Versos de Bulhão Pato

Chapter 5

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Tu queres que eu conte um sonho que tive Não sei se acordado, não sei se a dormir? Foi todo singelo, foi todo innocente: Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?

Não córes, escuta, não fujas de mim, Que o sonho foi sonho de casta paixão: Já crês, não duvídas, verás como é lindo O sonho innocente do meu coração:

Eu via em teus labios um meigo sorriso, Em tens olhos negros um terno mirar, Teu seio de neve a arfar docemente, Sentia nas faces o teu respirar.

E tu não fallavas, mas eu entendia; E tu não fallavas, mas eu bem ouvi! Amor! na minh'alma a voz me dizia, E um beijo na fronte não sei se o senti.

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente; O resto eu te conto; como has de gostar! É todo singelo, de amores somente; Verás que ao ouvil-o não has de córar.

Depois apertando teu corpo flexivel, Cingindo teu collo no braço a tremer, Ouvi uma falla, e o que ella dizia Agora acordado não posso eu dizer.

Não posso contar-te, só pude sentil-a; Não posso contar-t'a senão a sonhar: No sonho innocente, no sonho d'amores, Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado O que ella dizia se póde entender; Eu sei que sonhando, pensei que era sonho, E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face córada? Não tem nada o sonho que faça córar, É todo singelo, é todo innocente; Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio; Não quero offender-te a casta isenção; Não torno a contar-te depois de acordado O sonho innocente do meu coração.

Janeiro de 1847.

XLII

ANJO E VIRGEM.

Virgem, que era o que sentias Quando ao vento desferias Essas frouxas harmonias De um incerto murmurar? Virgem, que era o que sentias Teu santo seio agitar?

Achavas o mundo um ermo, Onde ao coração enfermo Dos horisontes sem termo Não vinha uma aura de amor? Achavas o mundo um ermo, Fertil só de fel e dor?

Ou teu suspirar sentido Era por ver desmentido De amor o sonho querido, Que sonhaste, alma gentil? Ou teu suspirar sentido Foi dor ligeira, infantil?

Era o teu anjo innocente Que passára mansamente A sorrir divinamente, Mas que outra vez não volveu? Era o teu anjo innocente, Que víras subir ao ceo?

E ficaste pensativa Sobre esta terra captiva D'esperança, e d'amor esquiva, Coberta com veo de dó; E ficaste pensativa Ao ver-te perdida e só.

Oh! esse tenue gemido Do seio teu despedido, Qual anhelito sumido Que a morte veiu cortar, Oh! esse tenue gemido, Que não pudeste occultar...

Foi longo adeus de saudade Aos dias da tenra edade, Que envoltos na eternidade Ligeiros viste fugir; Foi longo adeus de saudade Ao teu primeiro sorrir!

Do ceo á terra baixaste, E quando nella te achaste, Tristemente suspiraste Ao ver-te perdida e só; Do ceo á terra baixaste, Á terra de pranto e dó.

Virgem, virgem, mal pensavas, Quando triste suspiravas, E num gemido enviavas Longo e doloroso adeus; Virgem, virgem, mal pensavas Que eras um anjo de Deus.

Março de 1849.

XLIII

A M.ME LOTTI

Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo de infancia desvallida.

Canta oh! canta alma inspirada, Que jámais na tua vida Tiveste a fronte cingida Dos loiros que hoje vais ter. Canta: os prantos da orfandade, Á tua voz seductora, Se vão convertendo agora Em sorrisos de prazer!

Oh! jámais em teus triumphos Quando erguendo o rosto altivo, A teus pés tinhas captivo O poder da multidão, Jámais sentiste no peito Entre o rumor delirante, Batter, como neste instante, De enthusiasmo o coração!

Cada nota que desprendas Terá um eco no empyreo, Por que as palmas do martyrio Em rosas vais transformar. Oh! bem haja a Providencia Que na tua voz divina Poz a graça que fascina, E o condão de consolar!

Quando no giro brilhante Da tua crescente gloria, Te venha um dia á memoria Esta noite triumphal, Pára, escuta, e docemente Sentirás no teu ouvido, Um murmurio agradecido De ternura filial.

São elles os desherdados, Os que já sem lar paterno Erguem preces ao Eterno, E bençãos por teu amor; São elles a quem um dia Com teu inspirado canto Tornaste em sorriso o pranto, Em pura alegria a dor!

1860.

XLIV

PRIMAVERA

Contempla este ceo esplendido, Ouve aquellas melodias De tanta ingenua avesinha, Que alegre, os serenos dias Da primavera adivinha.

Não vês a olaia? vaidosa! Só por vêr que a amendoeira, Mais cedo desabrochou, Vermelha como uma rosa, De repente se tornou.

Oh! bem vinda primavera! Ao vêr o sorriso terno Da tua boca divina, O prado, o monte, a campina, Que o triste e gelado inverno Sem piedade devastou, Num momento se animou!

Em teu regaço a abundancia, Esperançosa floresce; Á sombra de teus verdores, Entre a suave fragrancia De tuas variadas flores, Contente o pobre adormece.

E tu, minha vida, ao vêr-te Sósinha a meu lado agora, Nesta estação, nesta hora, Neste encantado logar, Á sombra d'essa verdura Onde frouxa a luz desmaia, Ante o mar que além suspira Na loira areia da praia, Não vês que a razão delira, Que dentro do coração Não cabe tanta ventura?!

Falta a vida, sim, a vida, Para esta alegria immensa, Das nossas almas, querida! Viva, ardente, pura, intensa, Nesses olhos brilha a chamma Do amor que tua alma incerra; Alma que ao sopro de Deus Em divino amor se inflamma, Alma que veiu dos ceos, E que não cabe na terra.

Fugaz, tranzitorio, vão, Será para nós o encanto Que nos enche neste instante De ventura o coração?

Será! que importa? constante Virá depois a saudade, Abraçar essas memorias De infinda felicidade; Como ao templo aonde as glorias, De paz, de amor, de alegria, Se celebraram um dia, Mas templo que ao chão tombou, Se abraça a hera viçosa, Reveste as pobres ruinas, Amparando carinhosa Esse resto que ficou!

Uma lagrima extremece, Vem de teus olhos á flor! Minha vida, esquece, esquece, Que póde haver na existencia Momentos de acerba dor! O sopro da Providencia, Vivo está, vivo respira, Neste ceo desassombrado, Na corrente que suspira, Neste cantico inspirado, Que as aves soltam no val, E d'elle provém a essencia Do nosso amor immortal!

Contempla o vasto horisonte Que o sol vivido illumina; Olha as flores da campina; Escuta as aguas da fonte; Respira esta aragem pura, Embalsamada, e suave; Ouve o cantico d'essa ave, Que improvisa na espessura!

Recolhe n'alma o perfume, D'esta encantada poesia. D'este sol, d'esta alegria, Que em torno de nós fulgura, E responde, minha vida, Se a nossa alma neste instante Póde com tanta ventura!

Abril de 1856.

XLV

VOLTAS

(Improviso)

Entre as flores da campina Correm uns certos rumores. Que tu, rosa purpurina, És a inveja das mais flores. F. C. M.

És rosa, bem vês; o aroma Que do teu seio rescende, A cor que a folha te accende, A inveja que ao rosto assoma De todas as outras flores, Não t'o diz, quando no prado, Aos primeiros resplendores Do sol que tem despontado, Ergues a fronte singela, Mas ah! quão graciosa e bella?!

O lyrio que á sombra nasce, Quando te sente e te aspira, Não sabes como delira!! Não tens visto tanta vez Naquella timida face Redobrar a pallidez? E o rouxinol namorado Que, assim que a lua derrama Seu doce clarão no val Por entre a viçosa rama, Desprende a voz immortal Improvisando inspirado O seu hymno nupcial Á noiva que Deus lhe ha dado!

Por quem suspira anhelante? Por quem trémulo se inclina Sobre a veia cristalina? Quem procura nesse instante? --És tu, rosa purpurina!

És tu, sim; porém a cor Que tinhas tão viva outr'ora, Porque a vais perdendo agora? Dize, oh rosa, a occulta dor Que te faz tão tristemente Pender a encantada frente!

Agora entre as outras flores Correm uns certos rumores... Quaes são, não sei; mas ouvi Que as mais bellas da campina (Por quem és tão invejada) Quando hoje chamam por ti, Dizem--rosa namorada, E não--rosa purpurina.

12 de Maio de 1860.

XLVI

LELIA

O POETA

Musa: o dia rompeu chuvoso e frio, Eu não tenho um real, nem tu tão pouco, Que és pobre como Job; por conseguinte Que havemos de fazer?

A MUSA

Ficar em casa, Discutindo as miserias d'este mundo. Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta, Em que estás a pensar?

O POETA

Numa aventura.

A MUSA

Não se póde contar?

O POETA

De certo póde.

A MUSA

Nesse caso aproxima-te do lume, Accende este charuto, e principia.

O POETA

Ha dois annos, um dia, ou mais exacto, Uma noite em que a lua resvalava No firmamento azul, em que os modilhos Do inspirado cantor da primavera D'entre a balseira em flor se desprendiam, Achava-me aspirando a branda aragem Sentado no portal de uma vivenda Da modesta apparencia, e collocada Num sitio encantador. Naquella noite, De que me hei de lembrar eternamente, Tinham vindo esperar-me de emboscada Alguns contrabandistas do parnazo, D'entre os quaes destacava a face lívida De certo esguio e pesaroso vate Que te inspira notavel sympathia. Fugi! elles ficaram declamando As primeiras estrophes de uma nenia!

Vinha rompendo abril: como já disse, Sereno estava o ceo, doce a bafagem, E a rosa, a favorita, a bella noiva, Por quem o rouxinol desde a alvorada Solta a voz em prodigios de harmonia, Corando abria o pudibundo seio Aos doces carmes do adorado amante.

Passado pouco tempo esta cabeça Começára a enredar-se em mil chimeras. De repente uma voz sonora e fresca Chegara ao meu ouvido. Era tão simples, Tão suave, tão meiga a melodia, Tão infantil a voz! Voltei os olhos, E descobri um vulto na janella. Que figura ideal! alta, mas fragil, Como hastesinha de um arbusto novo. A innocencia e virtude respiravam Naquelle rosto candido e formoso. Numa das mãos firmada a face tímida, E na outra a madeixa loira escura Que vinha em pittoresco desalinho Espargir-se nos hombros de alabastro.

Como o cantor da selva que inspirado Improvisava no florido bosque, Cantava ella tambem; ave innocente, Juntava mais um trilo ao hymno eterno, Que aos pés de Deus a natureza erguia. Oh! quão feliz seria quem no mundo Alcançasse as primicias d'aquella alma! Lembrei-me de as colher, e decidi-me A apparecer-lhe no seguinte dia. Com effeito assim fiz.

Era sol posto: Cançada de correr pela campina, Tinha vindo sentar-se pensativa Nos degraus de uma cruz que se elevava No adro estreito de modesta ermida. Chegava emfim ess'hora em que saudosa A mente se dilata em magos sonhos; Hora em que alma absorta em gostos intimos Perde a consciencia do exterior da vida. Diversas nuvemsinhas esmaltavam Para o lado do poente o firmamento. O bronze deu signal d'_Ave-Maria_. Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios A singela oração; passado instantes, A pomba estremeceu, mas de alegria. A viva chamma de amoroso affecto Brilhou no puro azul d'aquelles olhos, Quando nos meus attentos se fitaram; E um sorriso de angelica ternura Entreabrira os seus labios purpurinos. Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve, Que estremeciam apertando as minhas, E pronunciei mansinho estas palavras:

--«Sim, sou eu, que tu tens visto, Tanta vez naquelles sonhos Bellos, candidos, risonhos, Da tua idade infantil. És minha. Sou teu. A vida Para nós vai ser agora Mais alegre do que a aurora, Mais florída do que Abril!

Oh! que longas confidencias Nos esperam nestes prados! Que dias tão descuidados! Que instantes de tanto amor! Buscando ao crescer do dia Entre o bosque a sombra densa, Sentindo a alegria immensa Do sol, do campo e da flor!

És minha: do ceo proveiu O poder que a ti me prende, Mas diverso fogo accende O teu e meu coração: Tu no mundo és a innocencia, Eu sou na terra a poesia; Tu dás-me a tua alegria, Eu dou-te a minha paixão!

Dou-te as sombras da tristeza Que acertam sobre teu rosto, Como as sombras do sol posto Na rosa agreste do val. Recebes num meigo abraço Meu profundo sentimento, E dás-me o contentamento Do teu seio virginal.»--

Indisivel prazer brilhou nas faces Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas Que ancioso proferi, e com ternura Disse, cravando em mim seus olhos bellos:

--«Orphã de paes, só tenho neste mundo Apenas uma irmã; nós habitamos Naquella casa que d'aqui se avista Entre a verdura d'esse val ameno. Já mil vezes em sonhos encantados Eu ouvi tua voz, vi tua imagem. Agora emfim és meu e para sempre. Não é verdade? dize.»--perguntava Com extremo, firmando-se ao meu braço.

Os pallidos clarões do astro saudoso Despontavam no ceo; por entre as ramas A aragem susurrava brandamente, E o rouxinol occulto nas balseiras Soltava algumas rapidas volatas, Experimentando a voz que dentro em pouco Iria improvisar o hymno da noite. Caminhámos ao longo da alameda Que terminava em frente da vivenda Onde Lelia (era este o nome d'ella) Passára os dias da ditosa infancia. Á entrada do portal dei de repente Com a vista no pallido semblante De uma bella mulher. Cumprimentei-a. Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre.

--«É Julia, minha irmã»--me disse Lelia. Segundei um rasgado cumprimento, A que ella respondeu com a gentileza De uma senhora de elevada classe. Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço, E acceitei promptamente este convite, No que fiz um chapado disparate!

«Tibia luz, temperada para amantes,» Illuminava uma pequena sala, Onde o luxo e bom gosto respiravam. Em primeiro logar é necessario Que eu te faça um retrato a largos traços (Como agora se diz) da encantadora E provocante dona d'essa casa,

Era alta, sorriso malicioso, Boca fresca, e vermelha como a rosa, (É velha a imagem mas é sempre boa!) Cabello basto, fino, muito escuro, Olhos da mesma cor, e quasi sempre Por doce morbidez meio cerrados. Quando porém ás vezes dardejavam Por entre a negra sombra das pestanas Um só raio da luz que os inflammava... Ai d'aquelle que ousava descuidado Mirar de leve essa traidora chamma!

Que te direi do pé pequeno e curvo, Que na estreita prisão de uma botinha De setim preto estava clausurado? Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra A poesia da lua e das estrellas, Do Tejo de cristal, da mansa brisa, De tudo o mais que tenho por mil vezes, Estafado em mau verso e peior prosa, Para só contemplar os mil encantos, Que tinha aquelle pé!

E a pobre Lelia, A meiga apparição que nos meus braços Tinha vindo entregar-se sem receio, Onde estava? calada e pensativa, Contemplando o meu rosto, onde subia O sangue accezo em ondas de desejos.

Em presença d'aquella peccadora, Esqueceu-me de todo o sentimento Que me inspirára o anjo de innocencia. Sou poeta; bem sabes que os poetas Não são de certo os entes mais constantes! Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo Podera resistir? Se nesse instante A visses no _fauteuil_ reclinada! O vestido entre _roxo e cor de rosa_, Apesar da invasão das _crinolines_, Deixava perceber divinas fórmas. No cabello uma rosa perfumada, E no turgido seio, que ondulava Atravez da finissima cambraia, Viçoso ramo de singelas flores.

Ella viu a impressão que produzira No pobre peccador que a contemplava, E descerrando a boca num sorriso Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios, E a eloquencia do olhar disse-me tudo.

Pouco a pouco nas faces desmaiadas Se accendêra o rubor; nos olhos negros Scintillou por instantes uma lagrima, «Precursora de languido deliquio». Meiga, sonora então, como seria A voz do archanjo que descesse á terra, Junto a mim murmurou a voz de Lelia:

--«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio, Á mesma hora, de novo nos veremos; Vou resar a oração que me ensinára, Minha mãe quando eu era pequenina. Vou resal-a por ti!»--Oh! por instincto; A innocencia fugia do peccado. Quiz seguil-a tambem, mas por encanto, Por encanto fatal, senti-me preso Ao supremo poder d'aquelles olhos Que nos meus se reviam com ternura.

De novo aquelle pé que me perdera, Se firmou num pequeno tamborete, E d'essa vez deixando a descuberto, Um fragmento de perna, que faria Morrer de desespero uma andaluza.

Esvaeceu-se então completamente A meus olhos o anjo da candura, Das commoções divinas, da virtude, E achei-me só, perdido, face a face Ante o demonio das paixões terrestres! Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo De desejo e de amor fugir a vida.

Quando a razão voltou, como o murmurio Da fresca viração da primavera, O sopro perfumado de seus labios Vinha affagar-me docemente a fronte. Os anneis do cabello ondado e negro, Espargindo-se, avaros procuravam Occultar-me da vista aquelle seio! Impaciente os affasto devorando, Num beijo, em mil, um mundo de delicias! Oh! como então no peito me pulava O coração vaidoso e triumphante!

No languido quebranto que succede Ao febril desvario dos sentidos, Julia estava a meu lado; amortecida, Por entre densa rama das pestanas, Partia a luz das languidas pupillas. Desmaiára de amor a rosa esplendida, E voltava de novo áquella face, A pallidez do lyrio das campinas.

Abatida e indolente, erguêra a fronte; Caminhámos os dois para a janella: Os primeiros clarões da madrugada, Vinham rompendo já no firmamento. Chegava emfim a hora, era forçoso Dizer adeus á seductora imagem!

II

................................... ................................... ................................... Casta filha do ceo, pura innocencia, Como o sorriso alegre de teus labios Me torna aos dias da ditosa infancia, E me faz existir algumas horas No doce enlevo de passados sonhos!

Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa, Nas agruras da terra, eu te contemplo Com viva compaixão! Tão facilmente Se evapora o perfume de teu seio, Se perde o viço de teu meigo rosto! Caes subito no chão pallida e triste! E porque? porque o sopro envenenado Do mundo te crestou. Alheia ao crime, És fulminadada pelos crimes de outros!

Eram estes, ó musa, os pensamentos Que vinham em tropel ao meu espirito, Quando estava disposto a dirigir-me Ao sitio que na vesp'ra me indicára A ingenua irmã da tentadora Julia. Começava a morder-me na consciencia O remorso de haver atraiçoado Aquelle anjo de amor e de candura. Nisto sinto parar um trem á porta; Olho, e vejo saltar de uma caleche, Elegante e veloz como a gazella, A minha irresistivel peccadora. Quantos protestos até'li fizera, Só com sentir-lhe a voz se evaporaram! Corro á porta, ella sóbe, e com ternura Aos meus tremulos braços se arremeça:

--«Tardavas tanto!... as horas d'este dia Não terminavam nunca!... vim buscar-te; Perdoa se fiz mal; mas o desejo De te ver e abraçar era tão forte... Vamos dar um passeio pelo campo, E depois... serás meu, e eu serei tua!»--

Terminado este rapido discurso, Mas cabal, eloquente, e peremptorio, Peguei no meu chapeo, e em continente Descemos e partimos na caleche. Não podes duvidar que possuia A mais commoda amante d'este mundo.

Quando o carro passou pelo Chiado, Mais de vinte lunetas se assestaram A um tempo sobre nós; e é bem provavel Que mais de vinte bocas honradoras Me ficassem na sombra remordendo; Tanto melhor; é bom ser invejado.

Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando, Illuminava de clarões suaves O firmamento azul; nos verdes prados A flor estremecendo de alegria Aos doces beijos da travessa aragem, Como offrenda enviava ao ceo propicio A pura essencia do virgineo seio.

Scintillava o prazer nos olhos negros Da mulher que apesar de peccadora Era bella, oh! tão bella como os anjos Que o tentador Satan despenha ao mundo! Formosuras fataes qu'inda conservam Na fórma o que é do ceo para illudir-nos!

Ai de nós se encarâmos descuidados A morbida expressão de certas frontes, Onde a candura nos occulta o crime!

Alva era a face da elegante Julia; Vivo o rubor que lhe animava os labios; Adoravel a tinta fugitiva Que lhe tocava levemente as palpebras; Muda a boca; no olhar toda a eloquencia!

Entrámos na allameda. Era sol posto. Ao chegarmos á porta, appareceu-me Um personagem que d'ali saía, Baixo, gordo, roliço, impertigado, Sorriso de barão, cara opulenta, E ar de um homem contente de si proprio.

--«É de certo barão ou brasileiro.»-- --«Brasileiro e barão»--disse-me Julia. --«Visita d'esta casa ha muito tempo?»-- --«Ha muito tempo sim»--respondeu ella Com certa hesitação--«Não lhe fallaste?»-- --«Felizmente escapei de tal desgraça!»--

Subi; cheguei á sala; ella deixou-me Por algum tempo só junto á janella. Sentei-me a respirar o vivo aroma Da fresca viração da noite amena. Mudára tudo em mim completamente: Resfriára-se o fogo dos desejos, E o sentimento despontava n'alma!

Vaporosa, ideal, dentro de pouco A meus olhos surgíra uma figura Cuja forma gentil me arrebatava! No purissimo azul dos olhos castos, Tremiam, scintillando, algumas lagrimas; O sorriso, gelado á flor dos labios, Como gela o sorriso da virtude Quando pára assustada ante o peccado. Tirando a corôa de virgineas flores, Que lhe cingia a fronte immaculada, Olhára para mim! Oh! Deus supremo! A expressão d'esse olhar era a do anjo Ao contemplar um infeliz na terra! Depois, soltando a voz, estas palavras Com doçura e tristeza proferíra: