultam por palavras, chamam-no então _Oroacap_.

Quando encontram taes caracteres, fogem d’elles e evitam iguaes contestações, e ainda fazem mais, previnem os Francezes seos compadres, afim de que nada peçam á tal gente.

Si por ventura teem mulheres com esse genio ficam muito contrariados, e não necessitam ser muito rogados afim de livrarem-se d’ellas, ou de consentir que vão para onde bem lhes parecer.

Ha em _Juniparan_, na Ilha, um hermaphrodita, no exterior mais homem do que mulher, porque tem face e voz de mulher, cabellos finos, flexiveis, e compridos, e comtudo casou-se e teve filhos, mas tem um genio tão fórte que vive porque receiam os selvagens da aldeia trocar palavras com elle.

Presenciei a mudança de uma familia inteira somente para evitar a visinhança de um selvagem de muito máo caracter.

Escarnecem e despresam o homem, que se accommoda com as provocações e questões de sua mulher quando ella tem mau genio.

Em quanto ahi morei, aconteceo aborrecer-se um selvagem do mau genio de sua mulher a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda segurar nos cabellos d’ella querendo experimentar se este oleo e balsamo adoçaria o azedume de seo mal, porem admirou-se de vêr, que cahindo o fogo na chaga mais o augmentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos, á vista dos visinhos, tomou tambem ella outro cacete, quiz fazer o mesmo ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande applauso de todos, ficaram ambos com igualdade de circumstancias frente a frente um do outro, sendo depois o marido a fabula e o assumpto de todas as conversas, quer dos grandes quer dos pequenos. Diziam os antigos nas suas _Casas-grandes_, que elle não teve remedio si não ficar com sua mulher, porque já a conhecia.

Vi os abandonar e deixar seos generos a quem vendem, só para evitar questões com o comprador.

Notareis, que elles só tem—_sim_ e _não_—quando negociam juntos, ou com os Francezes, nunca regateando.

Muitos outros exemplos eu poderia ainda reproduzir, porem bastam estes.

Avaliam muito bem as pessoas colericas, a que chamam _Poromotare-vim_, e reciprocamente se advertem dizendo—_Cheporomatare-vim_, «estou encholerisado,» e então ninguem lhe diz nada, antes buscam abandonal-o o mais que podem, o que exprimem por _Mogerecoap_, «abrandar alguem». _Aimogerecoap_, «abrando o que está encolerisado.»

Observei muitas vezes, quando viam um Francez enraivecido, ficarem como que fóra de si, mudarem de côr, e fugirem da vista d’elle, dizendo uns aos outros _Ymari turuçu_ «está muito zangado, está muito enfurecido.» _Ché-assequeié seta_. «Tenho medo d’elle.»

Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que conseguiram.

Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de espancarem-se, o que chamam _ionupan_ «espancar-se», e ainda mais quando se ferem, o que explicam por _iuapichap_, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas casas, o que exprimem pela palavra _Iuapic_ «incendiarios» reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada.

Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham dos Francezes.

Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as publicas consentem que se as chame _Pataqueres_ «meretrises.»

Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a _Pataquere_, «meretriz» com o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria vivo.

Chamam a injuria _Curap_.

Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse São Basilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem n’um animal feroz—_Hominem penitus in feram converti_: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo.

São Gregorio Magno, no 5º livro da sua _Moral_, cap. 30, diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—_Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis_.

Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem.

Não é coisa nova e nem fóra de proposito o temerem e fugirem estes selvagens quando veem um homem encolerisado, especialmente um Francez, porque diz o proverbio, cap. 27—_Impetum concitati spiritus ferre quis poterit?_

Não é menos difficil de crer-se, que, por despeito, apoz calorosa ou inconveniente questão, queimem elles suas casas, porque no _Proverbio 26_ acha-se _sicut carbones ad prunas et ligna ad ignem_—assim como o carvão é para o brasieiro, e a lenha para o fogo, assim tambem a questão de palavras é para o homem naturalmente colerico, _sic homo iracundus suscitat rixas_, e no _Ecclesiastico 28_, _secundum ligna sylvæ, sic ignis exardescit_—tal é a quantidade da lenha qual a força do fogo, fallando da colera.

CAPITULO XXVI

Da economia dos selvagens.

Dizia Pitacus ser bem regulada a familia quando n’ella encontram-se duas coisas—falta de superfluidade tanto no que diz respeito á vida como ao governo da casa, e o que é necessario para isto.

Diz Cicero, que perguntando-se a Catão, qual é o melhor governo de uma casa, elle respondera—onde houver comida, vestuario e amor ao trabalho.

Parece-me ser estas sentenças mais applicaveis aos selvagens, e aos que passam vida frugal do que á outra classe de individuos.

São Thomaz definindo a economia concluio dizendo não ser outra coisa mais do que uma boa ordem domestica, e para conseguir-se este fim convinha, que a familia tivesse viveres e tudo o mais necessario a vida, sendo mui essencial não só uma boa intelligencia, como tambem que cuidassem todos os membros d’ella em seos deveres.

A propria natureza, e não qualquer sciencia adquirida, ensina isto aos selvagens.

As aldeias são divididas em quatro habitações, sob o governo de um _Muruuichaue_, para o temporal, e um _Pagy-uaçú_ «um feiticeiro» para as molestias e bruxarias.[43]

Cada habitação tem o seo Principal: estes quatro Principaes estão sob as ordens do maioral da aldeia, o qual conjunctamente com outros de varias aldeias obedecem ao Principal soberano da provincia. Cada...

(falta uma folha.)

CAPITULO XXVIII

Do cuidado que do seo corpo tem os selvagens.

Platão chamava o corpo um privilegio da Naturesa, e Crates, o philosopho, um reino solitario.

Mereceriam estas duas sentenças amplo desenvolvimento, si não nos occupassemos de uma historia, que exige estylo conciso, sem superfluidade de palavras ou digressões fóra de proposito.

Applicamos comtudo o dizer d’estes dois philosophos ao nosso assumpto para notar, que tendo a naturesa, por longos annos, recusado vestidos aos corpos dos indios, os compensara formando-os bellos e agradaveis, sem o menor auxilio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como si fosse qualquer pedaço de pau.

Assenta-lhes muito bem a opinião de Crates chamando o corpo um reino solitario e deserto, porque assim como os animaes do deserto crescem e ficam vigorosos, em quanto residem ahi, isto é, em sua plena liberdade, assim tambem quando sob o dominio do homem e presos, embora no Palacio dos Reis e principes da terra, para serem vistos e observados como novidade, principiam logo a emagrecer, a entristecer-se, a perder o desejo da propagação e de conservação da especie, somente por terem perdido a liberdade que outr’ora gosavam no seu reino solitario.

Negando a natureza á estes selvagens viveres bem preparados, bebidas bem feitas, vestidos pomposos, leitos macios, soberbas casas e palacios, compensou-os porem, dando lhes plena liberdade como aos passarinhos no ar, e as bestas no campo, sem lastimarem-se, como fazem outros quando comparam as pretendidas commodidades d’este Mundo.

Se o diabo com o fim de roubar-lhes o bem da salvação, não se metesse entre elles, levantando novas discordias afim de se matarem e comerem reciprocamente, não haveriam por certo homens mais felizes no mundo por causa de sua natural franqueza e liberdade, que, adubando as suas carnes as transformam em perfeita e saudavel nutrição, e d’ahi provem a bellesa de seos corpos.

Espero a objecção para responder—isto é, de se terem visto muitos indios sordidos e horriveis. Respondo: não é no rosto, onde se deve observar a forma e a bellesa de um homem, e eis a razão porque Demostenes zombou, quando os embaixadores de Athenas regressando de sua commissão junto a Philippe, Rei de Macedonia, gabavam muito a formosura d’elle: não, não, disse Demostenes, não é digna de louvor a belleza do rosto de um homem, tão commum entre os Cortezãos, porem merece encomios a sua estatura, a proporção de seos membros, e a sua figura e elegancia.

Fallo de haver a naturesa dado ordinariamente aos selvagens, e especialmente aos _Tupinambás_, corpo bem feito, bem proporcional e elegante, e quando estragam seos rostos por incisões, fendas, e extravagancias de pinturas e de ossos, o fazem pela ideia erronea, que tem, de serem por isto reputados valentes.

Tem muito cuidado na limpesa de seos corpos: lavam-se muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem muita agua sobre si, em que se não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras immundicies.

Penteiam-se as mulheres muitas vezes.

Receiam emmagrecer, o que chamam em sua linguagem _angaiuare_, e lastimam-se diante dos seos semelhantes dizendo _Ché-angaiuare_, «estou magro,» e todos se compadecem mormente quando chegam de qualquer viagem abatidos pelo trabalho: todos o lastimam e o deploram, dizendo _Deangoiuare seta_, «ah! quanto está magro, só tem ossos.»

Eis a causa unica por que não podiam residir comnosco os rapazes baptisados, visto temerem muito as mães, que não emagrecessem em poder dos Francezes, os quaes suppunham ter falta de tudo.

Não consentiam que seos maridos trouxessem comsigo os filhos para vêr os Padres e as Capellas de Deos, senão á força, e com vivas recommendações para que voltassem, e quando se lembravam d’elles grande era a sua tristesa, e choravam.

Conservei em minha companhia um rapaz de _Tapuitapera_ chamado _Miguel_, já baptisado, e que muito bem sabia a doutrina christã, afim de ensinal-a aos meos escravos.

Residio comigo por alguns mezes, porem não poude ficar mais por causa das importunações de sua mãe, e a dor que mostrava chorando e lamentando-se constantemente, de maneira que veio seo pae de proposito para leval-o, dizendo-lhe que sua mãe o esperava cheia de piedade (modo de fallar para mostrar compaixão): veio pedir-me licença para o seo regresso chorando por deixar-me (tanto amam e estimam seos paes!) dizendo que sua mãe estava magra, e cheia de tristesa por sua ausencia e pensando tambem que elle definhava estando comigo, asseverando-me que contaria á sua mãe o bom tratamento que eu lhe dava, e a licença que lhe concedi de voltar a sua casa.

Um de nossos escravos commetteo uma falta, pela qual ia ser castigado: mal soube elle desta resolução, e quando ia ser preso, disse que estava magro, e que não o açoitassem como si fosse gordo, porque a gordura cobre os ossos, apara os açoites e impede que a dor lhes chegue. «Si me açoitaes com força me quebraes as veias apenas cobertas pela pelle», e assim dizia por ser muito magro.

Para engordarem reuniam-se muitos indios, embarcavam-se n’uma canoa grande, muniam-se de farinha, de flechas e de cães, iam á terra firme, onde matavam a caça, que apeteciam, como veados, onças, capivaras, vaccas bravas, tatùs, e muitos passaros, e ahi se demorando em quanto havia farinha, engordavam á farta com estas comidas, e voltavam depois para a Ilha trasendo muita caça assada.

Quando á Ilha regressou da guerra do Pará o indio _Brasil_ julgando-se magro, pedio licença ao Sr. de Ravardiere para ir á terra firme levando comsigo alguns Francezes afim de engordar, o que lhe foi permittido.

Embrenharam-se muito pelo sertão, e quando a felicidade os encheo de caça, aconteceo-lhes uma desgraça—acabou-se-lhes a farinha: viram-se obrigados a comer palmito, como si fosse pão, com a carne que tinham, o que contrariou muito os Francezes não habituados a esta especie de pão, sentindo muito que a festa não fosse completa, havendo tanta carne, sem pão e sem sal.

Aconteceo-lhes o mesmo, que a Midas, possuidor de muito ouro, quando sua mulher lhe apresentou na meza muitas iguarias, todas porem de ouro, ou então á Tantalo morrendo de sêde apezar de cercado d’agoa: o mesmo lhes aconteceo, emagreciam em vez de engordarem por não levarem a farinha necessaria.

N’este ponto os Francezes imitam os selvagens, e por isso estes os estimam.

Os Francezes residentes no Fórte pedem licença para passeiar e refazerem-se de forças.

Quando os selvagens sabem d’isto, vão á caça, e mediante a troca de alguns generos offerecem a estes passeiadores dois ou tres banquetes: findos estes regressam á sua terra, e assim vão continuando ora n’uma aldeia, ora n’outra, girando por toda a Ilha, ou provincia de _Tapuitapera_ e _Comã_ divertindo-se e engordando.

Os Francezes hospedados por seos compadres n’estas aldeias não são muito felizes em seos passeios, porque se ha então alguma coisa boa não é para elles, e sim para os viandantes.

Costumam os selvagens dar o melhor, que possuem aos hospedes, por dois ou tres dias, findos os quaes tratam-nos com o uso commum e trivial.

Admire-se, eu vos peço, ainda que ligeiramente, o grande amor de Deos para com os homens, dando-lhes o sentimento natural da caridade para com o proximo. O que fazem de melhor os christãos, ou observam os Religiosos, do que a caridade puramente natural dos selvagens, que não podem alcançar a gloria, bem differente do que acontece á caridade sobre natural dos christãos, que espera a recompensa da vida eterna?

O aceio do corpo faz-se por muitas maneiras, e entre ellas contam-se estas.

Trazem sempre na bocca a herva do Petun, (tabaco ou fumo) cujo fumo expellem pela bocca e narinas com intenção de seccar as humidades do cerebro e as vezes o engolem para limpar o estomago de cruezas que sahem por meio do arrôto.

Apenas acabam de comer fumam o Petun, e o mesmo praticam pela manhan e a noite, quando se levantam e deitam-se.

A proposito de Petun devo contar a ideia supersticiosa, que formam desta herva e do seo fumo.

Crêem, que esta herva os torna discretos, judiciosos, e eloquentes, de forma que antes de começarem algum discurso usam d’ella: não me parece, que seja comtudo muito supersticiosa, porque ha nisto uma razão natural: eu mesmo a experimentei, e reconheci, que a sua fumaça exclarece o entendimento dissipando os vapores dos orgãos do cerebro, fortalece a voz seccando a humidade e escarros da bocca, permittindo assim facilidade á lingua para bem exercer suas funcções.

É facil experimentar-se isto usando-se d’ella com parcimonia e em occasião propria, porque o abuso continuado d’ella não me parece bom e saudavel aos que se alimentam de bebidas e carnes quentes, porem é util aos que sentem frios e humidos o estomago e o cerebro.

Eis a razão porque o selvagem, habitante d’esta zona humida, e que bebe de ordinario somente agoa, uza constantemente d’este fumo afim de descarregar o cerebro de humidades e frialdade, e o estomago de cruezas, o que tambem praticam os marinheiros e os habitantes das praias.

Pondo-se de infusão por espaço de 24 horas esta herva, presta-se muito para purificar o corpo de infecções. Usa-se somente do vinho.

Crêem tambem que, engolindo o fumo, ficam alegres, joviaes e previnidos contra a tristesa e melancolia.

Vou referir-vos alguns casos que me contaram:

Um selvagem que foi morto na bocca de uma peça, e de quem hei-de fallar no _Tratado do Spiritual_, antes de se encaminhar para o supplicio pedio um macinho de _Petun_, como ultima consolação d’esta vida afim de morrer com energia e alegria. Apenas alcançou o que desejava mostrou-se alegre e sempre cantando até o fim.

Quando seos companheiros o ataram á bocca da peça, elle pedio para que não amarrassem o braço direito de fórma que o embaraçasse de levar á bocca o Petun: quando a bala dividio o seo corpo em duas partes, uma foi para o mar, e a outra cahio na base do rochedo, e n’esta achou-se ainda seguro pela mão direita o mólho de _Petun_.

Os selvagens sentenciados á morte não soffrem a pena sem usarem antes do _Petun_, conforme o costume da terra, e não deixavam este habito nem mesmo os doentes.

Os feiticeiros do paiz servem-se d’esta planta com proveito, o que agora não refiro, e sim guardo para o fazer mais adiante, si não me esquecer.

Empregam ainda outro meio para a conservação da saude.

Comem muitas vezes e pouco de cada uma: depois que comem lavam muito bem a bocca, e se tem sêde quando comem, bebem pouco apenas para apagar a sêde, gargarejam bem a agua na bocca para aplacar o ardor do paladar.

Cozinham muito bem suas comidas, e não usam d’ellas meias cozidas ou aferventadas, sendo n’isto mais cuidadosos do que os Francezes.

Untam-se com azeite de palmas, de urucú, e de genipapo,[44] o que tem sempre em abundancia.

Estou certo que os meos leitores, pouco conhecedores da disposição do corpo humano e do regimem necessario á sua conservação, julgarão que a natureza ensinou a estes homens o mesmo que a sciencia e a experiencia ensinaram a outros.

CAPITULO XXIX

De algumas indisposições naturaes, a que os selvagens se acham sugeitos, e quaes os nomes, que dão aos membros do corpo.

São os selvagens, na verdade, dotados pela naturesa com boa saude, feliz e agradavel disposição.

Raras vezes, na proporção de um para cem, encontram-se entre elles corpos mal feitos e monstruosos.

Não vi um só cego, apesar de existirem, porque elles o chamam _Thessa-um_, «cego,» _Cheressa-um_, «estou cego,» e _Ressa-um_ «tu és cego.»

Notei porem terem alguns a vista curta, especialmente os velhos, e notavelmente as mulheres, visto que depois de 30 annos d’idade tem a vista tão curta e fraca a ponto de não poderem mais tirar dos pés os _Thons_[45] «bixos» como fazem os rapazes e as moças.

A proposito dizia um capitão Francez, não da nossa gente e pouco crente, que o Papa não tinha poder sobre o mar, porque Deos havia dito a São Pedro que seo poder estendia-se somente sobre a terra, e por isso todos os que passam o mar em busca d’estas terras não são mais sugeitos aos mandamentos da Igreja, podendo mui livremente tomar uma rapariga para concubina, visto terem necessidade d’ella para tirar dos pés d’elle e de outros francezes estes bixos.

Conto isto para mostrar quanto são perigosos estes paizes ás almas que tudo envenenam.

Vi zarolhos, a que chamam _Thessaue_, porem muito poucos, e vesgos que denominam _Thessauen_, «vesgo» _Cheressauen_, «estou vesgo,» _Deressauen_ «tu és vesgo.»

Encontram-se alguns gagos, a que chamam _Gningayue_, «gago,» _Chegningayue_, «estou gago.»

Os velhos e os meninos são muito ramellosos, a que chamam _Thessau-um_ «ramelloso» _Cheressau-um_ «estou ramelloso», _Deressau-um_ «tu és ramelloso»: é o resultado da grande humidade do paiz, mais predominante nos corpos dos meninos e dos velhos por causa da fraqueza do calor natural, que é maior nos corpos d’estes do que nos dos outros, onde é mais forte e intenso.

Existem poucos calvos, e se chamam _apterep_ «calvo,» _Cheapterep_ «estou calvo», e não existem muitos por serem seos cabellos nutridos com força, e eis a razão porque tem os cabellos fortes, duros e lisos.

Encontram-se poucos coxos _Parin_, poucos manetas _Iuuasuc_, e poucos mudos _Gneen-eum_, alguns gottosos _Karuarebore_, de _Karuare_ «gotta.»

Encontra-se tambem uma especie de sarnentos de raça, os quaes mudam de pelle annualmente, e comtudo não sentem molestia alguma, estão sãos, e chamam-nos a todos, que soffrem este mal _Kuruuebore_.

Ha tambem obesos, _Timbep_, e se diz _Chetimbep_ «estou obeso,» _Detimbep_ «tu és obeso,» e _Ytimbep_, «elle é obeso.»

A todas as partes do corpo dão um nome especial, e particular.

Chamam a alma _an_, «minha alma» _che-an_, «tua alma» _dean_, «nossas almas» _orean_, «vossas almas» _pean_, «suas almas» _yan_, em quanto a alma está unida ao corpo, porque quando está separada chamam-na _anguere_.