Versos de Bulhão Pato

Chapter 2

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A quem busca a Providencia Para amparar o destino, Do que pobre e pequenino Se encontra sem luz, sem tino, Logo no mundo ao nascer!? Anjos de viva clemencia, Que onde existe o sofrimento, Correm, voam num momento, A dar todo o sentimento, Que taes almas sabem ter!

São ellas mães, são esposas, E recordando os carinhos Que tiveram seus filhinhos, Não podem ver pobresinhos Sem amor, sem lar, sem pão! No berço desfolham rosas, Onde espinhos só havia, E o sol de pura alegria, Já de affectos alumia, Dos orfãos o coração.

Salve pois, oh Caridade! Que assim abres o teu seio, Áquelle que sem esteio, Á luz d'este mundo veiu Para viver na afflicção. Salve casta divindade! Terna irmã da desventura, Que os suspiros da amargura Convertes á creatura Em risos de gratidão!

Junho de 1856.

XIV

BELLA SEM CORAÇÃO

Era uma esplendida imagem De olhos rasgados e bellos; Negros, negros os cabellos; Boca gentil como a rosa, Que á luz da manhã formosa Sorri ao sopro da aragem.

Alta, graciosa, elegante, Um ar de tal distincção, Na figura e no semblante, Que eu disse commigo ao vel-a: «Como esta mulher é bella, Sobre tudo na expressão De pallidez namorada, Que tem na face encantada! Esta sim, por Deus o juro, Esta ha de ter coração!»

A estação, o sitio, a hora... Era a hora do sol posto, E um frouxo raio de luz Vinha bater-lhe no rosto. A estação o meigo outono, Quando o prado se descora, No bosque cessa a harmonia, Quando tudo emfim seduz Com vaga melancolia. O sitio, ameno e saudoso, Onde livre a alma podia Dar-se inteira aos sentimentos De paz, de amor, de poesia!

Aproximei-me da imagem Meiga, risonha, singela; Soltára a voz, era bella, Bella sim, vibrante e pura, Mas sem aquella ternura, Sem aquelle sentimento, Que diz tudo num momento! Sem tremor, sem sobresalto, Voz que dos labios saía, Dos labios só, que se via, Não provir do coração; Voz sonora, porem fria; Bella sim, mas sem paixão.

«Pois essa gentil figura, Esse pallido semblante, Essa expressão de ternura Que todo o teu ar respira, A luz do olhar scintillante, Dize emfim: quanto se admira, Quanto ao ver-te nos encanta, Será sem alma, e sem vida?!»

Sorrindo me respondeu: «Aqui não ha coração!» Mas eu vi que elle bateu D'essa vez precipitado Por que a sua nivea mão Tentou comprimil-o em vão! E no olhar enamorado, E na voz que estremecia, Oh! Deus! o que não dizia A bella sem coração!

Setembro de 1856.

XV

PERDOASTE!

Anjo offendido; outra vez, Volve teus olhos do ceo Áquelle que te offendeu! Vel-o abatido a teus pés, Anjo esquece, e compassivo, Num sorriso de perdão, Torna a dar-lhe o coração. A cada instante mais vivo O remorso cresce em mim; Perdoa, oh! perdoa, emfim!

Offendi-te num momento De terrivel desvario; Era o ciume violento! O rubor da castidade A tua face affrontava, E eu cego, eu perdido, ousava Proseguir! oh! por piedade, Por piedade, anjo do ceo, Perdoa a quem te offendeu!

Em breve a razão voltou, E com ella essa anciedade Do desgraçado que ousou Num momento de loucura Offender a divindade. Nas trevas da noite escura, Nem ao menos uma estrella, Brilhava serena e bella! E eu caminhava em delirio Sem força para acabar A vida que era um martyrio! A tão profunda amargura Quem me podia arrancar, Quem, senão um teu olhar?

Lá, nas sombras do horisonte, Despontou por fim a luz, A mesma que em tua fronte Bella e placida reluz. No peito afflicto e cançado Senti dilatar-se então Este oppresso coração; O teu olhar adorado A mim outra vez volveu, Terno, meigo, apaixonado. Perdoaste, anjo do ceo!

Abril de 1857.

XVI

TRES RETRATOS

(Num album)

Como as horas passam rapidas Nesta doce companhia! Brilha impaciente alegria Em tudo á roda de mim. Nunca fui tão venturoso, Nunca a mão da Providencia Fez com que eu visse a existencia Tão bella e risonha emfim.

Esta noite, quando a lua No horisonte resvalava, Inspirado a saudava Nas balsas o rouxinol. Vem agora a primavera Abrindo o virginio manto, Cada dia um novo encanto Nos traz o romper do sol.

Como a vida assim é bella, Nesta amena convivencia, Com tres anjos de innocencia De formosura, e de amor! Dezaseis annos talvez Não tem Julia, bem contados, Alta, airosa, olhos rasgados, E sorriso encantador.

O pesinho estreito e breve Cinturinha delicada, A fronte um pouco inclinada, Com seu ar sentimental. Na ramagem das pestanas Occulta a traidora chamma, Que no instante em que se inflamma Dardeja um raio mortal.

Mas que morte tão suave! Inda ha pouco, em certa hora, Que essa chamma seductora O coração me accendeu... Se é morte esquecer a terra, Naquelle instante morria, Por que tudo o que sentia, Era a ventura do ceo!

Vel-a sorrir entre os campos, Bella, candida, animada, Como as flores que a alvorada De sua luz inundou!... Vel-a, co'as mãos impacientes, Afastar do rosto bello, O basto e fino cabello, Que a aragem desalinhou!

Vel-a depois pensativa, Quando tibio o sol declina, Na corrente cristalina Os olhos negros fitar! Vagas sombras de tristeza Que vem toldar-lhe o semblante, São tão bellas nesse instante, Dizem tanto sem fallar!

Laura, Elisa, as outras duas, Laura, pallida e morena, Baixa um pouco, mão pequena, Expressivas as feições; Os olhos claros e vivos, No seu brilho insinuante, Reflectem a cada instante Milhares de sensações.

Eliza, a timida Eliza, Que innocente singeleza, Que perfume, que belleza Naquella face gentil! Cabellos loiros cendrados, Olhos d'esse azul escuro, Que é semelhante ao ceo puro De um bello dia de abril!

As rosas da formosura Sempre vivas no semblante, O corpo esbelto e ondulante, Se é permittida a expressão; Uma tal ingenuidade, No seu todo se revela, Que em se olhando para ella, Bate alegre o coração.

Tirados daguerreotypo Não ficavam mais exactos De certo estes tres retratos Que procurei desenhar; Qual porém é mais sympathico, Mais perfeito, deve agora Dizel-o a amavel senhora Do livro onde os vou deixar.

Eu de certo não me atrevo! Nos olhos tem Julia a chamma Que nos sentidos derrama Torrentes de languidez! Laura... Eliza... mil encantos; Emfim, não sei qual prefiro, Não sei a que mais admiro, Sei que adoro a todas tres!

Setembro de 1857.

XVII

ADEUS

Vai-te, oh! vai sombra mentida, Para nunca mais volver! Vai-te, deixa-me na vida, Que esse teu estranho ser, Fatal sempre me tem sido, Fatal sempre me ha de ser.

Qual era a traidora mão Que para ti me impellia? Eu desvairado não via, Ser aquelle um fulgor vão Que no horisonte luzia?! Crente a vista repousava Na luz clara, intensa, bella, Que para a terra manava Do seio da meiga estrella, E que minh'alma inundava D'aquella celeste chamma Que a vida e razão inflamma No ardente fogo de amor!

Deixei-me cegar por ella; Quanto e como então vivia Ao grato e doce calor D'essa que assim me perdia, Não sei; porem sei que um dia, Num'hora de maldição, Não vi mais no firmamento O seu mentido clarão. Desvairado em tal momento Fugi sem norte e sem tino; Mas quem foge ao seu destino!?

Numa d'estas noites placidas, Em que as estrellas fulgentes, Reflectem vívida luz, Á flor das aguas dormentes; Em que o rouxinol seduz, Co'as inspiradas endeixas Soltando sentidas queixas, D'entre as balseiras virentes; Quando respira no ar, Do monte que o mato veste Aquelle perfume agreste, Que é tão grato de aspirar; Quando emfim a natureza, No seu mais pleno vigor Ergue a Deus seu hymno eterno De graças, de paz, de amor! Eu na minha alma abatida, Procurava, mas em vão, Uma só nota do canto Immenso da creação.

Debalde encontrar buscava, Naquella ardente anciedade Em que o peito arqueja e cança, No passado uma saudade, No porvir uma esperança!

Debalde a vista alongava, Pelo ceo onde as estrellas, Resplandeciam tão bellas! Em meu peito arido e morto O reflexo d'uma d'ellas Nem sequer compenetrava! Fatigado, exangue, absorto, Sem luz, sem norte, e sem tino Prosseguia o meu destino! Quando ao chegar um instante Em que afflicto a vista erguia, Dei com teu bello semblante, Pallido, triste, abatido, Que para mim se volvia Saudoso e compadecido.

Oh! tão fundo sentimento Brilhava nos olhos teus Que ao ver-te nesse momento Quem te não dissera um anjo Do ceo á terra descido, E que volve arrependido, Outra vez aos pés de Deus!

Lá, na extrema do horisonte Vinha então rompendo a lua; Melancolica a luz sua, O teu semblante inundou; E nunca no prado ou monte, Aquella face formosa, Outra tão pallida rosa De um reflexo illuminou!

Comtemplava-te perdido, De esperança, amor, e gosto, Quando teu languido rosto, Pouco a pouco se animou; E a tua voz docemente Murmurando ao meu ouvido, De novo um amor ardente Outra vez me protestou.

Hesitava em crer-te ainda; Mas o pobre coração, Quando se vê na desgraça Encontra a crença tão linda! A plenos tragos a taça, D'esse philtro enganador Ancioso esgotava então, Sem me lembrar que no fundo, Estava o fel da traição.

Vai-te, adeus, pallida sombra, Vai, porque este coração, Por tuas mãos lacerado, Com a tua vista se assombra, E de ti foge aterrado!

Janeiro de 1855.

XVIII

A VISÃO DO BAILE

Foi num baile que a viste cercada De perfumes, de luz, de harmonia, Onde viva, impaciente alegria, Nos semblantes andava a saltar; E ella triste, abatida, indolente Entre as pompas da festa encantada, Co'a tristeza na face estampada, E infinita saudade no olhar.

Ai! que luz! que expressão nesses olhos Quando instantes nos teus se cravaram! De repente em tropel acordaram Mil affectos no teu coração! E debalde a seu lado quizeste Revelar o que n'alma sentias, As palavras, a voz eram frias Para aquella infinita paixão.

D'essa noite os instantes voaram, Entre amor, entre gloria e ventura, E no fim com que immensa ternura, Seu olhar para ti se volveu! É que havia chegado o momento De deixar essa estancia inundada Dos primeiros clarões da alvorada, Que já vinha rompendo no ceo

Mas depois, quando o sol d'esse dia Desmaiava nas veigas virentes, Quando as aves soltavam gementes A voz doce nas balsas em flor, Não a viste assomar á janella, E sorrindo, mirar-te um instante? Não brilhava naquelle semblante, Um sublime reflexo de amor!?

No sonoro recinto do templo Quando as preces sinceras subiam, Quando os hymnos sagrados se ouviam Aspirando suaves aos ceos, Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua, Ante Deus, ante os olhos do mundo Que este affecto suave e profundo, Vem do ceo e é bemdicto de Deus!»

Hoje pois, que na luz d'esses olhos, Nessas fontes de amor e candura, Encontraste na terra a ventura, Cuidas tu em deixal-a, e partir? Oh! não vês que é fatal o destino, Que chegou para ti essa hora De encontrar a mulher seductora Que te deve encantar o porvir?

Ai, poeta, debalde procuras Esquecer a visão adorada; Ai! debalde! tua alma inspirada Outra igual neste mundo encontrou! São irmãs, e co'a mesma ternura Viverão abraçadas no mundo, Num affecto sincero e profundo A suprema vontade as juntou!

31 de Março de 1857.

XIX

RECEIOS

Ás vezes, quando a teu lado Comparo a expressão que outr'ora Tinha teu rosto adorado, Á sua expressão de agora... Não sei que tristeza vaga Que impressão sentida e funda, O meu coração esmaga! Oh! mas sei que a alma se inunda De uma subita amargura, De uma tal angustia e dor, Que toda a luz da ventura, Que me vem do teu amor Toda com ella se apaga! Loucuras serão, delirio D'este ardente imaginar; Serão, sim; mas o martyrio, Com que me sinto acabar, Só tem poder tua mão Para de todo o findar Neste oppresso coração!

Setembro de 1855.

XX

LEMBRAS-TE?

Lembras-te? frouxa expirava Aquella doce harmonia Que em nossas almas entrava. De uma luz tão resplendente Teu limpido olhar brilhava, Como a da aurora nascente, E aurora gentil sorria, No meigo azul de teus olhos Para raiar entre rosas Fragrantes e sem abrolhos.

Quando mais tenue partiu A cadencia saudosa, Tua boca proferiu Não sei que cortadas fallas, Que o ouvido não sentiu, Porque vieste graval-as Com a voz do ceo no peito, Que a ti rendido e sujeito Anhelando t'as ouviu.

Ao proferil-as, dormente O teu olhar descaíra, E em teu pallido semblante A expressão se reflectíra Dos affectos que agitavam A tua alma nesse instante. Ai! nesse instante do ceo, Que á terra breve fugíra, Que a elle inteiro volveu!

No horisonte estremeciam, Ebrias de amor as estrellas, E teus olhos se fitavam Na luz scintillante d'ellas; É que no ceo procuravam O eterno d'aquelle instante Que na terra presentiam Que passaria inconstante.

O alvor da nascente aurora, Que no horisonte assomava, Das estrellas desmaiava A viva luz, e inda agora, Tenho em minh'alma, querida, A expressão com que me olhaste Apontando para ella! É que essa aurora tão bella Não brilhava mais na vida!

Janeiro de 1849.

XXI

POIS SER PALLIDA É DEFEITO?

Pois ser pallida é defeito? E de todo o coração, Diz, pondo a mão sobre o peito, Que um rostosinho desfeito Não pode inspirar paixão?

Ora diga: a rosa é bella Quando o sol lhe accende a cor, É bella sim, mas ao vel-a Desmaiar n'haste singela Não lhe inspira mais amor?

Viçosa, fresca, orvalhada, De manhã é toda luz; Mas á tarde desmaiada, Co'a pallidez namorada, Oh! quanto mais nos seduz!

Está convencida vejo, Deveras não, inda não? Pois se é todo o seu desejo Ser corada, dê-me um beijo, E verá se cora ou não!

Porque esconde o rosto lindo? Santo Deus! descubra-o já! Aposto que vai sentindo Um certo rubor subindo... Ai! como corada está!

Neste espelho, olhe-se agora, Veja bem que linda cor; Quando nasce a fresca aurora, A luz que a face lhe cora, Não tem mais vivo fulgor.

Sorri-se a furto, bem vejo, Occulta o rosto na mão: Pois vamos, agora um beijo, Quem cumpriu o seu desejo, Não merece, diga, não?

Junho de 1852.

XXII

DEVER

Sê bem vinda estação melancolica! Sê bem vinda! minh'alma abatida, No teu seio procura essa vida, Que tão bella, e tão breve passou! Oh! são estes os campos formosos, É bem este o deserto mosteiro, Onde ouvíra o adeus derradeiro Que teu peito anhelante soltou!

Já nas folhas do bosque frondoso Se desbota a risonha verdura, E co'a aragem que á tarde murmura, Vão caindo dispersas no chão. Já nos campos de todo cessaram, Os modilhos da ingenua avesinha, Que nas moitas espessas se aninha, Presentindo a invernosa estação.

Que saudade na luz que desmaia, Nestes campos sem viço nem flores, Quando á tarde os incertos fulgores Do sol tibio resplendem no ceo! Que saudade na aragem agreste, Que deriva do cimo do monte, E no azul d'este vasto horisonte, Onde pallida a lua rompeu!

Foi aqui nestas margens viçosas Hoje tristes, desertas, sombrias, Que sorriram os unicos dias, Para mim de ventura e de amor; Quando tu inspirada a meu lado Caminhavas com tremulo passo, E firmando-te alegre ao meu braço Davas graças da vida ao Senhor.

Era aqui, junto á cruz mutilada, Aos extremos reflexos do dia Quando o sino da ermida se ouvia Dar signal da singela oração, Que tu vinhas prostrar-te soltando Com voz flebil a prece sentida, Pelo bem, pelo amor, pela vida, Dos que a sorte deixou na afflição.

E depois nos meus olhos cravando Os teus olhos de pranto orvalhados Os protestos mil vezes jurados, Vinhas mais uma vez proferir; Nesse esforço baldado do espirito, Que nas frases da terra procura Expressar a celeste ventura, Que sómente se pode sentir.

E pensar que este ceo de delicias Se acabou para nós na existencia! Que não temos mais nada que a essencia Da saudade que d'elle ficou!... Ver que a mão de um poder sobrehumano, Nos traz cegos do mesmo delirio, E votarmos a vida ao martyrio, Porque o mundo um fantasma creou!!

Pois se Deus quiz ligar nossas almas, Se é fatal que ellas sejam unidas, Queres tu desprender duas vidas Que se acharam irmãs ao nascer? Vês que foi a suprema vontade Que as juntou num abraço divino, E ousas tu, desvairada e sem tino, Separal-as á voz do _dever_!

O _dever_?! O dever mais sagrado E mais santo que temos no mundo, É mantermos o affecto profundo Que d'um sopro divino nasceu; Attentar contra a sua existencia, Debelar sem piedade essa vida, Não será como ser suicida E affrontar a vontade do ceo!?

Sobre as aras de um templo mentido, Num altar pelos homens creado, Vais queimar quanto ha puro e sagrado, Por um falso julgar da razão! Sem pensar no teu crer insensato Que não póde jámais ser extincto, Este amor tão profundo que eu sinto E tu sentes co'a mesma paixão! ..................................

Oh! de novo a meu lado, querida, Volve, em quanto no ceo e na terra, Nos agrestes perfumes da serra, A suave estação respirar! Volve pois, porque as veigas frondosas Não perderam de todo a verdura, E inda a mesma infinita ventura Neste sitio has de agora encontrar.

Setembro de 1856.

XXIII

Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez

Bella, graciosa e timida, Na aurora da existencia Rosa de grata essencia Sorrias em botão! A luz do sol explendido Vinha inundar-te a frente, Suave e docemente Beijar-te a viração!

Como os affectos intimos Da maternal ternura Enchiam de ventura, A tua vida em flor! E como a face candida Serena, reflectia A magica poesia D'ess'alma toda amor!

Dos pensamentos lugubres, Das ambições da terra, Das maguas que ella encerra, Dos crimes que contém, Jámais a teu espirito Chegará o som profundo, Anjo descido ao mundo Só para amar o bem!

Um dia, a immensa abobada, Azul e resplendente, Toldou-se de repente Ao sopro do tufão! Era o primeiro fremito, Nuncio da tempestade, Que vinha sem piedade Rosa, lançar-te ao chão.

Ao ver abrir-se o tumulo Sorrias sem receio, E se a teus olhos veiu Funda expressão de dor, Foi quando a boca tremula Da mãe que te perdia, Á tua enfim se unia, Com mais profundo amor!

Então, como ella, pallida, Soltando o extremo alento, Volveste num momento Á gloria perennal! E logo fria, gellida, Sem ter nem cor nem vida, Par'ceste adormecida, No seio maternal!

Setembro de 1856.

XXIV

PARISINA

A Pedro Jacome Corrêa

MEU CARO AMIGO.

A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico.

Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias. Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.

Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor particular que se encontra em todas as composições do grande poeta, dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a insignificancia d'esta offerta ao

Seu do coração

Janeiro de 1857.

BULHÃO PATO.

PARISINA

Imitação

I

É na hora, em que a voz bella e sentida Do meigo rouxinol, entre a folhagem Das balsas escondido, solta ao vento A saudosa canção do fim do dia: Hora solemne e grata em que os amantes Renovam mil protestos de ternura, De constancia e d'amor; em que o susurro Da fresca viração vai confundir-se Co'o murmurar da trepida corrente. De cristalino orvalho borrifadas, As vicejantes flores da campina Mais vivo aroma espargem no ambiente. Accendem-se no ceo milhões de estrellas, É mais escuro o azul á flor das vagas, E a verdura do bosque é mais sombria. Entre as trevas e a luz, o firmamento Jaz velado por languido crepusculo, Que rapido se esvai nos frouxos raios Da lua, despontando no horisonte.

II