Vamiré: Romance dos tempos primitivos
Chapter 7
O lobo, de pupilas fosforescentes, fechava adiante o seu círculo, e uivava, de beiços erguidos sobre os agudos caninos.
Havia poucas frechas, e o lume era impossível. Era forçoso resignarem-se os orientais a marchar de noite, com infinitas precauções. Demais, a raia era a salvação.
Lentamente, mantendo os lobos em respeito com tiros de zagaia, os asiáticos prosseguiram na marcha...
À terceira hora de trevas, a nona depois do meio-dia, avistaram a aberta que dava para a planície.
O chefe ia na retaguarda, cheio de resistência nas suas fibras ressequidas, espantando sempre a desordenada horda dos lobos, mas prestes a sucumbir.
Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distância. Os lobos uivaram angustiosamente; depois, ouviu-se um agitar de mato, e passarem por ele centenares de corpos invisíveis, ladridos raivosos e a debandada dos lobos, a sua fuga, em meio de murmúrios de raiva e gritos de matança e de agonia.
Tranquilos então, os orientais chegaram à orla da floresta, onde os cães aliados, e dirigidos por um chefe, aguardavam os seus amigos.
XVI
A chuva
Aproximava-se o período diluviano do Estio, que todos os anos vinha ensombrar o céu quaternário. O vento arrefecia então, o frio matava, muitas vezes, a flor ou o fruto no ramo, e grandes fomes sucessivas exterminavam os frugívoros. Transbordavam rios e ribeiros; e o homem, encerrado na gruta da região alta, aprovisionado, hibernava, passando as horas a fabricar utensílios e armas.
Vamiré, prevendo aqueles dias nefastos, remava todo o dia. Élem, submissa, dominada, ajudava-o. A carne de élafo assado servia para a alimentação; e acresciam frutos silvestres, raízes tenras, ovos tirados dos ninhos serôdios.
Vamiré velava ternamente por Élem; e as noites, que eles passavam nas margens do rio, trescalavam a poesia imensa das infâncias.
Abrigavam-se perfeitamente contra o ímpeto da chuva; a barca, sustentada por quatro espeques, servia de tecto; a pele do espeleu tapava o lado do vento; e grandes ramos pendiam da barca, de todos os lados.
Foi naqueles dias que o grande nómada do Ocidente se tornou esposo da filha dos países desconhecidos...
O ruído da chuva, o fragor da floresta açoitada pelo vendaval, isto, de per si, já falava de invernia e do prazer do refugio.
As primeiras friagens confirmaram o prognóstico. Vamiré, desagasalhado em favor de Élem, tiritava ao sopro do nordeste prematuro. Teve de gastar a manhã inteira do dia seguinte, em descobrir algum animal felpudo; e, de emboscada, surpreendeu um urso, atravessando-lhe o coração com a zagaia.
O cérebro do animal, misturado com o cerebelo e a medula de uma rena, serviu para untar a pele, previamente esfregada e desembaraçada da gordura e dos tendões.
Desde então, puderam ambos estar quentes, durante o sono. Élem, encantada do conforto, ria docemente, com uma confiança infinita. Mas Vamiré mantinha a preocupação das grandes chuvas próximas, durante as quais a floresta era inabitável. As feras, mais agressivas então, as hordas de lobos perigosamente esfomeados, iam amplificar a luta nos bosques. Em combates contínuos, as armas partir-se-iam. Era preciso estacionar, durante semanas, em alguma gruta, para renovar arpões e zagaias, para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e as torrenciais chuvadas ao ar livre.
Por menos suave que fosse o inicio do período diluviano, Vamiré poderá chegar às grutas em fins de Julho, sob a condição de se apressar e de não perder tempo. Não se desprecatou; e, desde a aurora ao crepúsculo, a sua mão vigorosa fazia andar a piroga. Infelizmente, à barca sobrevieram avarias, e foi preciso despender três dias em reparos.
Por fim, a barca foi de novo lançada à água. O rio, com a enchente, tomava a cor do barro, e transbordava já para as margens mais baixas. A corrente, além disso, opunha-se; era preciso ir junto da terra; grandes troncos flutuavam ameaçadores, e algas terríveis emaranhavam as suas meadas.
Élem passava grande parte do dia, envolta na pele felpuda, e amodorrada pela monotonia da água corrente. O repasto era a sua principal ocupação. Amarrava-se então a barca em qualquer calheta. Graças à provisão de folhas secas em lugar coberto, o lume era suficiente para acabar de assar uma posta de élafo, um palmípede, um peixe arpoado em viagem.
O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa, posto que moderado no Oriente meridional, comportava todavia o súbito regresso do frio antes do equinócio do Outono. Este facto ocasionava emigrações parciais de símios, de gamos, de chacais, de roedores, de aves palmípedes e pernaltas. O antropóide recuava então para o trópico, enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas, e os pais do elefante indiano, os filhos do grande _Anticus_ de Chelles desciam das montanhas.
Vamiré fazia parar, às vezes, a piroga, se um bando de gamos ou de chacais chegava, em marcha, à beira do rio; mas o que verdadeiramente o apaixonava era o êxodo dos macacos, que, desfilando, e saltando de ilhota para ilhota, passavam à outra margem. Cabriolavam, clamorosos, aos centos, baloiçando-se, saltando a vinte côvados, apanhando de novo um ramo de árvore, suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. A face deles tinha trejeitos, que pareciam determinados por ideias. Tinham gestos inteiramente humanos, coçando a cabeça, catando-se, assentados, descascando frutos com os dedos e com os dentes. As suas orelhas bem caireladas, os seus olhos de visão recta, a finura, a inteligência dos seus movimentos, encantavam extremamente Vamiré.
Sucedeu que uma fêmea, furiosa, atirou um filhito para o caniçal. Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram não cuidar em não avolumar a sua coluna com um inválido. Comovido, o grande nómada correu a apanhar o pequerrucho. Encontrou-o gemendo, de mãos estendidas no peito. Agasalhado, alimentado de frutos, o animalzito tornou-se estimável: gostava de dormir no colo de Élem, de se encarrapitar no ombro de Vamiré, beber água na mão dele, de se arrufar com a sua própria imagem na face do rio; e nada satisfazia o coração de Vamiré, como o ver o macaquito, inquieto, caprichoso, brincão.
Seria aquilo uma raça de homens anões?
Consultou Élem a este respeito, e soube que a linguagem deles era desconhecida, e que viviam como animais. Entretanto, Élem falou-lhe do homem das árvores, construtor de cabanas, e Vamiré recordou-se do ente de olhos de âmbar, cabelos raros e corpo peludo, que encontrara outrora.
Um dia, à hora em que o vermelho indeciso, tremulando em fundo claro, anuncia o desaparecimento do astro soberano, Élem soltou um grito, e o Pzann suspendeu o remo. Na margem direita, apareciam homens. Eram de baixa estatura, curvados, e em seu rosto estereotipava-se uma fealdade triste e humilde. Armados apenas da antiga clava; e os seus cabelos, dispostos em pequenos anéis, desciam-lhes até o queixo.
--São os _comedores de vermes_,--murmurou Élem, contrariada.--No Estio, entram nas florestas e sustentam-se de bichos moles, contidos nas conchas; no tempo das chuvas, descem para a beira-mar, e nenhuma tribo sagrada tolera a sua vizinhança.
Vamiré, com interesse febril, observava os vermívoros. Tinham proeminente a maxila; a testa descia levemente até os enormes sobrecenhos arqueados; o cerebelo, desmedido, parecia pesar-lhes; não tinham os rins arqueados, e, marchando, apoiavam-se na clava.
Durante algum tempo, procuraram raízes e frutos de pevide entre as plantas aquáticas, e todos depunham a sua colheita, num monte, diante do chefe. O montão era já considerável, porque eles, pelo caminho, haviam já empilhado moluscos univalves, tubérculos, folhas hortenses.
Ao cair da tarde, agruparam-se em volta do chefe, que equitativamente distribuiu por eles os mantimentos.
--Conhecem a justiça!--murmurou Vamiré, satisfeito.
Depois, vendo que eles acendiam lume, cedeu ao impulso do seu coração, e dirigiu para eles a piroga, com gestos de fraternidade.
Impressionaram-se, ao principio; mas o pequeno número dos adventícios tranquilizou-os.
Silenciosos e graves, contemplavam o grande nómada e a sua companheira. A estatura do homem, desconhecida no Oriente, assombrou-os; mas via-se que simpatizavam com ele, ao passo que visivelmente desconfiavam de Élem, em quem reconheciam o tipo dos mais ferozes perseguidores dos vermívoros.
Entre estes não havia mulheres: as mulheres, em hordas confusas, seguiam-nos de muito longe. A primavera reunia os sexos em paragens tradicionais; depois, o bando masculino abandonava o bando das fêmeas durante o Estio, o Outono e o Inverno.
Eram como vencidos, os vermívoros. Saídos cedo da matriz antropomorfa do período terciário, lançados nas vias _externas_ do humano pela adopção de armas, de métodos de sociabilidade, já muito distanciados do processo animal, para que nele reentrassem sem fraquejar, tinham perdido, em frente do vigoroso quaternário, a esperança orgânica, esta força singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o Árico.
Demais, relegados nas estepes áridas ou na profundeza das florestas, fracos, mal armados para a caça da ligeira fauna silvestre, descambavam progressivamente na fitofagia, adestrados em descobrir os tubérculos que há debaixo da terra, em conhecer as hastes e raízes comestíveis, fazendo provisões de pevides de melancias, de grãos de helianto, gulosos de moluscos, passando o Inverno nas costas do Cáspio ou do Mar-Negro, onde se alimentavam de pesca rudimentar.
Uma bondade, um instinto adorável, tornava a vida do individuo preciosa para a comunidade. As partilhas eram reguladas pela mais estrita igualdade, e cada qual tinha a maior dedicação em salvar o companheiro da garra das feras. Por isso, eram ainda senhores do leão, do urso, do leopardo e até do antropóide; mas tinham medo enorme dos braquicéfalos, caçadores das estepes fecundas: é que tinham visto perecer milhares dos seus, sob os golpes das frechas e zagaias.
Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos, a menos de seis dias de marcha, e até evitavam os grupos insulados.
Vamiré cativou-os pelo seu riso ingénuo, e pela generosidade com que lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de élafo e de esturjão, ovos de adem. Também estas provisões foram repartidas, com gáudio do Pzann. Este, brindando o chefe com uma pele de raposa, todo se tomou de surpresa, quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribuído um pedaço a cada um do bando.
O seu riso franco, e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo daquela prática, sugeriram alguma desconfiança aos vermívoros; e manifesto ainda era o terror que Élem lhes inspirava, e o desgosto dela; a ponto que Vamiré, mau grado seu, decidiu separar-se deles.
Reembarcou pois. Já a distância, escondido pelos caniçais, fixou longamente a vista, com exclamações em voz baixa; os comedores de vermes, activando as suas fogueiras, agrupavam-se à roda delas; e, depois de construírem com ramos uma ligeira choupana, em que o chefe se recolheu, acocoraram-se sobre os calcanhares, ao ar livre, com a cara entre os joelhos, as mãos na cabeça, e assim adormeceram.
O Pzann sentiu então grande piedade para com a sorte dos seus irmãos inferiores. Ao amarrar a barca, passava em seus lábios um murmúrio de tristeza. Mostrou-se sombrio, à refeição da noite, e adormeceu tarde.
Acordou antes da aurora, e observou a partida dos vermívoros. Viu-os atravessarem o rio a nado, e desaparecerem ao nascente. Quando já os não via, suspirou melancolicamente, acordou a sua companheira, e desamarrou a piroga.
Quatro dias decorreram no labor da viagem. Em a noite do quarto, desencadeou-se uma furiosa tempestade, que derrubou árvores ruidosamente, levantou no rio enormes vagas e fez tremer toda a floresta.
Abrigado numa lapa, Vamiré dormiu, resignado e tranquilo. Élem passou a noite em suplicas, orando ao Desconhecido.
O furacão sibilava, insinuando-se nos sarçais, e curvava as altas ramarias, onde se perdiam clamores em som confuso.
A tempestade declinou de madrugada. O dia amanheceu suave, as nuvens deixaram passar réstias de sol, e a floresta ressurgiu para uma vida húmida e tépida.
O rio, barrento, largo, engrossado e tranquilo, carreava os despojos da batalha da véspera.
Começava a descida para o mar dos peixes que sobem aos rios, e que iam passando em chusmas, adelgaçados, extenuados pelo trabalho da fecundação.
Élem, fatigada, dormia; Vamiré, de bom humor, remava para a pátria longínqua.
Em horas monótonas, a ideia do espaço a transpor, a vertigem da andadura, adormentava o cérebro do Pzann. Vamiré já não era senão uma vontade tensa, um organismo mergulhado no sono dos fluidos, a água, o ar; o marulho daquela e o infinito afago deste entorpeciam as suas carnes, imobilizavam a sua memória sobre algumas palavras, sobre a imagem de seu pai, de sua mãe, do seu valente irmão Guni ou da sua irmãzita, que saltava como uma cabra montesa; mas não chegava a realizar o esforço que relaciona as coisas e as faz falar.
Mas à sexta hora depois do meio-dia, deu-se um incidente inquietador, que atraiu toda a atenção do grande nómada.
XVII
Os aliados
Animais corredores, ligeiros,--élafos, gamos, elãos,--chegavam espavoridos ao rio e atravessavam-no. Formavam bandos consideráveis, dominados do pânico herbívoro. O seu número ia crescendo com o declinar do dia, e com eles se misturavam cavalos e alguns uros.
Vamiré, espantado, baldadamente procurava uma causa simples daquela extraordinária fuga: incêndio, emigração...
Interrompia o remar, e Élem murmurava esconjurações.
E o galope dos animais ia-se acelerando. Aos cervídeos, aos bovídeos, aos cavalos, juntaram-se lobos, chacais, raposas. O ruído do mato patenteou a corrida de animais menores,--lebres, doninhas, fuinhas e lontras. Apareceram enfim carnívoros,--ágeis panteras e ursos de marcha pesada. Ao longe, os macacos clamavam alarma, como sentinelas escrupulosas, e o seu clamor atravessava, como um furacão, as altas ramadas, transpunha o rio e difundia-se nas regiões desconhecidas.
Anunciava-se formosa a noite: nenhum sinal de tempestade, nenhum sintoma de perturbação atmosférica. Mas, como um prodígio misterioso, a fuga das feras despertava no intimo do homem e da mulher os mais sinistros presságios.
Todas as vozes, na serenidade do crepúsculo, vibravam de um medo enorme, e espalhavam o contágio do terror... Vamiré entrevia, não o receio do animal perante a natureza, mas o receio dos seres perante outros seres, o êxodo das raças vencidas, o desalento de uma espécie perante a espécie dominadora.
Era mister entretanto precaução contra a extraordinária ameaça, e segurança contra o perigo de ser esmagado pela cega corrida de herbívoros, que prosseguia nas trevas.
Vamiré avistou, a meio do rio, uma ilhota, em que cresciam freixos. Dirigiu para lá a embarcação, e acendeu pequenas fogueiras, pondo-se assim a salvo de ataque directo e em posição excelente para observar tudo.
Depois da refeição, nem ele nem a companheira pensaram em dormir.
Rio abaixo e rio acima, findara a corrida dos animais. Uns aventuravam-se contra a corrente, outros seguiam-na; e este curioso movimento tinha a singularidade curiosa de se efectuar nas duas direcções, em sentido inverso, como se os animais que seguiam para cima e os que seguiam para baixo procurassem fugir da zona florestal, que terminava quase em frente da ilhota.
XVIII
Os vermívoros
Os comedores de vermes marchavam na direcção do grande-lago. Ainda que tristes em geral, à sua exploração não era estranha uma certa satisfação no inicio das paragens. Espalhavam-se então, e, como a colheita da manhã era individual, tinham exclamações a cada bom achado, e mostravam puerilmente o que colhiam, túbaras, caracóis, raízes doces de umbelíferas, frutos agridoces...
Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposição daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer cão do que a um antropóide. Os seus braços curtos, o seu peito em quilha, o indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhança.
Demais, entre as tribos braquicéfalas corria a lenda, de que tinha existido ou devia existir no extremo Oriente uma raça de homem-cão, aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do animal, das águas, únicos e legítimos possuidores da Estepe e da Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos.
E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se através dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo, marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva orientação que guia os animais emigradores.
A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome, a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mímica animal, e ainda da comunicação oculta, da transmissão simpática do terror ou da ira.
Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo, reuniam a coorte; e, então de clava pronta, não se pode imaginar que solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou o leopardo.
Depois do meio-dia, reuniam as provisões comuns, as que serviam para o repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita individual, sem lhe tocar com os dentes.
Feita a divisão, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho diário, com sonhos tão vagos, como os do leão ou do lobo, que rosnam dormindo.
Marchavam. A floresta húmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e pueris, a sua atenção desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pântanos; e a sua vida expandia-se em ligeiras comoções, em esboços de ideias, em artifícios de quem amamenta um aborto, em lineamentos de memória e previsão. Lavasse-lhes a chuva os crânios duros, açoitasse-lhes o vento as nucas com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os pés, perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam. Acumulava-se-lhes no cérebro uma herança inteira de resignação.
Depois que o homem de braços longos chegou através dos tempos, tinham deixado de progredir: conservavam-se. Nada mais havia para eles. A terra imensa desprezava-os; e, entrementes, a vida esgotava-lhes os meios, endurecendo-lhes a epiderme, erguendo-lhes velos no peito, e estendendo-lhes refegos de gordura à volta dos quadris.
Mas o circulo das raças rivais ia-se-lhes sempre fechando adiante, e o pobre homem antigo tinha de durar menos que as feras carniceiras, porque estava desarmado pela longa crise de transição, em que as forças musculares se reduzem e se transformam, na luta contra as adaptações que o cérebro realiza no mundo exterior.
Na penumbra dos arvoredos, tinham companheiros de êxodo, aos quais se haviam desacostumado de fazer mal: numerosos bandos de gamos e chacais, dirigindo-se para o Sul, ou o tugir dos roedores, que se encaminhavam para o Poente. Saudavam com um longo clamor o pacifico barrito do elefante oriental, o buzinar dos pequenos cavalos de boca papuda, cujas hordas militares cruzavam as suas.
Na noite do segundo dia da sua viagem, o chefe dormia na sua choupana de ramos, a fogueira nocturna ia-se apagando, e os tardígrados, acocorados, encolhiam-se com o frio, quando o grito do vigia pôs todos a pé.
A palavra, que significava o leão, trocou-se entre eles, e um grande terror lhes fez bater os queixos. O chefe agrupou os mais corajosos, e todos se reuniram, de clava erguida.
O pavoroso vulto do leão entrou no âmbito, frouxamente iluminado pela fogueira que se extinguia, e estacou, por um minuto, diante dos clamores belicosos dos homens.
Mas, ou porque tivesse escasseado a caça, ou porque preferisse a carne dos primatas à dos outros animais, abaixou-se, arremessou-se com um salto prodigioso, e caiu sobre a horda. Esta havia recuado, abrindo espaço, segundo uma táctica milenária, e mais de cinquenta clavas desceram sobre o crânio, sobre o focinho, sobre os olhos, sobre o espinhaço da fera.
O leão defendeu-se, levantou-se, e com três lances de garras prostrou quatro adversários. Os outros, estimulados à luta, tornaram-se mais audaciosos, atacaram o focinho ensanguentado; e o hércules do grupo, com uma pancada, partiu uma das pernas dianteiras do animal, ao passo que mais dez pancadas paralisavam as pernas traseiras.
Vencido, o leão procurou fugir, mas os vermívoros, tornando-se ferozes, não lho consentiram. Arrojaram-se todos contra ele; e, enquanto uns o seguravam, procuravam outros estrangulá-lo. Não o conseguiram logo, e receberam golpes terríveis; mas, afinal, tendo o chefe enterrado a clava na goela aberta, o leão entrou de estertorar; e então, ferozes e vingativos, todos acabaram com ele.
Viu-se que dois companheiros expiravam e cinco estavam gravemente feridos. Os mortos, longamente pranteados, foram depositados no fetal, e os feridos foram desveladamente tratados. De manhã, quando prosseguiram na marcha, os mais feridos foram levados em braços.
Os tardígrados, não obstante as suas perdas, ufanavam-se de, mais uma vez, haver dado lição severa ao seu temível antagonista, e erguiam galhardamente a clava, mutuando gestos de triunfo e confiança.
A floresta agora parecia-lhes melhor. Os seus pés descalços pulavam ligeiros pelo caminho, a sua estatura aprumava-se quase, e os seus pobres olhos de deserdados pareciam brilhar.
É certo que, perante a simples possibilidade da vitória, uma expansão de seiva lhes teria dilatado o crânio; mas as vitórias restringiam-se ao animal: como uma pressão material, como uma ligadura das artérias, como uma degenerescência dos pulmões, o medo dos braquicéfalos acanhava-os, imobilizava-os; aniquilava-os, até de longe. E, assim, o circulo das suas ideias era tão limitado como o da sua vivenda, ou porque não ousavam pensar no que não podiam realizar, ou porque não podiam pensar no que não tinham realizado.
Desde a fresca alvorada até um terço da manhã, não houve incidente na marcha. No agradável arvoredo, só havia animais inocentes. O sol tornava tépido o humo das clareiras, e os seus raios penetravam na espessura. A tal ponto a vida se expandia, que eles se puseram a cantar.
Por volta do meio-dia, a vanguarda de quinze homens recuou vivamente.
Achavam-se num azinhal interminável. Todos se alimentavam de trufas. Abundavam os javalis, fugindo adiante dos emigradores; e, por cima das trufeiras, esvoaçavam legiões de moscas gulosas.
Marchando, parando para escavar, a vanguarda avistara uma fêmea de antropóides.
Era raro que os antropóides atacassem os vermívoros, sobretudo quando estes não levavam mulheres no seu bando; pelo contrário, uma espécie de confraternidade animava o grande macaco, e os tardígrados já nele tinham tido um precioso auxiliar contra o urso e os felinos.
Formou-se conselho, e resolveu-se destacar um pequeno grupo, que fosse assegurar as suas pacificas intenções ao homem das árvores.
Aquele grupo, devidamente vigiado, atraiu a atenção dos antropóides, com gritos de alegria e sinais de benevolência.
Surpreendidos a principio, os antropóides pareceram logo reconhecer aliados, e assim o mostraram, gesticulando com gravidade, e avançando lentamente.
Minutos depois, estavam reunidas as duas hordas. Os vermívoros ofereceram aos antropóides uma refeição de túbaras, pevides e folhas tenras. Os homens das árvores aceitaram estas coisas com prazer, porque o seu regime alimentício era idêntico ao dos tardígrados.