Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide

Part 2

Chapter 22,135 wordsPublic domain

Os filhos de Camillo foram _homenzinhos_, segundo a phrase de Thomaz Ribeiro. Hoje são homens. Mas Castilho já lhes não alcançára o penujar do buço. E se elle vivesse ainda, talvez que o melancolico Jorge, concentrado e sonhador, entendesse melhor do que ninguem, por os amigos silencios da lua, em S. Miguel de Seide, alguma trova do _Amor e melancolia_ que o poeta Castilho viesse de Lisboa ali recitar n'aquellas sombras placidas que aprenderam a venerar o seu nome em torno do monumento singelo.

Thomaz Ribeiro, o eloquente interprete dos filhos de Camillo na aurea côrtesinha litteraria que Castilho encontrara em S. Miguel de Seide, é em 1885 como era 1866 um poeta cuja inspiração roça as azas pela lagoa sombria da politica sem afundar-se, do mesmo modo que as andorinhas, pelas calmas da canicula, esvoaçam sobre a corrente de um rio sem mergulhar.

Logo que pôde desbragar-se de uma pasta, respira em verso. N'este momento está saboreando o goso da liberdade litteraria no seu periodico _As Republicas_, em que os relampagos da poesia rasgam luminosamente o horisonte caliginoso do artigo de fundo. Não contente de poetar elle proprio, apadrinhou o alvitre de abrir _oiteiro_ semanal onde versejadores adventicios concorram a glosar trovas populares, como esta:

Vi-te sahir mar em fóra, Ceguei, olhando esse mar, Porque me disseste:--espera! Se não tinhas de voltar?

E o mais é que, pelo prestigio da sua auctoridade, consegue tentar aquelles mesmos que, na milicia de Apollo, estão relegados a segunda reserva. Tentei-me eu, e sou d'esses. Mas já que este livrinho é de memorias para a velhice, fique mais esta guardada no archivo da saudade:

*GLOSAS*

(A THOMAZ RIBEIRO)

Vi-te sahir mar em fóra, E a saudade que eu senti Rasgou-me o peito n'ess'hora Em que chorava por ti. A ausencia tem tantas maguas, Tão soffrida heroecidade, Tanto resiste quem chora, Que eu puz os olhos nas aguas E, sem morrer de saudade, Vi-te sahir mar em fóra.

Ceguei olhando esse mar Pleito de ondas e de abrolhos. Mas que importa a luz dos olhos, Se não tenho a quem olhar?... Tanto a vista me prenderam As ondas que tu sulcavas, Que os olhos escureceram No rumo em que navegavas. E assim por ti a chorar, Ceguei olhando esse mar.

Porque me disseste: espera! Na hora extrema, derradeira, Se já veio a primavera, Se já floriu a amendoeira, E tu não voltaste ainda?! Se este mal era sem cura, Se tinha de ser infinda A dôr que me dilacera, A ausencia que me tortura, Porque me disseste: espera?!

Se não tinhas de voltar, Melhor eu morresse alli; Que mais valia acabar, Que ter de viver sem ti. Não ha força que resista Á dôr que nunca descança. Tivesse eu perdido a vista, Mas não perdesse a esperança. Bem feliz acabaria Alli, á beira do mar, Se soubesse o que seria, Se não tinhas de voltar.

Ás quatro horas da tarde, a amabilissima auctora da _Luz coada por ferros_ perguntava-me se eu, sacrificando os meus habitos lisbonenses, seria capaz de jantar áquella hora.

--Em Seide, respondera Camillo, janta-se sempre.

Fomos para a meza, em cujo _plateau_ verdejavam as fructas mais escolhidas da quinta, e em cujo ambiente os acipipes succolentos de uma boa cosinha de provincia punham os aromas de um excellente jantar.

Camillo estivera silencioso durante alguns momentos. Mas eu procurara envolvel-o na conversação. Fallava-se dos seus romances. É difficil escolher o melhor entre os bons; mas eu pretendi negar a primasia do _Romance de um homem rico_, por saber, desde muito tempo; que Camillo o prefere ao _Amor de perdição_. Todos nós desejavamos fazel-o interessar pelo assumpto. Foi pois em defeza do _Amor de perdição_ que eu pugnei.

--O _Amor de perdição_, observara finalmente Camillo, tem lacunas que eu proprio reconheci, e não quiz preencher. Disse-o por essa occasião ao dr. Marcellino de Mattos. Mas o meu proposito foi não alterar a veracidade dos acontecimentos que se encadeavam na dramatica biographia de meu tio Simão Botelho. Escrevi sobre a tradição, respeitando-a como um evangelho de familia. No _Romance de um homem rico_ tive um ponto de vista artistico, planeei e architectei, colori em vez de photographar. Eis aqui a razão da minha preferencia dada ao _Romance de hum homem_ rico sobre o _Amor de perdição_.

Não me dispensei comtudo de recordar a profunda impressão que este ultimo romance produzira em todos os corações moços d'aquelle tempo ou nos que pelo amor rejuvenesciam. Desvelavam-se as noites na febre da leitura, e reliam-se as paginas mais sentimentaes nas horas de namorada tristeza. Cada qual pedia para si a corôa de espinhos de Simão Botelho, de Thereza ou de Marianna, a auréola da poesia nas angustias do amor. Amar é soffrer. E aquelle livro fallava pelos que soffriam. Se a tua dôr te afflige, faze d'ella um poema, disse Goethe. Ora aquelle romance de Camillo era o poema em que se fundiam as dores de todas as almas excruciadas pelo amor; era o romance de tres, e o poema de todos.

No recolhimento das Orphãs, a S. Lazaro, uma das pobres meninas ali encarceradas entre as grades de ferro que nos ultimos annos foram sensatamente arrancadas, lia o _Amor de perdição_, a occultas da regente, entreabrindo a gaveta da sua cómmoda apenas o bastante para alcançar com a vista o espaço de uma pagina. Lia de pé, e fechava com sobresalto a gaveta quando sentia passos. O livro nunca foi surprehendido, mas as lagrimas que a leitura originava, muitas vezes o foram. A regente, D. Maria das Dores, via chorosos os olhos da menina, e perguntava-lhe porque chorava.

--É que estou triste, respondia a educanda.

Mas as tristezas dava-lh'as a leitura fortuita do romance de Camillo.

Favorecia-me na apologia do _Amor de perdição_ o voto auctorisado da intelligente e illustrada dona da casa, que depois nos recordou a belleza do romance _O Esqueleto_. Eu citei por minha vez _A agulha em palheiro_, e a _Sereia_, romance que tem para mim um valor especial, porque reune para a minha saudade os nomes de Camillo Castello Branco e José Gomes Monteiro. O primeiro capitulo é baseado sobre um artigo de Monteiro ácerca do antigo theatro lyrico do Porto, no Corpo da Guarda.

Accresce que o meu exemplar da _Sereia_ tem uma historia curiosa. Na capa, sobre o titulo, ha uma pequena mancha de tinta, que tomou a forma caprichosa de um polygono estrellado. Um dia, sem que eu soubesse como, desappareceu-me da estante; foram baldados todos os esforços para encontral-o no meu escriptorio. Querendo preencher a falta da _Sereia_ na collecção das obras de Camillo, resolvi-me a comprar um novo exemplar. Mas a suspeita de ter sido roubado, fazia com que eu relanceasse a vista por todos os romances portuguezes que encontrava á venda nas lojas de livros em segunda mão.

Passaram mezes, e um dia, n'uma d'essas lojas, na rua Augusta, encontrei um exemplar da Sereia. Tirei-o da estante: era o meu! Na capa amarella, sobre o titulo, o polygono estrellado, o borrão! Perguntei quanto custava. Trezentos reis, respondeu o alfarrabista. Paguei sem discutir. Depois de ter pago, perguntei-lhe:

--Lembra-se de quem lhe vendeu este livro?

O alfarrabista quedou-se a evocar as suas recordações.

Mas devo suppôr que não poude lembrar-se.

Depois de jantar, viemos sentar-nos nos bancos do pateo. A tarde estava serena; as folhas das arvores immoveis. O visconde de Correia Botelho, fumando o seu charuto, conversava animado. Lembrei-lhe que fosse passar o inverno em Lisboa, entre os muitos amigos e admiradores que ali tem. O clima, menos rigoroso que o do norte, deve convir aos seus padecimentos. Camillo não repelliu o alvitre. Mas o projecto de viagem ficou para segunda leitura, quando eu voltasse a Seide para despedir-me. Comprometti-me gostosamente a fazel-o, e espero cumprir.

A tarde declinava n'uma suavidade dormente. Os passaros cantavam no arvoredo da quinta, n'uma festa de lyrismo primitivo. Junto ao monumento de Castilho condensava-se uma sombra silenciosa, como se as aves não poisassem n'aquelle recinto senão para chorar o poeta que as cantara.

Eram horas de partir. Os meus amaveis hospedeiros, e os seus hospedes, vieram acompanhar-me ao portão da quinta. O visconde procurara apoio no meu braço, ao passo que a sr.ª D. Anna Placido colhia para mim algumas flores do seu jardim,--recordação inestimavel da minha visita a Seide.

Fóra do portão esperavam respeitosamente o Bernardo do João de Deus e a garrana. Ambos pareciam satisfeitos: elle porque trazia mais vinho verde no estomago, ella porque tinha menos moscas no pescoço. As moscas do Minho já eu disse que são formidaveis, porque lhes senti, por endosso da garrana, a dolorosa ferroada. O vinho verde de S. Miguel de Seide é de se lhe tirar o chapeu, mesmo para que o chapeu não caia da cabeça caso a gente se tenha desmandado nas libações. É excellente e, por ser encorpado, deve trepar:--pelo menos, o Bernardo do João de Deus foi d'esta opinião.

Antes de montar, pedi a Camillo que se não risse da minha impericia de cavalleiro.

--Quem lhe dera essa garrana no Chiado! dissera jovialmente Camillo.

--Piedade! exclamei eu sobre o sellim.

A garrana, comprehendendo melhor as minhas intenções do que as minhas esporas, partiu.

Eu parti com ella, e o Bernardo do João de Deus na alheta de ambos.

Em Landim, na venda do José Maria, conversavam os mesmos quatro homens.

De algumas casas subia placidamente o fumo do lar accêso para a ceia. Em outras, ouvia-se fallar mulheres, chorar crianças. Alguma cabeça loira, sentindo os passos da garrana, vinha espreitar á janella.

Pouco adiante das Campas, dois bois corpulentos, largamente armados, pastavam em liberdade, com o ar de estarem já bem fartos de pascigo.

Á medida que nos aproximavamos de Santo Thyrso, iamos encontrando os ranchos dos romeiros que voltavam do arraial da Trofa. A viola minhota, chuleira e folgasã, cadenciava a caminhada n'um andamento militar, como os rufos de um tambor regulam o passo largo e unisono dos soldados de um destacamento em marcha. O tocador, pendida a cabeça sobre o peito, sacudia a mão direita fortemente pelas cordas, n'um repenicado estridulo. O caminho de ferro de Bougado alliviara os romeiros da fadiga da jornada. Iam frescos como se tivessem bebido menos e descansado mais.

Que diriam os benedictinos de Santo Thyrso se podessem resuscitar, e, debruçados no muro da cêrca, vissem desenrolar-se por sobre o arvoredo fronteiro a pluma ondulante do fumo da locomotiva?!

Elles viveram ali entrincheirados entre a villa, que engrandeciam, e o rio, que os deliciava. De um lado, as moçoilas carnudas e carnaes; do outro, os rouxinoes devaneiadores da beira d'agua. De portas a dentro, a cosinha e o coro. Tudo aquillo era d'elles, os frades, senhores suzeranos das localidades que povoavam,--directa e indirectamente. O caminho de ferro é um invasor audacioso, que passa esmagando e rompendo. Os frades, se agora podessem ouvir-lhe o silvo triumphal, gritariam _á d'el-rei_ contra o progresso, apitariam contra a machina a vapor.

No relogio dos destinos humanos ha uma hora providencialmente marcada para tudo o que principia e acaba. De modo que, por uma sabia organisação superior á nossa intelligencia, tudo principia e acaba quando deve principiar e acabar. Ao frade que comboyava as almas para o ceu, succedeu opportunamente a locomotora que passa comboyando passageiros para Guimarães. Deus é grande!

Era noite fechada quando entrei em Santo Thyrso. Valeu-me a escuridão ao desprimor da gineta. Não havia espectadores, e a garrana alargava o passo, contente de se vêr perto de casa. Apeei, entregando a chibata ao Bernardo do João de Deus, que me perguntou:

--E que tal, a garrana? Não dizia eu que era segura?

--Mais seguro do que isto, respondi, só o Banco de Portugal.

Elle não entendeu; por isso, riu.

E eu recolhi-me com as gratas recordações d'esse dia agradabilissimo que passei na quinta de S. Miguel de Seide, sob o tecto hospitaleiro do primeiro romancista portuguez, entre pessoas queridas, e memorias saudosas de que tanto haviamos fallado.

Santo Thyrso, 21 de agosto de 1885.

_Alberto Pimentel._

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