Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux
Part 10
Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a caçarem com cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não usam ainda de _Karacóbes_, isto é, de um pedaço de pano atado na frente para encobrir suas vergonhas, como fazem os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira.
Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, reunidos na _Casa-grande_, onde conversam, e servem tambem os mais velhos.
É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam a seos paes e mães, trabalhando, pescando e caçando, antes de se casarem, e portanto sem obrigação de sustentarem mulher: eis porque sentem muito seos paes quando elles morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o nome de _Ykunumy-uaçú-remee-seon_, que quer dizer «o mancebo morto» ou «o mancebo morto na sua adolescencia.»
Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama _Aua_ o individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado a todas as idades, assim como usamos com o nome _homem_.
Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como o homem é pelos Latinos chamado _vir_, _á virtude_, e em Francez idade viril, de virilidade, quer dizer—a força, que no homem chegou a seu termo: n’esta mesma lingua de selvagens a palavra _Aua_, de que procede _Auaté_, quer dizer «forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade dos seos filhos.
N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, nunca porem para commandar: buscam casar-se, o que não é difficil por consistir o enxoval da noiva apenas de algumas cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar sua casa, vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem enfeites e pedras brancas a suas filhas.
Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 toros de pau de tamanho proprio a poderem ser levados á casa do noivo, os quaes servem para com elles se accender o _fogo das bodas_: o individuo casado de novo não se chama _Aua_, e sim _Mendar-amo_.
Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres da obrigação natural de proteger seos paes e ajudal-os a fazer suas roças.
Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de _Japy-açú_, baptisada e casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, seo marido, tambem christão, quando pretendia ir a _Tapuitapera_ ajudar o Rvd. Padre Arsenio no baptismo de muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de mantimentos: não sabes, que si elle me deo a ti foi com a obrigação de o auxiliares na velhice? Si queres abandonal-o então volto para a casa d’elle.»
Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a reconhecer o juramento que dera, de nunca abandonal-o ou separar-se d’elle, louvando-se comtudo muito os outros sentimentos, que manifestou á favor de seo Pae, e praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando verdadeira intelligencia a estas palavras formaes do casamento que o homem e a mulher deixaram seos paes para viverem juntos—porque de outra fórma seria Deus authorisar a ingratidão dos filhos casados sob pretexto de terem filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento, quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que abandona seos paes, sem os quaes, não fallando na vontade de Deos, não viriam ao mundo nem elles, e nem seos filhos, embora por essas palavras mostre a grande união, que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos casados.
Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é a mais honrosa de todas, e cercada de respeito e veneração, os soldados valentes, e os capitães prudentes.
Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa da paciencia, com que o lavrador supportou o inverno e a primavera, lavrando com a sua charrua o campo em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim tambem quando chega a estação da velhice são honrados pelos que tem menos idade.
O que occupa esta classe chama-se _Thuyuae_, quer dizer, «ancião ou velho.»
Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha quando quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo da mocidade, respeitando tradicções da sua Nação, do que por necessidade: é ouvido com todo o silencio na _casa-grande_, falla grave e pausadamente usando de gestos, que bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com que falla.
Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos os mancebos com attenção: quando vae a festa das _Cauinagens_ é o primeiro, que se assenta e é servido; entre as moças, que distribuem o vinho pelos convidados, as de mais consideração o servem, e são as parentas mais proximas do que fez o convite.
No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, principiam pela mais baixa até a mais grave, crescendo gradualmente até chegar á força da nossa musica.
Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam e trazem-lhe a comida, e se ha alguma difficuldade na carne, no peixe ou nos mariscos, ellas a tiram, accommodando-a ás suas forças.
Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, e o choram como as mulheres, e lhe dam o nome de _thuy-uae-pee-seon_: quando morrem na guerra, chamam-no _marate-kuepee-seon_, «velho morto no meio das armas», o que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre nós qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no serviço do exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa de gloria morreo com as armas na mão, com a frente para os inimigos, no meio de renhido combate, coisa nunca esquecida por seos filhos antes considerada como grande herança, e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe como bons serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma recompensa.
Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas humanas, porem empenhando todas as suas forças para conseguirem essas honras, provam com isto o quanto apreciam não só os actos de heroismo de seos paes, mas tambem a serem estimados por causa d’elles.
Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, conforme o seo merito, e chamam-no _theon-suyee-seon_, «o bom velho que morreo na cama».
Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina a respeitar, a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões e á refrear com violencia a temeridade e presumpção dos moços, que sem prevêrem o futuro, não se recordam de que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles, quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo á seos filhos, e ensinando-os a serem ingratos.
CAPITULO XXII
A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as mulheres.
Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como as pedras preciosas se acham nas encostas das montanhas.
Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos os diamantes tão claros e brilhantes, como quanto lapidados e engastados n’um anel.
Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras cubertas de jaça sem mostrar o seo valor de tal sorte, que muitos passam e tornam a passar por cima d’ellas sem levantal-as visto não as conhecerem.
Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres selvagens: muitos ignoram e ignorarão ainda o que tenho narrado e narrarei, e embora tenham conversado com elles por muito tempo, por falta de conhecimento ou de observação da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça de Deos, passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, sem tirar o menor proveito, e olhando-as com indifferença.
A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre as raparigas e as mulheres, como entre os homens.
A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, sahindo immediatamente do ventre de suas mães, se chama _Peitan_, como já dissemos no art. antecedente.
A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, e de dever: d’idade de moça para moça, de sexo de moça para rapaz, e de dever de mais moça para mais velha.
Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a rapariga d’esse tempo se chama _kugnantin-myri_, quer dizer _rapariguinha_.
Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, e vi meninas com seis annos d’idade ainda mamando, embora comam bem, fallem, e corram como as outras.
Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, as raparigas se empregam em ajudar suas mães, fiando algodão como podem, e fazendo uma especie de redesinha como costumam por brinquedo, e amassando o barro com que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas.
Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos filhos e filhas.
Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás raparigas apenas accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão natural, nossa luz commum, a qual nos torna mais affeiçoados aos filhos do que ás filhas, porque aquelles conservam o tronco e estas o despedaçam.
Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça n’esta idade se chama _kugnantin_, «rapariga»: n’este tempo ordinariamente perdem, por suas loucas phantasias, o que este sexo tem de mais charo, e sem o que não podem ser estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a honra e a lei de Deos as convidasse á immortalidade da candura, porque estas pobres raparigas selvagens pensam, e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas as desgraças, que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. Nada mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas o fio do meo discurso.
N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: fiam algodão, tecem redes, trabalham em embiras, semeam e plantão nas roças, fabricam farinha, fazem vinhos, preparam a comida, guardam completo silencio quando se acham em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam pouco se não estão com outras da mesma idade.
A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella comprehendida chama-se _kugnammucu_, «moça ou mulher completa», o que nós dizemos por «moça boa para casar.»
Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes annos, devido aos enganos de sua Nação, reputados como lei por elles.
São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e tratando das coisas necessarias á vida da familia: cedo são pedidas em casamento, si seos paes não as destinam para algum francez afim de terem muitos generos, e no caso contrario são concedidas, e então se chamam _kugnammucu-poare_,[39] «mulher casada, ou no vigor da idade.»
D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na cabeça e ás costas todos os utencilios necessarios ao preparo da comida, as vezes a propria comida, ou os viveres necessarios á jornada, como fazem os burros de carga com a bagagem e alimentação dos seos senhores.
É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da Europa, que desejam ostentar sua grandesa apresentando grande numero de burros, estes selvagens tambem desejam ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar suas bagagens, mormente havendo entre elles o costume de serem estimados e apreciados pelo grande numero de mulheres á seo cargo.
Quando grávidas, após o casamento, são chamadas _puruabore_, «mulher prenhe», e apezar d’este estado não deixam de trabalhar até á hora do parto, como si nada tivessem. Apresentam grande volume, porque ordinariamente parem meninos grandes e corpolentos.
Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir sua nudez, porem não soffrem a menor alteração o seo modo de viver.
Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, não procura para esse fim a cama, si as dores não são fortes: em qualquer dos casos senta-se, é rodeada por suas visinhas convidadas para assistil-as, pouco antes do apparecimento das dores, por meio d’estas palavras _chemenbuirare-kuritim_ «eu vou já partir, ou estou quase a parir»: corre veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher vae parir, dizendo com o nome proprio da parturiente estas palavras _ymen-buirare_, que significa «tal mulher pario, ou está para parir.»
Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora no parto, elle aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, o que acontecido, deita-se para observar o resguardo em lugar de sua mulher,[40] a qual continua a fazer o serviço do costume, e então é vesitado em sua cama por todas as mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias de consolação pelo trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, sendo tratado como gravemente doente e muito cançado, á maneira do que se pratica em identicas circumstancias com as mulheres de paizes civilisados.
Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, quando o homem e a mulher attingem ao seo maior vigor.
Dam-lhe geral e commummente o nome de _kugnan_, «uma mulher, ou uma mulher em todo o seo vigor».
N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de sua mocidade, e principiam a declinar sensivelmente, sendo feias e porcas, trazendo as mamas pendentes á similhança dos cães de caça, o que causa horror: quando jovens, são bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé.
Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo dizendo, que a recompensa dada n’este mundo á puresa é a incorruptibilidade e inteiresa acompanhada de bom cheiro, mui bem representada nas letras santas pela flôr do lyrio puro, inteiro e cheiroso—_sicut lilium inter spinas, sic amia mea inter filias_.
A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto da vida, e então a mulher se chama _Uainuy_: n’este tempo ainda parem.
Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico dos _cauins_, e de todas as outras bebidas fermentadas.
Occupam lugar distincto na _casa-grande_ quando ahi vão as mulheres conversar, e quando ainda se achava em pleno vigor o poder de comerem os escravos, eram ellas as incumbidas de assar bem o corpo d’elles, de guardar a gordura, que não queriam, para fazer o _mingau_, de cozinhar as tripas, e outros intestinos em grandes panellas de barro, de n’ellas misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas de pau, que mandavam distribuir pelas raparigas.
Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou pela boa chegada de suas amigas.
Ensinam ás moças o que aprenderam.
Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as raparigas e as moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas são, o que vi e observei, sendo tambem verdade que vi e conheci muitas boas, honestas e caridosas.
Existiam no _Forte de São Luiz_ duas boas mulheres _Tabajares_, que não se cansavam de trazer-me presentesinhos, e quando me os offereciam, sempre choravam e desculpavam-se de não poderem dar melhores.
Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem a fazer senão esperar que a morte o livre d’ellas: quando morrem não são muito choradas e nem lamentadas, porque os selvagens gostam muito de ter mulheres moças.
Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, depois de mortas, muita difficuldade de deparar com o lugar onde, alem das montanhas, dançam seos ante-passados, e que muitas ficam pelos caminhos, se é que lá chegam.
Não guardam asseio algum quando atingem a idade da decrepitude, e entre os velhos e velhas nota-se a differença de serem os velhos veneraveis e apresentarem gravidade e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas por seos maridos e filhos, especialmente pelas moças e meninas.
CAPITULO XXIII
Da consaguinidade entre os selvagens.
Como entre nós, a consaguinidade entre estes barbaros tem muitos graus e ramos, e se observa entre todas as familias com tanto cuidado como fazemos, excepto porem a castimonia, que tem alguns embaraços entre elles, menos no primeiro grau—de pae para filha.
Entre os irmãos e irmans não ha casamentos, mas duvido, e não sem razão, da regularidade da vida d’elles, e nem isto merece ser escripto.
Bróta o primeiro ramo do tronco de seos avós, que elles chamam _Tamoin_,[41] e debaixo desta denominação comprehendem todos os seos ante-passados desde Nóe até o ultimo dos seos avós, e admira como se lembram e contam de avô em avô, seos ante-passados, o que difficilmente fazemos na Europa podendo remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô.
O segundo ramo nasce e cresce do primeiro e chama-se _Tuue_, «pae», e é o que os gera em legitimo casamento, como acontece entre nós, porque para os bastardos ha outra Lei, de que fallarei em lugar proprio.
Este ramo paterno dá outro, que se chama _Taire_, «filho», o qual se córta e divide-se em diversos galhos, a que chamam _chéircure_, «meo irmão mais velho», um dia—a cumieira da casa e da familia, e _chéubuire_, «meo irmãosinho», que só cuidará da casa, si fallecer seo irmão mais velho.
Tendo filhos um destes irmãos, qualquer que seja o sexo, deve chamar o irmão de seo pae _chétuteure_, «meo tio» e sua mulher _chéaché_, «minha tia». Da mesma forma si seo pae tiver irmans elle as chama _chéaché_, «minha tia», como tambem os maridos d’estas _chétuteure_, «meo tio».
Os tios e tias chamam os meninos de seos irmãos e irmans _chéyeure_ «meo sobrinho», e as meninas _reindeure_ ou _chereindeure_, «minha sobrinha».
Os filhos de dois irmãos, isto é, de um irmão e os de outra irman se chamam os homens _rieure_ ou _cherieure_, «meo primo», e as moças _yeipere_ ou _cheitipere_ «minha prima.»
Quanto á descendencia do lado das mulheres, a avó é o tronco, seja paterna ou materna, e chama-se _ariy_ ou _cheariy_, «minha avó.»
A mãe é o segundo ramo, e chama-se _Ai_, «mãe», ou _cheai_, «minha mãe».
Seguem-se gradualmente a filha, cujo nome é _tagyre_, filha, ou _cheagyre_, «minha filha», a irman _teindure_, «irman», ou _chéreindure_, «minha irman», a tia _yaché_, «tia», ou _chéaché_, «minha tia», a sobrinha _reindure_ ou _chereindure_, «minha sobrinha», ou «minha pequena irman», modo de fallar entre elles, a prima _yetipere_, «prima», ou _cheytipere_, «minha prima.»
Eis os ramos de consaguinidade entre elles.
Para os homens.
Avô. Pae. Filho. Irmão. Tio. Sobrinho. Primo.
Traduzido em sua lingua é
_Chéramoin_ ou _tamoin_. _Tuue_ ou _chéru_. _Tayre_ ou _chéayre_. _Cheircure_ ou _chéubuire_. _Tuteure_ ou _chétuteure_. _Yeure_ ou _chéyeure_. _Rieure_ ou _chérieure_.
Para as mulheres.
Avó. Mãe. Filha. Irman. Tia. Sobrinha. Prima.
Em sua linguagem.
_Ariy_ ou _Ché-Ariy_. _Ai_ ou _Chéai_. _Tagyre_ ou _Chéagyre_. _Theindeure_ ou _Chéreindeure_. _Yaché_ ou _Chéaché_. _Reindure_ ou _Chéreindure_. _Yetipere_ ou _Ché-yetipere_.
Alem d’estas consaguinidades existem mais duas por contractos de alliança; uma quando se dá sua filha á um individuo, ou quando se recebe uma moça para casar-se com seu filho, e outra quando, por contracto d’alliança com os francezes, lhes dam suas filhas para concubinas.
Aos que dam suas filhas chamam _taiuuen_ «genro», ou _Chéraiuuen_, «meo genro».
Á mulher de seo filho chamam _Tautateu_, «nóra», ou _Cherautateu_, «minha nora».
Chamam os Francezes seos alliados por hospitalidade _Tuasap_, «compadre» ou _ché-tuasap_, «meo compadre» e as vezes _Chéaire_, «meo filho,» ou _Cheraiuuen_, «meu genro,» quando sua filha é concubina do Francez.
É este o ramo d’alliança.
Genro. Nóra. Compadre.
Em sua linguagem é
_Taiuuen_, ou _Ché-raiuuen_. _Tautateu_ ou _Cherautateu_. _Tuassap_ ou _Chetuassap_, ou então _Ché-aire_.
São bastardos os filhos, que tem fóra do casamento legitimo á moda d’elles, e entre estes bastardos ha ainda certa ordem.
A primeira é dos que tem pae e mãe, ambos Tupinambás: a segunda dos que tem por mãe uma india Tupinambá e por pae um Francez: a terceira dos filhos de um Tupinambá e de uma escrava: a quarta de uma Tupinambá e de um escravo: a quinta finalmente de uma escrava e de um Francez.
A linha dos bastardos é a seguinte:
De um Tupinambá com uma Tupinambá. De uma india Tupinambá com um Francez. De um Tupinambá com uma escrava. De uma india Tupinambá e um escravo. De uma escrava e de um Francez.
Em sua linguagem chamam estes bastardos _Marap_, ou _Ché-marap_, e aos bastardos dos Francezes _Mulatres_, «mulatos.»
São diversas as leis d’estes bastardos conforme sua descendencia, e antes de tratar d’ellas convem estabelecer a regra geral para com os bastardos, que é quando...
(Falta uma folha.)
... elles o chamam _Toreuue_, «folgasão,» _Cheroreuue_, «sou divertido, folgasão:» o que é agradavel e tem para dizer alguma coisa chama-se _aron-ayue_.
Suas saudações, perguntas e respostas, quando juntas, são o mais amavel que é possivel, mormente quando as fazem com acento muito longo, brando, e insinuante, especialmente as mulheres e as moças, e como sei que será agradavel ao Leitor vou aqui transcrever algumas de suas frazes communs e ordinarias.[42]
Quando se levantam pela manhã dizem
Tyen-de-Koem. Bom dia. Nein Tyen-de-Koem Para vós tambem.
A tarde, do regressar do trabalho, quando se despedem
Tyen de Karuq. Boa tarde. Nein Tyen de Karuq. Para vós tambem.
Quando chega a noite, e querem dormir, dizem reciprocamente.
Tyen-de-potom. Boa noite. Nein-Tyen-de-petom. Para vós tambem.
Se alguem se derige a elles, ou passa ao pé d’elles ou se encontra no caminho, muitas vezes pára um pouco, com expressão docil e rosto prasenteiro perguntam um ao outro:
Mamo sui pereiu? D’onde vindes? Mamo peresso? Onde ides?
Logo que respondem e dizem d’onde vem e para onde vão, podeis ficar certo que se trata de uma das coisas seguintes, constante emprego de sua vida e exercicio, isto é, da pescaria no mar, da entrada nos bosques, da derrubada das arvores, da visita de suas roças, da plantação de raizes, da colheita dos fructos, e dos nabos, da caçada, dos passeios por varios lugares, da visita das aldeias e das habitações de uns e outros.
São estas as respostas d’elles.
Paranam-sui-kaiut. Venho do mar. Pira-rekie-sui-kaiut. Venho de pescar. Kaa-sui-kaiut. Venho do matto. Ybuira monosoc, ou então ybuira mondoc. Venho de cortar matto. Ko-sui-kaiut. Venho da roça. Ko-piraruer-kaiut. Venho de roçar. Maetum aruere. Venho de cavar e de plantar. Vuapoo-aruere kaiut. Venho de colher fructos. Kaaue-aruere kaiut. Venho da caça. Mosu-aruere-kaiut. Venho de passeiar. Taaue-sui-kaiut. Venho de tal aldeia. Ahere-piac-sui-kaiut. Venho de ver tal pessoa. Chere-suiu então cheretansui. Venho de minha casa. Ne in cheaiurco. Adeos, vou-me embora. Ne in oro iurco. Adeos, vamo-nos embora.
Quando vae algum visinho procural-os em sua casa, ou quando sentem falta de alguma coisa, procurando por ahi algures elles perguntam:
Que procuraes? Maeperese-kar? Que perguntaes? Maraereico?
Então dizem o que procuram, e respondem ás perguntas mui francamente; por exemplo:
Quero comêr. Agerure deué-cheremyuran ressé. Quero farinha. Agerure uiressé. Quero carne. Agerure soo ressé. Quero peixe. Agerure pyra ressé. Quero agoa. Agerure v-ressé. Quero fogo. Agerure tata cheué. Quero uma faca. Agerure xè. Um machado. Iu.
Se veem alguem pensativo, elles lhe perguntam o que ha e no que pensam.
Que pensaes? Mara-péde-ie-mongueta.
Elle responde: