Vamiré: Romance dos tempos primitivos

Chapter 3

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«O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e, desenvolveu-se uma geração inteira, sem que ninguém se atrevesse a devassar as novas regiões. Depois, Harm, o grande caçador, acompanhado pelo pai de Tah e por moços valentes, aventurou-se aos desfiladeiros cavados pelo cataclismo. E foi assim que se descobriram as grandes planícies do Oriente meridional...»--

Sentado sob uma faia de franças trémulas, comovido por aquelas lendas, Vamiré desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras distantes.

Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros, que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios, e outros tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre árvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.

Mas nada disto desalentava o nómada. A sua curiosidade e a sua coragem crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas sombras.

Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o cansaço lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra surpresas muito rápidas. E, com a clava numa das mãos e a zagaia noutra, adormeceu.

Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros. Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa; mas é que nenhum tentou o assalto.

Vamiré acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da abundância de tudo, não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a força do homem.

Mais de uma vez, diante da interminável floresta, de onde manavam grandes ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difícil que a ida; a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham regressado; e o coração enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e Namir, seus geradores, e de seus irmãos e irmãs, mais novos que ele.

É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante dois ou três quartos de lua, e se haviam acostumado às ausências dele; mas agora, que duração teria a viagem?

Os obstáculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamiré não podia transpor, senão levando a canoa pelas margens.

Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra, por cima da acidentada areia movediça, por entre répteis e feras alapadas, árdua era a passagem; mas estes próprios obstáculos, à proporção que ele os vencia em maior número, estimulavam-no à perseverança, pela ânsia de perigos sem recompensa.

Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o orvalho escorria das árvores como chuva ligeira. Um ruído de ramagens chamou a sua atenção. Viu avançar então um vulto cor de freixo, de andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mãos posteriores; a sua estatura excedia a da pantera. As suas quatro mãos, o seu rosto, os seus olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a Vamiré palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara até mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser, de braços desmedidos e peito largo, reconheceu Vamiré o _homem das árvores_. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia, cada período o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da raça, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas algumas famílias solitárias.

Vamiré teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de chamar, próprio dos Pzanns. O homem das árvores parou, inquieto, espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.

Vamiré, desviando as frondes, descobriu-o de súbito.

--Hoi!... Venturoso sejas!

O homem das árvores pôs-se em pé. Coberto de pelos penugentos, de raros cabelos, de menor estatura que o nómada, mas mais largo de ombros, parecia dotado de uma força extraordinária.

Vamiré admirou-lhe a fisionomia feroz, as maxilas enormes, as sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas, a sua epiderme escura e granulosa, sem que diminuísse a simpatia, o prazer de encontrar um semelhante, depois de uma semana de solidão; e, acompanhando as palavras com o gesto, Vamiré tornou:

--Vamiré, amigo..., amigo!

O homem das árvores rosnou, entreabrindo os beiços, certamente hesitante sobre as intenções do outro.

O nómada, vendo a inutilidade das palavras, recorreu aos gestos, mas sem outro resultado, senão aumentar a desconfiança do desconhecido.

Sem se importar disso, Vamiré deu alguns passos em frente; mas então, de punhos cerrados e pupilas trémulas, o homem das árvores bateu no peito e ameaçou o troglodita. Este irritou-se:

--Vamiré não teme o leão, nem o mamute, nem as ciladas dos homens...--

O homem das árvores rosnou outra vez, sem avançar todavia para o Pzann, mantendo-se na defensiva.

À vista do que, Vamiré calou-se, já sem ira, e com uma curiosidade crescente.

Os dois contemplaram-se por algum tempo.

Esta pausa pareceu inspirar alguma confiança ao homem das árvores. A sua fisionomia desvincou-se, manifestando uma paz de herbívoro. Embora menos analista que Vamiré, percebia também que estava na presença de um semelhante. Vagos instintos porém, talvez recordações directas, temores atávicos, não lhe tornavam agradável tal presença.

Sentiria ele que outrora, ao dissolver-se o período terciário, ele ocupava a mesma escala do grande dolicocéfalo que estava em pé diante dele? Que, por misérias e vivendas depressivas, a sua raça estava agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele, gravadas na sua carne, as dores, as revoltas, as nostalgias, os êxodos perpétuos, as campanhas perdidas, tudo que se transmite de geração a geração, de sangue a sangue, e cujo despertar indefinido, entressonho de vidas passadas, ressurgidas subitamente nas fibras hereditárias, equivale à memória directa e precisa?...

E o homem das árvores, desajeitado, continuava, embora menos desconfiado, a espreitar Vamiré. O Pzann, deixando de gesticular, e convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender, retirou-se para a sua canoa, a fim de a pôr a flutuar.

Quando chegou ao rio, voltou-se e viu que o homem das árvores o tinha seguido e o olhava com curiosidade.

Embarcado Vamiré, uma certa benevolência se desenhou na boca cinzenta, sobreposta de nariz chato, do homem das árvores, que com os braços peludos esboçou um vago gesto de amigo. Vamiré correspondeu-lhe imediatamente, sorrindo, e desculpando ao selvagem a desconfiança.

Por muito tempo, e enquanto a débil canoa se afastava, entre o raizame das margens deixou-se ver imóvel uma face atenta; e uma admiração pânica e uma impressão mista e selvática como as sarças marginais, vagueavam no cérebro do homem inferior, no crânio moroso do homem das árvores.

VI

Contra-anúncio

Mais alguns dias, e sempre a floresta! Vamiré começou a duvidar de que ela terminasse. Porque não seria ela a fronteira do mundo?

E contudo as cachoeiras iam diminuindo. À excepção do assalto de uma pantera, que do alto de uma árvore o atacou, e cujas entranhas ele fez em pedaços, à excepção da tortura dos infinitamente pequenos que sem cessar lhe perseguiam o corpo, à excepção das ameaças dos répteis, Vamiré só tivera que vencer os obstáculos do inanimado, as ciladas da terra pantanosa e das plantas emaranhadas das angras. Cada vez mais hábil em adivinhar os perigos, ao simples aspecto da terra e das águas, acostumara-se a rir de tais obstáculos, e maior altivez palpitava no seu coração e nas suas carnes.

Ao sexagésimo dia, a vegetação começou a clarear-se. Por duas ou três vezes se avistaram clareiras, novos recantos silvestres em que as árvores eram mais acanhadas e mais raros os colossos seculares.

Por outros indícios ainda, pela presença de animais que preferem a proximidade dos espaços livres, pela própria natureza do terreno, Vamiré pôde pressentir o bom êxito da sua empresa.

Dois dias depois, haviam desaparecido as suas últimas duvidas. A margem esquerda mostrou-lhe velhas estepes, ligeiramente arborizadas, e onde as árvores se disseminavam muito.

Ao meio do sexagésimo oitavo dia, amarrou a canoa numa calheta escolhida, armou-se com as zagaias e a clava, e empreendeu uma excursão a pé, para o lado do Ocidente.

O solo era firme; as gramíneas e as plântulas predominavam, cada vez mais, entre as árvores.

Depois de algumas horas, Vamiré chegou acima de um outeiro, de onde avistava um amplo horizonte. Ao Norte, uma perspectiva verde, violácea, atrigueirada, a floresta-oceano, por onde se escoavam os encantos da luz, onde a vida se alastrava em expansões inúmeras e subtis. Ao Sul, a inclinação das estepes, entrecortadas de oásis, a perspectiva de uma região de caça e transito livre, o novo pais que Vamiré desejava conhecer, e cuja aparição lhe encheu triunfalmente o peito.

Rindo consigo, pensava na surpresa dos Pzanns, na satisfação de Zom e de Namir, quando lhes contasse a sua viagem.

Ficou extático, por muito tempo, sobre a colina. Mas o firmamento, por cima dele, tornou-se ardente. Juntaram-se grossas nuvens, carbunculosas, orladas de fosforescências. Um sopro angustioso, giratório, ascensional, comprimia as plantas; os raios caíram majestosamente sobre a floresta.

Vamiré gostou da tempestade; o seu organismo absorveu a força e o movimento dela, tão acordes com o estado da sua alma. Quando se despenhavam as águas do céu, Vamiré desnudou os ombros e recebeu com voluptuosidade a fresca inundação.

Calmou-se entretanto a tormenta, esfarrapados os nimbos, bebidos pela tepidez firmamental, desfeitos pelos choques eléctricos. Apenas as gramíneas guardavam a humidade fluvial: a terra ávida tudo absorvera.

Depois da chuva, Vamiré marchou deliciado para a paisagem. Os últimos vestígios silvestres tinham-se desvanecido. Nada havia já, se não estepes imensas, entrecortadas de verdes maciços.

As nuvens disseminadas desmanchavam-se em pedaços efémeros adiante do sol, e uma ligeira sombra, de instante a instante, refrescava as perspectivas.

Ia chegando a noite. À hora do crepúsculo, Vamiré, parou à beira de um oásis e passou ali a noite. No outro dia, prosseguiu na marcha, resolvido, se não sobreviesse alguma aventura, a regressar, visto como havia descoberto o que desejava: novas terras de caça.

Pegadas de uros, de aurocos, de veados, de cavalos, convenceram-no da fecundidade do terreno, e projectou uma grande expedição de moços Pzanns, para o ano seguinte. Mas, ao segundo terço daquele dia, ocorreu uma aventura importante.

Foi durante uma paragem, quando o nómada acabava de comer um par de codornizes, caçadas durante a marcha. Abrigado sob umas figueiras silvestres, viu aproximar-se uma mulher.

Vinha vestida de fibras vegetais, entretecidas de gramíneas da planície.

Vamiré encobria-se; a onda que nele se agitava, do coração ao cérebro, traduzia ansiedade e satisfação.

A certeza de que ela era moça demonstrava-se não só ao simples aspecto, à proporção que ela se aproximava, mas também pela cadência do andar e pela flexível vacilação das ancas.

Quando ela chegou a trinta passos, viu-se que atingia apenas a puberdade, mimosa virgem de grandes olhos, surpreendendo Vamiré pela dissemelhança com a rapariga vulgar da Europa, de crânio alongado e compleição robusta.

O seu rosto, um pouco redondo, pálido como as nuvens primaverais, os seus cabelos iguais à melânia dos lagos em noites sem estrelas, a sua cintura breve, mais comparável à circunferência dos freixos que à dos choupos, e o porte da sua figura, e a forma dos seus lábios e da sua fronte, e o talho das suas pálpebras, tudo lembrava a raça longínqua, a humanidade que se engrandecera, após milhares de séculos sem contacto com as hordas nómadas do Ocidente.

Vamiré,--da mesma forma que o herbívoro, estranho desde séculos às regiões bravias, guarda o instinto atávico de reconhecer o grande tigre,--Vamiré percebia a distância entre o seu organismo e o da adolescente. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo, aonde o levara um capricho seu; e esta presciência do desconhecido abalou-o. Hesitava o nómada em assaltar aquela presa de amor, e uma horripilação atravessava-lhe as fibras, como a aproximação de uma tempestade nos nervos de um pássaro. Mas na sua imaginação bárbara, agitada por um sangue eléctrico e por todo o amor de Maio, a estrangeira pareceu infinitamente apetitosa.

Filho da arte, propenso à voluptuosidade dos contrastes, sentiu-se atraído pelos longos cílios de frouxel negro, pelo andar oscilante, pela precisão dos contornos, pela encantadora viveza das pupilas, e resolveu-se.

Mas, enquanto hesitava, a viandante abeirou-se do oásis. Vamiré levantou-se de um salto, com a rapidez de um garanhão.

Sentindo rumor e voltando-se, a virgem viu chegar Vamiré. Assombrada e gritando plangentemente, tentou fugir. Pisava as grandes ervas, correndo ligeira, mas sem esperança de escapar ao formidável caçador, e por duas ou três vezes procurou ladear, encobrindo-se com as moitas, tomando por tangentes. Vamiré perseguia-a, cada vez de mais perto, retardado simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. A virgem sentiu-o enfim junto de si, e na cabeça o hálito do caçador.

Parou e voltou-se. Com o susto a reflectir-se nas pupilas, e o peito turgescente sob as fibras do vestuário, ergueu os braços suplicante, em meio de uma caudal de palavras confusas.

O nómada ficou imóvel diante dela, convencido da impossibilidade de compreender aquela linguagem, mais rápida e mais sonora que a sua. Mas a linguagem da natureza, o terror impresso nos lábios e nas pálpebras da desconhecida, moveram-no à piedade. Menos vivas e mais profundas, percorreram-lhe o organismo novas impressões, esboço de poema selvagem e retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura.

Teria ela a compreensão, o instinto sequer, do seu triunfo sobre o grande ocidental de cabelos claros?

Menos tremula, continuou a murmurar silabas, mescladas de uma indecisa malícia. Vamiré tentou responder, significar-lhe que não queria fazer-lhe mal. Mas os seus gestos de estatuário eram novos para ela, que os observava atentamente. Filha de raças não plásticas, de raças cultuais, não compreendia senão movimentos amplos e monótonos, distantes da natureza. Mas ainda mais que pelos gestos, pareceu surpreendida quando Vamiré, desprendendo um dos seus enfeites de marfim, lho ofereceu: não sem desconfiança, a virgem contemplou as linhas gravadas na pequena lâmina,--a corrida de um uro, perseguido por uma fera,--e pegava no artefacto em sentido contrário sem o compreender. O nómada, sorrindo, pôs-se a indicar a direcção dos traços, a representar o desenho por gestos, perturbando-a ainda mais.

Entretanto, os olhos e as interjeições de Vamiré iam-na tranquilizando a pouco e pouco.

A desconhecida já sorria também. Então, cheio de alegria, Vamiré pôs-lhe a mão no ombro. Ela recuou, voltando à desconfiança.

--Vamiré é bom!--murmurou ele.

De repente, a desconhecida, estendendo os olhos pelo horizonte, deu um salto e bateu as mãos. Vamiré, seguindo-lhe a direcção do olhar, viu, contrariado, aproximar-se, correndo, um grupo de homens, enquanto ela, com um gesto, um tanto travesso, fazia sinal ao nómada para que fugisse.

Vamiré, crispando as mãos, tacteava as suas armas e contava os sobrevindos, que eram doze, armados de grandes arcos e lanças.

Diante da impossibilidade da luta, deixou-se possuir de uma desesperação de idílio frustrado e de orgulho ferido.

--Vamiré não tem medo,--disse ele altivamente. E, como a estrangeira se ia afastando, seguiu-a e segurou-a por um braço. Ela debatia-se, gritando alto. Irritado, Vamiré apertou-a contra si e levantou-a.

Aterrada por ver que era leve como uma cabrinha sobre o peito do nómada, defendeu-se sem violência, timidamente.

Não obstante o fardo, Vamiré tomou caminho, e pôs-se a correr, com uma velocidade surpreendente, excitado pelo grito dos que o perseguiam, e, pelo menos nos primeiros minutos, foi ele o vitorioso.

Os que lhe iam na cola, membrudos, e de raça menos encorpada que a dele, não pareciam perseguidores de presas, homens de jarretes de fera, como os dolicocéfalos ocidentais.

Ágeis contudo, não cansariam tão depressa como Vamiré, a menos que este não abandonasse o fardo. Mas ele não pensava nisso, dominado pelo seu temperamento de lutador.

Vamiré corria para leste, para a margem onde deixara a canoa. Supondo-se mesmo que mantivesse a sua velocidade, não poderia chegar lá antes de metade de um dia, muito depois do crepúsculo, depois que a lua estivesse no zénite.

Passados alguns minutos, a donzela deixou de se defender. Mulher afinal, levada por um homem que a não tratava severamente, começou a sentir uma vaga curiosidade, deixando descansar a cabeça e a parte superior do peito no ombro de Vamiré.

Ao longe, na planície, via os homens da sua tribo, distinguia-lhes os gestos. Armados de grandes arcos e lanças velozes, cobertos de mantos tecidos com fibras de plantas e lã de animais, eram por ela confusamente cotejados com Vamiré, vestido com a pele do espeleu e armado de clava e zagaia; desejaria sem duvida que eles triunfassem, e contudo desejaria também salvar a vida do seu raptador. Uns longes de vaidade, a impressão feminina de que a violência do homem não era uma injuria, a força de Vamiré, a atracção do desconhecido, todas estas coisas vagueavam no seu espírito semibárbaro, não permitindo a fixidez de um desejo.

Decorreu uma hora de terrível correria, em que Vamiré aumentou sempre a dianteira que tomara.

Mais suave, mais inclinada, a luz cobria de âmbar a planície, e a sombra do caçador e da sua presa galopava, projectando-se imensa para leste.

Voltando-se subitamente, Vamiré não viu os perseguidores. Subiu a um montículo e avistou-os a mais de quinhentos cúbitos. Abriu os lábios num sorriso triunfal e gritou:

--Eô! Eô!

E, voltando-se para a virgem:

--Vamiré é o mais forte!--

Ela voltava a cabeça, ofendida por aquele sorriso e por aquele grito. O caçador sentou-a, e ficaram em silêncio por minutos.

A respiração de Vamiré, rouca e desagradável pouco antes, foi-se regularizando; o peito arquejava-lhe mais rítmico.

O nómada murmurou então algumas palavras. Ela abriu os olhos, e o seu olhar encontrou o dele. O olhar de Vamiré era sereno e terno. Ela encrespou as pálpebras, deixando ler no rosto uma temeridade feminina, maliciosa, desdenhosa.

Vamiré inquietava-se e encantava-se com isso: achava-a assim mais amável, e repetia, com menor convicção:

--Vamiré é o mais forte!--

Os perseguidores aproximavam-se: era necessário recomeçar a fuga.

Vamiré retomou a dianteira que levara, e pareceu então evidente que os outros, e não ele, cansariam primeiro. Demais, os perseguidores, que até então corriam juntos, começaram a desunir-se, e três ou quatro apresentavam-se muito fatigados para prosseguir. Os outros conservavam-se quase em grupo, sem que nenhum curasse de se adiantar aos companheiros, dominado pelo misterioso da aventura e pela estatura elevada e agilidade extraordinária do dolicocéfalo.

Ia-se entretanto extinguindo o dia. Era a hora da cor de jalde. Na planície, um silêncio sem vibrações, uma atmosfera melancólica e fresca, um estádio de repoiso.

Os oásis esparsos difundiam vida em torno de si; os nemóceros voavam em altas colunas por cima das superfícies húmidas; por toda a parte despertava um frémito eufónico, balbuciações de pássaros. Hora de segurança e bem-estar, em que os animais diurnos não tinham que recear o vaguear das feras, hora em que os grandes ruminantes se deitavam na planície com uma segurança encantadora, e em que alguma coisa do viço matinal voltava, ao cair do dia.

A corrida de Vamiré tornava-se frouxa e difícil; mas, atrás dele, a perseguição parecia abandonada.

Na extrema do horizonte, o vulto dos archeiros fora-se esvaindo; e debalde o caçador procurou avistá-los, subindo a um montijo. Descansou pela segunda vez, poisando a desconhecida.

Esta, melancólica, quedou-se de pé, ao lado dele, compreendendo a inutilidade de qualquer tentativa de fuga.

Quanto a ele, sentia-se agora muito fatigado para exprimir o seu triunfo, e inquietava-se por ver que não poderia recomeçar a corrida. Consolava-o contudo a ideia de que os seus perseguidores deviam estar também extenuados.

E ficaram ambos silenciosos.

Chegava o crepúsculo. Com uma lentidão majestosa, os mundos do colorido iam-se apagando sobre o Poente, e Vamiré estremeceu, vendo a sua companheira inclinar-se, estender os braços para o horizonte e falar ao disco do sol. Filho dos ocidentais não hieráticos, vagamente supersticioso mas sem culto, não compreendia o acto da oriental e olhava-a com curiosidade, com inquietação talvez.

Quando ela terminou, demoraram-se ainda algum tempo, até que a lua se ergueu.

--Vem,--significou Vamiré.

Ela compreendeu o gesto e, sem resistência, marchou ao lado dele. Depois, na solidão da noite, enquanto o lobo e o chacal começavam a uivar sobre as estepes, ele era um apoio. A estrangeira admirava profundamente a grande clava do caçador, lançada ao ombro e fixada por ligaduras. Era já um principio de intimidade, de confiança, de resignação mais calma. Mas Vamiré, cheio de cansaço, não tinha o ardor de pouco antes, esgotado nas suas artérias o sangue de Maio, cheio de poderosas moléculas.

Marcharam por muito tempo os dois vultos, enquanto subia a lua pré-histórica. Começava a estepe a cobrir-se de mais numerosos oásis; as árvores, multiplicando-se em moitedos, anunciavam a proximidade da floresta; os raios do luar incidiam mais prateados sobre as ervas, e Vamiré entendeu que a sua companheira devia ter fome e sono. Ele tinha sobretudo sede.

--Descansa!--disse ele; Vamiré vai caçar.

Ela assentou-se, submissa. Era debaixo de três figueiras silvestres, robustas e cheias do perfume da primavera. O sonho infiltrava-se por entre as ramarias, o eterno sonho da lua e das constelações; e a filha dos orientais entregou-lhe a sua alma confusa. Sonhando, percebia a fragilidade do seu ser; a sua família e a sua tribo, o larário da noite, os sacerdotes, os rebanhos de bois asiáticos, povoavam-lhe a mente e torturavam-na até as lágrimas; mas, ali sozinha, não chegava a odiar o homem que a roubara, antes o considerava como barreira única diante da noite formidável.

Vamiré, na planície observava atento o horizonte. Perfis de felinos apareciam a espaços. Muito ao longe, um cervídeo ia fugindo. Mas eis que um lobo, de focinho erguido, se aproxima das três figueiras; quase ao mesmo tempo, saltou assustado um animalzito, uma lebre.

Postado em linha obliqua, Vamiré esperou o ponto em que lhe ficasse mais próxima a carreira dela; depois, a sua zagaia ergueu-se, sibilou, e o pequeno animal rolou entre as ervas. Ao salto do caçador, o lobo fugiu e Vamiré foi apanhar a lebre.

Esfolou-a rapidamente e suspendeu-a de uma frança. Depois, ajuntando ramos e ervas secas, tirou de um saquete o sílex com que os dolicocéfalos faziam lume, estendeu as fibras mais secas e fez saltar centelhas.

Depois de algumas tentativas, a chama levantou-se, pequena ao principio, mas avivada depois por mancheias de combustível, acertadamente dispostas, e a lebre começou a assar-se.

A asiática, à vista do lume, inclinou-se, como fizera diante do sol poente, e com igual melopeia de palavras.

Vamiré, impassível, acabou de assar a lebre. Depois, convidou a sua companheira, e ambos comeram em silêncio.

A refeição foi breve. O cansaço de um e a comoção de outra não lhes permitiam comer muito; mas atormentava-os uma viva sede: era mister prosseguir na marcha até se achar água.

Puseram-se em marcha, e, antes de mil passos, Vamiré começou a ouvir o murmúrio de águas e, logo após, avistou um regato, onde se dessedentaram.

--Dormir!--deu a entender o homem.