Vamiré: Romance dos tempos primitivos
Chapter 8
As duas raças deserdadas ficaram depois em silencio, por muito tempo. A sua natureza parecia comportar um fundo comum de melancolia; e a melancolia do grande macaco parecia mais pesada que a do tardígrado, como se fosse proporcional ao vigor dos músculos e à largura do peito. De maneira que o homem foi o primeiro a rir, a brincar, enquanto o macaco permanecia grave e meditabundo. Mas um deles pareceu impressionar-se com uma recordação longínqua, despertada pela analogia das circunstâncias. Entrou em laboriosas explicações. Os tardígrados, inclinados, escutavam-no, sem chegar a compreendê-lo; mas a recordação pareceu germinar noutros antropóides, que se juntaram ao primeiro; a confusão porém era cada vez maior, até que um deles se lembrou de apanhar uns ramos secos e indicar o movimento de uma chama.
Os vermívoros viram então que os antropóides se referiam ao lume; e, cheio de orgulho, o chefe tirou de dois pedaços de pau seco o fogo necessário.
Quando se fez a chama e se difundiram as línguas amarelas, entre volutas azuladas, os homens das árvores ficaram, por um momento, receosos e assombrados, enquanto os tardígrados riam de boa vontade.
Era a comunhão dulcíssima de parias nas fronteiras da animalidade; um prazer reciproco em se compreenderem; e como que uma curiosidade do Espírito das coisas em conhecer os progressos por ele realizados na disposição da matéria.
Separaram-se como amigos,--os tardígrados avançando para o Oriente, os antropóides dirigindo-se para o Sul,--depois da troca de presentes: o homem deu clavas ao macaco; e o macaco deu ao homem ovos tirados dos mais altos ninhos.
E havia apenas três horas que a separação se dera, quando os vermívoros viram os primeiros sintomas da fuga dos animais, que ao depois tanto inquietou Vamiré. Primeiro, viam-se os hóspedes vulgares daquela região, élafos, javalis, e por isso não se impressionaram muito os tardígrados; mas horas depois, avistavam-se, como companheiros de êxodo, os gamos, refluindo em bandos consideráveis.
E então os vermívoros, tomados igualmente de pânico, retrocederam também.
XIX
Na ilhota
Na expectativa de extraordinário acontecimento, Élem e Vamiré conversavam.
Agora, já o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da linguagem dos braquicéfalos. Julgava oportuno interrogar a filha do Oriente; mas, nas suas reminiscências, nada ela encontrava, que esclarecesse a situação. No seu crânio supersticioso perpassavam apenas as antigas lendas do _Animal das águas_, expulsando das florestas todos os seres animados, a fim de investir o homem na posse delas. Os animais foram salvos pelo _Elefante cornígero_, que reina em as montanhas; e a _Serpente_, rival do _Animal das águas_ e inimiga do homem, opôs-lhe o ser imundo que se alimenta de vermes, e a quem as tribos sagradas aniquilarão...
Estas coisas falavam pouco ao espírito do nómada e até o indignavam. Acaso o homem não vive de carne? e que seria das florestas e planícies, sem animais?
Depois, Vamiré não podia imaginar um animal invisível. As suas duvidas abalavam as crenças de Élem, a qual, todavia, continuava a murmurar as suas orações, e a resguardar-se a si e ao seu amante, com práticas religiosas; e o mesmo faria até a hora da morte, e porventura até depois, se o destino lhe concedesse filhos, porque as coisas místicas, embora nasçam lentamente, são como o pigmento da carne ou a forma dos crânios, que só o tempo transforma e aniquila.
Inclinados sobre o rio, aguardavam a noite, que vinha chegando. O clarão do Crepúsculo era vívido e roxo a um tempo, duplicado pelo reflexo. Sob aquele clarão, a margem parecia muito distante, semelhando, sobre a floresta, uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas; na margem, moviam-se animais fugitivos, os seus corpos escuros limitados por traços de luz, os espinhaços roliços ou sinuosos, lisos ou eriçados, as cabeças delicadas e longas, ou largas e volumosas, as armas pontiagudas do élafo, a vasta fronte do gamo, a crina ondeante do cavalo, o tronco flexível e serpentiforme da lontra, o dorso corcovado do urso...
Quando a noite se ia cerrar enfim, e as árvores e o rio se engolfavam lentamente na sombra, houve uma suspensão. Cada vez mais raros, já se não viam senão animais vagarosos, insectívoros ou carnívoros vermiformes que fugiam de uma vivenda próxima. Vamiré e Élem redobraram a atenção, e perceberam um rumor muito distante, semelhante ao uivo dos lobos ou ao lamento dos chacais.
Quase ao mesmo tempo, avistou-se na margem um bando considerável de _comedores de vermes_. Mostravam-se fatigados, recurvados, cobertos de lama e de sangue. Transportavam em braços grande número de feridos, e, diante da impossibilidade de transpor com estes últimos o rio, quedavam-se amargurados. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a cada instante, com gestos de alarma, mas ninguém tugia, ninguém pensava em atravessar o rio sem os feridos, e muitos dispunham estoicamente as suas clavas para uma luta extrema, quando Vamiré saltou para a sua piroga, dirigindo-se para eles.
O bando, que ele encontrara quatro dias antes, reconheceu o gigante loiro e manifestou alegria. Os outros, prostrados de fadiga, estupefactos, viram chegar aquele homem.
Vamiré chegou à margem, e fez sinal para que transportassem dois inválidos para a canoa. Os que se recordavam dele obedeceram; os demais confiaram-se passivamente à ventura.
Vamiré fez uma quinzena de travessias, e todos os feridos se acharam na ilhota; os outros alcançaram-na a nado.
Vamiré facultou-lhes as suas provisões. A tiros de frecha, matou três gamos fugitivos e um pequeno cavalo de focinho papudo. Os _comedores de vermes_, tranquilizados, iam buscar as presas e esfolavam-nos rapidamente, sob as indicações do grande nómada.
Vamiré desvelou-se por eles, consternado pelo desgosto de Élem; tratou dos feridos zelosamente, indicou a cada um lugar de dormida, porque os vermívoros, depois da refeição, caíram logo no sono; e foi juntar-se à sua companheira, que estava em observação na outra extremidade da ilhota.
Conversaram em voz baixa. Élem propôs que subissem o rio, naquela mesma noite; mas Vamiré opôs à proposta que o temporal da véspera avolumara o rio, que arrastava troncos de árvores, perigosos para a canoa; e também ponderou que os _comedores de vermes_ estavam debaixo de sua protecção.
Élem resignou-se, e tomou lugar no barco, comodamente abrigada por uma pele de urso. Quanto a ele, ficou de vela, alimentando o lume, acabando de esfolar as presas e de as partir em quartos, que ele punha logo a assar, para os conservar bem.
As trevas envolviam tudo, e mal se distinguiam as margens.
De quando em quando, Vamiré aplicava o ouvido. O vago rumor de pouco antes tornava-se agora mais distinto, já da esquerda, já da direita. Às vezes parecia extinguir-se, mas depois ouvia-se, sempre mais próximo.
A viração dava linguagem às folhas, a chama das fogueiras reflectia-se na água; a intervalos, o mergulho de um corpo e o ofegar do nadador: depois, o silêncio e a solidão, debaixo de um formoso céu constelado, sem luar.
Finalmente, à orla da floresta, assomou um perfil humano, movendo-se indistintamente na sombra; e quase ao mesmo tempo viu-se uma ondulação rasteira, como formada de centenares de corpos em bando; e ouviu-se um estrépito de tempestade, o reboar de latidos multiplicados pelos ecos, um transbordar de vida e de alvoroto, quebrando o silêncio das trevas.
Élem, desvairada, correu para junto de Vamiré, e segredou-lhe uma palavra desconhecida do Pzann, tendo distinguido a voz do cão das grandes planícies estéreis.
Os _comedores de vermes_ despertaram também, e, ao clarão da fogueira, procuravam o nómada. Este, com gravidade e altivez, procurava devassar a sombra e conhecer a ameaça que fazia tremer Élem e os tardígrados.
Durante a sua marcha lentíssima, os _comedores de vermes_ tinham sido atacados pelos cães. O animal, todavia, respeitava ordinariamente o homem antigo, cujos bandos emigrantes atravessavam as vivendas caninas. Mas, por muitas vezes, os asiáticos tinham-se servido dos seus aliados quadrúpedes para atacar as tribos errantes; e, com receio de um ataque deste género, os _comedores de vermes_ tinham retrocedido de pronto.
Retrocedendo, encontraram outros bandos de irmãos, de maneira que o seu número se elevava a muitos centenares.
Defendiam-se entretanto com energia, e chegavam quase sempre a repelir o seu terrível inimigo, quando, a meio dia do rio, depois de uma longa paragem, foram novamente assaltados.
O número dos seus adversários ia crescendo sempre, e por isso sofreram, neste último encontro, perdas consideráveis. Demais, convencidos, pela marcha lenta do quadrúpede, que os asiáticos o guiavam, precipitaram a sua retirada.
Chegando à beira do rio, carregados de feridos, e horrorosamente fatigados, já não esperavam senão a morte, quando Vamiré os salvou...
Surpreendidos no sono pelo grito do cão, reuniram-se ao grande nómada, como ao seu protector único. Este convocou os chefes, e designou-lhes lugar de combate nas ribanceiras da ilhota, encarregando-os de formar os seus grupos. Como instruções, apenas levantou acima da cabeça uma das antigas clavas, baixando-a sobre um inimigo imaginário. Este movimento foi perfeitamente compreendido, e todos se encheram de coragem, animados pelo belicoso aspecto do Pzann, pelos seus belos olhos que chispavam altivez, pelo seu arcaboiço, dilatado nas previsões da luta.
Vamiré fez reavivar as fogueiras, e foi pôr-se de atalaia.
A margem oposta pouco tempo se conservou escura, pois a iluminou rapidamente uma grande fogueira.
Nesse momento, a alguma distância da fogueira, quase na estrema do espaço iluminado, Vamiré avistou o cão.
Élem apontava-lho com insistência, pronunciava-lhe o nome, referia-lhe a ferocidade quando conduzido pelo homem, a sua organização em vivendas, a sua aliança com os braquicéfalos.
O Pzann escutava-a atentamente.
O clarão da fogueira, menos enfumarado, banhava de claridade o quadrúpede; e, ao vê-lo mais semelhante à hiena do que ao lobo, com a sua larga mandíbula, a sua alta corpulência, a sua flexibilidade, Vamiré compreendeu que ele devia ser um perigoso adversário.
Desviou-se porém a sua atenção, porque, adiante da fogueira, se interpôs um vulto humano, e uma voz ressoava em meio do grande silêncio e sobre as águas do rio.
Vamiré e Élem reconheceram a voz do chefe oriental. Élem dizia:
--Homem das regiões desconhecidas, escuta a voz daquele, cujos cabelos são brancos, e a quem fala, na solidão, o espírito do saber. As minhas palavras significam paz. Aliados com o cão, poderíamos encarar a guerra sem receio. Que poderias tu, homem das nascentes do rio, contra as inumeráveis legiões do animal, auxiliado de frechas e braços humanos? Aceita a paz. Mutuemos o sangue de nossas veias.--
Com a ajuda de Élem, Vamiré compreendeu-lhe as palavras. Voltando para a sua clareira, aceitou-as, gritando:
--Velho, o Pzann te saúda. Ouviu a filha da tua tribo, e está pronto a mutuar o próprio sangue com o teu. Afasta o animal, e salvem-se os comedores de vermes!--
Na margem oposta, os três moços haviam-se reunido, e o grupo dos braquicéfalos animou-se.
Não podiam fraternizar com os filhos da Serpente. O velho tendia para a clemência; mas um dos moços, fanático exaltado, pregou a vontade implacável do _Animal das águas_, a lei das tribos sagradas; e todos, repassados de desgosto e ódio, pareciam convencidos.
O chefe voltou-se de novo e clamou:
--Porque é que o homem irmão toma o partido do ser imundo? É melhor deixar essa presa ao cão.--
Mas Vamiré indignou-se:
--O Pzann não ousaria aparecer entre os outros Pzanns, se abandonasse os seus aliados; o Pzann quer a paz, mas quere-a para todos que estão com ele.--
Formaram os orientais novo conciliábulo, e todos os moços, mais desejosos de uma vitória do que de uma solução pacífica, tendiam para a guerra.
O chefe não se atreveu a opor-se abertamente, mas referiu-se à coragem de Vamiré, à glória de uma expedição para as bandas do Norte depois do Inverno, à necessidade de estar em paz com os povos longínquos.
Dois dos moços pareciam convencidos, ao passo que o fanático baixava os olhos, obstinado. Aproximou-se, até, da margem, e, apontando a frecha ervada a um dos vermívoros:
--O Conselho diz: nunca a tua frecha hesite em ferir o imundo!--
E a frecha descrevia a sua parábola mortal, ferindo o tardígrado num ombro.
O doloroso grito do homem foi acompanhado de um grito colérico do homem loiro, e de um rumor de censura, entre os orientais.
--Homem,--clamou o velho,--perdoa a exaltação de um sangue muito novo!--
Mas Vamiré, cheio de indignação, replicou:
--O meu sangue também é novo, e não perdoaria a perfídia!--
Armou o arco, e a sua frecha atravessou o peito do agressor.
Depois, correu para junto do tardígrado ferido. Os companheiros chupavam o sangue da ferida, extraindo assim o veneno. Vamiré buscou um antídoto, folhas alcalinas, cuja seiva ele espremeu na ferida aberta, em que depois as estendeu.
No campo dos orientais, o velho tratava do ferido. Este persistia em soltar injurias contra os comedores de vermes; e todos estavam indignados, porque o nómada ferira um homem, para vingar uma criatura ignóbil.
XX
Assalto à ilhota
Prolongaram-se as tréguas.
Os orientais recuaram a sua fogueira para o abrigo do matagal. Os cães estavam invisíveis, mas os seus uivos trovejavam na espessura.
Os _comedores de vermes_ recaíam no sono, à parte alguns velhos mais resistentes.
Vamiré fortificava o retiro de Élem com grossas ramadas e preparava as suas armas. O fumo das fogueiras flutuava sobre a água, entre clarões purpúreos.
Não se ouviu mais uma palavra de paz. Parecia que de ambos os lados se faziam preparativos para uma luta próxima.
Vamiré trabalhava e velava.
De uma vez, pareceu-lhe avistar um oriental que, a pouca distância da água, se erguia, desaparecendo depois no mato. De outra vez, um bando de cães veio beber ao rio; mas nada anunciava uma investida. Julgou portanto que o chefe oriental aguardaria a manhã, e recomeçaria as negociações.
Acabava de depor a seu lado a décima segunda frecha, untada de veneno, quando notou um rápido movimento e o formigar de muitos vultos na margem.
--_Eô! Eô!_--gritou ele, enquanto os tardígrados arrancavam do sono os companheiros.
Lá adiante, impetuosos, os cães mergulhavam e nadavam, aos milhares, de olhos fosforescentes em suas cabeças húmidas e luzidias, fazendo, com a sua imersão, erguer o nível das águas nas costas da ilhota. Silenciosos e terríveis, nadavam intrepidamente, sob a saraivada de pedras, ossos e achas, com que eram acolhidos.
Vamiré, verificando que entre eles não havia nenhum homem, depôs o arco e empunhou a clava.
Élem, armada de uma lança, poderia defender o seu abrigo.
Os tardígrados, animados pelo Pzann, mostravam-se enérgicos, postados em pequenos grupos, de costas para o centro, com espaço livre para manejarem os seus bastões.
Antes que tocassem terra, os cães foram atacados tão vigorosamente, que recuaram para fora de alcance. Mas de pronto se dividiram em duas fortes colunas, uma das quais singrou para o ponto mal fortificado da ilha, defendido por Vamiré, enquanto a outra retomava directamente a ofensiva.
A precipitação dos tardígrados em auxiliar o seu salvador poderia tornar eficaz aquela táctica dos agressores. Mas Vamiré repeliu energicamente o reforço, e obrigou cada um a reocupar o seu posto.
Apenas a coluna, contra ele dirigida, tocou em terra, a carnificina do Pzann espalhou nela o terror.
A sua alta corporatura, a sua clava enorme, a sua formidável destreza em despedaçar crânios, a agilidade dos seus movimentos, a sua voz autoritária, soberbamente humana, tudo isto pareceu produzir nos animais uma impressão como que supersticiosa.
Cheios de pânico, latindo desordenados, foram recuando.
Entrementes, a segunda coluna conseguira invadir a ilhota, sem desconcertar todavia a táctica dos _comedores de vermes_, sempre reunidos em grupos, e defendendo-se sem desanimo.
Do lado dos cães, as perdas eram consideráveis, e os tardígrados contavam uma vintena dos seus, postos fora de combate.
O animal sentia-se vencido, quando algumas frechas ervadas, partindo da margem, fizeram duas vítimas. Produziu isso um certo terror, e os grupos da costa aproximaram-se do centro. Os cães redobraram o seu furor, e, a pouco trecho, era terrível o número dos feridos humanos.
No entretanto Vamiré, depois da sua vitória, notara que os asiáticos despediam frechas, quase a descoberto, de trás dos arbustos. Por seu turno, tendido o arco, despediu algumas frechas.
Os orientais tiveram que se retirar para trás de grandes troncos, de onde os seus tiros eram muito incertos; e contentavam-se em açular os seus aliados quadrúpedes, os quais, respondendo-lhes com latidos formidáveis, assaltaram com mais vigor os seus adversários. A situação agravava-se, tanto mais que a coluna, repelida por Vamiré, tinha entrado pela outra extremidade da ilhota, levando reforço.
O pobre tardígrado viu-se perdido, e o seu grito de guerra tornou-se plangente como um gemido de agonia.
Mas o grande nómada do Ocidente levava-lhe já o auxílio do seu braço, e a sua clava abria caminho por entre crânios e espinhaços despedaçados. De todos os lados, o animal, inquieto, aterrorizado, reconhecia naquela voz e naquela força a força e a voz das raças vitoriosas, por forma que os tardígrados retomavam coragem, e os cães, repelidos para a água, voltavam ao campo dos asiáticos.
Uma ebriedade de vitória inflamava os olhos dos _comedores de vermes_. Voltando-se para o homem loiro, cantaram a melopeia do triunfo, a que Vamiré correspondeu com um belicoso clamor.
Na outra margem, à beira das florestas seculares, resoava o latir furioso dos cães e as maldições dos homens do Oriente.
Decorreu a noite naquele tumultuar terrível, repercutido pelos ecos, e em que os dois bandos inimigos exaltavam o seu valor não vencido e prenuncio de novos combates.
Os tardígrados trataram acuradamente dos seus feridos, e, para maior segurança, foram colocá-los perto do sitio, em que Vamiré acampava com Élem. Dos cães, postos fora de combate, desembaraçaram-se os tardígrados, lançando-os à água, em que alguns acabavam de morrer, ao passo que outros, ao grado da corrente, chegavam à outra margem.
Vamiré fora ter com a sua companheira. Cheia ainda do desgosto que lhe causavam os _comedores de vermes_, Élem permanecera no seu abrigo, sem necessidade de se defender.
Vamiré falava-lhe da vitória, do número das vitimas, da ferocidade dos assaltantes, da probabilidade de novos recontros; e ela escutava-o, pensativa e triste por aquele incidente, fazendo votos pelo advento de uma paz imediata.
Manifestava a esperança de que as negociações se retomariam de madrugada, e o nómada aprovava, mas esquivava-se a quaisquer concessões, relativamente aos tardígrados.
Fatigada, Élem adormeceu por fim. A maior parte dos vermívoros também dormia. Vamiré velava sempre.
XXI
A derrota
Foi decorrendo a noite. A ronda dos astros atravessava as calmas profundezas do rio; uivavam cães feridos; as fogueiras dos orientais ardiam por trás das ramadas, iluminando os braços negros e contorcidos do arvoredo e as densas e flexíveis cumeeiras da floresta.
Vamiré aproximou-se do rio, e ali se quedou alguns instantes, como para dar ensejo a palavras de conciliação. Mas teve de se furtar a uma frecha que vibrou.
Vibraram outras frechas, que, descrevendo vigorosas parábolas, iam quase todas cair inofensivas no meio da ilhota.
O Pzann guardou-as, satisfeito de ver que se iam esgotando as munições contrarias; mas os orientais, compreendendo logo a inutilidade daquele tiroteio, suspenderam-no, e, com gritos e açulamentos, fizeram reaparecer os cães, formigando na margem e latindo furiosamente.
Um vago perfil humano se desenhou entre os cães, acocorando-se logo; outro perfil apareceu na ribanceira, em observação; e depois uma voz humana, irrompendo do rio, denunciou um nadador.
E daqui concluiu Vamiré que, desta feita, os asiáticos acompanhariam a expedição.
Em tais condições, o assalto era grave.
Sem perda de tempo, despertou toda a sua gente. Armou com arpões de pontas fixas e de zagaias seis velhos mais sagazes, anexou, para seu uso, uma lança à sua clava, e pôs-se de atalaia em bom lugar.
Os cães acabavam de se atirar à água. Seguidamente, a presença do homem revelou-se em nova táctica: formaram-se três colunas; uma seguiu para a frente; outra para o pontal, onde estava Élem; e a terceira, deixando-se ir ao grado da corrente, rodeou a ilha, para a assaltar por trás.
Então Vamiré, para concentrar a defesa, fez evacuar o pontal oposto àquele em que se achava, e fez guarnecer o outro lado da ilhota, organizando tudo de forma, que toda a gente se agrupasse com ele, sendo necessário.
Depois, enristando a lança, aguardou.
Os orientais não se viam. O seu plano devia ser o dirigir o ataque, intervindo nele apenas no momento decisivo, e, para isso, nada melhor do que estar na retaguarda. Tinham provavelmente mascarado os rostos, para melhor se confundirem entre as cabeças dos cães.
A dez metros da ilha, as colunas da frente estacaram contra a corrente, aguardando um sinal do bando que fora por trás da ilha. Quando chegou o sinal, todas as forças atacaram a um tempo.
Parecia que aumentara a coragem dos cães. Luziam-lhes os dentes e o fósforo azulado dos seus olhos rasgava as trevas.
Antes de assentar o pé em terra, sofreram, como antes, consideráveis perdas; mas, desde que lá chegaram, muitos tardígrados das primeiras filas pereceram estrangulados; a heróica defesa dos outros, postos fora de combate centenares de cães, salvou-os do desbarato, e a luta seguiu curso regular, com fortuna vária.
Ao princípio, dando pela ausência do Pzann, dois orientais haviam-se adiantado e, primeiro a tiros de frecha, e depois com ligeiras lanças, sustentaram o ataque.
O contacto dos inimigos aterrorizara os _comedores de vermes_, que certamente se não salvariam da derrota, se os seis velhos, armados de arpões e zagaias não aguardassem corajosamente os asiáticos. Estes, envolvidos num círculo ameaçador, compreenderam a imprudência de arrostar armas ervadas, e debandaram em retirada, não intervindo na luta senão com brados e alguns tiros de frecha em momentos oportunos.
Do lado de Vamiré, os cães, açulados pelas vozes distantes, tinham efectuado a invasão.
Vamiré não os esperou; marchou contra eles com tal vigor, a sua clava e a sua lança fizeram tão numerosas vitimas, que os animais aguentaram apenas o primeiro embate e fugiram, deixando a descoberto um oriental, armado simplesmente de uma zagaia.
Vamiré, com uma pancada, partiu a frágil haste da arma inimiga, e, segurando o homem pela nuca, lançou-o aturdido no chão, manietou-o, deu-o a guardar a Élem, e correu a socorrer os seus aliados.
Estes lutavam bizarramente. Mas as hordas caninas, sempre renovadas, estimuladas pela voz dos asiáticos, encarniçavam-se e era de recear que aos homens chegasse a hora fatal do cansaço.
Ao grito de guerra, soltado por Vamiré, os cães recuaram, mas retomaram o assalto, porque os orientais, da espessura da floresta, dirigiam mais activamente a batalha, e recebiam a aproximação de Vamiré com basto tiroteio de frechas.
Os seis velhos, armados de arpões e lanças delgadas, agruparam-se de novo, fazendo rosto ao inimigo, prontos em auxiliar a estratégia do nómada. Este, na frente, procurou aproximar-se dos asiáticos, mas não o conseguiu, porque os animais se opuseram firmes, não obstante os estragos que neles produzia a clava.
Demais, sobreveio um incidente, que poderia trazer desastrosas consequências: os _comedores de vermes_, que defendiam as traseiras da ilhota, refluíram para a frente, produzindo um princípio de pânico, que tornou indispensável a presença de Vamiré.