Vamiré: Romance dos tempos primitivos
Chapter 2
Com delicada agulha, muitos cosiam pelicas, depois de abrir nelas pequenos orifícios com um punção de pedra; outros, com polidor e raspadeiras trabalhavam em peles frescas; alguns, em bancos de pedra ou de madeira, ao ar livre, martelavam, afiavam as machadas, as facas, as serras, os burís. O corte, fazendo saltar pequenas estilhas, e feito com uma destreza e paciência admiráveis, deixava aparecer, lentamente, as lâminas e as pontas, e mui raramente o artista deixava de descobrir as direcções convenientes à percussão, familiarizado com a matéria, dotado da previsão que se adquire com a longa prática. Tarefa mais delicada ainda, contornavam outros as pontas, os anzóis, os arpéus de osso e corno, munindo-se de utensílios finos e perfeitos, tais que a humanidade não poderá excedê-los, senão em passando da pedra para o metal.
Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indústria: esquirolas arredondadas por meio de sílex denteado e com entalho; polidura e alisamento com grés fino; escavação do fundo na ponta curva, com uma lentidão calculada, com mil perigos de se partir a obra.
Em quanto os trabalhos começavam, um grupo de caçadores reunia-se junto da caverna.
Ao rochedo mais alto subiu um moço, de olhar penetrante, a explorar as perspectivas. À sua esquerda, sob reflexos de ametista embaciada, frouxa e vaga, a floresta esbatia-se no horizonte, prolongando-se até o rio. Em frente, os valeiros, as quebradas das estepes, a ondulação suave dos outeiros, oásis semelhantes a nenúfares num pântano, o espelho sinuoso das águas fecundas. Atrás, perdida na poeira da tíbia claridade das nuvens, a região das montanhas; e por toda a parte perfis diminutos de animais pascendo em planícies: o caçador contou uma horda de cavalos e um rebanho de uros. Com uma voz atroadora, anunciou-os aos seus companheiros, traçando com o dedo a direcção da caça. Àquele aviso, todos tomaram as armas: o arco, o arpéu, a zagaia, a clava. Depois, no momento da partida, a velho chefe, lançando um olhar em roda, bradou:
--Vamiré!--
Então, no portal das grutas, apareceu o moço que vencera o espeleu. Hesitou entre o desejo de prosseguir na preparação da manta que talhara na pele do monstro e que começara na véspera, e o desejo da caça. Decidiu-o a mocidade, a atracção dos vales rejuvenescidos, as exclamações dos seus companheiros. Reentrou na caverna, e reapareceu logo, armado de arco e clava, e o bando pôs-se em marcha para o Norte. Cheios de vivacidade ao principio, excitados os cérebros bárbaros pela marcha e pelas belezas matinais, foram-se tornando depois silenciosos.
De súbito, um rebanho de uros apareceu-lhes no alto de uma colina. Os grandes herbívoros espalhavam-se em triângulo, em número de muitos centenares, numa área de dois mil cúbitos. Os toiros, de flanco leonino, crânio volumoso e pelo avermelhado, circulavam, a passos lentos, entre as fêmeas e os machos tenros. Aquele rebanho enorme realizava um esplendor de vidas tranquilas, de majestade pacifica e de força social. À voz do condutor, (um toiro colossal, postado no ângulo mais agudo do triângulo), os outros machos agruparam-se para o combate. Uma inteligência selvagem,--inteligência atrofiada, entre os seus irmãos da Ásia, por uma servidão que já existia desde muito,--tornava-os aptos para a táctica, para a espontaneidade.
Os caçadores pararam. Encobertos por um cabeço, discutiam o plano de ataque. A configuração do terreno e a situação das feras davam lugar a duas alternativas: atacá-las, ao mesmo tempo, à direita e à esquerda, aproveitando a série de outeiros transversais, ou contornar a planície, e surgir lá de baixo, a duas léguas, de uma densa mata de figueiras silvestres.
Depois de alguns minutos, a maioria optou pelo primeiro método, porque o outro, embora mais produtivo em caso de bom êxito, era evidentemente menos seguro, podendo qualquer pânico afastar os uros, antes de serem assaltados.
O bando dos caçadores dividiu-se em dois troços, guiado um pelo velho que empunhava um bastão de comando com esculturas, e o outro dirigido por um colosso de idade madura.
De ambos os lados, a marcha foi organizada segundo as regras, utilizados sabiamente os acidentes do terreno; e a horda do velho, avançando rapidamente, aproximava-se, estava já a distância de tiro, quando o grande uro condutor pareceu inquietar-se. Erguendo a cabeça vermelha, constelada de luas brancas, farejou o horizonte, e ficou suspenso numa perscrutação profunda. Depois, a sua voz ergueu-se, bela e grave, como a voz dos leões. Os herbívoros dispersos assustaram-se, e concentraram-se. Um minuto de duvida; um estremecimento de espinhaço; a convicção enfim de que estava próximo o inimigo, o implacável inimigo vertical, tão conhecido das feras; e logo o sinal de fuga, a partida inopinada da enorme caravana, acelerando-se num trote, que fazia latejar o vale.
Renunciando o ardil, os trogloditas subiram a cadeia de outeiros que os encobria, os mais ágeis apareceram na cumeeira; mais de dez tiros de arco os distanciavam dos retardatários do rebanho de uros. Estes andavam rápidos, sem estorvo dos novilhos; mas, desde o primeiro assalto dos caçadores, era evidente que a expedição chegava ao seu terreno. Os mais ardentes, verdadeiros bárbaros de raça vitoriosa, sem cálculo, empenhavam-se numa luta de emulação, insensíveis à palavra dos guias. Em poucos minutos, três de entre eles chegaram a menos da distância de um tiro, e as frechas silvaram, um toiro caiu, outro urrou formidavelmente.
--Eô! Eô!
Partiram outras frechas. Ficou estendido um toiro e depois uma fêmea; cinco caçadores tinham os uros ao alcance de tiro.
Então, sacrificando-se, dois dos bovídeos machos fizeram alto. Escarvando o solo por um minuto, e fixando no espaço os grandes olhos perturbados, arrojaram-se à luta, nobres protectores da sua raça.
Mais frechas; mais golpes profundos; mas as belicosas alimárias não pareciam senti-los, cada vez mais próximas sempre, sempre mais ferozes. Confiados nas pernas, os caçadores dispersaram-se, pela maior parte; mas dois moços, entre-olhando-se, e dominados por um orgulho de valentia e destreza, esperavam imóveis. Os outros então, facto curioso, fizeram semicírculo.
O primeiro toiro, de cerviz baixa, e com uma velocidade terrível, correu directamente contra o mais alto dos moços caçadores. Este, com um movimento elegante, pôs-se de esguelha e cravou a sua lança na ilharga do toiro.
Sangrado, o animal parecia desfalecer, mas voltou de soslaio, menos ligeiro e mais cauteloso. Mas nem por isso evitou melhor o bote: a arma entrou-lhe de novo nas entranhas, mais penetrante, mais cruel.
Cambaleante, ajoelhado, o uro pareceu vencido, em posição de receber o golpe supremo.
Mas, no momento em que a lança se levantava de novo, ele ressaltou, e com o corno esquerdo levantou o homem. Levado na parte convexa daquele crescente e não na ponta, o guerreiro desembaraçou-se a tempo, e o seu terceiro golpe, decisivo, em pleno coração, assegurou-lhe a vitória.
--Terann matou o grande uro,--rugiu ele.
Ao lado, a luta empenhava-se de outra forma. Quando Terann aniquilava o seu adversário, outro toiro se arrojava contra o caçador da clava.
Postado em frente, temerário, o homem desceu a arma e julgou esmigalhar o crânio da alimária. Mas, vindo de lado, e por um desvio de cornadura, a pancada não sortiu todo o efeito; e o toiro, precipitando-se como um raio, arrastava o nómada pelo espaço de dez cúbitos.
Inerme, maltratado, espezinhado, viam-se já as entranhas do desgraçado, e ouvia-se-lhe o estalido dos ossos.
Depois o sangue jorrou: feridas enormes esburacaram o peito; e, na perturbação dos caçadores, apenas algumas frechas soaram dos arcos, despedidas pelos melhores archeiros. Depois ainda, como o toiro se encarniçava no corpo do vencido, muitos arrojaram-se com grande clamor.
A monstruosa alimária não os esperou.
Convicta, talvez, de que morreria, mas desejando cair como guerreira, marchou altivamente contra os assaltantes. Nuvens de dardos foram embeber-se nos seus belos flancos, sem lhe sustar a velocidade, e prontamente atingiu um novo antagonista, um velho que fugia sem agilidade, e lançou-o por terra.
Baixando a cornadura, dispunha-se a arrebatá-lo, mas um tiro de zagaia nas espáduas do uro salvou o homem e o flexível perfil de Terann veio interpor-se.
--Terann! Terann!--clamaram os caçadores. Terann evitou o ataque do uro; mas o seu segundo tiro, mal dado, roçou apenas uma omoplata.
Por sua vez, rolou pelo chão; por sua vez, viu baixarem-se as agudas e velozes pontas da cornadura, e todos o julgaram perdido. Mas, de repente, ágil como o salmão que sobe um rio, apareceu, de clava erguida, Vamiré. Teve apenas tempo de retirar Terann e arrojá-lo ao acaso, enquanto os trogloditas bradavam:
--Vamiré é forte como o mamute!--
Com um aceno, Vamiré desviou qualquer auxilio. Depois, colocando-se a seis cúbitos do toiro, falou-lhe assim:
--Retira-te, valente..., tão digno de viver e de conservar a grande raça dos uros, tão digno de pastar por muito tempo as boas ervas da planície.
Imóvel, o bovídeo fitava no caçador as suas largas pupilas azuladas; e uma piedade misericordiosa segredava, na alma de Vamiré, penas por aquela grandiosa alimária, sacrificada à fatalidade das lutas. Entretanto, triste, já sem arrojo e com as artérias exaustas, o toiro baixava ainda a cornadura, aguardando o ataque do homem. E Vamiré prosseguiu:
--Não, valente..., Vamiré não tocará no grande uro vencido... Vamiré sentiria que as planícies ficassem privadas do valente, que pode proteger a sua raça contra o leão e o leopardo...
Dobrado sobre os joelhos, o uro parecia escutar o caçador, num sonho dilatado e vago. Depois, a sua cabeça oscilou, um eco débil de rugido estremeceu-lhe na garganta... O toiro prostrou-se, as suas pálpebras entrecerraram-se, e o seu último alento exalou-se sobre as gramíneas.
Assim findou a caça, numa grave tristeza; e os cinco uros, que jaziam dispersos na planície, haviam custado a vida a um filho dos homens, porque se viu que Vanhab, filho de Djeb, acabava de restituir o seu ser às coisas. E os guerreiros Pzanns ainda uma vez reconheceram a força e a coragem do uro; mas, por um sentimento de indefinida discrição, sentiam agora mais amargura que cólera. Associados às últimas palavras de Vamiré, sabiam que a existência do herbívoro é necessária à dos homens; e é por este profundo sentimento que eles, muitos milhares de anos antes da domesticação da alimária, tinham aprendido a dispor moderadamente de qualquer vida, salvo da dos carnívoros e parasitas, e a mostrar-se generosos com os uros valentes, para que as hordas de veados, os rebanhos de bovídeos e as caravanas de cavalos estivessem fortalecidas contra as grandes feras.
III
O funeral de Vanhab
Ao cair da tarde, transformado o sol num braseiro circular, os velhos surgiram da caverna, seguidos pela melancólica horda.
Dois guerreiros moços transportavam o cadáver de Vanhab; e o vermelho clarão do sol poente, sobre o pálido crânio e através da caixa toráxica, caía como um símbolo de profunda amargura, avessa a um dia primaveral, sobre as ruínas de um moço que desaparecera para sempre no abismo das metamorfoses.
A horda desfilou lentamente através da planície, e os lamentos surdos da esposa e da mãe interrompiam a taciturnidade da cena.
Quando subiram a colina e chegaram à árvore-sepulcro, viu-se um velho colocar-se ao pé de Vanhab, e todos aguardaram a sua fala, porque tinha fama de saber falar aos outros homens.
O velho conservou-se imóvel por algum tempo, para que lhe chegassem à memória coisas antigas, confusas sínteses adquiridas pela sua raça que, dominada pela natureza, ainda não tinha concebido mistério algum além das formas materiais. E falou:
--Homens... Vanhab, filho de Djeb..., nascido entre nós..., era um caçador intrépido e um trabalhador destro. O uro, o leopardo, a hiena, conheceram-lhe a força... Retalhou os despojos de alimárias, e deles fez vestidos e armas... Fabricou utensílios da pedra beneficente... Homens... Vanhab, filho de Djeb, saiu da vida..., não caçará mais, não mais despojará a alimária, nem mais fabricará utensílios da pedra beneficente... E porque era um companheiro fiel e prudente..., nós deploramos Vanhab, filho de Djeb.
--Nós deploramos Vanhab, filho de Djeb,--repetiram as vozes da horda.
Depois, houve pesado silêncio, e as cabeças dos trogloditas ergueram-se para ver subir à árvore-sepulcro um ágil caçador, que passou de ramo em ramo, por entre os esqueletos dos avoengos. Quando chegou a um ramo livre, suspendeu-se Vanhab, filho de Djeb, ao cordão entrançado, em cuja extremidade pegava o trepador, e os restos do finado subiram por entre a folhagem.
Do horizonte morno e do grande zénite manava uma languidez tão doce, um sopro de vida tão encantador, e uma majestade tão serena, que os companheiros de Vanhab, sua mãe e sua viuva esqueciam a dor e o terror da morte.
O cadáver, seguro enfim, oscilou um pouco, e a horda começou a debandar sob a penumbra do crepúsculo. Nos pontais das suaves colinas, à beira do rio, as naturezas contemplativas viram repartir-se a luz em mil figurações efémeras.
Dentro em pouco, debaixo da árvore, havia apenas o núcleo dos companheiros íntimos e dos parentes.
A sombra sucedeu aos esplendores do céu. Mais um dia desapareceu nas profundezas do passado. Mais uma noite desenrolou o manto do infinito.
Impressionados então, com imaginações embrionárias, com o pensamento da morte e da noite associadas, os humildes pré-históricos, fiéis a Vanhab, juntaram um sonho aos milhões de sonhos, de que nasceram os cultos, de que nasceram as alianças do terror, do sobrenatural e da imortalidade.
Entretanto, a jovem esposa estava prostrada sobre a erva, com os cabelos esparsos sobre as gramíneas, como as flores dos salgueiros que choram sobre os nenúfares dos lagos; e Terann, o vencedor, amigo de Vanhab, apiedou-se dela e sentiu estremecer o coração, porque o cabelo da mulher era formoso e o seu pescoço arredondado e branco, à claridade final do dia.
Terann teve então palavras doces, e ela ergueu os olhos... Ponderou que Terann era forte entre os fortes, e sem ferocidade para as mulheres e crianças. E, quando as trevas se cerraram, ficou um ao lado do outro, sem movimento, sem palavras, mas sentindo raiar em si um porvir, enquanto os lobos vagueavam na planície, e a hiena gargalhava à borda do rio, e os grandes carnívoros sentiam dilatar-se-lhes a força.
IV
A ilhota
Vamiré, filho de Zom, não obstante a sua juventude, era o assombro da horda dos Pzanns. Caçador experto e valente, belo de estatura e forte como o auroco, possuía também os dons misteriosos da arte. As formas do animal e da planta cativavam a sua imaginação.
Era daqueles que divagam sozinhos sobre as colinas e que cruzam a floresta, ou vogam pelo rio, ou se embebem nas trevas, pelo jubilo de surpreender as coisas secretas.
De homens tais não motejavam os dolicocéfalos da Europa, antes estimavam profundamente Vamiré, porque sabia manejar o buril que grava no osso e no corno, e o cinzel, e o formão que desbasta a madeira e o marfim.
Apaixonado pela sua arte, tornara-se o mais famoso dos artistas entre as tribos que, na primavera, chegavam ao Oriente meridional.
Durante dias e semanas inteiras, saía do meio dos seus companheiros, explorando solidões, trabalhando em algum retiro longínquo; e os artefactos que ele trazia das suas excursões eram o espanto da sua horda. Nem Zom seu pai, nem Namir sua mãe, se inquietavam muito com essas ausências, porque muito fiavam da fortuna do filho.
Ora, um dia de manhã, embarcou ele, e foi, rio abaixo, na sua pequena embarcação, que estremecia à menor ondulação das águas, cortadas pelo remo.
À proporção que ele perdia de vista a caverna dos trogloditas, o rio era mais largo e menos profundo, e grandes pedaços de rocha dificultavam a navegação, vestidos de musgos e líquenes. Havia ali o hino das águas extensas, o baixo grave da corrente, os rumores da pedra batida da água, um encanto de ressonâncias, às vezes penedos dispostos com simetria arquitectural em galerias abertas aos quatro ventos, nas quais soluçavam vozes de abismo.
Até às margens virgens chegava a floresta, orlada de salgueiros frágeis, povoada de choupos grisalhos, freixos plangentes, bétulas nos cabeços; atrás, a população de árvores gigantes, o cosmos dos cipós e das plântulas em briga, o mistério da natureza criadora, forças livres, a renascença sobre o hino milenário, numa penumbra de templo e de emboscada, onde palpita eternamente a alegria, o terror e o amor.
Vamiré largou os remos, dominado pela solenidade do espectáculo, encantado pela vacilação das sombras das árvores sobre a água, pelo perfume agreste da paragem, enquanto por entre varas e ervas iam passando focinhos de herbívoros, e bandos de esturjões subiam a corrente, roçando os penedos erráticos.
Entrementes, apareceu uma ilhota.
Vamiré pôs-se a remar, e foi amarrar a canoa numa angra, entre salgueiros, no limite meridional da pequenina ilha. Batráquios, galinholas, e um adem espantaram-se. Vamiré desviou a folhagem e achou-se numa clareira, onde a terra parecia calcada e as ervas silvestres mondadas intencionalmente.
Sorrindo ligeiramente, Vamiré meteu a mão na cavidade de um ameeiro, e tirou de lá raspadeiras, lâminas, pontas de sílex, pedaços de osso, de corda, de madeira de carvalho.
Ficou por um instante em contemplação diante de uma estatueta, indecisa ainda, cuja cabeladura, testa e olhos estavam quase concluídos; e deixou-se tomar de uma beatitude religiosa, estética:
--Estará concluída, antes da lua cheia.--
Depois, arrojou o manto, foi à canoa buscar os dentes e os ossos que tinha levado, e, por muitos minutos, hesitou sobre se continuaria a estatueta, ou se trabalharia em gravuras.
Tentavam-no principalmente os caninos do espeleu. Pegou neles uma e muitas vezes. Piscando os olhos e apertando os lábios entre os incisivos, esboçou com a ponta do buril de sílex contornos imaginários. Depois, espalhando a vista em redor, e passeando pela ilhota, pareceu buscar algum modelo,--árvore, ave, peixe.
Apanhou numa enseada um grande ranúnculo aquático de corola pálida, e examinou-o atentamente.
Uma doçura inteligente, a subtileza de estar em contacto cerebral com a natureza, uma concentração de artista, avincavam-lhe a fronte e as pálpebras. Grandes pétalas de verniz suave, anteras tenuíssimas, pedúnculo matizado de rosa, tudo isto ele apreciou, como amante da forma, com a sua retina voluptuosa, mas principalmente as linhas terminais, os contornos que o seu buril poderia reproduzir, as fronteiras da flor.
Fixando-a no solo e escorando-a com ramúsculos, tentou restituir-lhe a posição natural e aguçou o seu utensílio.
Finalmente, tomando um dos caninos do espeleu, e profundamente absorto, gravemente apaixonado, começou a traçar um ligeiro perfil, um esboço do ranúnculo.
Firme, e de bom tacto, a sua mão musculosa de atleta prestava-se ao trabalho artístico; entreviam-se já uns traços graciosos, o desabrochamento das pétalas, os pontos das anteras sobre as débeis hastezinhas.
Comovido, Vamiré quedou-se, de olhos meio cerrados e lábios mais nervosamente apertados entre os incisivos: os minutos foram bem empregados; a flor aparecia belamente sobre o fino marfim.
O homem riu-se em voz baixa e cruzou os braços sobre o peito. Em seguida porém, descontente de alguns traços, apagou-os com a raspadeira, recomeçou-os, até que surgiu a contrariedade, a luta, o momento em que o trabalho se torna pesado, eivado de cólera. Com gestos de criança-colosso, exprobrações à matéria, descaídas de braços ao longo do tronco, duas ou três vezes largou o buril.
Mas a obstinação da sua raça fazia-o retomar o trabalho, até que terminou o esboço, corrigindo as linhas imperfeitas.
Cansado, então, ergueu-se, e não quis olhar mais para a sua obra. Abatido diante da natureza, sentiu que a melancolia lhe invadia o cérebro.
Demorou-se largamente à beira do rio. Era a grande estação fecundadora: as águas enchiam-se de uma nuvem de animais inferiores, muitos dos quais vinham do mar, subindo as correntes. As enchentes do equinócio haviam cessado mais de um mês antes, e raramente se avistavam ramos e troncos de árvores desarraigadas.
Chegou o meio dia, o grande sol, as sombras diminuídas, o ar trémulo de calor, colunas de ar ascencionais; mas, na lentura da ilhota, debaixo dos salgueiros e ameeiros frescos, era deliciosa aquela hora.
Além, na margem distante, mostrou-se um grande animal cornígero, em que Vamiré reconheceu o auroco. Vamiré adiantou-se, sem pressa, até à beira do rio ao longo de uma espécie de molhe.
O coração do caçador palpitou, à vista do enorme mamífero. Admirou-lhe a cabeça larga, inclinada sobre o rio, as pernas altas, o peito musculoso:
--Eô! Aqui está Vamiré!... Vamiré!--gritou ele ao animal, com voz retumbante.
O auroco levantou a cabeça, assombrado, e o nómada repetiu:
--Vamiré consente que vivas!--
O auroco, acabando de beber, afastou-se.
Vamiré tinha levado, para conservação sua, uma posta de uro, previamente assada. Deglutiu-a, estendeu-se no chão e adormeceu.
Passado tempo, um rumor acordou-o em sobressalto. Vamiré viu fugir meia dúzia de ratos aquáticos.
Levantou-se de um salto, estremunhado, e pensou logo na gravura incompleta do canino. Quando a retomou, foi agradável a sua surpresa: em vez do esboço duvidoso que ele imaginava, era um bosquejo firme, exacto, de linhas elegantes.
Pegou no buril, aprofundou cuidadosamente os contornos; depois, fazendo um buraco para suspensão, na raiz do dente, sorriu de alegria diante do seu novo e belo artefacto. Apenas, por aquele dia, o seu poder criador achava-se esgotado: tentou em vão retomar a estatueta: um enfado invencível, uma desabilidade contínua, acompanhavam cada um dos seus esforços.
Descoroçoado, repôs os seus materiais e os seus utensílios na cavidade do ameeiro e ergueu a vista ao firmamento, para calcular a hora. A noite vinha ainda longe, o sol ia a meio caminho do Poente, se bem que a fresquidão se sentia já no prolongamento das sombras.
Os nemóceros zumbiam em colunas, e por cima da floresta iam-se formando nuvens translucidas.
Então um aborrecimento pesou no coração do dolicocéfalo,--um aborrecimento de saúde opulenta, de força acumulada. Esvoaçaram no seu crânio desejos indefinidos, desejos de caça, de trabalhos perigosos, de procriação.
Tentavam-no as regiões de além, a jusante do rio. Desconhecidas pelos da sua raça, excitavam-lhe a curiosidade rude, audaciosa e pueril. Porque não havia de ir vê-las? Na sua juventude intrépida, propensa a ásperos empreendimentos, acostumada aos errores solitários, no seu cérebro de artista, de imaginação ardente, aquele desejo engrandeceu-se, definiu-se.
Inspeccionou então cuidadosamente as suas zagaias, a sua clava, o seu arpéu duplamente denteado; assegurou-se de que nenhuma veia de água ameaçava a sua canoa, e, retomando o remo, embarcou de novo.
À proporção que ele se adiantava remando, a floresta tornava-se cada vez mais densa, as margens menos definidas, formadas de humo viscoso de aluviões movediças, de escombros silvestres. A água, mais escura, era também mais vagarosa; os penedos já não apareciam; velhas árvores de mil anos erguiam-se de espaço a espaço; grandes répteis dormiam nos promontórios; e a gritaria dos papagaios encobria os murmúrios augustos da vida.
V
O homem das árvores
Quando a noite escureceu o rio, Vamiré percebeu que estava imensamente longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjão arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe à memória as lendas vagas dos Pzanns:
--«Tah, ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida, narrava o desmoronamento das montanhas. Três gerações antes de Tah, o Oriente meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos subterrâneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.