Chapter 6
--«Parto, e deixo-te no mundo! Fujo, timida innocencia, Ouvindo o rumor profundo D'esta agitada existencia!
Vi-te um dia; era na hora Em que a briza é mais saudosa, Em que a luz do sol descora, E dá mais perfume a rosa!
Est'alma toda candura, Á tua alma se rendia; E com que immensa ternura Os teus protestos ouvia!
Protestos de um coração Que sem susto, e sem tremor, Respondia co'a traição Ás provas do meu amor!
A grinalda qui'inda vês Nesta fronte desbotada, Vai cair-te em breve aos pés, Mas vai cair desfolhada!
Na minha ingenua innocencia, Aspiro tambem ao ceo, Como aspira a grata essencia Da flor que no val nasceu!
Fragil flor que em pura aurora, Vendo o sol sorrindo, amou; Mas d'esse amor numa hora O vivo fogo a matou!»--
A voz emmudeceu. O olhar sereno Sobre mim se cravou com mais ternura! Era Lelia, ou seria a imagem d'ella Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados? Tudo era incerto e vago no meu animo, Como é vaga a impressão d'um bello sonho! Aureola de luz resplandecente Veiu então inundar aquella fronte. Reconheci emfim, oh! era Lelia, Que desprendêra a voz, que proferíra Com tão profundo affecto aquellas fallas! A seus pés nesse instante allucinado Num extasi de amor me precipito, Repetindo anhelante estas palavras:
--«Resurge outra vez das sombras Da tristeza em que vivia Est'alma, é toda alegria, Volve á tua alma infantil. És minha. Sou teu. A vida Para nós vai ser agora Mais risonha do que a aurora, Mais florída do que abril!
Oh! se um dia, desvairado, Ouzei trair-te, innocente, Como o remorço pungente Te veiu depois vingar! Como agora, arrependido, O meu coração procura Dar-te emfim quanta ventura, Quanto amor se pode dar!»--
Nesse momento uma infernal risada Me fez estremecer. Subito acordo Da suave impressão do mago sonho, E que vejo ante mim?! uma figura Ironica e fatal! Era o Diabo! Tranzido de terror em vão procuro Meus olhos desviar d'aquelles olhos, Cuja sinistra luz me fascinava! Suspendendo na mão livida e fria A mesma c'roa de virginias flores, Que eu tinha visto na graciosa fronte Da celeste visão que me encantára, Disse emfim com satanica ironia: --«Olha: é esta a grinalda immaculada, Da tua ingenua e seductora Lelia! Agora, aqui a tens; custou cem libras, Não ha muito, ao rotundo brasileiro Que viste á porta d'esta nobre casa! Julia commigo contractára a venda. Se vens mais cedo um'hora inda podias Das garras do falcão salvar a pomba!»--
Não ouvi nada mais: tinha perdido A consciencia da vida nesse instante!
Quando, e como acordei d'aquelle estado, Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos O espirito infernal se convertêra Na figura gentil de um bello moço Alto, airoso, elegante, e delicado. --«Olha bem para mim, tornou sorrindo; Inda te inspira horror o meu aspecto? Já vês, meu caro amigo, que o Demonio Não é sempre tão feio como o pintam.»-- --«_Vade retro Satan_»--disse eu, buscando Uma pequena cruz que havia muito Costumava trazer pendente ao peito, E já forte de mim ia mostral-a, Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde A mão fallaz de Julia m'a roubára. Puz os olhos no chão desalentados; O remorso cruel naquelle instante A turvada consciencia me pungia! --«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta! Olha em roda dos teus, encara o mundo, Como o deve encarar quem tem bom senso.
Eu cheguei de Paris, e tinha medo De perder o meu tempo nesta terra; Mas, ah! que me enganei! tenho comprado Um par de figurões quasi de graça! Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva, Nunca tens um real, ó desgraçado! Não faças versos mais; faze politica; Improvisa um jornal; morde, abespinha, Sem consciencia e sem dó, a honra alheia! Hoje quiz apalpar a culta imprensa, Famosa instituição que me tem dado Ha tempos para cá milhares d'almas. Entre um grupo de illustres publicistas, Quasi todos catões, foi-me indicado O primeiro catão dos nossos dias. Uma palavra só fôra bastante Para tudo explicar entre nós ambos. Homem da situação, ou mais exacto, Homem das situações, sabe de quanto Se agita em torno a si nesta republica. O que mais me espantou foi que no mundo Podesse haver mortal tão venturoso! Pasmam todos ao vêr o que elle come Desde a meza do opr'ario á meza opipara, De opulento negreiro ou potentado De mais alto valor se acaso existe! Póde zumbir a inveja em volta d'elle, Morder-lhe a fama a cavilosa intriga, Exaltado rugir o odio implacavel, Nada d'isto consegue perturbal-o, Nem cortar-lhe o seu acto digestivo! É nedio, é luzidiu, é recebondo, Como um gallo capão! Perdoa a imagem. Crava os olhos attentos neste exemplo De solida moral; segue as pizadas Deste egrejeo varão, e eu te asseguro Que has de em breve alcançar um nome illustre. Tudo agora me corre ás maravilhas; Nunca pensei que em terra tão pequena Se podessem fazer tão bons negocios. Hoje fui contratar com certa empreza De um moderno jornal que se atirava, Como lobo esfaimado, ao ministerio. Era o mimo, era a flor, era o portento Da incorrupta e briosa mocidade! Essa, comprei-a então por attacado; Escaparam só dois, pobres diabos, Que nunca hão de passar da cepa torta! Que dia tão feliz! a toda a pressa Fui depois assistir ao desembarque De um nobre titular, victima imbelle, Do veneno infernal da torpe inveja. O honrado cidadão vinha entregar-se Nas mãos severas da imparcial justiça. Fazia gosto vêr a comitiva Dos invictos heroes que o circundavam. Algum ranço burguez inda entre dentes Se atrevêra a dizer que não passava De um cadímo ladrão o illustre conde; E se eu não chego a tempo, era filado Quando saltasse ao caes por quatro guitas. Vê tu pois quanto póde o meu imperio! Com raras excepções, a livre imprensa Não soltou nem sequer uma palavra!
É tempo de voltar á bella Julia: Esta linda mulher era beata Da esplendida edicção que existe agora. Encontrei-a uma vez num dia santo De grande devoção, quando acabava De pôr aos pés de um padre os seus peccados. Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo, A singela espressão d'esta innocente, Soprou-me o fogo de infernaes desejos. Como vês, é distincto o meu aspecto, E apesar do terror que ao mundo inspiro, Muitas mulheres ha que intimamente Se agradam mais de mim que dos janotas. Oh! que austeras virtudes nesse dia Me caíram nas mãos! Lelia, embebida Nas suas orações, passou, cravando Com modestia no chão os olhos bellos. Não fez reparo em mim; mais forte ainda, Me ficára a vaidade remordendo. Lembrei-me então da irmã como instrumento Para alcançar o fim que ambicionava. Por entre o raro veo que lhe encobria O rosto seductor, de espaço a espaço Se viam scintillar os olhos negros Com mais fogo e mais luz do que as estrellas Quando as nuvens do ceo se rarefazem. (A imagem é vulgar, porém confessa Que tu proprio tens feito outras peores.) Ella olhou para mim, aproximei-me, Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde Perfeito accôrdo havia entre nós ambos. Precisava ostentar-lhe á luz do mundo O esplendido poder dos seus encantos. Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta, Joias, vestidos, trens apparatosos, Quanto emfim dá realce á formosura, Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella. Nada d'isto porém causára effeito No joven coração da casta Lelia. Olhava para a irmã como assustada, Quando a via ostentar tanta grandeza. Por mil vezes tentei ver se podia Aproximar-me d'ella; era impossivel. Adivinhas porque? trazia ao peito Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado Pouco antes de soltar o extremo alento. Quando na flor da vida e da innocencia Vejo a meu lado encauta formosura, Oh! como sou feliz!--ninguem no mundo Presa tanto como eu uma alma ingenua, Mas é para a perder! Desculpa ao menos Em nome da franqueza este teu servo.
Um sacerdote ancião que alem habita, Naquella ermida que d'aqui se avista, Teima em não m'a deixar; tu só podias Ajudar-me a vencer nesta batalha. Inda ha pouco menti quando te disse Ser tarde já para salvar a pomba. É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias D'aquelle coração que te idolatra. Tudo é luz, seducção, amor, encanto, Na voz, no olhar, na languida ternura Da rosa virginal que tu despresas! Anhelantes te esperam já seus labios, O seu peito infantil por ti suspira, No ouvido sente a voz dos teus protestos, O subito rubor lhe affronta as faces! Não a vês hesitar, tremer, fugir-te, Acercar-se outra vez, sorrir a furto, Escondendo nas mãos a fronte bella? De novo inda luctar, mas já sem forças Caír por fim num languido deliquio? Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»-- Um momento depois d'estas palavras, Em doce consonancia extranhas vozes De improviso romperam neste canto:
--«Seja a breve passagem da vida Uma serie de ardentes delirios; Quem procura colher os martyrios Quando existem as rosas em flor?
Venturosos ergâmos as taças Onde brilha o licor purpurino, E soltemos as vozes num hymno Consagrado aos deleites do amor!
Vem poeta: as tristezas do mundo Não comprimem jámais nossas almas; Nós cercâmos de flórdais palmas A existencia votada ao prazer!
O que importa que a noite succeda Aos sorrisos do astro diurno? Para nós o seu manto nocturno Mil delicias nos torna a trazer!»--
Apossou-se de mim o immundo espirito. --«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse; Ao teu fatal poder entrego est'alma! Dize, dize, onde está essa que eu vejo, Mas que procuro em vão cingir nos braços!»-- --«Onde está? vais sabel-o, e num momento A seus pés cairás ebrio de gosto!»--
Ao secreto aposento onde jazia A virgem dos meus sonhos, me dirige O torpe embaidor. Entro em delirio, E ardendo em chammas de brutaes desejos, No casto ninho onde vivia a pomba! De repente uma luz serena e branda Veiu alegrar as trevas da minh'alma. Outra vez á razão volto, e que vejo! Ante mim venerando sacerdote, Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde A enganadora Julia me roubára. Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas, E os olhos postos no sagrado emblema, Estas doces palavras me dizia:
--«Deixou-te o negro espirito! Feliz de novo agora, Sorri tua alma em extasi Ao ver a pura aurora, Da qual sómente é nuncia Na terra a humilde cruz! Só ella, eterno simbolo De amor e de piedade, Brilha no mundo esplendida, E diz á humanidade: Surge das trevas lugubres; Ascende á etherea luz!
Só ella quando rapida A morte nos alcança, Diffunde em nossos animos O lume da esperança, Que nos descobre a patria Da gloria perennal!
Perde a tristeza o tumulo; O sepulcral cipreste, Deixando o aspecto funebre, De flores se reveste! Soam divinos canticos Em coro angelical!
Oh! quem podéra pintar A expressão que nesse instante Tinha o candido semblante Do meu anjo tutelar!
Como a pomba da arca santa Que um dia á terra desceu, Vinha dizer-me: Acabaram As tempestades do ceo!
Deixa o mundo, antro medonho Onde sómente fulgura Nas curtas horas de um sonho A branda luz da ventura!
Verás a meu lado agora Sorrir eternos amores, Como sorriem as flores, Á luz da punicia aurora!»--
Julguei-me nesse instante transportado Á mansão do Senhor. Caindo em extasi, Disse, rompendo em delicioso pranto:
--«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem, Jura que para sempre has de ser minha.»-- --«Juro»--disse ella então. Nesse momento Aproximou-se a nós o sacerdote, Cuja fronte senil resplendecia Co'a luz celeste que illumina o justo; E unindo as nossas mãos, com voz solemne A sacrosanta benção proferíra!
* * * * *
Aqui termina, ó musa, a minha historia. Acordei do meu sonho, e depois d'elle Tenho visto o demonio algumas vezes; Não menos vezes a traidora Julia; Porem Lelia, a gentil graciosa virgem, A predilecta noiva da minh'alma, Essa apenas em sonhos me apparece!
Maio de 1862.
XLVII
HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA
Desherdados no berço de heranças, Desvalidos dos braços de mãe, Quem nos cérca o viver de esperanças, Nos educa, nos veste, e mantem?
CORO
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo Como iremos a vida encontrar? Neste valle enredado e profundo Quem nos ha de o caminho apontar?
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Quem virá ser-nos pae na orphandade? Consolar nossos dias de dor? Circundar-nos depois noutra edade, De delicias, de sonhos, de amor?
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Dos thesouros de affecto que encerra Entre vós maternal coração, Quem vos faz a nós orphãos na terra, Repartir d'esse affecto um quinhão?
O bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
E esse affecto ideal que illumina O existir de um reflexo do ceo, Que a soffrer e que a amar nos ensina, Quem no peito materno o accendeu?
O Bom Deus que proteje a innocencia, De quem são nossos cantos de amor; Desherdada é sómente a existencia, Do infeliz que descrê do Senhor!
Mas nós crêmos, sentimos, amâmos, A Deus grande na terra e nos ceos, E do intimo da alma exclamâmos: Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!
1850.
XLVIII
GRATIDÃO E SAUDADE
(Recitada no Theatro)
De candidos sonhos, de luz, e de flores, Cercada a existencia começa a sorrir; Alegre o presente nos falla de amores, De amores nos falla brilhante o porvir!
Depois no horisonte sereno, e risonho, Carregam-se as sombras, perturba-se a luz, Esvae-se a ventura veloz como um sonho, Que apenas instantes na vida reluz!
Assim penetrando no mundo das artes, Ao tímido lume de frouxo clarão, Olhava, e só via por todas as partes, A meiga esperança sorrindo em botão!
De lyrios e rosas grinalda fragrante, Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi; Nos braços a aperto, convulsa, anhelante, Aos labios a levo, na fronte a cingi!
Foi breve este sonho de amor, e de encanto; Acordo, e procuro debalde uma flor; Inundam-se os olhos de angustia e de pranto, Ao ver que só restam espinhos e dor!
Só restam espinhos das pallidas rosas, A quem pobre artista não ousa pedir Os loiros frangrantes, as palmas viçosas, Que a fronte de genio só devem cingir!
Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura, Não quiz que durasse tão meiga illusão, Em paga deixou-me no peito a doçura. De terna, suave, leal _gratidão_!
Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma, Sincera tributa nest'hora o dever! Embora outras palmas morressem,--a palma De gratas memorias não póde morrer!
Desfeitos os sonhos, fanadas as flores, Quebrado o encanto da pura illusão, Que resta ao artista?--espinhos e dores, Saudades! mais nada no seu coração!
Saudades da gloria, da luz, da ventura, Dos magicos sonhos, presente dos ceos, Saudades que attestam a funda amargura, Que sente ao dizer-vos agora um adeus!
1853.
XLIX
Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.[1]
«Não sabe o que é padecer, Quem o filhinho que adora Não viu ainda morrer!» (A. Garrett)
--«Bem sei que era exilio a terra Para ti, anjo do ceo! Porém, filha, abandonar-me Quando toda a minha vida Era a luz d'um olhar teu! Ouvir essa voz infante, Ver a impaciente alegria De teu candido semblante!
«Deixar-me assim na existencia Triste, só, desamparado, Aquella flor de innocencia! Que lhe fiz? tinha-a cercado De quanto amor neste mundo Pela mão da Providencia A peito de homem foi dado! Oh! que affecto tão profundo! E tu pudeste partir? Pois não tiveste piedade D'esta solemne amargura, D'esta infinita saudade? Vi-te inda olhar-me, e sorrir, Erguer os olhos aos ceos, No instante de proferir, O fatal e extremo adeus!... ........................... ...........................
«Oh! volve outra vez a mim, Desce á terra, anjo do ceo, Vem dar-me a ventura emfim! ........................... ........................... Olha: o vivo sol de Abril Já nestes campos rompeu; As rosas desabroxaram; O rouxinol desprendeu A voz em saudosos cantos; Os sitios onde passaram Os teus descuidados annos, Não os vês cheios de encantos? São estes! a mesma fonte, Ferve alem; naquelle outeiro O mesmo casal alveja; As ramas do verde olmeiro, Dão sombra á modesta igreja Onde tu vinhas resar, Quando o som da Ave-Maria, N'hora meiga do sol posto, De vaga melancolia Toldava teu bello rosto! Tudo o mesmo!?... esta inscripção!... Este nome!... anjo do ceo, Este nome, filha, é teu!! Oh! meu Deus, por compaixão, Na mesma pedra singela, Juntae o meu nome ao d'ella!»-- ............................... ............................... ............................... E Deus ouviu a oração... O mesmo tumulo encerra Filha e pae. Na mesma lousa Onde repousam na terra, Uma lagrima saudosa Vem hoje depôr tambem A esposa, a viuva, a mãe!
1854.
[1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde, mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se o cadaver do pae!
L
CANÇÃO DOS PIRATAS
(Traduzido do Corsario de Byron)
Sobre as ondas do mar azul ferrete, Sem limites são nossos pensamentos, E como as ondas nossas almas livres, Por quanto alcança a doidejante briza Cobrindo a vaga de fervente escuma Nós temos uma patria! Eis os dominios Onde fluctua o pavilhão que é nosso, Sceptro a que devem humilhar-se todos! Turbulenta e selvagem quando passa! Da lucta ao ocio em taes alternativas A vida para nós tem mil encantos! Mas estes, oh! quem póde descrevel-os? Não serás tu, escravo dos deleites, Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente Das alterosas vagas desmaiáras! Não serás tu, vaidoso aristocráta, Educado no vicio e na opulencia, Tu que nem pódes repousar no somno, Nem achar attractivos nos prazeres. Oh! quem póde no mundo compr'endel-os? A não ser o incançavel peregrino, D'estes plainos que ficam sem vestigios; Do qual o coração affeito aos p'rigos Pula orgulhoso em delirante jubilo Quando se vê sobre o revolto abismo! Só elle présa a lucta pela lucta E espera ancioso a hora do combate. Quando o fraco esmorece apenas sente No mais profundo do agitado seio A esperança que vívida desponta E o fogo da Coragem que se accende! Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto Que a nossos pés succumba o inimigo, E comtudo mais triste que o repouso Inda parece a morte! mas embora, Embora, oh! póde vir! ao esperál-a Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida; E quando ella se acaba, pouco importa! Caír pela doença, ou pela espada! Haja um ente que prese inda algum resto D'existencia senil! viva aspirando Sobre o leito da dor um ar pesado, Erguendo a custo a trémula cabeça! Para nós são as relvas florescentes! Emquanto ess'alma expira lentamente, Foge a toda a pressão d'um salto a nossa! Possa ainda ufanar-se esse cadaver, Da cova estreita e do marmoreo tumulo Que a vaidade dos seus lhe consagrára! São raras, mas sinceras, nossas lagrimas, Quando o oceano, abrindo-se, sepulta No vasto seio os nossos camaradas! Inda mesmo no meio dos banquetes Funda tristeza nos rebenta d'alma Quando a purpurea taça erguendo aos labios A memoria dos nossos corôamos. E o seu breve epithaphio é redigido, Ao por do sol do dia da batalha, Ao dividir as presas da victoria, Quando a exclamam os rudes vencedores Com a fronte anuviada de saudades: Ai, de nós! como os bravos que morreram Folgariam ditosos nesta hora!
Julho de 1861.
LI
NUM ALBUM
Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos.
No reverso da folha onde escrevo, Um cantor jovenil pulsa a lyra, E magoado, e sentido, suspira, Com saudosas memorias d'amor!
Na cadencia da lettra singela, Qual murmurio de branda corrente, Transparece sua alma innocente, Toda vida, perfume, e calor!
Variegado, risonho, brilhante, Inda agora na flor da innocencia Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia Atravez do seu prisma gentil:
Cuida extinctas ficções encantadas, Crê perdido o seu sonho d'amores, Julga vêr desbotadas as flores Que adornavam sua harpa infantil!... ................................
Ai! poeta! ai de ti! que saudade, Que saudade tão funda e sentida Has de ter d'esses annos da vida, Quando os vires ao longe ficar!
Que saudade tão funda do tempo Em que tinhas sentido saudade, Has de ter quando a triste orfandade Dos affectos tua alma enluctar!
Ouve pois joven bardo que a lyra Pulsas hoje com tanta amargura; De illusões, de poesia e ventura, Enche agora teus annos em flor.