Vamiré: Romance dos tempos primitivos
Chapter 5
Corpo a corpo, impossibilitado o êxito das frechas, a refrega começa mal para os orientais: uma lança é despedaçada pela clava de Vamiré; outra é tomada por ele; e, terrível, ambidextro, faz, ao mesmo tempo, uso das duas armas... Recuando, avançando, segundo a oportunidade, chega a manter em respeito os cinco braquicéfalos, e fere até um deles, ligeiramente, no peito...
Mas estas peripécias afastaram-no de Élem... vê-a em poder dos inimigos, e adianta-se para a reaver... Fere-o de lado uma lança; corre o sangue... Em desforra tremenda, parte o crânio de um oriental, e prostra outro no solo, com um ombro escalavrado, enquanto com uma lançada atravessa a coxa do chefe...
O Pzann todavia sente-se fraquejar, e todas as suas forças se congregam na defensiva.
Élem solta doloridos clamores; os da sua raça dispõem-se para o assalto final; e o ardor belicoso arrasta o próprio velho para junto do inimigo ferido...
Era o fim. Vamiré procura escapar-se. A sua clava é brandida ainda uma vez, e faz ainda uma vitima...; depois, apanha apressadamente uma lança e um arpão, corre para o rio, salta para a canoa e três remadas confiam-no à corrente.
Os seus adversários medem o perigo de uma luta aquática. O chefe proíbe que tentem o perigo... Todos então empunham os arcos; mas o tiro é inútil, porque a barca desaparece por trás de uma ilhota.
XI
Vamiré
Estendido no fundo da pequena barca, Vamiré cobria com a mão o seu ferimento, coberto de sangue coagulado.
Havia uma hora que ele esperava uma reacção favorável para abicar na margem, porque a perda de sangue o mantinha prostrado, num suave meio-deliquio, em que ia perdendo a nítida concepção do seu ser. As coisas figuravam-se-lhe pequeninas, quase imperceptíveis, ao passo que o coração lhe vogava nas delicias de uma onda morna, asfixiante, confrangente.
Passou afinal a crise. Com a febre, renasceu a força. O Pzann pôde impelir a barca até à margem, desembarcou, e apanhou folhas balsâmicas e resina para o penso da ferida. Depois, lavou a ferida na água corrente, refrescou os lábios, e estendeu na ferida uma compressa de folhas embebidas de resina, e, por cima, uma atadura de pele. Este penso, de uma solidez a toda prova, permitia evaporação suficiente, e dava até lugar à supuração. Ao cabo de oito dias, seria mister renová-lo; mas, até lá, graças às folhas aromáticas e à resina, pouco havia que recear.
Vamiré sentiu grande alivio; a inquietação, que toda doença importa, desapareceu, e um grande orgulho despertou, uma alegria de vencedor: comeu e bebeu voluptuosamente, e pôs-se depois em cata da madeira necessária para o fabrico de novas armas. De pronto adquiriu as hastes: doze, pequenas, para zagaias, e uma, grande, para lança.
Quando trabalhava, sentiu a tentação de ter um arco e frechas, à maneira oriental, feitas de madeira endurecida ao fogo. A banda do arco era chata, mas larga, com um encalhe redondo, para dirigir a frecha. Vamiré arrancou um pequeno freixo, cujas extremidades queimava, e passou depois longas horas a desgastar o tronco, servindo-se alternadamente do fogo e do sílex.
Era sol posto. Vamiré não concluíra o seu trabalho, e calculou que precisava de dois dias, afora o tempo para aguçar as frechas. De forma que, ao passo que buscava abrigo nocturno, planeava acabar primeiro a lança, as zagaias, os arpões, para se precaver contra qualquer ataque, aliás improvável.
Os orientais, com os seus dois mortos, com os seus feridos, entre os quais o chefe, não pensariam logo em reabrir hostilidades; e, de facto, dirigiam-se apressadamente para as suas estepes, levando consigo Élem. Vamiré sorria, ao pensar que eles a não possuiriam definitivamente, e adormeceu tarde, excitado pelos estratagemas que ele estudava para a readquirir.
No outro dia, ao despertar, uma grande fraqueza o prendia ao solo. Começava a cicatrização... Arrastou-se com dificuldade até à margem, onde adormeceu, depois de se ter dessedentado, em risco de ser devorado pelas feras.
Quando acordou, ia o sol a pino. Vamiré dessedentou-se de novo. A cabeça ardia-lhe, as veias latejavam, as ideias eram confusas.
Compreendeu que o dia estava perdido, resignou-se, e meteu-se na barca, junto à ribanceira. Com intervalos, em que ele ia matar a sede como sonâmbulo, as trevas envolveram-lhe a existência, até a alvorada próxima. Abeirou-se do Nada. Em toda noite, a sua robusta organização agonizou nas sombras. Os períodos da crise sucediam-se como ondas de maré. Mas, com a alvorada, chegara a calma, o sono fora vigorificante, e, no quarto dia, Vamiré acordou com fome.
Examinou o penso. As dores haviam desaparecido. As carnes, quase unidas, mostravam apenas um pequeno lanho. A vermelhidão desaparecia do peito. A cabeça desanuviava-se.
Vamiré foi à procura de alimento, armado apenas de um arpão e uma lança, as únicas armas que lhe restavam. Debaixo das árvores, naquela ocasião, poucos recursos havia, e, além de tudo, só a emboscada era possível, porque o ferido não teria forças para um assalto às feras.
Decorreram três horas, em que apenas se lhe depararam pequenos carnívoros, de carne repugnante; e já a fome começava a atormentar vivamente o estômago do caçador, quando apareceu um bando de cervas, guiado por um belo alce, macho.
Era caça grossa e perigosa, mas tanto mais tentadora, quanto os cornos do alce proporcionariam quanto era preciso, para pontas de lança, de arpões e de zagaias.
Vamiré sentiu deveras, naquela hora, o não ter arco, que lhe permitisse o ataque de longe, porque o alce costumava vingar energicamente o morticínio das suas cervas.
O alce era um veado colossal, do tamanho dos maiores cavalos da actualidade, e as suas pontas espalmavam-se-lhe por cima da cabeça, como ramos de faia desfolhada; duas forquilhas primeiro, e depois um tabuleiro guarnecido de pontas recurvas.
O troglodita, encoberto pelas ramadas, com infinitas precauções, aproximou-se do bando; mas a distância era ainda bastante, para esperar que arremessaria proficuamente o seu único arpão. Esperou pois.
Os animais pasciam, e saltavam, por forma que uma das cervas foi pulando até o alcance da mão do homem. O arpão silvou, embebeu-se; um bramir de agonia, e o animal prostrou-se, enquanto o rebanho, espantado, desfilava pelo balsedo, deixando o alce imóvel, a devassar com os olhos a espessura da mata.
Um minuto depois, o grande veado aproximou-se da vitima, e escarvou nervosamente o solo, dominado, ao mesmo tempo, pelo desejo da vingança e o receio do desconhecido.
Entrementes, a soberba e comovida atitude da fera impressionou Vamiré; por um movimento de irreflexão e fraqueza, o caçador saiu do esconso, de lança em riste.
O herbívoro hesitou, estirando a pupila oblonga pela melania do matagal. Mas o homem já recuava, e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. A súbitas, baixando a cabeça até o solo, atirou-se contra o bárbaro. Este viu-a aproximar-se, suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto; e, enquanto o cervo se desembaraçava do manto com um movimento formidável, o caçador cravou-lhe a lança entre as costelas, fazendo-a entrar até o coração.
O animal caiu, e Vamiré sentou-se, extenuado pelo esforço. A pouco trecho porém, levantou-se, acendeu lume, e assou uma posta de cerva.
Satisfeito o apetite, assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe Élem. E, ausente, parecia-lhe mais preciosa ainda, com os seus olhos pretos e o seu ar, altivo e terno a um tempo. Lembrou-se das peripécias daquela luta, em que ela o não abandonara. O olhar dele procurou-a por entre as sebes, e Vamiré sentiu confranger-se-lhe o coração, intoleravelmente. Chamou-a pelo seu nome, e meditou, amargamente, nos meios de a reaver.
Hora de calma, silêncio nos bosques. O sol espelhava-se no rio, e coava-se, por pequenas elipses, através da folhagem das balsas. As ramarias repoisavam como grandes nuvens, e o espaço, velado pelas mais altas frondes, entremeadas de clarões esparsos, tinha perspectivas confusas, profundezas de abismos.
Repassado de dor e de solidão, a contemplação destas coisas abalava todo o ser do troglodita, até o sofrimento. Ora sentia o desejo de dormir, ora o de trabalhar; perpassava na memória o dia em que ele, nas cavernas, esculpiu um bastão de comando, e isto lhe trouxe à ideia o alce e as novas armas.
Provido de um sílex serreado, pôs-se a trabalhar. À noite, havia já cortado as pontas da cabeça do alce.
Sentiu alguma febre então, porque o vaivém do braço lhe irritava o ferimento.
Descansando, e não podendo dormir, espicaçava-o o desejo de uma expedição, em procura de Élem. Meteu-se na barca e acompanhou a corrente.
A noite abrigava-o em manto de trevas. O rio parecia uma voz de segredo, baixa, murmurosa, de que apenas ressaía o rouco e triste coaxar dos batráquios. Nas superfícies, em que se alternavam as sombras e os reflexos, o voo do morcego perdia-se e reaparecia, incessantemente. A faixa de céu estrelado, dilatada para cima das árvores, cavava um abismo nas águas.
Com algumas remadas, Vamiré aproximou-se da margem, onde combatera com os orientais; depois, deixou-se ir ao grado da corrente, abaixando-se de maneira, que o barco pudesse parecer de longe um tronco de árvore.
Primeiro, atravessou solidões conhecidas, em que a fauna permanecia tranquila; depois, vagos indícios que poderiam sugerir receios. Por fim, avistou montões de pedras, que designavam túmulos; e, decorrida uma hora, o clarão de uma fogueira denunciou-lhe a vigília dos inimigos.
Vamiré quedou-se observando, por muito tempo. Élem deveria estar deitada defronte do brasido. Fazia sentinela um guerreiro, que, de quando em quando, para não adormecer, erguia para o céu uma das mãos. A fogueira projectava este movimento numa sombra enorme para além do rio.
O Pzann apertava o seu arpão, calculava a eventualidade de um ataque, impelindo-o para a temeridade a sua febre e a sua fraqueza.
O rumor dos bosques crescia com o roçar da viração. A água iluminava-se de uma fosforescência pálida, de um fundo de halo, em que viviam ramagens longínquas, calhetas povoadas de caniços. O trabalho das nuvens alterava a cada momento a superfície das águas, lançando sobre elas um véu plúmbeo, uma luzinha trémula, ou um arroio de constelações.
Um drama conturbou a alma de Vamiré. Atrás do brasido, com os olhos fixos na fogueira, deixou-se ver Élem.
Ah! tornar a possui-la, levá-la consigo, como noutro tempo! Mas, com o esforço interior, reconheceu mal fechada a sua ferida, impotente o seu braço!
Contudo, alguns dias mais, e ele teria readquirido todas as suas energias. No entretanto, seguiria a pista, e escolheria a sua hora.
Depôs vagarosamente o arpão, empunhou o remo, e, antes de voltar à sua última paragem, deixou-se levar pela corrente à margem oposta. Dali, remou com prudência, lentamente ao princípio, e depois com progressiva velocidade.
Decorrida uma hora, a barca vogava com dificuldade, se bem que Vamiré seguisse a ribanceira. Afora o impulso da corrente, tinha de lutar com as algas, em que se embaraçava a proa e que lhe sobrecarregavam o remo.
Estava quase resolvido a saltar para terra, quando o animou uma espécie de canal entre os caniços.
Impeliu para ali a barca e, durante alguns minutos, navegou com facilidade; mas, em seguida, cerrou-se o canal com longas plantas aquáticas.
Com a esperança de achar águas livres a pouca distância, o Pzann desviou o obstáculo, e entrou.
Salvo curtos intervalos, os pântanos cobertos de lentilhas, os caniços, as algas, os juncos, continuaram a travar-lhe o andamento, a ponto de que um extremo cansaço se apoderou do homem, e este teve de estender-se por algum tempo no fundo da sua piroga.
Ia adiantada a noite. O zénite empalidecia aos prenuncios da alvorada; e erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. O ligeiro rumorejar da folhagem, o chapinhar de uma lontra, o eterno murmúrio do rio, entremeado de notas claras, eram os únicos ruídos daquela solidão. As coisas pareciam emergir em bruma pardacenta, meio-transparente; apenas, da outra banda do rio, se avistava a orla negra da floresta, entre as águas e o céu.
Vamiré ergueu-se. Sentia extraordinário entorpecimento, que o convidava ao sono. Teve pressa de achar o fundeadoiro, e calculou a distância da margem. Pareceu-lhe considerável, até porque a vegetação aquática se tornava cada vez mais espessa.
Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa; mas, a qualquer movimento, poderia voltar-se a embarcação, e o ferimento ainda não permitia o gesto largo do nadador.
Resignado, prosseguiu, ajudando-se com o remo, ensanguentando as mãos nas folhas cortantes dos caniços, empurrando a frágil embarcação, parando de espaço a espaço, fatigado, nervoso.
Rompia a manhã, e tudo pareceu pálido ao homem extenuado: as águas, o céu, a floresta. O grande rio saía de um horizonte de cinza, e em cinza se alongava ainda.
A ribanceira enfim! Vamiré desembarcava. Desviando as hastes mais altas, avistou uma pantera em briga com um mamute, ainda novo. O pequeno herbívoro, coitado, debalde tentava desviar com a tromba o seu adversário. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fêmea, em socorro da sua progénie; e o grito do macho entre os caniçais anunciava que se dirigia a nado para a margem. Mas a pantera, de um salto, ficou sobre o dorso do pequeno elefante; já penetrava com as garras o espesso coiro, e dirigia os dentes para o ventre da presa, quando interveio o compassivo nómada. Soltou um grito de guerra, arremessou o arpão e caminhou para o felino.
O arpão fizera apenas sangue na pele mosqueada. A pantera recuou, rugindo, quando surgiu a cabeça enorme do mamute macho. Quase ao mesmo tempo, apareceu a fêmea.
Então a pantera refugiou-se na selva, e os enormes proboscidios, pendulando as suas trombas, afastaram-se.
Vamiré viu-os desaparecer ao longe, radiante de alegria e ufano da sua coragem. Depois, tomou a piroga aos ombros, internou-se na mata, e empregou as suas últimas forças em apanhar alguns ramos, para consolidar o seu abrigo sob a piroga.
Cansado, trôpego, começava a cravar na terra, junto de uma árvore, os ramos mais apropriados àquele fim, mas teve de interromper essa tarefa: dominou-o um entorpecimento mais forte, e, quando procurava sentar-se, caiu prostrado pelo sono.
XII
O mamute
Era uma clareira entre faias, carvalhos e olmos. Crescia ali a tabua e o joio, de mistura com ranúnculos, cardos frocosos e urtigas dióicas.
Sob os gladíolos da erva, nas folhas, nas flores, nas hastes, nas raízes, havia o mundo dos insectos, esboço material do futuro mundo do homem, praticando a física, a química, as industrias do utensílio e do ácido, criando a broca, a verruma, a serra, a espátula, a fieira, a escavação na pele, a perfuração com cáusticos, as galerias de mina, a habitação social, a sineta do escafandro, a espada, a armadura, a luz, a seda, o tecido, a cera, o açúcar, o mel.
A madrugada achava-os trabalhando. Nos primeiros alvores, voluteava a grande mosca madaleneana, traçando ângulos; a vespa explorava corolas; agitavam-se, com as suas asas aveludadas, enormes piérides; voltavam do rio nuvens de mosquitos, a abrigar-se nas folhas; as formigas, em legiões, transportavam pulgões, estames, grãos, os despojos das minúsculas batalhas da vida; a cicindela, de emboscada, espreitava uma presa; o necróforo, com as suas extremidades palidamente orladas, procurava a carcaça, em que devia pôr os ovos; o fura-pau batia com a tromba na casca dos olmos; o grilo, fatigado das suas vibrações, adormecia; as forfículas embebiam as suas pinças no fundo das corolas; e, semelhante ao tigre, o grande cárabo sobre o escaravelho.
Amodorrado o homem, a floresta parecia inquieta. A zona limitada pela outiva, pela visão, pelos penetrantes perfumes dos exploradores de troncos e ramadas, tudo começou a decrescer, pouco a pouco, à volta do rei bípede: os narizes microscópicos, as sensíveis trompas auditivas, as pérolas negras de olhos salientes, as longas barbas-antenas, perscrutaram as essências, que emanavam do homem, e conheceram a sua própria fraqueza. Apareceram ratos, atraídos pelas correias untadas de tutano; depois, eram as cabeças curiosas dos arganazes e esquilos, espiados pelo grande lince quaternário, das pôlas das altas ramarias.
Decorreram horas. O sol banhou a clareira. A corrente da vida engrossou com os raios solares, com os turbilhões de moscas que traçavam o seu voo enigmático, com os zângões, com as abelhas, mais rápidas e mais sonoras, com o enxamear das aves à sombra do moitedo.
No entretanto, uma hiena, baldada a sua digressão nocturna, claudicava esfaimada entre os espinhais. A sua pituitária reconheceu o odor humano, entre o do coiro e o do unto. Aproximou-se. Os ratos debandaram; e a necrófaga, sem sair do seu esconso, compreendeu que o homem não estava morto. A esperança fe-la alapardar-se na sombra, numa semi-sonolência.
A luz continuava a coar-se, em fios cetineos, através dos interstícios das ramagens; a sombra atingiu o seu mínimo, e depois foi aumentando.
Vamiré dormia ainda, espreitado pela hiena. As aves iam-se calando; as grandes árvores emudeciam; a formiga trepava aos gladíolos da erva; o besoiro segurava-se na haste franzina das flores, curvando-a; as moscas zumbiam doidamente, e bandos de cabritos monteses partiam as plantas, na sua carreira veloz.
Pelas duas horas depois do meio dia, o fétido da hiena deu no faro de chacais, que se abeiravam do mato, onde ela se agachara. Por seu turno, emboscaram-se também na espessura, e a sua comoção de glutões, os seus gritos sinistros, desvendaram aos corvos a perspectiva de um opulento repasto.
Os corvos chegaram crocitando; com as asas negras escureceram por um pouco a clareira, e depois empoleiraram-se numa faia. A quatro mil metros de altura, três abutres reconheceram a comoção dos corvos, e caíram vertiginosamente sobre uma árvore vizinha.
Enquanto Vamiré dormia, os carnívoros gizavam o seu plano, desejando os nocturnos que chegasse a noite, e temendo os diurnos que findasse o dia. A hesitação mantinha-os quietos e de atalaia; depois, os chacais afastaram-se mais da hiena; o pânico dispersou, por um momento, os abutres. Nada prevaleceu contra os corvos, que se reuniam aos centos, e que, com a afiada tesoira do seu bico, se aprestavam para o ataque.
Abriram eles o espectáculo: graves e cómicos nos ramos da sua faia, começaram por uma espécie de dança, avançando para a extremidade dos poleiros, até que um deles caísse; este esvoaçava por um pouco, crocitava furiosamente e voltava a reunir-se à fila.
O jogo e os gritos espantaram os nocturnos; e quando, numa nuvem, com o ruído do granizo em floresta, os palreiros baixaram sobre o homem, a hiena escafedeu-se, e o medo invadiu os chacais.
Os corvos, entretanto, iam andando, como míopes, astutos e grotescos, de terríveis mandíbulas que simulavam um grande nariz, e de corpo ondeado de azul-escuro.
A dois metros de Vamiré, hesitaram. Deixaram de crocitar; e os mais velhos formaram conciliábulo, em vozes baixas, como gorgolejos, alternados de saltos.
Um movimento do Pzann determinou a debandada. Os corvos voltaram para os ramos.
Pausa. Ouve-se rir a hiena e chorarem os chacais. Restabelecido o silêncio, a asa dos abutres soou pesadamente e as três aves de rapina baixaram sobre o solo. Os pescoços nus emergiam firmes de um colar de guarnição branca, e a cabeça longa, de um cinzento pálido, parecia a cabeça de um mamífero inofensivo, camelo, canguru, antílope.
Quedaram por muito tempo, como sentinelas imóveis. Os ângulos do número apareciam nas espáduas altas e pontiagudas; o colo parecia jorrar do peito, e as asas eram mantos, guarnecidos de uma bela franja clara de penas rudes. De raça forte, a envergadura do seu voo ia até oito pés; as suas garras potentes, ávidas em remexer carnes mortas, aferravam presas animadas, nas horas de fome...
Ponderariam eles a agonia do homem, o resto da energia dos seus músculos soberanos, o seu peito arquejante, a sua cabeça de uro?
Estavam silenciosos, mas os caninos famélicos, cansados de esperar, deslizaram pelo mato. Então, os corvos retomaram o seu lugar, com ruído; os chacais, assombrados, pararam; e o abutre mais velho caminhou para a cabeça loira de Vamiré.
A cabeleira, esparsa nas faces, velava um tanto os olhos; o grande bigode fulvo estremecia ao passar do hálito febril; uma espécie de riso provocante soerguia o lábio, entre a resignada tranquilidade dos vincos da boca.
O ombro seminu parecia de pedra polida; os cabos retorcidos do tríceps denunciavam o poema das fibras em milhares de feixes, subordinados às mesmas funções; e o pêlo do espeleu encobria o tronco, em que pulsava o coração agitado.
A floresta realizava, em silêncio, o seu trabalho de cidade colossal. A vida, repleta, dormitava nos fojos, nos ninhos, e até nas galerias dos insectos.
Os corvos, interessados no procedimento do abutre, portavam-se com discrição; os chacais, bocejando, fechavam os olhos deslumbrados; e a hiena escarvava o solo com as patas dianteiras. Ouviam-se pequenos ruídos, indecisos cantos, o cair de frutos maduros,--como difuso tiquetaque do relógio das coisas.
Entrementes, o abutre olhava, através do interstício da cabeleira de Vamiré, a pálpebra semi-cerrada, que deixava entrever a esclerótica.
Arrancar os olhos é o instinto da ave de rapina: o abutre decidiu-se ao assalto. Aproximou-se lentamente. Então, os seus companheiros chegaram também, e um deles pôs a garra no ombro nu.
A mão de Vamiré, inconscientemente, acudiu ao ponto ameaçado, caindo sobre a asa da ave; esta ripostou com uma bicada no pulso.
O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho, os seus punhos de atleta acharam o pescoço de abutre... As garras aduncas fincaram-se, por dois minutos, na pele do espeleu; depois, veio a asfixia e a morte, antes que os dedos de Vamiré largassem a presa.
As asas dos sobreviventes feriram o ar; os seus vultos ergueram-se até as cimas das árvores. Ali, hesitaram por um momento, e, saindo por uma larga abertura, desapareceram.
O grande nómada, depois daquele incidente, recaiu na sua letargia. Tinha a aparência de um cadáver, e os corvos delegaram dez, de entre si, para se esclarecer. Os outros celebraram conferência, em que as vozes entre-cortadas respondiam a sons roucos, fundindo-se depois estes e aquelas.
Os dez verificaram que a grande presa era perigosa; mas, como os tentasse o cadáver do abutre, trataram de o explorar.
O homem conservava esse cadáver na sua mão crispada. Com minuciosa circunspecção, deram volta ao animal, e atacaram-lhe o colo nu: abriram brecha, as tesoiras aprofundaram-na e, dentro em pouco, nas mãos de Vamiré estava apenas a cabeça do abutre. Depois, num esforço comum, os corvos levaram a presa para alguma distância.
Os chacais acharam favorável o ensejo. Ganindo e uivando, foram-se chegando, com um ruído semelhante ao de um aguaceiro na folhagem.
Os dez corvos ergueram voo, com um _croaa_ furioso. Mas, reunidos aos outros, caíram aos centos sobre o espinhaço dos carnívoros, que prontamente fugiram, perante a imprevista agressão.
O bando negro ficou senhor do campo de batalha, e começou a devorar o abutre.
A hiena deixara de fugir. As exigências do estômago impeliam-na para a audácia. Embora altiva ainda, a sua raça ia decaindo, perdendo sucessivamente a índole ofensiva. Já estávamos longe do monstro daquele género, de maquerodo, que, com os seus caninos de dupla lâmina, do tamanho de um côvado, agredia os proboscídeos. Talvez que a grande hiena, nesse tempo, arrastasse ainda para as cavernas herbívoros palpitantes; mas esta, hiena mosqueada, não obstante possuir caninos e molares, os mais sólidos na animalidade daquela época, e capazes de partir o fémur de um auroco, limitava-se a preferir a carne morta, ou atacava, em suas galerias os pequenos fossadores, a toupeira, o arganaz.
Adiantou-se lentamente, baixando-se como um animal que rasteja, e estendendo a cabeça a farejar o homem, cada vez mais inquieta.