Versos de Bulhão Pato

Chapter 4

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Oh! depois vi claramente, Que de teu rosto innocente Partira o raio de luz, Tão suave e tão sereno, Como esse que nas pupillas, Azuladas e tranquillas Do anjo da nossa infancia Melancolico reluz!

Parámos naquella estancia, Dize, lembras-te, Luiza, Como vinha fresca a brisa, E que suave fragrancia Rescendia a viração? Tu firmavas-te ao meu braço, E eu mal respirar podia Que não sei quê me opprimia, Mas com que doce oppressão!

Parava, não de cançaço, Por que o peito mais valente, De mais vigor não se anima, Nem com mais força se sente Do que eu me sentia então!

Foi fatal aquelle instante, Para ti fatal, embora, Tu viveste numa hora, Inteira toda uma vida Do mais delirante amor; Porque a tua alma, querida, Quando deveras se inflamma, Devora co'a sua chamma O prazer até á dor!

Duas lagrimas brilhantes De teus olhos deslisaram, Quando nos meus se cravaram Formosos e scintillantes. A expressão que eu nelles via, Devêra ser semelhante Á que o justo vê no dia Do seu supremo juizo, Nos do anjo fulgurante Que lhe aponta o paraizo!

Como foi que tal encanto A fatal mão do destino Para sempre nos quebrou!? Da noite o sombrio manto, O teu semblante divino A meus olhos occultou!

Oh! não foi nesse momento, Porque inda no firmamento O lampejo d'uma estrella, As tuas pallidas faces De um reflexo illuminou, E inda um beijo, longo, ardente Na tua boca innocente A minha boca estampou!

Oh! não foi!! Depois ainda, Na mesma noite encantada, Te vi fulgurante e linda, De brancas roupas trajada, No turbilhão delirante Do baile veloz passar; Inda ali tanta esperança, Tanto amor, tanta ventura, Veiu minh'alma inundar Inda ouvindo aquella valsa De enthusiasmo estremecemos, E desvairados corremos Ao som da doida cadencia. Oh! que fogo nesse instante Nos inflammava a existencia!! Eu cingia-te anhelante Entre meus convulsos braços, E com teus ligeiros passos Tu mal tocavas o chão! Aquella doce harmonia De instante a instante augmentava. Oh! como então nos battia Agitado o coração! Augmentava, e de repente, Como cortada torrente, A melodia parou; E nos meus braços, querida, Extenuada, abatida, Por momentos te deixou.

A aurora vinha rompendo Quando teus olhos aos meus, Proferiam eloquentes Aquelle saudoso adeus. Ao longe o vasto Oceano, Da brisa fresca agitado, Ante nós bramia ufano. Tu, volveste horrorisado O rosto co'a vista d'elle!... É que em breve a todo o pano, O meu baixel correria Sobre aquellas ondas torvas, E de ti me apartaria!

Janeiro de 1851.

XXVII

SÊ FELIZ

Sê feliz! Hontem ainda Contemplando o teu semblante, Na sua innocencia infinda, Porém triste nesse instante, Roguei a Deus do mais fundo Mais puro do coração, Que uma lagrima, um desgosto, Uma sombra de amargura, Jámais viesse no mundo, Turbar teu candido rosto.

Sê feliz: toda a ambição Que por ti minh'alma encerra É ver-te feliz na terra! Nada mais. O amor profundo, O mais violento embora, Tem sempre na vida um'hora De egoismo, e esta affeição, Que uma só vez na existencia No meu peito se accendeu, Que jámais se ha de extinguir, Tem a pureza do ceo, Proveiu da tua essencia!

Se no presente ou porvir, Alguem que te encante a vida Existe ou tem de existir... Não terei zelos... Unida, Para sempre a outro affecto Passarás junto de mim, Embora, direi então: «Sê feliz: toda a ambição, Que por ti minh'alma encerra É ver-te feliz na terra!»

E sabes?... ao Creador Dou graças por me haver dado Este puro sentimento Em vez do fogo do amor. Ai! se um dia, no momento De ver-te, te houvesse amado!... Se em vez da chamma suave, Que em meu coração se inflamma, Se ateasse aquella chamma, Se houvesse emfim rebentado Aquelle fatal volcão!... Ai! de mim! quanta amargura! Quanta angustia o coração Não teria já passado! Porem assim!... não, ai! não! Sê feliz: toda a ambição Que por ti minh'alma encerra, É ver-te feliz na terra!

Maio de 1854.

XXVIII

A FOLHA DESBOTADA

Volve folha desbotada, Outra vez á mão nevada Que do tronco te ceifou, Volve, e dize sem receio, Que te apertei contra o ceio, Que o meu olhar te adorou:

Vai discreta confidente, Dize tudo quanto sente, E calla o meu coração! Vai, que a tua voz sentida, Ha de ser por ella ouvida Com ternura e compaixão.

Dize que ao ver um instante Anuviado o seu semblante, Pensativo o seu olhar, De sobresalto e receio, Sinto o coração no seio De repente a palpitar! Que a sonhei antes de vel-a, Como bem fadada estrella, Mensageira do Senhor! Que ao vel-a a voz da consciencia Disse: É esta na existencia A tua estrella de amor! De amor puro, intenso, ardente, Mas que occulto eternamente No meu peito ficará! Que no infortunio nascido, Só commigo tem vivido, E commigo morrerá!

Ai! folhinha desbotada! Outra vez á mão nevada Volve de quem te ceifou! Volve, e dize, sem receio, Que te apertei contra o seio, Que o meu olhar te adorou!

Maio de 1854.

XXIX

NUM ALBUM

Venham ver este retrato, E respondam se o pintor, Que desenhasse melhor, O tirava mais exacto. Eil-a! saltando da tela, Viva, inteira, palpitante! Pallido um pouco o semblante, A boca graciosa e bella, Quando o sorriso a desflora, É como a rosa da aurora Abrindo ao sopro de abril! É mais! é ver num momento, Quanto pode o pensamento Sonhar de casto e gentil!

O cabello ondado e fino, Negro como a noite escura, Cai no collo alabastrino, E faz resair a alvura Do rosto fascinador.

Os olhos... oh! neste instante, Tremo, hesito, não ha cor, Não ha luz por mais brilhante, Que possa emfim imitar O reflexo scintillante Da chamma do seu olhar! Chamma que ás vezes traidora, Se occulta na sombra escura, Á espera que chegue um'hora, Hora de morte ou ventura!, Em que possa deslumbrar, Com mais fogo e com mais vida, O desvairado que ousar, Miral-a sem recear, Pela ver assim sumida!

Terminou?... e eu que julgava Cobrir-me de eterna gloria, Quando tanto me esmerava Na minha copia ideal! Agora que na memoria, (Ou antes no coração) Tenho vivo o original, Vejo bem que não ha mão, Por mais que saiba pintar, Capaz de estampar na tela A expressão graciosa e bella D'essa face, e d'esse olhar!

Abril de 1859.

XXX

ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?

Onde se encontra a ventura, Esta encantada visão, Que tantas vezes procura, Mas debalde, o coração? Nas pompas da formosura? Nos esplendores da gloria? No poder de conquistar A mais difficil victoria Com o mais timido olhar?

Oh! como então és feliz, Porque tudo te revela, Que não ha face mais bella, Nem existencia tecida De mais florído matiz!

Porém responde, na vida, Quando tu passas radiante D'essa luz que emfim só Deus, Concede a um anjo dos seus!... Quando ouves a cada instante Dizer com voz anhelante: «Lá chega, lá passa, é ella, Que é tão feliz como é bella!» Uma sombra de amargura, Um sentimento profundo Não te opprime o coração E não te diz que a ventura Se não encontra no mundo?!

Uma vez, sereno o ceo, Como os teus olhos brilhava! Airosa ante mim passava Essa forma, esse ideal Que não pode ser mortal! Atravez do raro veo, Que o semblante te encobria, Uma lagrima descia; Era de prazer ou dor! Oh! de angustia parecia, Pelo agitado tremor Com que o peito te battia! O mundo não sei se a via, Porque a meu lado exclamava: «Lá chega, lá passa, é ella, Que é tão feliz como é bella!» Mas quem sabe se acertava?! Porque a ventura real Se existe, é só no momento Em que livre o pensamento Se eleva ao mundo ideal! E noss'alma a outra unida, Foje á terra, se illumina De um raio de luz divina, E se esquece emfim da vida!

Julho de 1859.

XXXI

QUEM DIRÁ?

Quem dirá, vendo a expressão Que brilha no teu olhar, Que tu não tens coração? Bem haja a mão tutelar, Que á beira me suspendeu Do abismo da perdição! Que delirio foi o meu Naquelles tão curtos dias Que passei ao lado teu?

Oh! como tu respondias Com o silencio eloquente Ás palavras que partiam Do meu coração ardente! E depois, se num momento Os labios já não podiam Expressar o sentimento, O fogo do meu affecto, Como o teu olhar inquieto A minh'alma interrogava E todo paixão jurava, Que era meu o teu amor!

Oh! que dias de ventura!... Nos campos, abria a flor; Por entre a tenra verdura, Inda fraca, inda infantil, Se escutava a voz das aves Que saudavam abril. E tu, como ellas, ditosa, Ás suas notas suaves Juntavas a voz formosa! Ah! como eu vivia então! Como de novo sentia Rebentar no coração Essa infinita alegria Que nos desvaira a razão!

Por quanto tempo durou O sonho que me encantava? Breve foi, maldicta a mão Que d'elle me despertou. Quando mais certo julgava Que era emfim minha a ventura, No momento em que acabava, De escutar dos labios teus Aquelle estremoso adeus! Adeus, que nesse momento Com a esperança sorria E tanto me promettia!...

Foi, oh Deus! que de repente, Uma palavra maldicta, Fez que eu visse claramente, Cobrindo minh'alma afflicta De espessa nuvem sombria! ........................

Quem dirá vendo a expressão Que brilha no teu olhar, Que tu não tens coração Ou tem-lo para enganar?!

Abril de 1859.

XXXII

UM BRINDE

(Improviso)

Amigos, á formosura Que nos cerca neste instante, Erga-se a taça escumante De purpurino licor. Vivo enthusiasmo rebente Agora de nossas almas, Caiam palmas sobre palmas Cada vez com mais ardor!

Aqui floresce na horta A viçosa laranjeira, Corre o Champanhe e o Madeira Que offertara nivea mão, Aqui não chegam as garras De tanta velha leôa Que esfaimada por Lisboa Se atira a tanto leão.

Aqui livre em nosso peitos Pula impaciente alegria, Porque ao sol de um bello dia Tudo vemos reflorir! Que importa pois que os ministros Resonem no parlamento, E que os homens de São Bento Nem sequer nos façam rir?

Para nós sorri-se o mundo, Para nós a vida é esta, Hoje festa, amanhã festa, Gloria, encantos, illusões! Junto a nós temos as bellas Mais fragrantes do que as rosas, Longe... o mundo das preciosas, E o mundo dos papellões!

Eia pois! á formosura Que me cerca neste instante Erga-se a taça escumante De purpurino licor. Vivo enthusiasmo rebente Agora de nossas almas, Caiam palmas sobre palmas Cada vez com mais ardor!

Abril de 1859.

XXXIII

AQUELLE DIA!

Jámais me ha de esquecer aquelle dia! Do meigo outono a pallida folhagem Inda os troncos do bosque revestia. Sereno estava o ceo; doce a bafagem; De toda a natureza Infinita saudade respirava; Mas por essa tristeza Feliz o coração se dilatava!

Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança, D'esses dias de amor e de ventura, De paz e de esperança, Se anima, e vê sorrir na noite escura, Um reflexo da estrella resplendente Que uma vez lhe brilhou serena e pura; Inda a sombria nevoa do presente Se rarefaz, se esvai, e se illumina Tudo a seus olhos de uma luz divina!

Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia! Nem o lento correr de tantos annos, Nem as tardias horas que vieram Depois cheias de amargos desenganos, O encanto desfizeram Da inspirada, divina poesia, Que elle continha em si, que elle nos deu, E nós guardmos como um dom do ceo!

Era ermo o logar, ermo, mas bello! Profunda a solidão! De quando em quando, Escutava-se o cantico singelo, Da estrangeira avesinha que buscando O sol do nosso inverno, A voz desfalecida ia soltando Com saudades do _ninho seu paterno_.

No extasi ideal do sentimento, Tu volvias os olhos silenciosa, Para o sereno azul do firmamento; E da boca formosa, Reprimir um suspiro em vão tentavas! É que nesse momento, Exausta a escala do prazer, anciosa Uma nota na dor emfim buscavas!

Nas nossas almas existia um mundo De indefenito amor; Do pelago profundo Onde ruge o furor Insano, concentrado, atroz, maldicto, D'esta cruenta guerra Das ambições da terra, Nem uma maldição, um som, um grito Nos vinha perturbar! Era a amplidão do ceo, a solidão da serra, Ao longe... a voz do mar! Depois como se a mão da Providencia Inundasse meu ser naquelle instante Da luz de outra existencia, Julguei ter visto a origem fulgurante, De onde provém a chamma D'este immortal amor que nos inflamma!

Á ideia então da morte Sentia-me sorrir; porque na hora, Que nol-a desse a sorte, Brilhava para nós serena e pura Essa immortal aurora, Que reluz nos umbraes da sepultura! Iriam nossas almas, Já livres de martirio, Colher as flores e mimosas palmas Que vicejam no empyreo!

Tudo em fim acabou! a noite escura, Envolvera em seu manto aquelle dia! E de tanta poesia Que resta para nós? uma saudade, E a esperança que um dia essa ventura Nossa outra vez será na eternidade!

Agosto de 1858.

XXXIV

PARA RECITAR AO PIANO

(Primeira)

Era no outono quando a imagem tua A luz da lua seductora vi. Lembras-te ainda nessa noite Eliza, Que doce brisa suspirava ali?

Toda de branco, em tua fronte bella, Rosa singela se ostentava então, Vi-te, e perdido de te ver buscava Se me apartava da gentil vizão!

Era debalde; quanto mais te via, Mais me perdia delirante amor; Magicas fallas proferiste incerta, Toda coberta de infantil pudor!

Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo Louco desejo pois fugir-te vi! Vendo-me triste para mim voltaste, Não me fallaste; mas eu bem senti!

Fresca, arrobada de perfume a brisa, Lembras-te, Eliza? suspirava então; Tu nos meus braços reclinaste a frente, E meigamente me disseste: Não!

Setembro de 1852.

XXXV

(Segunda)

De luz, de encanto, de alegria infinda, Aquelle rosto seductor esplende, Brilha a ventura em sua face linda, E vivo fogo o seu olhar accende!

Como a existencia para nós é bella Entre a verdura d'esta amena estancia! Aqui suspira a viração singela, E esparge a rosa virginal fragrancia.

Livres, immunes neste doce enleio, Dos gratos dias do saudoso abril, Ouvir das aves o infantil gorgeio, Gosar da sombra do enredado til...

Ella a meu lado, sobre os meus cravando, Aquelles olhos cuja densa rama, Agora occulta, logo vai deixando, Brilhar o fogo da traidora chamma!

Se entro no baile onde o prazer se agita, Eil-a, a formosa, no veloz passar, Louca os seus olhos nos meus olhos fita, E mil affectos me traduz no olhar!

De luz, de encanto, de alegria infinda, Aquelle rosto seductor esplende; Brilha a ventura em sua face linda, E o ceo no fogo que esse olhar accende!

Abril de 1854.

XXXVI

(Terceira)

Lembras-te, Elisa, quando a face pallida, Da casta lua despontou no ceo, E d'entre a balsa suspirada, e languida, Mavioso canto o rouxinol rompeu?

Naquella noite em que o perfume vívido De mato agreste rescendia no ar, Em que as estrellas fulguravam timidas Nas doidas ondas do ceruleo mar!

Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me, Com todo o fogo de infantil paixão, Em voz sumida murmuravas: _Amo-te!_ E me apertavas docemente a mão!

E que eu perdido de ventura olhando-te Da meiga lua ao divinal fulgor, Teu rosto de anjo contemplava estatico, Candida pompa de inspirado amor!

Nesse momento fervorosa supplica Do intimo d´alma murmuraste a Deus, Que amor, que encanto nos teus olhos humidos, Quando os cravastes na amplidão dos ceos!

Depois sentada nos degraus de marmore Sombra encantada, celestial visão, Que meigas fallas proferiste tremula, Que mil protestos me juraste então!

Depois as rosas que animavam vívidas Teu bello rosto, desmaiar eu vi E vaga sombra de tristeza subita Cerrar-me forte o coração senti!

Maio de 1853.

XXXVII

CIUMES DO PASSADO

Quando teu rosto adorado, Da luz do amor se illumina, Resplandecente a meu lado, Não sabes por que anuviado O meu semblante se inclina? Por que um amargo sorriso Pelos meus labios deslisa, Quando teus labios, Luiza, Me proferem anhelantes, Tantos protestos de amor! É que minh'alma se opprime Á lembrança do passado, Em que já outro a teu lado Escutou essas palavras, Que me repetes agora Cada vez com mais ardor; E que esses mordidos beijos Que me perdem de ventura, Dados co'a mesma ternura Já perderam de desejos Neste mundo outro tambem! E tu não sabes, querida, Os zelos que me devoram, Á lembrança que na vida, Já quizeste a mais alguem?!

Janeiro de 1851.

XXXVIII

NUM ALBUM

(Improviso)

Se eu fôsse um vate inspirado, Cantor das rosas singelas, Ah! quantas coisas tão bellas Tinha aqui para dizer! Mas eu tenho horror á brisa, Odio ao prado, odio ás estrellas, E então aos vates das _ellas_ Nem sequer os posso ver.

Tu tambem, posto que a vida Para ti sorria agora Como sorri uma aurora Dos puros dias de abril, Não morres pela açucena, Nem deliras contemplando A lua que vai passando _Pelos vastos ceos d'anil_.

E inda bem que a Providencia Te livrou de tal abysmo; Ó terrivel romantismo, Quando has de um dia acabar? Eu conheço uma menina, Bella, gentil, seductora, Mas, meu Deus, é tão doutora Que se não pode aturar!

Arranja umas taes carinhas, Toma umas taes posições, Falla em sonhos e illusões No seu romantico ardor!... Pois é pena, que é bonita, Talvez seja até formosa; Se não fosse _preciosa_ Era um ente encantador.

Se lhe dizem que é feliz, Solta um suspiro profundo, Porque ninguem neste mundo Até hoje a comprehendeu! Salvo um ente idolatrado Porém esse... oh! desventura! Para a fria sepultura Na flor da vida desceu!

Emfim, se alguem lhe protesta Que inda ha de viver tranquilla, Ergue em extasi a pupilla Pondo a mão no coração! Imagina o desgraçado Que tenha a louca mania De ir batter comsigo um dia Neste abysmo de paixão!

Oh! Bem hajas tu que és bella, Gentil, graciosa, elegante; A alegria em teu semblante Co'a innocencia anda a saltar: Bem hajas tu que detestas Todos os vates das _ellas_, E as romanticas donzellas, Que andam sempre a declamar!

Janeiro de 1862.

XXXIX

AMOR E DUVIDA

Quando essa pallida frente Por momentos pensativa Cai ás vezes de repente, E se amortece a luz viva Que nos teus olhos resplende, Sinto que est'alma se accende De um fogo, de uma paixão, Que me desvaira a razão!

A terrivel incerteza, Esta duvida constante, Desapparece um instante! Creio em ti:--foge a tristeza Que todo o meu ser domina; Torno á vida, e livre aspiro Num mundo que se illumina Da encantada luz do amor! Depois, se um flébil suspiro Vem de teus labios á flor, Oh! como então és amada! Como tens aos pés rendida Toda a força d'esta vida Que por ninguem foi domada!

Mas é só por um instante! Volta depois a incerteza, Quando assume o teu semblante, Aquella glacial frieza, Que desalenta, que opprime, Que faz profunda tristeza, E destroe quanto é sublime!

Um dia no firmamento O sol vívido brilhava, E a aragem com brando alento Entre as ramas suspirava! Era ali, naquelle val, Que parece destinado, Para esconder na espessura Os segredos da ventura!

O coração agitado Nesse instante te pulsava, E uma tristeza mortal O semblante te anuviava. Allucinado buscava A causa d'onde nascia, Quando um gesto, uma expressão Me disse que eu só podia Tirar-t'a do coração! Sem mais ver, nem mais pensar Com que delirio a teus pés Me viste rendido então!... Quem podia duvidar Vendo a ingenua timidez Do teu inspirado olhar?! Os labios não revelaram O que havia em nossas vidas, Mas as vistas confundidas Com que eloquencia fallaram! Chegára a noite; do ceo Vi scintillar uma estrella; Era brilhante, e era bella, Mas um presagio mortal, Um cruel presentimento Me disse nesse momento: Não fites os olhos nella, Porque essa luz é fatal. Amanhã, espesso veo de nuveus ha de envolvel-a; E se de novo surgir Será para te illudir.

E esta duvida cruel Este constante hesitar Quem m'o pode terminar Quem, senão um teu olhar?

Junho de 1859.

XL

NUM ALBUM

Não vês tu como inconstante Num instante, Ruge o sul, e turba o ceo, E que o mar, quedo, azulado, Brame irado, Sacudindo alto escarceo?

Não tens visto na manhã, Flor louçã, Junto ás aguas rebentar, E á tarde, murcha, pendida, Já sem vida, Sem perfume, a desfolhar?

Pois então queres, amiga, Que eu te diga Que o amor não é assim? Quando tudo empallidece, Se emmurchece, Se desbota, e morre emfim?!

Essas illusões doiradas, Encantadas, Do primeiro albor da vida, São como a rosa louçã, Da manhã, Á tarde n'haste pendida;

São como o ceo azulado, Que doirado Pelo sol de ameno dia, Se escurece de repente Tristemente Por uma nuvem sombria!

E tu não queres, amiga, Que eu te diga Que o amor não é assim? Quando tudo empallidece, Se emmurchece, Se desbota, e morre emfim?!

Agosto de 1848.

XLI

SE CORAS NÃO CONTO.