Vamiré: Romance dos tempos primitivos
Chapter 9
A peleja travava-se nas trevas. Os orientais, sempre que podiam; disseminavam as fogueiras, para estimular a coragem dos cães. Os tardígrados deixavam os lugares sombrios, e acercavam-se dos seus brasidos, que eles alimentavam cuidadosamente. Gemiam ali numerosos feridos, fechando com a mão ferimentos terríveis. Geralmente, tinham mordidas as pantorrilhas e as coxas, ao passo que os mortos patenteavam gargantas rasgadas, ventres estripados.
A purpura de sangue avivava-se ao clarão vermelho das fogueiras, e os gritos de guerra mesclavam-se às agonias do estertor, ao clamor das vidas que se extinguiam, como os latidos do animal se mesclavam à enrouquecida respiração dos homens.
Do esconso das moitas, a horda dos cães emergia incessantemente para a luz. Encarniçados com os gritos agudos dos orientais, que reboavam naquela confusão, sacrificavam-se, aos centos, mas invadiam, mordiam, aterrorizavam.
Os _comedores de vermes_, já impressionados pelo contacto dos homens das grandes estepes, e cuja coragem era apenas mantida pela presença de Vamiré, viam, além de tudo, aproximar-se-lhes o cansaço, sentiam os seus braços menos lestos em erguer a clava, e tendiam a concentrar-se em grupos numerosos.
Vamiré compreendeu a situação. Num impulso terrível, arremessou-se de repente para a vanguarda, obrigando os cães a recuar. Depois, fez sinal aos velhos, armados de arpões e zagaias, para que se lhe juntassem.
Eles obedeceram, imitando-os os mais vigorosos de entre os demais.
Este pequeno grupo, desde então, sustentou firme todo o peso do assalto, enquanto os demais trucidavam os cães que mais se haviam internado, e conseguiam repelir os ataques de flanco.
Finalmente, o Pzann, durante uma trégua curta, fez compreender que era mester alimentar as fogueiras extensamente, e, a pouco trecho, uma rampa de braseiros protegia o núcleo principal dos seus homens. As chamas elevaram-se, invadiram ervas secas, mato, macissos, e queimaram arbustos, de forma que, resguardados por tal barreira, Vamiré e a sua gente puderam tomar alento.
Os cães tomaram-se de assombro, e os orientais, conhecedores dos costumes do animal, resolveram ladear a barreira. Para isso, era preciso passar pelo pontal da ilhota, porque os flancos do inimigo eram protegidos por espessa vegetação, em que as forças disseminadas fraquejariam.
Vamiré, prevendo aquele movimento, destacou mais de trezentos tardígrados para os principais desfiladeiros, procurando estes por indicação dele, acender ali fogueiras, com brandões que levavam e que cobriam de ramos secos; mas não lograram esse intuito, antes da chegada dos cães.
Frouxo ao principio, o ataque do quadrúpede tornou-se formidável com a aproximação dos asiáticos. Muitos _comedores de vermes_, fatigadissimos, largavam o bastão, e defendiam-se com pés e mãos, com dentes e garras. Facto curioso, os cães, primeiro, inquietaram-se com aquele novo processo; mas, pouco a pouco, tiraram dele vantagem, devida principalmente ao número, que lhes permitia opor três ou quatro dos seus a cada um dos homens.
Neste ensejo, Élem veio ter com Vamiré, e as suas palavras pareciam mais eficazes que as armas. Reconhecendo nela a raça amiga, os cães estavam evidentemente desbaratados; e foi necessária a intervenção dos orientais, para que o animal voltasse à carga.
Na refrega, duas frechas varreram a cabeça e o ombro de Vamiré; e depois vibrou uma zagaia que atravessou o peito de um tardígrado, ao lado do Pzann.
Percebendo que o alvejavam do recesso dos matagais, e que não poderia livrar-se dos cães, se não chegasse a pôr os orientais em debandada, Vamiré, depois de ter novamente agrupado os tardígrados e recomendado a Élem que se abrigasse, embrenhou-se no mato.
Orientou-se pela voz dos asiáticos, e, em poucos minutos, achou-se perto deles, rodeados de cães prestes a atirar-se. Eram forças folgadas, como de reserva para as eventualidades.
Estes animais farejaram Vamiré e denunciaram-no. Mas ele, de um salto, pô-los em desordem com a sua clava, e caiu sobre os orientais, um velho e um moço, que fugiram, disparando uma zagaia e largando as frechas. O Pzann alcançou-os, e levantou a clava, a qual caiu no vácuo, porque os outros, lestos como uma pantera, evitaram a morte. Com a pancada no solo, partiu-se a clava, e com uma só punhada, Vamiré prostrou o mais novo dos seus inimigos; o velho apontou-lhe a zagaia, e cruzaram-se os olhares de ambos.
--Bem,--disse Vamiré,--eu sei que és bom, e não desejo tirar-te a vida.--
O chefe não respondeu, e continuou a recuar, sempre de zagaia apontada, até que viu erguer-se o seu companheiro. Fugiu então. Mas o Pzann desatou a correr, alcançou os orientais, obrigou-os a voltar à ribanceira, arremessou o mais novo ao rio, tirou a zagaia ao velho e obrigou-o também a deitar-se a nado.
Com o afastamento dos homens, os cães latiram amarguradamente. A desordem estendeu-se às matilhas distantes, Vamiré interveio, soltando clamores de vitória. Animados, os tardígrados tomaram a ofensiva; as matilhas recuaram desordenadas, e depois desbaratadas.
O Pzann e os seus aliados ficavam senhores da ilhota.
Morrera um milhar de cães, e os asiáticos eram apenas dois!
XXII
O incêndio
Ardia a ilhota.
O vento impelia as labaredas, por forma que era perigoso acampar no pontal, onde se achava o abrigo de Élem.
Tinham-se apinhado ali os tardígrados, e ali curavam dos seus doentes.
A rapariga, comovida pela coragem daquela pobre gente e pelos serviços que tinham prestado a Vamiré, sopeara a sua repugnância, e ajudava a tratar os feridos.
Naquelas tristes fisionomias, acabrunhadas de fadiga, perpassava uma expressão de alegria, como o ondear de um tanque, ao verem passar Vamiré ou a sua companheira.
Muitos tinham adormecido, na sua posição habitual, e, através do pesado sono, faziam reviver o pesadelo da peleja; soltavam gritos, rosnavam, erguiam de entre os braços o rosto frenético, estendiam a grossa maxila.
Vamiré encontrara o oriental cativo. Depois de perseverantes mas inúteis esforços para partir os seus liames, o desgraçado, rebolando, chegara à beira do rio, na intenção de se deitar à água, e chegar à outra margem. Fê-lo hesitar porém a violência da corrente e quis ao menos partir as correias que lhe ligavam as pernas, mas não pôde realizar esse intento, antes da chegada do Pzann.
As labaredas subiam, penetrando as trevas. O voo das aves, que se aninhavam nas elevadas cimas do arvoredo, cruzava os clarões; as estrelas desapareciam atrás das volutas da fumarada, claras na base, esbranquiçadas depois, sombreadas como nuvens, esburacadas de perspectivas, profundas como abismos.
Sob a acção do vento, aquilo seguia um rumo, alongava-se em grandes nós ondulados, abaixava-se, palpitava como coisas vivas, e, nas fases de extinção, produzia o terrível aspecto da queda de grandes rochedos, de uma espessa chuva de cinza, de uma sólida condensação das trevas.
Dardejantes, as línguas de fogo ressurgiam purpureadas, ufanas de vencer. Nas suas contorções, levavam a crepitação das fibras secas, as explosões das seivas aquecidas, e, da sua cumeada, deixavam cair centelhas abundantes, um tanto frouxas, como pequenas gotas de saliva, como orvalho de uma cólera que se esvai comprimida.
No espelho das águas, tudo se conjugava: as labaredas simétricas e ondeadas, as nuvens de fumo, e as faúlhas fictícias, associando-se à queda das faúlhas reais.
Quando a rápida fúria dos gases em ignição abandonava um moitedo, levando consigo os finos estofos do vapor, a ramaria esboçava as folhas de um livro mágico, animadas de estranhos hálitos, franzindo-se a qualquer bafejo da viração, e como atravessadas por ondulações, ora luminosas, ora obscuras.
Nas espessuras mais densas, o incêndio alimentava-se, rasteiro, lento, carregado, por baixo de frocos de fumo húmido; depois, crepitava, rompia, arrojava-se, mordia as pequenas franças, as folhas correadas, flamejava sobre as ervas secas, lambia demoradamente as grandes árvores, e, inopinadamente, difundia-se em feixes desacordes, última expansão das suas forças.
Do seu acampamento, atrás das moitas, os asiáticos viam arder a ilhota.
A sua situação não era lisonjeira. Debalde procuraram levar os cães a terceiro assalto. Estavam sem armas, à excepção das do ferido, as quais cumpria reservar para defesa extrema.
Demais, inquietos quanto ao destino do companheiro desaparecido, e na perspectiva de se verem abandonados pelos cães, os mais novos julgavam próximo o seu aniquilamento, e lastimavam o não se haverem confiado à prudência do chefe. Este, fatalista, cheio de resignação, não dizia nada, inclinado para a fogueira, de semblante anuviado de tristezas.
Os outros falaram-lhe humildemente sobre o seu desbarato e sobre a necessidade de acordo com o inimigo.
O velho ouviu-os, guardou silêncio por muito tempo, e depois falou:
--Rapazes, o bom conselho, transmitido de pais a filhos, manda que se proponha a paz no princípio da guerra, enquanto as hostes são vigorosas e os destinos incertos, não podendo a proposta significar humilhação; mas ensina que na hora da derrota, é preciso morrer, para que não caiam sobre o vencido os sarcasmos do vencedor. Na hora da paz, queríeis vós a guerra, na hora da guerra quereis a paz. Possível é que o nosso inimigo, em que tudo revela tino e coragem, prefira a certeza de uma conciliação aos acasos de um combate final. Talvez o incêndio o force a abandonar a ilha, e, se ele entender que deve falar, falará. Aliás, cumpre que nos preparemos para a vitória, para a morte ou para a fuga.--
A aurora tingia de lilás pálido o oriente. O incêndio, mais intenso e como receoso de que o dia lhe atenuasse os esplendores, saltava aos píncaros do arvoredo em labaredas mais altas, mugia como um rebanho de búfalos atacados por feras, ou crepitava, seco e cruel, em pequenos estalidos, em pequenos gritos, como bandos ruidosos de gafanhotos destruidores das gramíneas, como legiões ácidas de formigas em marcha contra os casais. Os seus claros hélices de réptil cingiam os grandes troncos, e atingiam as folhas, encarquilhadas desde logo, devoradas depois, e que se baloiçavam chamejantes à brisa matinal, como borboletas de luz, como enxames de vespas em desordem.
O calor era enorme. Inquietos e sonolentos, os tardígrados iam recuando sempre para a extrema ponta da ilha.
Vamiré, pensativo, contemplava o incêndio. Tinha em lugar seguro a canoa e as armas. Élem dormia no seu abrigo. O saguim, despertando ao ruído e à claridade, agarrava-se às ramarias.
Entrementes, com o destroço dos grandes ramos, lambidos pelo incêndio, as labaredas avultavam mais, descrevendo estreitas curvas, que se avivavam caindo, e que, no ar, pareciam leves e vaporosas, mas que, ao tocar no solo, crepitavam asperamente, jorrando cóleras de centelhas.
O Pzann desligara os pés do oriental e interrompera o sono de Élem, para que esta lhe servisse de interprete:
--Pergunta a teu irmão,--disse-lhe ele,--se não julga que chegou a hora de se fazer paz.
--A morte,--disse o asiático,--não me assustaria.
--Sei que és valente,--disse Vamiré;--mas não é um fraco aquele que se salva, salvando seus irmãos.
--Os meus não foram vencidos!
--Não,--disse o Pzann,--mas são apenas dois, e os cães aprenderam a temer-nos.--
Seguiu-se longa pausa, durante a qual o asiático meditava.
A alvorada subira um grau.
A cor do lilás passara à da turquesa e uma semiclaridade aquosa se estendia por todo o horizonte do rio; e, nesse horizonte, as árvores, o céu, as ribanceiras acusavam uma frescura extrema, em confronto com a vibrante sequidão do incêndio.
O Pzann sentiu desejos de prosseguir na sua viagem pela face verde das águas, de continuar a subir o grande rio, e a ver as suas florestas, as largas desembocaduras de ribeiras, as suas penedias, ouvir o rugido das cascatas, o leve rumor das pequenas quedas de água, observar a correnteza dos rápidos, a sombra dos pequenos canais povoados de mouchões, a claridade dos extensos álveos...
No entretanto, as chamas completavam o seu assamento feroz, palidejando com a luz nascente, agitadas em línguas monstruosas, ou disseminadas em delicados tecidos, aderentes às retículas dos pequenos ramos.
Ao longe, no esconso das florestas, ouvia-se o ladrido dos cães em caça, o que arrancou o oriental à sua meditação. Viu que Vamiré percebera a ausência dos cães e a facilidade de um acto de força no campo inimigo.
--Que queres tu de mim?--perguntou ele ao Pzann.
--Que fales a teus irmãos--respondeu este.
O oriental ergueu-se, e, acompanhado de Vamiré e Élem, caminhou até a beira da ilha, e soltou a voz de chamamento, conhecida das tribos:
--Ré-á, ré-á!--
O chefe braquicéfalo saiu então do mato, acompanhado pelo moço válido:
--O nosso irmão está cativo do homem das regiões desconhecidas?
--Está cativo.
--Vem pedir-nos auxilio ou vingança?
--Não; o homem do montante do rio pede paz.
--Desligue ele pois as tuas mãos, porque é justo que fales dessas coisas como homem livre.--
O oriental transmitiu a Vamiré o desejo do velho.
O Pzann hesitou, por um instante, com o receio de uma traição. Depois, sem dizer uma palavra, desatou os laços.
O cativo não se mexeu, limitando-se gravemente a erguer os braços acima da cabeça.
XXIII
Regresso
Pelas gargantas das ilhotas e à sombra de árvores, por extensos e alumiados canais, a barca ia singrando contra a corrente, que as chuvadas entumeciam. E, enquanto Élem e o saguim brincavam ou dormiam na barca, Vamiré remava sempre.
Firmara-se a paz com os orientais. Os cães tinham regressado às áridas savanas da beira das florestas; e o misero tardígrado terminara o seu êxodo para o Grande Lago.
Os asiáticos abriram as veias dos braços, e o seu sangue mesclou-se com o de Vamiré. Em nome das sagradas tribos, o velho enjeitou todas as ideias de guerra, e Vamiré falou de paz, em nome dos grandes nómadas ocidentais.
Na primavera do ano seguinte, na terceira lua depois do equinócio, os Pzanns enviarão trinta caçadores, escolhidos entre os mais intrépidos, tendo a Vamiré por chefe, e aqueles homens virão buscar outros tantos aliados, dirigidos pelo prudente velho.
Quer o vento encrespasse as águas, quer as crivasse a chuva, cobrindo-as de pequenas bolhas saltitantes, a canoa vogava sempre para o Norte, desde a alvorada ao lusco-fusco. O bramir dos cervos, o barrir do mamute, o rugir dos leões, saudavam a passagem da frágil barca e o homem adversário. E ela vogava, vogava, pelas gargantas das ilhotas, à sombra das árvores, e pelos grandes canais alumiados.
E Vamiré pensava nos _comedores de vermes_, na profunda tristeza deles à hora da separação, nos seus broncos semblantes, no vago latir das suas risadas, e dos seus queixumes, na gratidão infinita dos seus olhares e na dificuldade com que eles, demorando-se junto de Vamiré, se resolveram a partir.
Do alto de um pequeno outeiro, despediu-se deles com um grito de amizade, a que corresponderam com a humilde melopeia da marcha. Firmes na união fraternal, que era o que os mantinha de pé em face do antropóide e das grandes feras, transportavam consigo os seus feridos.
Pelas gargantas das ilhotas, pelos vastos canais alumiados, as semanas sucederam a semanas, algumas vezes o sol dardejava os seus ardentes afagos, ou soprava o nordeste, açoite invernal, ou caíam lufadas impiedosas. Era mester então procurar abrigo nas calhetas, em cavernas propicias, e perder dias inteiros, até melhorar o tempo.
Mas Vamiré tinha o peito cheio de grande orgulho, porque vencera as ciladas da natureza, a agressão dos animais ferozes, e o ardiloso ataque dos homens. Parecia-lhe tornar a ouvir, nos lararios nocturnos, o velho Tá, de cento e vinte Invernos, narrando o esboroar das montanhas, o escancarar do solo, a absorção dos grandes lagos em fauces de abismos.
Sentia-se maior que Harme. A história da sua viagem, referida pelos anciãos, faria palpitar o coração dos moços: surpresas do rio, perversidade dos répteis, ferocidade das feras, homens das árvores, regiões novas, homens tardígrados, comedores de vermes, Élem... E os velhos acrescentariam que devia ter sido necessária uma vontade invencível, para dominar a nostalgia, o horror das imensas solidões!
Ainda os sorrisos do céu, e os rudes aguaceiros, o rio verde ou lodoso, a corrente mais impetuosa, rápidos e catadupas, e sempre a barca, empenhada no regresso, com Élem folgando ou dormindo e Vamiré manejando o remo...
Sentiam-se próximas as chuvas, as infinitas chuvas. A tribo, refugiada nas cavernas da alta região, não deixaria as savanas do Oriente meridional, antes de meado outono, e Vamiré tornaria a ver seus pais Zom e Namir, seus valentes irmãos, e sua irmãzinha, que saltava como cabra montesa. E apresentaria aos velhos, humildemente, a esposa que ele levava de longe.
Pelas gargantas das ilhotas, à sombra de árvores, e pelos extensos canais desensombrados, no declinar do período madalenico, quando o pólo do Setentrião gravitava para o luzeiro do Cisne...
Índice
Pag. PALAVRAS DO TRADUTOR v I. Guerra nocturna 1 II. A horda 13 III. O funeral de Vanhab 25 IV. A ilhota 29 V. O homem das árvores 37 VI. Contra-anúncio 41 VII. A perseguição 59 VIII. Noite na floresta 65 IX. O idílio nascente 69 X. Combate 73 XI. Vamiré 79 XII. O mamute 89 XIII. Entre os orientais 103 XIV. Reconquista 109 XV. Reforços 113 XVI. A chuva 119 XVII. Os aliados 129 XVIII. Os vermívoros 133 XIX. Na ilhota 141 XX. Assalto à ilhota 151 XXI. A derrota 157 XXII. O incêndio 165 XXIII. Regresso 173