Uma scena conjugal Comedia—lever de rideau

Chapter 1

Chapter 11,580 wordsPublic domain

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LUIZ COUCEIRO

UMA SCENA CONJUGAL

COMEDIA--lever de rideau

AVEIRO

TYP. MINERVA CENTRAL

1905

UMA SCENA CONJUGAL

LUIZ COUCEIRO

UMA SCENA CONJUGAL

COMEDIA--lever de rideau

AVEIRO

TYP. MINERVA CENTRAL 1905

Reserva-se o direito de propriedade

A

Off.^e

_O auctor._

PERSONAGENS

Carlos e Bertha

_Carlos está trabalhando á sua secretária._

_Bertha lendo um romance junto d'elle._

Carlos (_descansando do trabalho a que se entrega e preparando um cigarro_)

Darei á penna um pouco de repouso E descanço ao trabalho a que me prendo...

Bertha

N'esse caso estás hoje preguiçoso?

Carlos

Não; mas emquanto o meu cigarro accendo, Vou desviar a tua vista immersa No romance a que prestes attenção...

Bertha (_interrompendo_)

Dando-me alguns instantes de conversa?

Carlos

Se te apraz, se te agrada?

Bertha (_fechando o livro_)

E porque não! Tambem fecho o meu livro por momentos

Carlos (_interrompendo_)

Cuja leitura acaso te aborrece Penso eu?...

Bertha

Errados são taes pensamentos, É bonita, e desperta algo interesse

Carlos

Ora adeus! Um romance trivial, Muitas vezes de pura phantazia. Mas que as mulheres acham principal Possuir como bôa companhia, Sim! romance d'amôr não é verdade?

Bertha

É d'amôr, com effeito; dizes bem, E tanto assim, que na realidade, «Meus Amores» é nome que elle tem

Carlos

«Meus Amores»!! Tem graça! Com tal titulo, Faria eu um romance original

Bertha

Tu?!

Carlos

Eu, pois; e crê que em mais d'um capitulo...

Bertha (_interrompendo_)

Descrevias a vida conjugal?

Carlos

Tolinha!... sempre tens cada lembrança! O casamento assumpto não daria E nem com isso ingenua creança, Vale a pena augmentar a livraria!

Bertha (_admirada_)

Então!?

Carlos

Então, buscava mui sómente A historia de todo o meu passado, Narrando o que a minha alma ainda sente...

Bertha (_áparte_)

Patife!! Todo o instante é bem azádo Para dizer-me só palavras duras! (_alto_) De fórma que passavas em revista?...

Carlos

Todas as minhas mil e uma aventuras, Em que nunca deixou d'haver conquista Nem falhou o mais duro coração...

Bertha (_áparte_)

É demais!!! Mas vingança vou jurar! (_alto_) E no livro da sua confecção Poderei eu tambem collaborar?

Carlos

Quem! tu? Da esposa, amôr e só constancia, Tanto é o que poderás descrever.

Bertha (_altiva_)

Qual! Esse amôr jámais teve importancia, Não acabaste ha pouco de o dizer! Acredita meu caro, que ha de sobra Elementos na minha mocidade, Que possam reforçar a tua obra E dar-lhe bem maior publicidade!...

Carlos (_ironicamente_)

Ah! eu creio. Acredito plenamente! E pódes convencer-te que não peccas, Se quizeres expôr sinceramente O muito que adoravas as bonecas...

Bertha (_irritada_)

Senhor! Consentir, não posso que altere A traducção das minhas expressões! Saiba que me melindra e só me fére, Suppondo que sentidas vibrações A recordar um tempo bem feliz, Se fundam em tão simples innocencia!...

Carlos (_surprehendido_)

Perdão se a offendi!

Bertha (_continuando_)

É como diz: E repito com muita consciencia, Ter os dados precizos e bastantes, Para com elles dar mais um motivo A que o seu livro tenha assignantes E seja digno do melhor archivo...

Carlos (_mais surprehendido_)

O que!?... pensarás tu em desvendar Um segredo, ou talvez, algum mysterio?!!...

Bertha

Não sei; apenas julgo acrescentar, Que só digo a verdade e fallo a sério...

Carlos (_surprezo_)

Devo então suppôr n'essa affirmativa Que fosses n'outro tempo aventuroza?!!

Bertha

Se fui!... e como tenho inda bem viva A recordação da vida amorosa, Tão cheia de prazer, de tanto gôzo!...

Carlos (_irritado_)

Senhora! não graceje! e se é sincera, Explique e narre tudo a seu espozo?...

Bertha

Ceus! Não queira avivar a primavera Das minhas aventuras; por Deus peço?

Carlos (_admiradissimo_)

Das suas aventuras?! Todavia, O fim de taes palavras eu não meço, E desejo saber o que existia, Que advinhal-o, não posso, nem eu sei!

Bertha

Que havia de existir? O que? Senhor? Digo-lhe só, que muito, muito amei E gosei as delicias do amor!...

Carlos

Comtudo, diga de que fórma e como?!

Bertha

Contar-lho, era fazer um bom romance Que ao certo não cabia n'um só tômo!...

Carlos (_impaciente_)

Lembro que em desespero não me lance! Exigindo me conte a sua historia!

Bertha

Ah! quer? pois bem; e visto que me obriga A dizer-lhe o que tenho de memoria, Vou tudo já contar Escute...

Carlos

Diga?

Bertha

Recorda-me que outr'ora, não sei quando, D'intenso amor minha alma despertava, E o coração dizia palpitando, Que d'amor, uma outra alma se aliava: E acode-me senhor ao pensamento, Que nunca tornará a reviver, Nem tão incomparavel sentimento, Nem hora que assimille esse prazer. Era bem nova ainda, era creança, Mas dentro em pouco, eu já comprehendia, Que a minha vida até ahi tão mansa, Da mais louca paixão em febre ardia E d'outros mil affectos era preza...

Carlos (_interrompendo_)

E não ousaes Senhora vêr-me rude?!

Bertha

Não. Se d'amor é feita a Natureza, Amar, não é peccado, mas virtude!

Carlos

Se ás vezes não reverte em sacrilegio Findae a narrativa por quem sões!

Bertha

Ah! sim! dar-lhe-hei esse previlegio, Eu proseguirei...

Carlos (_altivo_)

Vamos, e depois?

Bertha

Depois, senhor, se o tempo bem corria, Bem mais depressa o meu amor galgava, Até que em sorridente e lindo dia. Qual vulcão, chamma intensa o inflamava. Estavam satisfeitos os desejos Da mulher, que contente e delirante, Se deixou cahir sofrega de beijos, Nos braços d'um querido e terno amante...

Carlos (_surprehendidissimo_)

Nos braços d'um amante hein!... hein! Senhora?! E então, com que coragem inaudita, Faz tal revelação sómente agora, A esposa indigna, mil vezes maldicta! ..................................... Nos braços d'um amante, não é assim?!! E com que arrojo, com que atrevimento, Procura descobrir perante mim O seu infame e vil procedimento!

Bertha (_interrompendo_)

Chame-lhe tudo quanto bem quizer, Se pequei, se cahi, porém, no abysmo, A eito n'elle cahe muita mulher.

Carlos

Mas, meu Deus! É demais tanto cynismo!! ....................................... De forma, que a mulher por mim sonhada, E que eu ardentemente possui, Denuncia, confessa, exclama e brada. Que m'enganou?!...

Bertha

E que inda ri de si!

Carlos

Senhora! Que medonha crueldade!!...

Bertha

Que quer?! é um engano natural... Suppoz, julgou que eu era uma beldade, Conquistou-me como um grande ideal Emanado dos Ceus, ente divino, Mulher de formosura incomparavel, De olhar meigo, suave e rosto fino, Imagem linda, santa e adoravel, Nympha, que a muza canta em dôce estylo, Em poema sublime, em verso bello, O quadro mais perfeito de Murillo, E da sculptura, a estatua modello. Sonhou-me assim, porém foi sonho erróneo Hoje, eis apenas o ente que não passa D'um objecto preciso ao matrimonio, Sem que tenha sequer uma só graça D'aquellas que o Senhor imaginou. Hoje eis a mulher simples e vulgar, Sem os dons d'outro tempo que passou, E que ao vêr-me, pensára architetar. Emfim: Mulher inutil, sem valor...

Carlos

E que ora transforma em atroz calvario A vida do hymineu!...

Bertha

Oh! meu Senhôr: Isso é tão futil, é tão secundario, Que de f'rido, mostrar-se-me aparente, Creia, revela em bôa consciencia, Nem sêr constante, nem sêr coherente...

Carlos (_desesperado_)

Basta senhora, se é muita a prudencia Minha, maior é inda a gran cordura Com que ouço semilhante confissão, De deshonra, de vergonha e amargura!...

Bertha (_áparte_)

E para mim, de tanta inspiração!

Carlos (_continuando_)

Basta, sim! E nem mais uma palavra Que aggrave tão fataes desenganos, Nem augmente a dôr que em minha alma lavra, Sabendo que motivos bem profanos Ao meu lár desventura agora traz: Ao lár onde até aqui sómente via, Ninho feito de amôr, feito de páz, Na mais leal e santa companhia; Ninho feito de bençãos infinitas, Canto da mais risonha f'licidade Por Deus enviada em graças bemdictas, Berço de sã virtude e honestidade... .................................... E só agora, só n'este momento, De tão louca illusão tenho o alcance!

Bertha (_áparte_)

Graças! e parabens ao meu talento, Que já encontra assumpto p'ra um romance!

Carlos (_continuando_)

E só agora, apenas n'este instante, Vem dizer, revelar, esta Senhora, Que ousou cahir nos braços d'um amante!!

Bertha

E que a partir d'então, desde essa hora, Sem que á minha mente outra ideia assome, Eu nunca deixarei de bemdizer O seu amor, a vida e o seu nome!...

Carlos (_com rancor_)

Nome que eu desejara conhecer, Para em sangue vingar o atroz insulto Hoje lançado ao rosto d'um marido Cuja honra, lhe devera ser um culto! Ah! Senhora, depois de ter ouvido Revelações fataes e tão extranhas. Depois de supportar tantas surprezas, Indique-me o auctor d'essas façanhas O seu cumplice para taes proezas?!

Bertha

Pensa então n'uma breve desaffronta?

Carlos

Nem mais, senhora, e bem depressa, Que é esse o sentimento que desponta N'um peito que á loucura se arremeça!

Bertha

E afinal, o que lucra, não me diz?

Carlos (_estupefacto_)

Que lucro!? Dar da minha honra um exemplo...

Bertha

Mas olhe, que o que fui, gosei e fiz Em nada altera a paz do nosso templo!...

Carlos

Surprehende-nos a fórma audaciosa Como allude á baixeza do seu feito!!...

Bertha

Ouça!... A avivar a data venturoza Do que acabo d'expôr, pende ao meu peito Um retrato: Quer vêr Vossa Excellencia?...

Carlos

Que a tanto não avance, eu a aconselho!!

Bertha (_mostrando o retrato_)

Pois meu amigo, tenha paciencia, Já agora ha-de vêr-se n'este espelho...

Carlos (_surprehendido_)

An??!... Eu?!!... o seu marido?!!

Bertha

Sim, pois quem? Quem a não ser o meu real senhôr, Se eu nunca, nunca amei a mais ninguem! Se eu jámais conheci um outro amôr?!...

Carlos (_sem comprehender_)

Mas?!!...

Bertha (_interrompendo_)

Diga-me, se em vista d'esta scena, De tanta sensação e sentimento, Em verdade, lhe vale, ou não, a pena Dar apreço e valôr ao casamento?...

Carlos (_com doçura_)

Eu comprehendo esposa da minha alma! É dos Deuses o gosto da vingança?!

Bertha

Que espero e creio tenha a palma, De mais firmar o bem d'esta aliança!

Carlos (_abraçando Bertha_)

Oh! sim, minha querida, ente adorado! Aproveito a lição de ensino duro; E crê, que de falar-te no passado, Nunca mais: Eu prometo

Bertha

Juras?

Carlos (_afirmativamente_)

Juro.