Verdadeiro metodo de estudar (Vol. I)

Part 18

Chapter 183,711 wordsPublic domain

Quando se-quer dar uma alta ideia, de alguma coiza, é necesario refletir no-mesmo tempo, em muitas circunstancias. Por-muito nobre que seja o _sugeito_, de que se-trata, pode ter mil imperfeisoens: onde é necesario procurar, de o-por à vista d’aquela parte, que melhor parece; para poder impremir, uma justa ideia da-sua grandeza: procurando quanto pode ser, de lhe-cobrir, ou disfarsar os defeitos, sem prejuizo da-verdade: voltando-o e revoltando-o de todas as melhores partes, para poder mostrar, até as minimas perfeisoens que tem: e tendo muito cuidado, de nam sair com alguma expresam, ou pensamento, que destrua o que se-tem fabricado. Caiem neste defeito infinitas pesoas, ainda d’aquelas, que nam sam decepadas: Oradores, Istoricos &c. mas sobre tudo os Poetas: que, por-forsa do-consoante, ou da-quantidade do-verso, dizem mil coizas ou mal ditas, ou mal aplicadas. Li um soneto de certo Espanhol, que descrevia um nariz grande: o qual, despois de ter dito muita coiza do-dito nariz, conclue desfazendo, quanto encarecèra. Porei somente os tercetos.

_Erase un espolon de una galera. Erase una piramide de Egito. Las dose Tribus de narizes era._

_Erase un narizissimo infinito. Muchissima nariz, nariz tan fiera, Que en la cara de Anás fuera delito._

Despois dos-quatro versos antecedentes, em que exagerava terrivelmente o tal nariz, saie com uma frioleira, que destrue tudo. Admetida de grasa, a comua opiniam do-vulgo, de que os Judeos tem narizes grandes: admetida novamente a frioleira, de que Anás, por-ser Pontifice, o-devese ter maior: é certo, que nam teria um nariz maior, que todo o corpo. Demos-lhe, que fose tam grande: que proporsam tem isto, com uma piramide, e nariz infinito? Destes exemplos acho a cada paso: de que concluo, que estes nam sabem, as leis da-Retorica, nem da-Poezia.

Quanto ás expresoens, aindaque as-dezejo nobres, e com armonia sonora; devem porem uzar-se, com moderasam. Prudentemente se-comparou um discurso, no-genero sublime, com um palacio magnifico: neste á-de aver cazas para os amos, para os criados, e tambem estrevarias para os cavalos. Estas nam ám-de ser, como as anticameras, nem ornadas como os gabinetes: mas ám-de ter certa magnificencia rustica, e proporsam ao todo: ám-de ser todas as partes no-seu genero, belas, grandes, magestozas. Um palacio que tem um portam pequenino, parece coiza Mourisca, e nam de Architeto inteligente. tudo á-de ser grande, mas no-mesmo tempo proporcionado. Damesma sorte em um discurso, nem todos os pensamentos podem ser exquizitos, ou a locusam sublime: á-de aver pensamentos bons, exquizitos, e mediocres: a locusam damesma sorte, em alguns lugares sublime; v. g. nas perorasoens, e exagerasoens &c. em outras mediocre; v. g. nos-exordios, nas confirmasoens de provas &c. e em outras simplez e natural, como nas narrasoens, e outros lugares. Mas todas estas coizas ám-de ter proporsam entre si: devem ser ornadas e vestidas daquela tal grandeza, que mostre serem partes, de uma coiza grande. Asim se-compoem, um discurso perfeito.

Esta magnificencia de expresoens grandiozas, e armoniozas, convem ao estilo sublime, com a distribuisam dita, de aplicar as melhores, às coizas que merecem maior atensam. Tambem no-estilo sublime devem intrar, reflexoens judiciozas, e varias sentensas, que excitem a atensam. Nele tem seu proprio lugar, as Figuras grandes: Sendo certo, que um argumento nobre, nam se-pode tratar, sem alguma particular comosam: de que nace aquele modo de expremir-se, em que consistem as Figuras. Devem porem praticarse, segundo as observasoens asima feitas.

Esta porem é a maior dificuldade, do-estilo Sublime: e sam poucos os omens, que saibam abrasar, uma distribuisam moderada de ornamentos, no-discurso. A maior parte dos-que escrevem, sam como aquelas pesoas, que nam tem educasam de Corte. Estas, para se-mostrarem bem informadas, e de boa eleisam; carregam tanto os vestidos de oiro, e a cabesa de joias; que em lugar de parecerem bem, ofendem a vista. O pior é, que no-defeito que repreendemos, caiem tambem os que sam da-Corte, como os que sam de fóra: e é mais dificultozo emendar-se. Um omem que tem má eleisam no-vestir, tem tantos censores à vista, que à forsa de critica, e de observasam, consegue a emenda. Nam asim o que escreve: sam poucos os que censurem, porque sam pouquisimos os que saibam, como se-deve censurar. Alem diso, nam á algum, que prezuma tam mal do-seu juizo, que leia por-livros, que lhe-mostrem, as suas imperfeisoens. Busca somente aqueles, que mais lhe-agradam, e sam mais uzuais: e em vez de s’emendar, confirma-se na sua má eleisam. V. P. nam achará um Pregador, que estude por-_Cicero_, _Demostenes_, _M. Seneca_, _Quintiliano_: ou leia alguns, dos-que compuzeram boas reflexoens, sobre as ditas obras: achará porem muitos, que estudam por-sermonarios, e muito maos: e estes nam podem escrever melhor, doque lem nos-tais autores.

Outros escritores, querendo-se distinguir do-Comum, nam gostam senam, de expresoens grandes: e de tal sorte se-deixam guiar, por-este furor; que nam produzem palavra, que nam seja de pé e meio; e que nam acabe d’estoiro, como uma bomba. As palavras e fraze natural, o modo de s’expremir uzual, aindaque seja o mais proprio da-materia, nada vale. desprezam tudo, o que nam é estrondozo. Nenhum destes dirá: _Petrus amavit Joannem_: nam senhor: mas querem perifraze: _Accidit ut Petrus amore prosequeretur Joannem_; ou alguma fraze mais comprida. Estes omens vem todas as coizas, por-microscopio: tudo lhe-parece gigantesco: ou, para melhor dizer, tudo transformam. A sua cabesa é como a de D. Quixote: a quem moinhos pareciam palacios; e nam avia coiza para ele, que nam fose magestoza. Daqui nace, que tudo exprimem pola mesma maneira. o discurso comesa por-Figura, e acaba em Figura. Este é o vicio comum destes paîzes; mas muito principalmente dos-Poetas, e Oradores.

Estes omens confundem o Eloquente, com o Arrogante; a Exagerasam com a Inverosimilidade: sem advertirem, que sam coizas bem diferentes. Ora este é o verdadeiro carater da-ignorancia: tanto mais dificultozo de s’ evitar, quanto é certo, que muitos omens grandes em outro genero, tem caido neste defeito. Este é o ponto que se-deve advertir, com mais circunspesam: este o defeito que se-deve fugir, com mais cautela. O que se-consegue primeiro, com alguma reflexam judicioza: segundo, com a lisam de bons autores, que falem como devem, e proporcionem o estilo, ao asumto. Nam á coiza mais ridicula, doque uma grande afetasam de palavras sonoras, em coizas onde nam devem intrar[46]. Em lugar de engrandecerem quem fala, mostram a pobreza do-seu intendimento: que nam tendo cabedal, de dar palavras para tudo, pede-as emprestadas, ou furta sem advertencia, as que incontra.

Verá tambem V. P. que muitos, querendo falar elegante, acabam tudo em tom de verso: _Porque nam chego a amar, nam poso padecer_: e com este _ar_, e _er_; _ir_, e _or_; e consonancias semelhantes, vam enchendo o discurso, que deveriam cuidar de ornar, com bons pensamentos e conceitos. Isto é mais vulgar, doque V. P. imagina: e acha-se muita gente de bigode, que chama a isto elegancia. Eu sei que o numero oratorio, ou armonia dos-periodos, de que Cicero fala em varios lugares, é uma grande beleza, em todo o discurso, principalmente oratorio[47]: mas sei, que é muito diferente, do-que condeno. Nam á regra exata, para o numero oratorio: a orelha é a que ensina, quando o periodo é armoniozo[48]. Mas é necesario que tenha mui más orelhas, quem nam distingue, que as consonancias que apontamos, em lugar de agradarem, ofendem, e sam uma afetasam. Em Portugal sam rarisimos, os que observam o numero, ainda nos-discursos estudados. Ou afetam verso, e isto é vicio[49]: ou declinam para outro extremo, que é a languideza, e tambem isto é vicio insoportavel. A mediania é que se-busca; e quem bem intende o que é numero, nas cartas, e no-discurso familiar, sem advertir o-pratica. Para isto quer-se boa orelha, acostumada a ouvir ler, e pronunciar bem. Pecam alem disto; em fazer periodos tam compridos, que nam se podem ler de um jato: o que tambem é falta de numero. A lisam dos-bons livros remedeia isto, e introduz um omem, na verdadeira estrada da-Eloquencia. Mas é necesario, lelos sem prejuizos, e com animo de aprender. O estilo Sublime tem seu proprio lugar, nas orasoens, e sermoens: na Poezia Eroica, e Tragica: e pode às vezes ter lugar, na Istoria, quando s’ introduzem a falar, algumas pesoas. As orasoens de Cicero, os poemas Epicos de Omero, e Virgilio, sam de estilo sublime.

_SIMPLEZ._

Ao estilo Sublime contrapomos, o estilo _Simplez_ ou umilde. Asim como as coizas grandes, devem explicar-se magnificamente; asim o que é umilde, deve-se dizer com estilo mui simplez, e modo d’ expremir mui natural. As expresoens do-estilo simplez sam tiradas, dos-modos mais comuns de falar a lingua: e isto nam se-pode fazer, sem perfeito conhecimento, da-dita lingua. Esta é, segundo os mestres d’arte, a grande dificuldade, do-estilo simplez. Facil coiza é a um omem, de alguma literatura; ornar o discurso com figuras: antes todos propendemos para iso: nam só porque o discurso s’ encurta; mas porque talvez nos-explicamos melhor, com uma figura, doque com muitas palavras. Polo contrario, para nos-explicarmos naturalmente e sem figura, é necesario buscar o termo proprio, que exprima o que se-quer: o qual nem sempre se-acha, ou ao menos, nam sem dificuldade: e sempre se-quer perfeita inteligencia da-lingua, para o-executar. Alem disto, as Figuras encantam o leitor, e impedem-lhe penetrar e descobrir os vicios, que se-cobrem, com tam ricos vestidos. Nam asim no-estilo simplez, o qual, como nam faz pompa de ornamentos, deixa considerar miudamente, todos os pensamentos do-escritor. Por-iso se-diz, que o estilo simplez é, o _lapis Lydius_ do-Juizo.

Isto que digo, das-expresoens comuas e naturais, deve-se intender com proporsam. Nam quero dizer, que um omem civil fale, como a plebe; mas que fale naturalmente. A materia do-estilo umilde, nam pede elevasam de figuras &c. mas nem por-iso se-deve expremir, com aquelas toscas palavras, de que uza o povo ignorante. Nam é o mesmo estilo baixo, que estilo simplez: o estilo baixo, sam modos de falar dos-ignorantes e pouco cultos: o estilo simplez, é modo de falar natural e sem ornamentos; mas com palavras proprias, e puras. Pode um pensamento, ter estilo sublime, e nam ser pensamento sublime: e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simplez. Explico-me. Para ser sublime o estilo, basta que eu vista um pensamento, e o-orne com figuras proprias, aindaque o pensamento nada tenha, de sublime. Polo contrario, chamamos simplezmente sublime, (com os Retoricos) àquela beleza e galantaria de um pensamento, que agrada e eleva o leitor, aindaque seja proferida, com as mais simplezes palavras. Desorteque o _sublime_ pode-se achar, em um só pensamento, ou figura &c. Importa muito intender, e distinguir isto, para nam ser enfandonho nas conversasoens, e nas obras que pedem estilo umilde. V. P. tem um bom exemplo de estilo simplez, nas Cartas familiares de Cicero, principalmente nas que escreve aos de sua caza: nas Eglogas &c. de Virgilio: nas Fabulas de Fedro: Cartas de Plinio a algumas pesoas: e outras obras da-Antiguidade. Em Portuguez as Cartas do-P. Vieira, tirando algumas que degeneram em sermam &c. podem-se ler, para o estilo simplez. E estas sam as melhoras obras, do-dito Religiozo.

_MEDIOCRE._

Do-que a V. P. tenho dito fica claro, qual é o estilo _Mediocre_: aquele digo, que partecipa de um e outro estilo. Tambem este estilo nam é pouco dificultozo: porque é necesario, conservar uma mediania, que nam degenere em viciozos extremos: e sam poucos aqueles, que conhecem as coizas, na sua justa proporsam, e formam aquela ideia, que merecem. Ja dise, que a materia é a que determina, qual á-de ser o estilo: e asim uma materia mediocre, pede um estilo proporcionado. A maior parte das-coizas de que falamos, sam mediocres: e daqui vem, que neste estilo de falar, deve-se empregar um omem, que quer falar bem; e conseguir fama, de omem eloquente. Um omem de juizo, que conhece as coizas como sam, fórma delas ideias justas, e verdadeiras; e as-explica com as palavras, que sam mais proprias. D’ onde vem, que o estilo mediocre compete propriamente, às Ciencias todas, à Istoria, e outras coizas d’este genero: nas-quais se-reprezentam coizas nam vis, mas mediocres; porem reprezentam-se, damesma sorte que sam, e com palavras proprias. Tambem as cartas de negocios graves, ou eruditas, e aquelas de ceremonia a pesoas grandes &c. costumam ser neste estilo. É porem de advertir, que o estilo mediocre, admite todos os ornamentos d’arte: beleza de figuras, metaforas, pensamentos finos, belas discrisoens, armonia do-numero, e da-cadencia: Contudo nam tem a vivacidade, e grandeza do-sublime. Participa de um e outro, sem se-asemelhar a nenhum. tem mais forsa e abundancia que o simplez; menos elevasam que o sublime: e prosegue com paso igual, e mui brandamente. Alegam-se por-bons exemplos neste genero, as Georgicas de Virgilio: a maior parte das-cartas de Cicero a Pomponio Atico: &c. os Comentarios de Cezar &c. aindaque estes, por-nam terem ornamentos, quazi pertencem ao simplez: as vidas de Cornelio Nepote. &c.

Quem bem intende isto, fica perfeitamente instruido do-modo, com que deve aplicar-se, a diferentes materias. O estilo da-Istoria pede clareza, e brevidade. aquela, para explicar todos os acidentes da-materia: esta, paraque, sem longas frazes, que suspendem a atensam, descreva as coizas que deve, com um fio de discurso continuado, e sem ser interrompido com aqueles movimentos, que constituem o Orador[50]. Porque neste cazo nam pode conservar, uma certa inalterabilidade, e quietasam de animo, que é tam necesaria, para nam inclinar mais para uma parte, que para outra; e dizer as coizas com verdade, e sem exagerasam. Pode porem o Istorico, mostrar a sua eloquencia, no-referir as arengas, que s’ introduzem na Istoria; no-pintar as paixoens &c. mas tudo isto com advertencia, e sem perder de vista a verdade. É pois a Istoria aquela materia na qual, despois da-Oratoria, mais se mostra, a eloquencia vigoroza.

Em segundo lugar fica claro, qual deve ser o estilo _Dogmatico_ ou _Didascalico_, a que por-outro nome chamamos, estilo _Cientifico_. Aqui nam se-trata de persuadir, omens apaixonados, excitando as armas, comque a alma se-move para esta, ou aquela parte. O primeiro _postulado_ que se-poem, no-principio dos-Tratados modernos é, que o leitor se-dispa, de todo o genero de prejuizos, e paixoens: e que examine as razoens, como merecem. Onde supondo-se um leitor docil, nam é necesario, seguir o estilo veemente[51]. Mas nisto á mais, e menos, segundo as Ciencias. A Geometria, que explica verdades claras, e que nam interesam ninguem, deve-se tratar placidisimamente, com aquelas palavras, que sam precizamente necesarias, para a explicasam dos-termos &c. A Logica, Fizica, Metafizica pedem ja um estilo mais ornado: ja se-disputa com omens, que tem suas prevensoens: as verdades nam sam tam claras: é permetido servir-se de um estilo mais nervozo. Principalmente na era prezente, em que a Filozofia, despida daquela antiga e ridicula severidade, trata-se oje em todas as linguas, e com vocabulos proprios, e se-familiariza com todos. Onde pode tratar-se em estilo familiar, por-carta, em dialogo, ou de outra maneira; emque pode ter lugar, um genero de eloquencia mais ornada. A Teologia pode ser tratada, com estilo mais elevado. Somos interesados em defender, a verdade da-religiam, contra os Ateos, e Infieîs, e Erejes. Este interese nam pode menos, que acender em nós, alguma paixam bem devida. Onde nam é maravilha, se algumas vezes nos-transportamos, falando de Teologia, e seguimos um estilo mais elevado e viril. Nam digo, que tudo se aja de tratar, em estilo oratorio, ou que se-devem defender as questoens, com ironias &c. e nam com razoens solidas: serîa isto um erro consideravel, e mui condenavel: digo somente, que ja é permetido, servir-se de alguma figura, e uzar de estilo mais elegante. Os antigos Padres uzáram deste estilo, quem mais, e quem menos. E oje todos os omens de melhor doutrina, nam desprezando a fórma da-Escola, uzam porem dela com tanta moderasam, que comumente expoem as suas sentensas, sem aquele estilo das-escolas, que até aqui reinava. O que faz que seja mais bela a Teologia: mais concludente o discurso: e poem à vista, e na sua luz todas as razoens: porque só asim as-intendem todos, e se-evitam palavras, que nada significam nas escolas. Quanto às outras Ciencias profanas, pola maior parte tratam-se mais placidamente, segundo a necesidade da-materia.

Em terceiro lugar fica claro, qual é o estilo dos-Poetas. Querem os Poetas, (diz um Retorico) agradar, e elevar o animo dos-ouvintes, com coizas extraordinarias e maravilhozas: e nam podendo chegar ao fim que se-propoem, senam sustentando a sublimidade das-coizas que dizem, com o sublime das-palavras que uzam; daqui vem, que nam se-sugeitam às leis do-uzo comum; mas formam, para se-explicar, um idioma novo. Tudo neles é grande e extraordinario; imaginasam, conceito, e palavras. Daqui nace, que as figuras devem ser, as suas mimozas, Alem diso, como as verdades abstratas nam agradam, porem sim as coizas, que entram polos sentidos; fica claro, que querendo o Poeta agradar, deve procurar metaforas, com que reprezente as coizas sensiveis, e quazi palpaveis: porque asim é que imprimem, uma particular comosam. Este é o principio, que obrigou os antigos Poetas, a romperem com certas ideias, que nos-parecem chimeras. Cada Virtude, e cada Paixam na Poezia, é uma Deuza: porque a descrisam destas Deuzas tam medonhas, ou tam engrasadas, faz outra impresam no-animo, doque a simplez palavra de Virtude, ou Vicio.

_Est Deus in nobis, agitante calescimus illo._

Quando uma vez s’esquenta, a imaginasam do-Poeta, nam fala como os demais omens: e asim nam é maravilha, que encha o discurso de Figuras, e ingenhe tantas fabulas e fingimentos. Isto é tam proprio dos-Poetas, que até os sagrados Poetas, para se-explicarem, servem-se de todo o genero de metaforas. Isto porem deve intender-se dos-poemas, que tem por-objeto, materia grande: os divertimentos dos-pastores, que compoem as Eglogas; as istorias que dam materia às Comedias; e mil outras poezias, que se-podem considerar com menos paixam, devem ser tratadas, por-outro estilo. A regra geral, que ao principio demos, é infalivel, e consiste nisto: A qualidade da-materia deve determinar o estilo, aindaque posa ser mais ou menos ornado: o que s’intenda tanto da-Proza, como do-Verso. Isto quanto ao estilo. quanto pois às regras do-Poema, nam é aqui, o proprio lugar, de as-explicar: porque eu nam faso tratado, mas reflexoens.

Dirmeám alguns, que estas advertencias conduzem, para fazer uma obra solida, mas nam para a-fazer bela, e ornada: que é o principal emprego da-Retorica. E com efeito esta é a costumada cantilena, destes vulgares Oradores, que ignoram as belezas da-arte. Em algumas partes, temos notado este defeito: e aqui, para o-confutar melhor, faremos outra advertencia. Digo pois, que este ingano comum, fica suficientemente asima convencido: sendo certo, que nam se-requerem outras regras, para falar com elegancia, e ornato, doque as que asima démos, para falar com propriedade. A mesmisima coiza se-pode expremir, com diversos nomes, segundo o modo com que se-considera. A maior beleza e ornamento de uma compozisam, aquilo que eleva um leitor racionavel e judiciozo, (que sam os que podem fazer lei) é a exasam, e propriedade com que se-acha disposta, e executada uma-obra. Quem nam intende este ponto, é noviso na Retorica. Mas, declarando isto melhor aos principiantes:

Tem a Retorica ornamentos naturais, e artificiais: aqueles entram necesariamente em qualquer obra: estes com parcimonia. O primeiro ornamento é a verdade, ou semelhansa das-palavras com as ideias, e objeto delas. A mais medonha cobra pintada, agrada: as coizas mais ordinarias, quando sam bem explicadas, nam podem dezagradar. Deve o discurso ter primeiramente, clareza nas expresoens, para poder insinuar-se no-animo; armonia, e facil pronuncia. Estes sam os naturais. Entre os artificiais, poem-se as Figuras todas, os Tropos, as magnificas expresoens, as aluzoens, alguma ingenhoza aplicasam &c. as quais sam às vezes tambem recebidas, como a mesma verdade: e elevam a alma com o encanto oculto da-grandeza, para a qual ela tem propensam natural. Nestes é em que se-deve empregar o juizo, distribuindo-os com muita parcimonia, e boa eleisam. Nenhuma coiza orna, que nam seja racionavel: quando os ornamentos sam repetidos, ou estam muito juntos, sam importunos, e dezagradam muito: confundem a vista, e cobrem toda a beleza do-sugeito. Ja nisto falámos larguisimamente. Finalmente quando o ornamento, nam se-funda em verdade, aindaque um pouco encarecida; é uma afetasam ridicula, que mostra nacer, de um ingenho mui trivial. Os ignorantes sam, os que procuram com cuidado, estas ridicularias, para aquistar fama de doutos por-esta via, visto que a-nam-podem por-outra.

Outro defeito ainda acho, em que comumente caiem, e vem aser, encher o discurso de alegasoens importunas, de pasos Latinos, de versinhos, e outras coizas que incontram. Podem as aluzoens, alegasoens &c. ter lugar, quando á necesidade de ouvir as palavras, na mesma lingua original; ou para mostrar a sinceridade, de quem as-cita; ou a elegancia, de quem as-escreveo: o que raras vezes sucede: tudo o mais é tempo perdido, e trabalho mui escuzado. Este dezejo de parecer erudito, com a repetisam de mil pasos de autores, tem alucinado infinita gente. Conheci um, que nam abria a boca, que nam repetise um verso de Marcial, de Juvenal &c. Examine V.P. este ponto, e achará, que o defeito é mais geral, doque nam parece. Conheso pouquisimos estudantes desa Universidade, falo principalmente dos-Opozitores, e dos-que tem prezunsam de literatura; cuja conversasam seja toleravel. Para dizerem, que agora é dia; sairám com um, e talvez muitos textos do-Digesto, ou Codigo &c. Nam deixam pasar coiza, que nam ornem com algum versinho moderno: e quem sabe mais disto, é mais ciente. Aquele, _Erubescimus sine lege loqui_, intendem-no tam nû e crû, que é uma piedade. Tambem entre os Religiozos, nam falta desta fazenda: aquele, _tandem, item, a parte rei, cum hoc quod, hoc unum est_; e outras destas palavras, sam mui frequentes nos-seus discursos: e tambem seus textos da-Escritura, e seus versinhos Latinos. Isto entra em todas as conversasoens, aindaque sejam de idiotas, e molheres: antes nese cazo melhor, porque se-grangeia fama sem embaraso.

Este mao modo de pensar, e discorrer, pasou ja das-conversasoens, para as compozisoens: e por-iso V. P. ve tantos discursos, ou sermoens, ou orasoens, que se-nam-podem sofrer. Tenho lido mil orasoens modernas * * * e rarisima achei, em que nam intráse Plinio o moso, claro ou oculto: mas pola maior parte entra claro: e às vezes a orasam tem mais palavras de Plinio, doque de quem a-compoz. Ouvîram dizer, que o Panegirico de Plinio, é o mais suportavel, que nos-deixou a Antiguidade; e sem mais exame, enchem tudo de Plinio. Outros pasam do-Panegirico às Cartas: um destes é o P. * * que no-elogio funebre de Julio de Melo, faz uma istoria, em que introduz muitos periodos, tirados de varias cartas de Plinio, que dizem o mesmo, que ele repete. Este modo de elogiar, é totalmente novo, e ignoto à Antiguidade: mas nem por-ser novo cuido que agradará, aos que intendem a materia. Nestes Panegiricos achará V. P. duas coizas comumente: uma, é Plinio, e algum autor semelhante: a segunda, é o Sol, com as Estrelas. Mais vara menos vara, aqui vem dar todos. Serîa porem melhor, que estes autores puzesem departe, Plinio; e disesem alguma coiza de sua caza: e nam dezenquietasem as Estrelas, trazendo-as para uma coiza, para a qual nam calsam bem. Nam é este, o modo de elogiar. disto se-rim todos os omens que sabem.